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A Ironia Reflexiva Em Coração, Cabeça E Estômago
A Ironia Reflexiva Em Coração, Cabeça E Estômago


Carla da Penha Bernardo

O Romantismo português apresenta uma complexidade advinda de seu caráter tardio, o que lhe possibilita uma visão crítica surgida a partir da geração de Almeida Garrett. A obra de Camilo Castelo Branco, por seu turno, embora pertencendo cronologicamente ao Realismo, inclui textos ora mais, ora menos canonicamente românticos e, como conseqüência, mais ou menos vinculados a uma visão crítica. Tal visão se apresenta, muitas vezes, sob a forma da ironia reflexiva acerca do fazer literário, como em Coração, cabeça e estômago, de 1862.1

O que chama a atenção ao longo da leitura de CCE é, talvez, seu caráter metamórfico – trata-se da biografia romanceada de Silvestre da Silva, lançada a público por um editor ficcional. Aí se apresenta o percurso do protagonista, partindo de três distintas fases de sua vida – a do coração, a da cabeça e a do estômago –, na última das quais vem a falecer.

Abrindo o romance, tem-se um preâmbulo do editor ficcional e amigo de Silvestre da Silva, em um diálogo com Faustino Xavier de Novais. Retirando todo possível caráter trágico do percurso de vida do amigo, bem como a expectativa quanto ao final do personagem, o editor lança a público, de forma prenunciadora, a morte deste. Esta morte ou "transformação" de S. da Silva parece ser tratada com certo caráter filosófico:

– O meu amigo Faustino Xavier de Novais conheceu perfeitamente aquêle nosso amigo Silvestre da Silva...
– Ora, se conheci!... Como está êle?
– Está bem: está enterrado há seis mêses.
– Morreu?!
– Não morreu, meu caro Novais. Um filósofo não deve aceitar no seu vocabulário a palavra morte, senão convencionalmente. Não há morte. O que há é metamorfose, transformação, mudança de feitio /..../ (Preâmbulo, p. 1).

Cedo, contudo, começa a aflorar propriamente o humor que mina a seriedade da morte e do tom filosófico, o que é feito, sobretudo, com a enumeração de elementos heteróclitos. Na seleção vocabular que faz, o editor concretiza as imagens e expressões em um momento em que o esperável seria tão-somente a linguagem figurada, o que é feito em pontos diversos do livro, cada vez de forma mais corpórea, banalizando o filosófico ou, mais precisamente, como diria o protagonista, fazendo-o estômago: "O nosso Silvestre da Silva, a esta hora, anda repartido em partículas. Aqui, faz parte da garganta dum rouxinol; além, é pétala duma tulipa; acolá, está consubstanciado num ôlho de alface /..../". (Id., p. 2).

As fases de S. da Silva, portanto, não são indissociadas. Mesmo na fase espiritualizada, no "Coração", pode-se perceber uma corporeidade na linguagem do protagonista, mais própria de seu estágio final, o "Estômago", e que o prenuncia, por meio da referida enumeração de elementos heteróclitos, provocando o tom humorístico do texto, como aqui: "Picado pelo ciúme, abriu o ourives seu peito à órfã, e ofereceu-lhe a mão, e uma pulseira de brilhantes nela /..../ ." (pp. 9-10) – ou aqui, onde o narrador desvia a atenção do sujeito aviltado em sua honra para o elemento material e para o ridículo do personagem: "[Leontina] Tomou-lhe raiva [a seu galanteador], fêz-lhe arremessos, e induziu a criada a atirar-lhe com uma casca de melão, que lhe sujou um colête de veludinho amarelo e verde com listas encarnadas e pintas roxas. Que colête!" (id.).

A conclusão moral do editor, em nota, é, mais uma vez, prenunciadora, ao falar de um algibebe que fora desprezado e ridicularizado no passado, também devido a sua simplicidade: "/..../ Que mudança de cara e de maneiras êle fizera! O dinheiro faz estas mudanças". (p. 12). Ou seja, o aspecto material é fundamental para a mudança de ótica do mundo. Ao acentuar a influência do meio e das circunstâncias sobre o indivíduo, tem-se uma conclusão que vai de encontro às tradicionais fórmulas da literatura moralizadora (inclusive da romântica), com uma visão objetificada que só é possível ao S. da Silva que escreve suas memórias às portas da morte.

