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A Arquitetura do Espaço: ruínas e vestígios
Armando Gens
Entre 1980 e 1987, aparecem nas estantes das livrarias brasileiras cinco romances de Lya Luft: As Parceiras, A Asa Esquerda do Anjo, Reunião de Família, O Quarto Fechado e Exílio. O surgimento de tais obras assinala não só um acelerado processo de criação, se se levam em conta os espaços de tempo que as separam, bem como garante o lugar da autora em uma modalidade de romance em que texto e arquitetura dialogam muito de perto, com o objetivo de propriciar longos e doloridos ensaios de base existencial. Antes que se cruze a região fronteiriça ¾ a soleira do livro ¾ que separa o leitor da obra, cumpre estabelecer o croqui do projeto espacial e arquitetônico no qual se sustenta o conjunto da obra de Lya Luft publicada durante os anos 80. Vale lembrar que a literatura produzida pela autora em nada se identifica com um tipo de literatura-suflê. Os textos fazem barreira ao leitor que busca o macio, o leve e o digestível, devido às atmosferas cheias de morbidez e crueldade, de onde emana um quê de irreal, que se explica tão-somente à luz de um antigo topos: o do desengano. Em pequenos e sufocantes mundos, a tragédia faz moradia e cumpre a função de dar volume a uma onda de pessimismo apenas debelada pela morte; por sinal, uma intrusa faminta e de presença marcante a rondar os universos ficcionais cuidadosamente elaborados pela escritora. Tais universos são habitados por personagens exiladas que, em desabrido deslocamento, convivem com uma falta jamais suprida e com uma crença na suposta hereditariedade do mal. Seus destinos revestem-se de excentricidade, porque estão desgarradas do centro, enquanto seus movimentos de busca podem ser ilustrados com as primeiras estrofes de um poema de Cecília Meireles1 que diz: para o desenho da vida. Em números me embaraço e perco sempre a medida. Se penso encontrar saída, em vez de abrir o compasso, projeto-me num abraço e gero uma despedida. Se volto sobre meu passo, é já distância perdida. A sede de espaço é tão intensa que o microcosmo de cada romance parece não acolher de modo satisfatório o "eu" das narradoras. Os espaços apequenam-se, porque as relações que ali se estabelecem, no que diz respeito ao afeto, são proporcionalmente exíguas. As personagens vivem uma carência plena que as coloca em um estado de mendicância existencial sem precedentes. De tal condição, nasce o investimento que a escritora faz nas formas arquitetônicas, de modo a refletir nos espaços o caráter ruinoso que se apresenta como traço marcante do elenco de personagens que atuam nos cinco romances. Como os romances de Lya Luft envolvem, em sua maioria, dramas familiares, a casa, enquanto obra arquitetônica, ganha merecido destaque. Seguindo o plano espacial das obras, os quatro primeiros romances trazem como espaço privilegiado o chalé, a casa da avó paterna, a casa do pai e a casa de Martim e Renata; contudo, no quinto, intitulado Exílio, os espaços deslizam do âmbito do lar para uma esfera que sublinha a condição de trânsito da personagem central. São eles: a pensão, a casa do amante e o internato. Espaços que ratificam que a narradora inscreve-se nas categorias de hóspede ou visita. O investimento que Lya Luft faz nas formas arquitetônicas não se dá apenas no plano metafórico. A relação entre literatura e arquitetura afina-se perfeitamente com uma das modalidades das "práticas da memória feminina" que consiste em escrever o mundo privado, elegendo a casa como texto a ser repensado. Há, contudo, que se ressaltar que a escritora não modula através das vozes de suas narradoras apenas registros do cotidiano doméstico. Indo além, recusa-se a elaborar uma espécie de "memória trajada" (termo de Michelle Perrot), fato notório quando, em suas narrativas, promove o destelhamento e a demolição metafóricos do conceito burguês em que a casa apresenta-se como espaço de acolhimento, encontro e refúgio. O desmantelamento do conceito burguês de casa transparece na maneira pela qual o leitor toma contato com o espaço. A casa desponta fracionada e, diante dos olhos do leitor, surgem quartos, varandas, cozinha, salas e escadas como se estivessem desligados do conjunto a que pertencem, criando uma atmosfera onírica. Tal decomposição do grupo espacial ¾ a casa ¾ evoca não só a idéia de ruína como também elabora a re-simbolização do espaço doméstico que adquire feição de território minado, ou de palco de vivências aterrorizantes como as que se encontram em As Parceiras :No casarão havia medo, tia Beta, e Bila. Um sótão misterioso. Mexericos de cozinha sobre fantasmas e vozes. De noite, eu sofria mais, e escutava gente murmurando sem parar lá em cima. Qualquer sombra me assustava. Havia rostos atrás da cortina, eu não os enxergava mas tinha certeza de que estavam ali. Se a cortina estava aberta, havia um par de olhos fixos atrás