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A ficção de Llansol1: "a autobiografia de um legente"
Maria de Lourdes Soares UFRJ
quem se assemelha lê pelo perigo de quem escreve
(ATJ, 19) Ardente Texto Joshua, o mais recente livro de Maria Gabriela Llansol, é e não é sobre Teresa de Lisieux, a mística e carmelita também conhecida como Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face . Sobre ela, como escreve Llansol na contracapa deste livro, há três histórias: a primeira história, a sua súmula biográfica, "conta que, desde sempre, Teresa Martin quis entrar no Carmelo de Lisieux. Que, aos quinze anos, de facto, entrou, e aí morrerá aos vinte e quatro anos, de tuberculose". A segunda história, a história institucional, a sua súmula heróica, "chamou-lhe Teresinha do Menino Jesus, colocou-lhe um ramo de rosas nas mãos, uma coroa de rosas na cabeça, canonizou-a e, há meses, fez dela Doutora da Igreja a terceira, depois de Catarina de Sena e Teresa de Ávila". A terceira história "contou-a ela. Em vários poemas, peças de teatro conventuais e textos autobiográficos. Sobretudo no manuscritto C, como é conhecido". O texto de Llansol "conhece a biografia , e passa adiante. Sabe da heroína, e não lhe interessa. Admira a crente sem desposar o seu movimento". O que efetivamente interessa ao texto é "o percurso de um corpo como súmula da sua potência de agir" (ATJ, contracapa). Escrito ao longo do ano de 1997, Ardente Texto Joshua apresenta-se na folha de rosto como "ficção portuguesa", mas as notações de tempo e lugar sugerem as de um Diário. Aquela que escreve, contudo, insiste no final do livro: "eu não tenho relógio para acentuar a evolução do dia senão o pulso do meu amor" ( ATJ, 140). "Uma ficção não pode ser simples, é o encontro inesperado do diverso", escreve a autora em Causa Amante (CA, 18). A lógica do encontro mais uma vez preside à organização da escrita de Llansol. No caso de Ardente Texto Joshua, tal como em Lisboaleipzig 1 (livro que tem justamente como subtítulo "o encontro inesperado do diverso"), um dos encontros fulgurantes reside na coexistência entre as marcações de tempo e espaço, características do gênero diarístico, e capítulos de romance, ou seja, entre "o aleatório do diário e, formalmente ao menos, a forma estruturante. O texto mantém-se à vista de um factor de decisão: forma ou fractura. Diria que nos antecipa ainda uma forma de boa fractura"2. A escrita-pulsação sabe que o que importa é a energia que circula nos textos, o fogo que une escreventes e legentes, o sinal de que ali houve uma epifania do belo ou de que o amante passou por ali: A vida é uma cadeia sem datas. Só lhe interessa a energia que lhe dá. -É a significação que lhes retiro. Deixo-a fluir, e retiro-lhe a significação. -Mas, em vez de de datas, prefiro o traço. -Ou seja, se pudesses só fazias traços? -E então nada dizia? Não. Há um momento em que a significação dispara a vida não vai para lado nenhum, mas eu quero ir. -Então fazes um traço. -Sim. O texto são as marcas indeléveis e perceptíveis de que falaste sobre o amor (ATJ, 96-7). O que é um leitor? O que é um legente? "Leitor e legente estão um para o o outro como o espesso para o que esvaece". Entre ambos, passa "a figura intermédia, pelo ler apaixonada" (ATJ, 146). Esta figura já se encontra referida em BDT, ligada à cena fulgor da aprendizagem da leitura ou "Ana ensinando a ler a Myriam", nome dado à estátua em madeira polícroma do século XVII, objeto que pertenceu ao oratório da avó de Llansol, e que, nesse