clique para imprimir esta páginaclique para imprimir este documento A imagem do adolescente em Dom Casmurro
A imagem do adolescente em Dom Casmurro


Alice Áurea Penteado Martha
Universidade Estadual de Maringá/PR

Nos cem anos de existência, comemorados no final deste milênio, a obra de Machado de Assis tem sido lida e criticada sob os mais diferentes enfoques. Entretanto, em vista de seu inequívoco valor, pode oferecer a seu leitor, constantemente, novas possibilidades de deciframento. Assim, à procura de um viés diferenciado, ainda que em estágio inicial de pesquisa, este trabalho pretende observar o modo de representação do adolescente em Dom Casmurro, buscando evidenciar, na economia da narrativa, a especificidade da elaboração das personagens machadianas nesse momento limítrofe, entre a infância e a idade adulta. Dada a dificuldade do estabelecimento de um recorte satisfatório na gama de possibilidades que o assunto suscita, visto que são muitos os ritos que marcam entrada e saída dessa idade de passagem, o ponto de partida é o desejo do narrador de "atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência", de modo a tematizar a juventude como construção social, considerando-se semelhanças e diferenças na representação de jovens, não só de classe e condição social diferentes mas também de sexos diferentes.

O uso indiscriminado dos termos "representação" e "imagem" indica, neste trabalho, que os mesmos são empregados em seu significado comum, não havendo preocupação com restrições impostas por terminologia científica, especialmente aquela proveniente de uma discussão de caráter filosófico.

É interessante ressaltar, na obra em foco, a consciência de um modo de representação da juventude diferenciado da literatura romântica, muito próximo daquele que transformaria o século XX, reconhecidamente, no século da adolescência. Não se trata mais de elaborar a imagem do homem jovem, ou da juventude do século XIX, mas de privilegiar a adolescência como a etapa diferenciada que empurra a infância para trás e a maturidade para diante. Como homem de seu tempo, Machado percebeu e trabalhou com maestria as nuances dessa fase da vida, concebida como um momento ímpar do ser humano. Segundo Ariès, nesse momento:

Começou-se a desejar saber seriamente o que pensava a juventude, e surgiram pesquisas sobre ela, [...]. A juventude apareceu como depositária de valores novos, capazes de reavivar uma sociedade velha e esclerosada. Havia-se experimentado um sentimento semelhante no período romântico, mas sem uma referência tão precisa a uma classe de idade. (Ariès, 1981, p.46-47)

A partir do estudo em que Helen Caldwel, em 1960, comparava Bentinho a Otelo, os leitores não têm aderido tão facilmente ao ponto de vista do narrador. A tese da tendenciosidade da voz narrativa, bastante divulgada e aceita, abre, desde então, possibilidades interessantes de leitura. Críticos como John Gledson, Silviano Santiago, Roberto Schwarz, entre outros, vão além da questão do ciúme, identificando também a presença de questões sociais na composição da voz narrativa e a problemática do olhar. A condução do mundo narrado, tanto no que se refere à voz quanto à visão, é de responsabilidade de Bentinho, de origem abastada, protegido por uma estrutura familiar, social e religiosa que não tolera as atitudes atrevidas de uma jovem pertencente a uma extração mais pobre da sociedade. Desejoso de atar as duas pontas da vida, Bento, agora caminhando para a velhice, reproduz a casa da adolescência, em Mata-cavalos, no Engenho Novo, mas, como isso não lhe dá a satisfação almejada, opta, aconselhado pelos bustos pintados nas paredes, pela narração de suas reminiscências. Seu olhar recua até o ano de 1857, quando, aos quinze anos, descobre seu amor pela vizinha, Capitu, com catorze anos; ao lado deles, ainda que de forma menos vigorosa, surgem dois outros adolescentes na trama, Escobar e Sancha, ambos pertencentes à classe social menos privilegiada. A imagem da adolescência veiculada na narrativa deve estar, portanto, marcada pela visão tendenciosa do narrador que, advogando em causa própria, de um lado valoriza sua condição social e, de outro enfatiza as diferenças entre ele e os demais jovens, especialmente Capitu.