da vidraça. Eu acordava molhada de suor, hirta de medo, não conseguia nem estender a mão e acender a lâmpada de cabeceira: estátua de pedra, anjo de sepultura3. Nas obras de Lya Luft, a demolição do espaço íntimo expõe terríveis tragédias, opressão e violência que se mantêm acobertadas pelas paredes e telhados dos conjuntos arquitetônicos. As narradoras vagam por sótãos e porões em busca do passado, enfrentam portas fechadas que represam segredos e membros da família. E, assim procedendo, conferem visibilidade ao que antes restringia-se aos limites do privado. Relações incestuosas, doenças, traições, estupro e aposentos secretos vão sendo exibidos através de diário ou ensaios, que se constituem em autênticos arquivos da violência doméstica em seus mais variados aspectos. Do prisma metafórico, sótão e porão, espaços recorrentes no léxico narrativo da escritora gaúcha, representam a memória e, simultaneamente, cuidam para que ela tome a forma de espaços que comportam culturalmente uma carga semântica relativa ao mistério, ao segredo, ao sobrenatural, ao desconhecido e às coisas guardadas. Espaços situados em pontos extremos do conjunto arquitetônico, sótão e porão apresentam-se como palco para situações-limite. Em As Parceiras, por exemplo, a avó louca confina-se no sótão de uma casa de veraneio: Subia até lá sempre que podia, esquivava-se do marido, dos parentes, das visitas. Começou a desfiar em cima uma espécie de ladainha que com os anos impregnou todo o casarão, e que eu jurava ouvir ainda quando morei lá. Mandou mobiliar o sótão como um quarto de menina. Tudo branco. Faltavam só as bonecas, para que a inocência fosse recomposta. Os exemplos não cessam. Em A Asa Esquerda do Anjo, há um porão do qual ninguém possui a chave da porta de entrada e, por este motivo, aguça a fantasia infantil da protagonista ainda menina: (Esta tarde passei pelo edifício que ergueram onde ficava a casa de minha avó. Lembrei o porão e a portinha misteriosa. Eu era fascinada pelo porão, uma peça velha, de teto abobadado, cheirando a mofo. Teias de aranha, móvéis quebrados, garrafas empilhadas, uma cadeira de balanço com palhinha furada que pertencera a meu avô, botas de montaria, tachos de cobre azinhavrados.) Num canto, a portinha: tão baixa, que por ela só passaria uma criança ou um anão. Ninguém parecia saber para que servia; ninguém se interessava por ela; ninguém possuía a chave. Se eu insistia muito, diziam que eu era intrometida, mas que mania tem essa menina de imaginar mistério em toda parte!5 Perseguindo a semântica dos espaços, a sala ¾ cômodo marcado duplamente pela função social e pela intimidade ¾ converte-se, em Reunião de Família, em tribunal de ajuste de contas, para surgir como zona limítrofe entre duas ordens distintas ¾ a dos mortos e a dos vivos ¾ em O Quarto Fechado, na cena do velório em que o morto, no meio da sala, oferece-se como espetáculo a uma platéia que se posta nas laterais do aposento. De modo geral, como se pode acompanhar através da apresentação dos exemplos, as casas que comparecem no universo ficcional de Lia Luft possuem mais de um pavimento, assinalando não só um traçado arquitetônico típico da região sul, de franca influência européia, bem como tornando-se texto de situações ficcionais que se delineiam como pontos extremos da condição humana. O segundo ou o terceiro pavimento dos conjuntos arquitetônicos presentes nos cinco romances já citados abrigam ou encombrem personagens loucos ou mortos-vivos, tomando a forma de espaço de reclusão. Observa-se que os espaços adquirem importância capital não só como elementos estruturadores dos romances da escritora mas também como metáfora da própria narrativa. Um exame mais acurado do método de criação de Lya Luft revela com clareza que nele se encontra uma estética das ruínas. Pedaços, resíduos, "farrapos de frases" e fiapos do passado despontam reunidos, formando um verdadeiro arquivo do inconfessável e do mantido a sete chaves, o que faz com que os textos dos romances convertam-se em narrativas-porão ou narrativas-sótão. Como se pode concluir, os romances de Lya Luft, na qualidade de sótão ou porão, expõem vestígios, parcelas da existência, elípticas histórias familiares, vagas lembranças de cômodos e aposentos que, reunidos, funcionam como relatos das relações burguesas e das crueldades cometidas entre as quatro paredes que a convenção denomina "lar doce lar". Relatos que, deixando os escuros depósitos da memória, fundam estreitos laços entre arquitetura e texto para demolir e destelhar a casa burquesa, trazendo a público, pela voz das narradoras, uma das tantas histórias da vida privada.
Notas 1. MEIRELES, Cecília.Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977. p. 148 3. LUFt, Lya. As parceiras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p. 70 5. LUFT, Lya. A asa esquerda do anjo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. p. 57 |