livro, faz parte da herança de Témia, "a rapariga que temia a impostura da língua" (BDT, 19). Como passar de uma vida humana a um "livro que se leia entre nós" (BDT, 26)? Como transfigurar os bens materiais em bens móveis, luminosos? Como atravessar o "mau silêncio" da casa "onde não se administrava bem a Justiça da língua" (BDT, 7)?. Eis algumas inquietações que nesta cena fulgor de terna reciprocidade feminina seguramente uma das mais belas da ficção de Llansol constituem matéria e caminho de aprendizagem. Na mesma fibra de madeira em que foram entalhados os corpos de Ana e Myriam foi esculpido também o "globo de contar" (BDT, 82), objeto em que se perspectiva um destino de escrita. Em torno da cena em que se celebram os esponsais de Myriam com a leitura irradia-se também um "outro acto de amar que [é] o acto de escrever" (BDT, 95), um beijo dado mais tarde, que é nome de escrita: Myriam (Maria-menina, antes da Anunciação), "de pé, a olhar um dos primeiros textos", e a "ser beijada na boca pelas letras". A cena de leitura chama, põe em cena, o tu, "a segunda pessoa de Myriam [que] estava no espelho". A segunda discípula, filha do amor de ler de Ana e Myriam, penetra no labirinto de leitura e com elas compartilha o desejo de vir "murmurar para a cadeira de leitura" "com uma voz mais baixa do que ler": "com a voz de escrever" (BDT, 56-9). Assim, assumir a herança familiar, sem ressentimento, é re-dispor os objetos herdados, libertando-os da posse, despindo-os das artes de "assédio fixo" (BDT, 100); é, enfim, criar, no ato de amor com a leitura, uma nova relação de ascendência/descendência. O encontro de dois seres chama por outro ser. Entre Ana e Myriam, no intervalo que as une, um jovem feminino se anuncia, o jovem Ler, ou, na "forma do sexo por definir", o "nome de um A/nómada", ou A/nônimo(a). No livro aberto no regaço de Ana, anuncia-se o Anjo Sereno da Luz. Do amor de ler o livro por onde o ler circula nasce a pessoa de leitura Gabriel(a) (se) Anunciando: "Vou, finalmente soletrar-se as imagens deste texto, antes que meus olhos se fatiguem. (...) O indizível é feito de mim mesma, Gabi, agarrada ao silêncio que elas representam" (BDT, 113). É hora de retomar o Ardente Texto Joshua. As primeiras páginas do livro chamam o Verão. As macieiras estão em flor, o texto também floresce. Uma figura desce do ser "o ser-instinto". Em andamento, um encontro, de que resultará um nó fulgurante, uma poderosa sobreimpressão de paisagens, capaz de criar um síncrono: o Douro, "um rio de vinho generoso na memória", que flui na paisagem do país de Gabriela, e o claustro de Lisieux, onde Teresa lê, no Verão ardente de 1897: "o sol que ali brilha é o mesmo que, à distância, prepara a maturação do vinho generoso" (ATJ , 29). Ambos os textos o de Llansol e o de Teresa - são hierografias, são "animais da mesma espécie" (ATJ, 15): "hierós: força que torna alguém ou algo invulnerável, e o protege de qualquer diminuição" (ATJ, 31). em imensos textos invisíveis. Eu vejo-o como texto. Tu o vês como lustrum. Eu fui com um homem a caminho desses invisíveis. Tu foste com um invisível à procura dos muitos homens (ATJ , 45). Outras figuras anunciam-se na trama da paisagem - Nietzsche e Pessoa.