Na economia da narrativa, em sua estrutura externa, parece evidente, em termos quantitativos, o número significativamente maior de capítulos dedicados a esse período da vida: de um total de148 capítulos, 97 esmiuçam as emoções e sentimentos vivenciados pelo narrador, entre os 15 e os 17 anos. Além da extensão dessa etapa da narrativa, o próprio narrador reconhece o modo diferenciado de narrar, atestando a importância que concede a essa fase, ainda que o faça pelo avesso, como é de seu feitio:

Saí do seminário no fim do ano. Tinha então pouco mais de dezessete... Aqui devia ser o meio do livro, mas a inexperiência fez-me ir atrás da pena, e chego quase no fim do papel, com o melhor da narração por dizer. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas, capítulo sobre capítulo, pouca emenda, pouca reflexão, tudo em resumo. Já esta página vale por meses, outras valerão por anos, e assim chegaremos ao fim. (Machado de Assis, 1979, p.905*)

O excerto transcrito possibilita, ainda, que sejam levantados, na estrutura da intriga, os ritos de passagem indicados pelo narrador como momentos limítrofes em sua adolescência. Como filho único de mãe viúva e de algumas posses, o menino foi poupado até os quinze anos de quaisquer problemas, formando-se, ao seu redor, um escudo humano composto por familiares, amigos, padres e professores. Mas, mesmo em um grupo familiar e social coeso, a vida flui e a passagem é realizada. Esse momento tem a função de preparar a mudança e instaura um período liminar, que se caracteriza pela supensão da vida cotidiana, das regras comuns da convivência. O rito que marca a entrada de Bentinho na adolescência inicia-se com denúncia de José Dias, pois, a partir daí, o menino passa a refletir sobre seus sentimentos em relação a Capitu, recebe o beijo e, encorajado pela descoberta – "sou homem" - rebela-se contra a idéia do seminário:

O gosto que isto me deu foi enorme. Colombo não o teve maior, descobrindo a América, e perdoai a banalidade em favor do cabimento; com efeito, há em cada adolescente um mundo encoberto, um almirante e um sol de outubro. Fiz outros achados mais tarde; nenhum me deslumbrou tanto. (p.846)

A saída ocorre com o bacharelado em Direito, quando, vencidas as emoções e a batalha para deixar o seminário, o jovem entrega-se à razão e aos estudos e pode constatar que tudo mudara a sua volta.

No plano interno, são as instâncias de voz e visão da narrativa as responsáveis pela consecução dos objetivos do narrador. Insidiosamente, como lhe é peculiar, vai instaurando no espírito do leitor menos avisado a sua tese, ou seja, provar que a Capitu mulher já estava na Capitu menina, como a fruta dentro da casca (p.944). Entretanto não é este o seu único intento. Há outro que não confessa, mas alcança do mesmo modo. Trata-se do olhar de superioridade e de complacência com que constrói a própria imagem, valorizando sua condição de adolescente, do sexo masculino, oriundo de uma classe social mais elevada, e da ênfase com que marca sua ingenuidade e pureza, qualidades de um jovem religioso e candidato ao seminário, em oposição à rejeição dos sentimentos e emoções próprios da adolescência em Capitu, do sexo feminino. Com isso, pretende demonstrar ao leitor como ele, um ingênuo adolescente, protegido pela mãe e seu séquito de agregados, fôra seduzido por uma menina que, embora com catorze anos, agia e pensava como mulher. Além do temperamento mais forte de Capitu, Bentinho aponta, agora, uma possível cumplicidade da família da menina no que considera um processo de sedução, vez que a possibilidade de união entre os jovens interessa à classe social inferior. Dessa forma, a focalização do narrador caminha em dois sentidos: de lado, valorizando seus próprios sentimentos, elabora o emblema do jovem da classe mais privilegiada; de outro, depreciando as emoções da menina, revela uma visão diferenciada da adolescência feminina nas classes menos favorecidas.

As imagens vão se compondo aos poucos; o trabalho de elaboração do retrato de Bento e de desconstrução do perfil de Capitu é lento, mas corrosivo. Ora o narrador filtra os fatos apenas sob sua ótica, ora vale-se da visão de outras personagens. Num primeiro momento, a representação dos jovens se dá pelo olhar de José Dias, o agregado, que, apesar de sua pouca distinção social, vê fatos e seres sob a ótica burguesa. E, para Bento, o narrador casmurro que pretende demonstrar uma tese, é confortável expor essa primeira visão, ainda que ele mesmo não sentisse, na ocasião, muita simpatia pelo agregado. Na denúncia que faz à Dona Glória, José Dias enfatiza as diferenças entre os dois jovens, carregando nos aspectos que considera negativos em Capitu e reforçando as virtudes do filho de sua benfeitora. Para ele, Bentinho, que ele chama de "nosso", não deve andar metido com a filha do "Tartaruga", apelido que deu ao pai da menina, a quem despreza por sua condição social; o jovem deve servir à Igreja, aliando, assim, o desejo da mãe à possibilidade de um alto destino. A implicância de José Dias deve-se, superlativamente, à condição social da família de Capitu, inferior à de Bento Santiago.