O coração é assinalado como fonte de enganos, de ilusão de ótica. A questão da ficcionalidade é prenunciada na epígrafe2, que aponta para o limiar entre o 'verídico' – a memória, as coisas 'passadas' – e o ficcional – o texto editado e 'melhorado'– as coisas cridas. Repare-se na ambigüidade presente tanto nos fatos passados mas não cridos quanto nos cridos mas não passados, o que aponta para a inter-relação (e não para o maniqueísmo) de uma literatura mais factual e de uma mais idealizada.

De tal modo o editor ficcional se porta como editor real, a fim de dar veracidade ao texto, que suas intervenções deixam de se restringir às partes inicial e final do livro. No corpo do texto, há notas de página quase inteira, esclarecendo passagens obscuras das memórias de S. da Silva, e, mais do que isso, interferindo diretamente no processo de memória e o transformando em ficção. O protagonista se torna tanto mais risível e mesmo ridículo quanto maior é a distância de perspectiva do Silvestre passado em face do futuro ou, ainda, quanto mais as considerações digam respeito ao indivíduo não envolvido nos acontecimentos: o editor, sobretudo nessas notas.

A parte inicial do livro fala de desenganos amorosos com sete mulheres. A primeira, Leontina, apresentada como a "órfã, que vivia da caridade de um ourives, amigo do seu defunto pai", possui características românticas. No entanto, o protagonista-narrador acresce de forma pouco romântica: "Leontina não tinha caligrafia nem idéias /..../". Assim como nesta passagem, o narrador fará ao longo de todo o "Coração": apresentará quadros sérios, filosóficos e/ou românticos, para subvertê-los ou, ao menos, minorá-los com adjetivações ou seleções vocabulares e imagísticas inusitadas no contexto romântico e, mais ainda, para caracterizar os personagens antes pela negativa do que pela assertiva.

O narrador/ protagonista de Coração, cabeça e estômago, nesta primeira parte da obra, é lançado nos moldes das obras românticas, atuando, todavia, contra o modelo, de forma consciente, ao ridicularizar-se a si mesmo diante do amor de tais romances. Isso, como se disse, porque a ótica não é mais a do que vive os fatos, mas a do que os memora. É o afastamento temporal que lhe permite criticar um estilo desmedido que foi o seu. Desse modo, ao se apontar o caráter humorístico e mesmo ridículo de S. da Silva, figura vinculada ao paraíso perdido (ele é tão ou mais puro do que os selvagens de Rousseau, sobretudo se levamos em conta, em seu nome, a reduplicação de seu caráter silvestre), faz-se uma revisão dos protótipos românticos.

O puro S. da Silva não encontrará jamais um ambiente solidário (nem o natural, nem o social) e será trapaceado por todas as mulheres que ama na fase do coração e ridicularizado pelo mundo. Está-se, assim, criticando o caráter desmedido de um Romantismo descabelado. Não é à toa que o coração ganha novas e maiores dimensões atribuídas pelo editor.

Carlos Reis, ao apontar a reflexão crítica presente na segunda parte de CCE acerca do romance e de seus efeitos sobre a leitora, conclui que tal crítica é mais propriamente ao romance francês enquanto "produto cultural importado, artificialmente transposto (quer dizer: traduzido, imitado, adaptado, plagiado) para o espaço cultural português e proposto como leitura de desfastio que à mulher burguesa e ociosa serve, afinal, de motivo de degenerescência". (pp. 105-106).

Em sua fase inicial, Silvestre da Silva é exatamente o protótipo dessa literatura muitas vezes transposta de forma pouco crítica, mas vale lembrar que a 'poesia do estômago' é igualmente passível de ridículo pelo editor. Desconfie-se, por isso, do tom peremptório da crítica feita nesta passagem: "Foi o romance que degenerou as raças /..../ Mal haja uma literatura que transtorna fundamentalmente a digestão e o sono, êstes dois poderosos esteios da saúde, da graça da formosura, e de tudo que é poesia e gôzo neste mundo!" (p. 89).