-, e mostram os seus dons para o nascimento em texto de Teresa e Gabriela. Nietzsche chega com a sua "Gaia Ciência". Pessoa mostra "os acontecimentos de suas vagas que se constituíram corpo único": "Pessoa de Pessoa única, sentas-te à minha beira, nos bordos do meu texto, que trago enrolado no lugar mais elevado do meu afecto (ATJ, 13-15). No encontro de ambos, gera-se o "fim do fragmento": "A Gaia Beleza é única". No encontro de ambas, uma bela nascente prepara-se para correr: em que durmo à beira do teu fluir" (...) E o rio ficou connosco, e molhou-nos enquanto repousávamos (ATJ, 18). Joshua, o ardente texto, é o amigo de Teresa: "Serei o seu amigo perante o meu pai". (...) e Teresa nunca mais dirá outra coisa do desconhecido, "É o meu amigo", dirá. (ATJ , 31-33). Gabriela diz a Teresa na VII nota de seu Caderno: creio que se não deve procurar com inquietação nem obsessão. Talvez não deva sequer ser procurado. Estar lá, ao alcance de qualquer fulgor ou voz, deve ser suficiente (ATJ, 50) Ao encontrar-se com o garoto que a chama "Pequena", Teresa, na clave de pequenez, torna-se "teresa, a criança filha de si mesma" (ATJ, 63), com nome grafado com inicial minúscula (alusão à "petite voie", segundo Teresa de Lisieux contou-nos na terceira história?3): com a sua boneca sobre o texto Joshua (ATJ, 67). Significativamente, a gravura "A infância", de J. B. Creuze, foi escolhida por Fernando Mateus para o trabalho gráfico da capa do livro. Teresa ama o devir-criança de Joshua, ou o seu devir-outro, não a conhecida imagem do crucificado: teus braços pregados de vítima", e sobre a imagem, com o lápis que lhe lancei, risca a cruz, os braços abertos, as pernas rígidas, o olhar divino, a boca sedenta, os cabelos desgrenhados, as manchas de sangue, até pouco ou nada restar do texto e do seu rosto (ATJ,73-4). Na seqüência do livro, o corpo de Teresa sofre, está para morrer, mas "é infinita a esperança do texto". O seu caderno ainda ninguém o recolheu todas as irmãs estão debruçadas sobre um corpo que foi o lápis repousa entre as páginas (...) e ele esperava na página por escrever (...) não sabe da morta, apenas sabe o que é mudar de modo espera que volte que o vá buscar ao fundo da cama ela, ou outro humano, este ou ainda outro, que o leia ou deite fora (...) afinal, o caderno estará sempre comunicante o texto pode afinal abeirar-se dele (ATJ, 119-20). A primeira história diz que Teresa morreu, mas o texto de Llansol considera que "se teresa for texto quando morrer sairá viva desta crisálida" (ATJ, 65). Ardente Texto Joshua ou a quarta história de Teresa é a "história de um belíssimo ser inteligente que arriscou todos os seus trunfos numa única conjectura" (ATJ, 120). Nas últimas páginas do livro, Teresa dorme. Os seus manuscritos, sobretudo o manuscrito C, misturam-se com o Spinosa de Llansol. Teresa veio e foi; foi e vem outra vez: "vem, digo-lhe, / voltemos ao tempo" (ATJ, 145), sopra-lhe acolhedoramente aquela de quem para sempre Teresa também poderá dizer: é minha amiga. no adro de São Martinho mantenho o seu lápis sobre o meu caderno (ATJ, 146). O que o texto espera do escrevente é que aceite "levar apenas a carta / e lê-la se alguém passar"(ATJ, 145). Ou. ainda, como se lê em Contos do Mal errante, "sou feita de iregularidades definitivas, e avanço por este carreiro até aos confins da cerca, à espera de que alguém passe, e me leve" (CME, 52). O ler saúda a figura intermédia que passa alegre pelo caminho, unindo Teresa e Gabriela numa "bem-aventurada" carta de amor. bem-aventurados os desiludidos, porque neles o pensamento se fará humano bem-aventurados os corpos que morrem, porque deles será a sensualidade do invisível bem-aventurados os desesperados, porque deles será a restante esperança bem-aventurado sejas tu, ó texto, porque nos abres a geografia dos mundos bem-aventurada sejas