clique para imprimir esta páginaclique para imprimir este documento Aluna- Célia Regina Marinangelo Aluna- Célia Regina Marinangelo
Instituição- Universidade de São Paulo
Área- Estudos Literários de Língua Portuguesa

"A Geração da Utopia"- Pepetela

Título- "A Geração da Utopia"—Uma observação espacial do romance
"Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.
–Mas qual é a pedra que sustenta a ponte?- pergunta Kublai Khan.
–A ponte não é sustentada por esta ou por aquela pedra- responde Marco-, mas pela curva do arco que estas formam.
–Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:
–Por que falar das pedras? Só o arco me interessa.
–Polo responde:
–Sem pedras o arco não existe"
( As cidades invisíveis-Italo Calvino)

O que seria mais importante para ser analisado ao falar-se de um espaço? Qual o aspecto fundamental de um edifício? O que seria mais significativo em uma cidade ou numa paisagem?

Realmente analisar espaços dentro de um romance é uma tarefa delicada, que requer sutileza e percepção aguçada. A imagem de um espaço, uma paisagem, por exemplo, muitas vezes é inenarrável. Como a imagem de um filme mudo que pode dizer tudo sem nenhuma articulação sonora; roupas balançando em um varal, insinuando um vento não visível mas perceptível... Uma casa na beira da praia, batida pelo sol, refletindo o calor e o cheiro do mar...

No caso de uma cidade, segundo Nelson Peixoto, ao mapeá-la, simplesmente, perde-se a paisagem e ela passa a ser somente um espaço geográfico. Já ao ultrapassar-se a mera geografia do espaço observado, percebe-se as cores, odores texturas, clima...

Os espaços enquanto imagem falam por si mesmos, mas quando compõem um romance passam, através da linguagem literária, a dar as pistas para que o leitor possa senti-lo, captá-lo. Na linguagem literária espaço e tempo são indissociáveis, caminham juntos, unos e misteriosos entrelaçados com outros fios compondo a narrativa. No entanto, é possível puxar um desses fios a fim de melhor observá-lo. Projeta-se um objeto de análise mas têm-se a consciência da relevância de todos os outros dentro do texto.

Repetindo Osman Lins: "os espaços romanescos são espaços ficcionais, portanto apresentam-se sob um "olhar" especial, onde mais do que coisas os olhos têm impressões, impressões essas impregnadas por um espaço/tempo próprio de cada texto literário."

É o que se pretendeu com a leitura do romance escolhido; "A Geração da Utopia". Os espaços não deverão ser alvo de uma mera descrição ou enumeração dos objetos que o compõe, mas sim passarão pelo crivo da interpretação levando-se em conta a interação dos espaços com os personagens. Não seria possível deixar de ressaltar a temporalidade que perpassa todo o romance, portanto os personagens interagem entre si assim como com os espaços físicos e os espaços temporais.

Pepetela um dos autores mais conhecidos e premiados de Angola, possui um respeitável repertório de trabalhos literários principalmente no gênero de romances. Possuidor de uma profunda consciência política, faz parte do grupo dos escritores engajados, que fazem de seu trabalho com literatura uma forma de contribuição para conscientizar, divulgar e preservar a história de seu país.

"A Geração da Utopia", romance por nós enfocado, foi escrito no começo dos anos 90, em Berlim, quando seu autor recebeu uma bolsa de uma instituição alemã. Romance de cunho realista evidencia os percursos seguidos por uma geração de nacionalistas que tinham como projeto utópico a independência de Angola, essa geração chamada por Aníbal ( Sábio), de geração da utopia corresponde a de 1950. O romance poderia ser classificado como amargo se não trouxesse em si a dose de poesia, bem distribuída responsável pelo equilíbrio entre a realidade e ficção.

O autor através desse trabalho, avalia e resgata fatos que favorecem a compreensão dos rumos escolhidos pelos personagens, que são a representação de pessoas reais e comuns que viveram esse período.

Distanciado do tempo das guerrilhas, já com a independência do país efetivada o autor lança um novo olhar sobre tudo aquilo que havia sido recoberto pelo sonho.