Não esqueçamos que esse S. da Silva da "Cabeça" está a criticar exatamente aquilo que fora no "Coração", onde sequer olheiras roxas deixaram de ser pintadas fingidmente. Tamanho é o vínculo que aí pode ser feito com os romances franceses, que o próprio editor ficcional, antecipando-se à relação que certamente o leitor fará, vê-se impelido a declarar, em um "Entre-parêntesis" ao leitor:

Há de muita gente pensar que Silvestre da Silva, nesta parte de suas memórias, anda apegado às muletas literárias dos regeneradores das mulheres degeneradas. Argüição injusta! A Margarida Gauthier é muito mais nova que a Marcolina; e reparem, além disso, que o processo da reabilitação moral desta mulher é muito diverso do da outra, se é que há aqui processo de reabilitação. /..../

Como quer que seja, aqui não há damas de camélias, nem Armandos. Silvestre não quer que o romanceiem nem o dramatizem /..../. (pp. 75-76).

Desconfie-se também do trecho acima sobretudo porque, como vimos, ele indica uma contradição do editor quanto à interferência no texto do amigo.

Neste ponto, uma questão fundamental deve ser assinalada: o caminho seguido por S. da Silva é o oposto do apresentado nos romances franceses e, aí se tem um aspecto humorístico, advindo do caráter parodístico de CCE aos romances românticos, uma vez que nestes:

Se alguma vez o romancista nos dá, no primeiro capítulo, uma menina bem fornida de carnes, e rosada e espanejada como as belas dos campos, é contar que, no terceiro capítulo, aí a temos prostrada numa otomana, com olheiras a revelar o cavado do rosto, com a cintura a desarticular-se dos seus engonços, com as mãos translúcidas de magreza, os braços em osso nu e os olhos apagados nas órbitas, orvalhadas de lágrimas. (p. 89).

Contrariamente, o S. da Silva que gastava horas para produzir uma aparência fatalista e degenerada acaba por formar "com o peito e o abdôme um arco" (p. 159). Mas, ao final, a caquexia o afasta, de alguma forma, malgrado seu desejo, do Silvestre materialista. Seu mal é, ao fim, tanto do corpo quanto do espírito (p. 168), incluindo o "Coração", a "Cabeça" e o "Estômago", havendo, assim, um impasse para o corpo e para a literatura.

Note-se, ademais, o aspecto naturalista desta página que, aliás, ao que nos parece, representa a visão científica oitocentista sem que haja ironia. Ao se apontar a vida como um fenômeno cíclico interdependente, mostra-se que a doença de S. da Silva não adviria propriamente do "Estômago", mas do "Coração", da influência perniciosa do romance, fato que já a "Cabeça" indica naquela mesma passagem acerca da literatura francesa, a qual, aliás, antecipa com exatidão o fim do protagonista. Lê-se, em certa altura:

Estas mulheres desassisadas, que se imolam aos caprichos duma literatura, por não terem coisa séria em que empreguem a imensa energia do seu espírito, quando tornam em si, e se correm da sua inépcia, tarde vem o arrependimento, que, nos melhores anos, deram cabos das melhores fôrças. Obrigadas a viverem nos limites da razão, casam-se, e curam de reconstruir o edifício desconjuntado da saúde, comendo e bebendo e dormindo regularmente; mas as molas digestivas já têm então perdido as suas fôrças; os glóbulos cruóricos do sangue não se retingem jamais; as pulsações batem frouxas; o ar filtra ao pulmão por canais obstruídos; e não há contrapor à segunda natureza, formada por molestos artifícios, cuidados medicinais, que vinguem a antiga compleição deteriorada. Que frutos quereis que desentranhem estas árvores mimosas fenecidas ao ardor do sol, que lhes cai a prumo em plena vida. (p. 90).

O aspecto naturalista é recorrente na obra de Camilo, ora de forma irônica e subjetiva, ora de forma objetiva. Diferentemente da objetividade que cremos haver no trecho acima, depara-se com um humor satírico nessa mesma "Cabeça", advindo da junção entre um vocabulário típico da ciência e outro dos romances sentimentais:

Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo ótico. A imagem objetiva que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como o sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidade e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas diletas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da definição, vêm a ser aquêles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes, e estúpidas, que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estourar de inveja.