tu, ó Terra, porque tua será a explosão que levará o vivo a todo o Universo (ATJ, 146-7). Tal como o texto a vê, Teresa pertence à linhagem de Hadewijch, que historicamente foi uma beguina flamenga, ou até mesmo se confunde com aquela que aceitou arder na viva chama de amor, e, por isso, entre poetas e pensadores, foi chamada a amor, ou o amor declinado no feminino4: mas vós não vos inquietais, correis sobre o vivo e arrastando o vivo que vos investe. Peixes, no rio do tempo. A figura intermédia, pelo ler saudada, é o vosso Joshua (ATJ, 147). "Ler, de verdade, é a única travessia incorrupta do corpo pelo tempo"5. É a "vontade de atravessar o tempo ou de que ele volte aqui, mais tarde" (BDT, 27). O texto de Llansol se suspende afirmando que o texto-Joshua é vivo, ardente texto que circula no amor de ler, na leitura apaixonada ou anel fulgurante que envolve Teresa e Gabriela. Sentada ao lado do texto de Gabriela, o que eu quis colher em Ardente Texto Joshua foi a fulgurância, o rastro da passagem desses peixes vivos que correm sobre o rio do tempo. O fulgor da leitura, fluxo energético que circula entre os livros, bem poderia chamar-se "autobiografia de um legente", como escreve Llansol em Carta ao Legente: subentendendo a árvore florida no prado da minha casa ou no corredor da minha vida (CL, 2). Este é um trecho da carta-prefácio enviada por Llansol a um corpo a screver 2, revista do Departamento de Letras da UFMG6 que reúne artigos de alguns dos integrantes da comunidade de leitores de Llansol. Ardente texto Joshua é um belo ramo da árvore que floresce em texto - texto que vem de muito longe, "desde Spinosa e de muito antes, dos gregos", que encontra no caminho a alegria errante de Mestre Eckhart e o texto-teresa (ATJ, 66), os dons de Pessoa e Nietszche, e que para sempre me unirá a Llansol, a Lucia Castello Branco - de quem também posso dizer: é minha amiga - e a seus alunos. Notas 1. Obras de Maria Gabriela Llansol consultadas neste trabalho e siglas usadas para as citar: Causa Amante. Lisboa: A Regra do Jogo, 1984 (CA); Contos do Mal Errante. Lisboa: Rolim, 1986 (CME); Um beijo dado mais tarde. Lisboa: Rolim, 1990 (BDT); Ardente Texto Joshua. Lisboa: Relógio D'Água, 1998. Carta ao legente. Belo Horizonte: Edições 2 Luas, 1998 (CL). 2. LINDEZA DIOGO, Américo. Texto lido no lançamento portuense de Ardente texto Joshua, 1999. 3. BOUYER, Louis. Figures Mystiques Féminines. Hadewijch d'Anvers, Térèse d"Avila, Thérèse de Lisieux, Élisabeth de la Trinité, Édith Stein. Paris: Les Éditions du Cerf, 1989, p. 132. Segundo L. Bouyer, Teresa entende a "petite voie" como um abandono filial ao Pai, em união com o seu filho, dentro de uma perspectiva fundamentalmente evangélica. Convém lembrar que Teresa se dirige à Deus frequentemente chamando-o de "Papa", como os primeiros cristãos, seguindo o exemplo de Jesus, dizem "Äbba". Irmã Agnes (sua irmã Maria-Paula Martin) rebatizaria a "petite voie" de "voie d'enfance". 4. SOARES, Maria de Lourdes. Quem me chama: a escrita fulgurante de Maria Gabriela Llansol. Rio de Janeiro: PUC-RJ, 1994, p. 129. 5. JOAQUIM, Augusto. As cópias da noite. [s.d.] (artigo inédito), p. 4. 6. ANDRADE, Paulo de & SILVA, Sérgio Antônio (orgs). Viva Voz. Cadernos do Departamento de Letras Vernáculas. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 1998. O volume inclui o artigo "O Diário de Llansol: 'a ordem figural do cotidiano' ", que faz parte da minha Tese de Doutoramento pela PUC-RJ (Cf. nota 5).
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