Já, quando narra a visão de Dona Maria da Glória, que vê ambos como "criançolas", acentua a ingenuidade da genitora para, num movimento inverso, enfatizar a sagacidade de Capitu, a capacidade da menina em dissimular e manipular sentimentos e pessoas. Sob o olhar de Bento, a mãe é a imagem da perfeição: ingênua, trabalhadeira, devota e fiel até mesmo após a morte do marido. É preciso valorizar essas características maternas porque, além de representarem o ideal feminino do narrador, elas fundamentam a tese de que Capitu não teve dificuldades para dominar e iludir a mãe, Dona Glória. Na visão idealizada e idealizadora do narrador, as fotografias dos pais, na parede, instantâneos de felicidade, são a referência de um relacionamento conjugal perfeito: a mãe, submissa e fiel, oferece uma rosa ao marido. Tudo o que Capitu jamais seria.

A denúncia de José Dias deixa-o atordoado, mas depois de alguma reflexão, acaba por concluir "que não era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos, com a as meninas de catorze" ( p.820), raciocínio que justificará as carícias mais ousadas entre ele e a vizinha A análise que faz da descoberta da sexualidade revela novas pistas da imagem de Capitu que ele deseja construir no íntimo de seu leitor: é ela, sempre, a atrevida, tanto nos elogios e afagos quanto nos sonhos:

Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes afim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. (p.821)

Por outro lado, os sonhos dele apenas reproduzem a familiaridade, não passam da repetição dos fatos da convivência de ambos. Além dos sonhos, também as ações mais ousadas são dela, o que se casa perfeitamente com a imagem forte que ele constrói da menina, contraposta, evidentemente, a sua insegurança e desproteção. Capitu, vista pelo casmurro morador do Engenho Novo, cronologicamente, estava na adolescência, como ele, mas possuía força e determinação de mulher, o que o tornava uma presa fácil aos desígnios dela:

Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda não o disse, aí fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem incutir no leitor, à força de repetição. (p.841)

E é, realmente, à força de repetição que a voz narrativa valoriza sua condição adolescente, sem qualquer experiência amorosa, mostrando-se sempre como o pássaro abocanhado pela serpente. Na medida em que acentua a sagacidade e a malícia de Capitu, enfatiza o seu despreparo para compreender todas as maquinações da jovem:

Como vês, Capitu, aos quatorze anos, tinha já idéias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam-se hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos. Suponde uma concepção grande executada por meios pequenos. (p.829)

Ao lado do aparente elogio e da valorização das características da menina, o narrador vai, habilmente, destruindo o enunciado positivo, numa clara projeção futura: "Conto estas minúcias para que melhor se entenda aquela manhã da minha amiga; logo virá a tarde, e da manhã e da tarde se fará o primeiro dia, como no Gênesis, onde se fizeram sucessivamente sete." (p.830)

No que se refere à descoberta da sensualidade e à valorização da sexualidade, também é evidente o modo como o narrador idealiza a sua imagem, estabelecendo diferenças de manifestação entre as suas sensações e aquelas sentidas pela menina. Nele, as sensações são provocadas pelo sexo oposto; nela, ao contrário, são inerentes e prenunciam a imagem da mulher adúltera que ele pretende imprimir no espírito de seu leitor:

Tudo isto é obscuro, dona leitora, mas a culpa é de vosso sexo, que perturbava assim a adolescência de um pobre seminarista. Não fosse ele, e este livro seria talvez uma simples prática paroquial, se eu fosse padre, ou uma pastoral, se bispo, ou uma encíclica, se papa [...]. (p.875)

Enfim, acreditando, como o narrador, que "nada mais feio que dar pernas longuíssimas a idéias brevíssimas" (p.880), encerram-se estas notas introdutórias sobre a representação do adolescente em Dom Casmurro, com a esperança que elas possam contribuir para a abertura de novas frentes de leitura da obra de Machado de Assis.


Referências bibliográficas

Ariès, Philippe, História Social da Criança e da Família, 2.ed. Trd.: Dora Flaksman, Rio de Janeiro, LTC Ed., 1981.

Caldwell, Helen. The Brazilian Othello of Machado de Assis, Berkeley, University of California Press, 1960.

Gledson, John,The Deceptive Realism of Machado de Assis, Liverpool, Francis Cairms, 1984.

Machado de Assis, Dom Casmurro. Obra Completa (Volume I), Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1979.

Santiago, Silviano, "Retórica da Verossimilhança", in Uma Literatura nos Trópicos, São Paulo, Perspectiva, 1978.

Schwarz, Roberto, Duas Meninas, São Paulo, Companhia das Letras, 1997.


Notas


* Doravante, a citações referentes à obra em análise, Dom Casmurro, receberão apenas o número de página. A citação completa encontra-se nas Referências bibliográficas.