O Silvestre da Silva representante de um Romantismo cheio de fórmulas faz-se plenamente real em um dos momentos máximos de seu idealismo romântico: "constipa-se e se recolhe com "uma catarral" (p. 13) após a oferta de um poema intitulado... "Ela!". O real começa a se impor, mostrando-se até mesmo ao mais cego crente no amor idealizado: o protagonista. Por vezes, no entanto, o próprio Silvestre do "Coração" observa o desgaste da retórica romântica, como nestas suas palavras a um amigo: "/..../ Eu acho ridícula a tua posição, se, às primeiras palavras da francesa, tens de lhe dizer, numa língua que ela não entende, que não percebes a língua, que ela te fala. Vocês afinal acabam por se rirem francamente um do outro, e com o ridículo matam o amor" (p. 24). Mais adiante, Silvestre chega mesmo a dar uma espécie de receita romântica3 ao amigo, a qual recupera situações conhecidas na literatura romântica:

/..../ Procura um encontro nas trevas, de modo que a tua inteligência de línguas fique também em trevas, dando-lhe tu em compensação as mais significativas provas da tua sensibilidade, sem alardo de espírito. Às frases, responde suspirando. O je vous aime virá sempre a propósito. Aprende a conjugar bem o verbo aimer.

–Êsse já eu sei.
–Já? Eu amo?
–J' aime.
–Eu amarei?
–J' aimerai.
–Bem. Je t' aimerai pour la vie, pour toujours, éternellement. Entendes?
–Perfeitamente.
–O mais que pudesses dizer seria um pleonasmo. (pp. 24-25).

Mesmo nesta complexa fase do "Coração", não deixa de estar presente algum traço realista-naturalista de Camilo, que será mais acentuado em um estágio posterior de sua obra. Assim, uma vez mais ludibriado pelo coração, confessa S. da Silva ao leitor, causando comicidade (sem que, no entanto, deixemos de ver também um certo caráter trágico no personagem): "Riram todos, e eu pus a mão no lado esquerdo, a rebater o coração que partia as costelas, e rasgava as membranas /..../"(p. 29)4.

Se o S. da Silva passado é representante daquele ultra-romantismo, o Silvestre que memora os acontecimentos se finca no Realismo, apegando-se ao factual e ridicularizando a própria morbidez. Com efeito, a desordem física e anímica de S. da Silva acaba por servir também como um receituário da literatura ultra-romântica:

Nestas minhas confissões hei de ser modesto, e verdadeiro, como Santo Agostinho e J. J. Rousseau /..../.

Na minha qualidade de cético, entendi que a desordem dos cabelos devia ser a imagem da minha alma. Comecei, pois, por dar à cabeça um ar fatal /..../ Um médico da minha íntima amizade receitou-me uma essência roxa com a qual eu devia pintar o que vulgarmente se diz "olheiras". /..../ O artístico amor com que eu fazia isto, deu em resultado uma tal perfeição no colorido, que até o próprio médico chegou a persuadir-se, de longe, que o pisado dos meus olhos era natural, e eu mesmo também me parece que cheguei à persuasão do médico.

Fiz, pois, de mim uma cara entre o sentimental de Antony e o trágico de Fausto. (p. 32).

Assim como o real interfere no mundo criado por Silvestre da Silva, o oposto também ocorre, como no exemplo acima, ratificando a epígrafe do "Coração": a interseção entre o real e a ficção.

Minando um dos pontos altos do idealismo romântico, S. da Silva traça um quadro em que a natureza não se lhe mostra de forma alguma como solidária.5 Buscando o refúgio no aspecto natural, S. da Silva, um gauche por instinto, mostra-se tão inadaptado quanto em suas relações sociais de conquista amorosa. Note-se, no trecho abaixo, que sequer o elemento providencial deixa de ser lembrado. Além disso, atente-se para a evocação significativa da obra garrettiana,onde também se anseia pelo encontro com uma das raízes histórico-culturais de Portugal – Santarém:

Êste insulto [os versos de escárnio que recebera por outro engano do coração] foi providencial. /..../ Saí de Lisboa, no mais agreste do inverno, e fui para Santarém, onde vi o Santo milagre, largamente contado no livro das viagens do adorável poeta da Joaninha do Vale. /..../ Eu queria chorar sòzinho em algum recanto daquelas frondosas encostas, e dessedentar-me da sêde de amor, dando o coração às maravilhas da terra e do céu. /..../ Neste pressuposto, fui dar o primeiro lance de olhos amoroso à natureza. /..../ Apenas asomei ao alto, fiquei comovido das blandícias da natureza, que fez favor de me tirar o chapeú da cabeça, e mo enviou para além-Tejo nas asas dum furacão. Retrocedi vexado da grosseria, e sentei-me a recomendar à natureza de Santarém e ao diabo os filósofos encomiastas do campo. Rompeu-se uma nuvem, e eu abri o guarda-chuva contra a bátega do vento; uma refrega contrária apanhou-me por dentro em cheio, e converteu-mo em roca. /..../. (pp. 52-53).