O romance é dividido em três décadas, sendo que cada uma delas se desenrola em um espaço diferente. Temos então: "A Casa"(1962)- "A Chana"(1972)- " O Polvo"(1982)- "O Templo"( a partir de 1991) .Nos fixaremos nos espaços sem esquecer que a análise temporal seria muito rica.

"A Casa" (1962)

O espaço que dá nome ao capítulo refere-se à "Casa dos Estudantes do Império", situada em Lisboa, representa um ponto de encontro de jovens africanos que sendo estudantes em Portugal ali se reuniam para comer, se divertir e fazer política.

Tanto o espaço como o tempo, descritos no romance, dão ao leitor uma idéia de como se desenrola a política salazarista e o clima de tensão e o racismo imposto pelo sistema colonial. O ambiente é a metrópole, carregada com todo preconceito peculiar do europeu frente ao africano. A cidade de Lisboa tem sua beleza apreciada, mas as observações são sempre carregadas de nostalgia das terras natais abandonadas.

Por ser um momento de tensão política nas colônias "A Casa" é um ponto bastante visado pela PIDE, fazendo com que gradativamente os estudantes se tornem cada vez mais apreensivos e cautelosos.

A Casa é descrita aos poucos, durante o capítulo e em várias passagens vamos conhecendo esse edifício por dentro. São alusões às a escadas que levam a um outro andar, um personagem que é apresentado ao leitor pois está sentado num sofá num corredor ou sala, estudantes jogam ping-pong, outros vão à cantina ou planejam um baile. O clima do espaço vai aos poucos se tencionando de acordo com o arrocho político de Salazar em função do descontentamento manifesto pelos colonos em África.

Podemos perceber pela composição das mesas nas refeições, por exemplo, as manifestações das diferenças étnicas comuns nos povos africanos. Apesar disso percebe-se a solidariedade e os projetos comuns que interagem nesse momento.

Assim sem nunca ter sido descrito como edifício, A Casa passa a se percebida pelo leitor e apresenta também as transformações políticas que estão ocorrendo no momento assim como as consequências nas vidas dos personagens, que também são em grande parte apresentados nesse capítulo.

A Chana (1972)

O espaço agora é africano, saímos da metrópole e nos encontramos em um complexo território . O tempo também já é outro, estamos em 1972. A descrição da chana é singular, uma vez que concretamente é um espaço deserto com areia e pouca vegetação e rodeado de floresta. Citando um trecho do romance, temos a seguinte definição:

"A Chana não é um deserto, nada tem em comum com um deserto. A areia é um pormenor, não a alma do deserto. O deserto é um mundo fechado. A chana são vários mundos fechados, atravessados uns pelos outros. A complexidade da chana está na sua própria definição."

A complexidade desse espaço se reflete nas reflexões dos personagens que nela se encontram. A luta agora é real, os personagens centrais são os guerrilheiros, os pontos de vista defendidos no momento anterior se mostram alterados.

O sofrimento imposto pela guerra já não favorece o clima de solidariedade, a aridez do lugar se espelha nos sentimentos dos personagens, as rivalidades e incompreensões se intensificam. O projeto comum de uma nação livre vai gradualmente se esfacelando, deixando de ser coletivo.

Esse espaço africano é primitivo, e a exuberância da natureza faz o homem sentir mais fortemente sua miséria nesse momento...

O Polvo (1982)

Novamente em outro tempo, o espaço agora é uma pequena baía em Benguela, Caotinha, na qual se refugia Aníbal ( Sábio), líder intelectual e guerrilheiro vamos encontrá-lo profundamente desiludido em sua lucidez observadora.

O ambiente que se descortina ao leitor é de profunda beleza. Puro, intocado, não conspurcado ainda pela mão do homem. Provoca a percepção do contraste entre o que poderia ser e o que é a verdadeira história.

O principal personagem, dentro desse espaço idílico, é dono de si mesmo, de seu tempo e a paisagem é um convite a filosofia, à qual Aníbal se entrega, confrontando os vencedores com os que foram vencidos outra vez.