A função principal do texto, como aponta o editor no preâmbulo e principalmente em suas palavras finais, é dar um exemplo aos leitores – não pelo que deve ser feito, mas pelo que deve ser evitado, visto que o protagonista não se classifica como um herói. Sua marca é, portanto, a negativa. Assim, o "exemplo" indica que não se deve imitar S. da Silva. Por isso a evocação do moralista Duclos se torna passível de um sorriso discreto, sobretudo porque a constante desarmonia do protagonista com o meio, nas diversas fases de sua vida, acaba por torná-lo um personagem também tocado por aspectos trágicos:

Silvestre acompanhou-me aos banhos de Póvoa, e já vinha com todos os sintomas de caquexia, resultante da imobilidade, e cansaço das molas digestivas. Retirou-se para a província, logo que os primeiros banhos, e as primeiras perdas ao jôgo lhe molestaram o corpo e o espírito. De lá me escreveu, contando os progressos da doença, e prognosticando o seu próximo fim. Nesta carta prometia o meu amigo legar-me os seus papéis, com plena autorização de divulgá-los, se eu visse que podiam ser de proveito para a iniciação da mocidade. À maneira de Duclos, dizia êle: "J' ai vécu, je voudrais être utile à ceux qui ont à vivre." (p. 168).

A este respeito, vale ressaltar a causa mortis de S. da Silva – a caquexia –, a qual, no verbete do Dicionário da língua portuguesa, de Aurélio B. H. Ferreira, é definida do seguinte modo: "Estado de desnutrição profunda, produzido por diversas causas; enfraquecimento geral."

O tom humorístico advém do fato de que o "cansaço das molas digestivas" e a conseqüente caquexia se manifestam na fase do "Estômago". Isso indica que esta fase de Silvestre não é o ápice de sua trajetória, ou seja, não houve, de fato, progresso em sua vida, apenas "metamorfoses". Seu exemplo é, portanto, muito questionável, mas podemos compreendê-lo melhor, levando em conta a constante preocupação camiliana com a função moralizadora da ficção ou, como aponta Aníbal Pinto de Castro, também com sua função desmoralizadora6 ou, ainda, ao menos, com uma moralidade que segue um caminho diverso do que seria esperável ao contexto romântico7.

Em CCE, poder-se-ia crer na existência de certa "virtude" associada aos momentos de inocência e idealismo (coração), por um lado, e de racionalidade (cabeça), por outro, principalmente por constituírem estes a maior parte da obra (72 e 43 páginas, respectivamente). Desse modo, o "estômago", definido como o caminho da felicidade (p. 157), a vitória da "brutalidade" (p. 159), deveria ser simplesmente preterido e compreendido como uma crítica a uma determinada conjuntura literária, como às vezes parece ocorrer: "Falei em assuntos literários com o meu antigo colega na imprensa. O homem ria-se de mim, e dizia:/ – Ainda estás nisso, pobre zote!? Esquece-te, brutaliza-te, faze-te estômago, se queres viver à imagem do Deus, que faz os homens neste tempo! (p. 159).

Assim, se exemplo há, é o de não sermos como S. da Silva em nenhuma fase, ou seja, de não sermos demasiadamente coração, nem cabeça, nem estômago. Parece, assim, não haver solução para o impasse. Também dessa negação final do 'exemplo' de vida do protagonista, em lugar da afirmação, advém o humor do texto e um certo aspecto tragicômico.

O erro de S. da Silva deve-se a seu caráter desmedido, uma vez que ele busca a linearidade de sua ações nos três momentos de vida e, por jamais a alcançar, passa de uma à outra, até chegar à síntese – a morte, único espaço em que deixa de haver excesso de sua parte.