Curiosamente o lugar escolhido por Aníbal, para viver sua decepção é a moradia de um Polvo com o qual se confrontou em criança e que ainda o persegue em pesadelos. O personagem acalenta o sonho de derrotá-lo e se prepara para fazê-lo, como se fosse retomar a luta pelos seus antigos anseios. Sucumbe a realidade da impossibilidade de lutar contra outra feras e parte para a destruição dessa figura mitológica para quem sabe resgatar dentro de si a utopia que parece perdida para ele.

O Templo ( a partir de 1991)

Quarta e última parte do livro, temos como palco agora, Luanda. Angola está livre políticamente, mas prisioneira da miséria e da corrupção onde a decadência moral e a violência prolifera.

Toda urbanidade de Luanda é retratada em sua desolação, tudo está deteriorado, desorganizado, aí a tentativa de sobreviver é por si só uma crueldade. Já não nos deparamos com a possibilidade de sonhos, o projeto socialista pelo qual o povo lutou desapareceu, a tentativa de uma modernidade neo-liberalista engole a noção de solidariedade e o clima que se apreende nesse espaço é o de salve-se quem puder e

como puder. Nem mesmo as observações tão sensatas de Aníbal traz um pouco de esperança nesse trecho do romance.

No entanto, em contraste a esse sinistro panorama, ainda vamos encontrar descrições poéticas sobre a beleza natural do lugar. Numa passagem tomamos contato com a seguinte observação de Malongo, um dos personagens do romance; citando:

"Contemplou o azul do mar, a Ilha verde à sua frente, o vermelho das barrocas, o amarelo e cinzento dos prédios da marginal. Dali Luanda era um arco-íris numa concha"

Dentro dessa paisagem de contrastes o leitor ainda se deparará com outro espaço "O Templo", que muito mais que uma construção, retrata a manipulação ideológica que um pequeno grupo pode exercer sobre uma população desencantada.

O povo desiludido sem perspectiva é cooptado pela "I greja da Esperança e Alegria de Dominus", cujo bispo, havia em 1961, militado no UPA sendo defensor da violência como método revolucionário e transformador. Profundo conhecedor da psique humana, aproveita-se de sua habilidade para falar ao povo o que ele quer e precisa ouvir nesse momento de profundo vazio.

Dominus ( Senhor) quer que o povo seja feliz, libera as pessoas da noção de culpa pela busca do prazer e através de um discurso bem preparado, consegue fiéis que não só constroem o templo como se revertem em fonte de riqueza e poder para os fundadores da seita.

Se o romance terminasse definitivamente nesse capítulo, o leitor sem dúvida ficaria no mínimo amargurado, no entanto, o autor escreve um pequeno epílogo, deixando claro que a história não acabou e fazendo uma brincadeira com o início do livro, cuja primeira palavra é "Portanto" ele conclui que esse romance não poderia Ter um ponto final.

Dessa forma podemos pensar que o sonho não acabou...

Concluindo

Quisemos demonstrar através dessa breve análise a importância dos espaços romanescos na composição de um texto literário. No caso do romance analisado, a realidade, sempre presente, reflete as impressões do autor na trajetória histórica de seu país , do qual participou e participa ativamente, embora hoje de maneira diversa.

Do encantamento dos anos 70 ao desencanto dos anos 90, o artista reproduz o contexto de uma sociedade fragilizada diante das dificuldades e sofrimentos impostos

pela guerra. Os espaços utilizados dão vida e substância ao enredo desenvolvido por ele, mas podemos conjecturar o quão diferente seriam suas abordagens se feitas por um autor cuja biografia e ou nacionalidade fosse outra.

Bibliografia

Abdala Benjamin Júnior- Via Atlântica- Lato Senso- Ed. De Textos- 1997

Bachelar Gaston – A Poética do Espaço- Ed. Martins Fontes Ltda.- S.P/S.P- 1993

Calvino Italo – As cidades invisíveis- Comp. Das Letras – S.P - !991

Lins Osman – Lima Barreto e o espaço romanesco – Ática – S.P 1976

Novaes Adauto – Ética – Comp. Das Letras – S.P – 1997

Pepetela – "A Geração da Utopia"- Publicações Dom Quixote – Lisboa – 1992