A exemplaridade, assim, está não no que foi escrito – o S. da Silva em suas três fases –, mas no que foi insinuado – seu caráter desmesurado a ser evitado. Desse modo, o exemplo que ele deixa "à ceux qui ont à vivre" é, ironicamente, o escrito à beira de um vazio – o de sua morte. Por isso as derradeiras palavras do editor são lúcidas e impiedosas ao mesmo tempo, como a ratificarem que para o redundante e desmedido S. da Silva apenas a síntese é a solução. Não encontrada literariamente em uma 'quarta fase', ela o é com seu silêncio. Prefira-se, pois, esse silenciamento, a ter de produzir uma literatura "silvestre", seja ela do "Coração", da "Cabeça" ou do "Estômago" – eis aí uma moralidade depreensível da posição do editor. Ou ainda: retire-se desse mesmo silêncio metamórfico – a página que S. da Silva não é capaz de escrever – matéria para uma literatura libertária formal e tematicamente, sim, mas também e sobretudo mais criticamente comedida e consciente de seu papel social, inclusive moralizador. Aí está, parece-nos, a "moralidade" que se pode inferir a partir de Coração, cabeça e estômago.

Escrevendo e desdizendo o que está escrito, Camilo, com Coração, cabeça e estômago, fornece, de algum modo, um grande receituário de como fazer literatura na época do Romantismo.

O que se combate no romance e, portanto, pode servir de exemplaridade é principalmente o Romantismo exacerbado, o que é feito sobretudo na primeira parte do livro. Por outro lado, não se pode deixar de notar um combate que também é feito ao exagero naturalista – não é por outra razão que o título é tão pertinente. Faz-se, no livro, um exame detalhado dos 'males' através da visão microscópica do coração, da cabeça e do estômago sociais e literários. Todos se mostram igualmente maus quando desmedidos, seja o órgão vinculado ao Romantismo (o coração), seja o da fase intermédia, ou aquele ligado ao Realismo/Naturalismo (o estômago, mas também a cabeça).

Cada órgão tem seus males. Assim, a digestão ou a síntese das sínteses advém do confronto entre a exacerbação do processo de vida de Silvestre da Silva e do vazio de sua morte – a obra heteróclita que fala do Romantismo, com processos dele específicos, mas sem deixar de criticá-los, quando exagerados e que, ao mesmo tempo, fala do Realismo e critica seus exageros. O excesso que culmina com o vazio é representante do desgaste literário, seja ele romântico, seja ele realista.

Coração, cabeça e estômago é, assim, uma conjunção de obra literária e de ensaio crítico que analisa, sobretudo, a artificialidade da literatura transposta, independente da escola a que pertença, por meio de uma verve irônica. Eis aí, portanto, ao que nos parece, mais um exemplo de romance heterodoxo do Romantismo camiliano e do português.


Bibliografia

BERARDINELLI, Cleonice. "Pela Mão do Narrador". Actas do Congresso Internacional de Estudos Camilianos (24-29 jun. de 1991). Coimbra, 1994, pp. 223-236.

_ _ _ _ _ _. "Garrett e Camilo – Românticos Heterodoxos?" Convergência. Rio de Janeiro, 1: 63-78, jul. –dez. 1976.

CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, cabeça e estômago. Nota preliminar de Jacinto P. Coelho. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1961.

_ _ _ _ _ _. Vinte horas de liteira. 3. ed. Lisboa: Ulmeiro, 1997.

_ _ _ _ _ _. Duas horas de leitura. Nota e fixação de texto por Maria I. R. Rodrigues. 8. ed. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1967.

_ _ _ _ _ _. Amor de perdição. Rio de Janeiro: Ediouro, s. d.

_ _ _ _ _ _. A queda dum anjo. Guanabara (Rio de Janeiro): Cultural, s. d.

CASTRO, Aníbal Pinto de. Narrador, tempo e leitor na novela camiliana. Vila Nova de Famalicão: Casa de Camilo, 1976. pp. 13-66.

COELHO, Jacinto do Prado. "A Novela Humorística". In:_ _ _. Introdução ao estudo da novela camiliana. Coimbra: s. ed., 1946.

QUESADO, José Clécio B. Garrett, Camilo e Eça entre Sancho e Quixote. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 1988.

REIS, Carlos. "Narrativa e Metanarrativa: Camilo e a Poética do Romance". Actas do Congresso Internacional de Estudos Camilianos (24-29 jun. de 1991). Coimbra, 1994. pp. 105-118.

SENA, Jorge de. "O Romantismo". In:_ _ _. Estudos de literatura portuguesa I. Lisboa: Edições 70: 1982. pp. 83-106.


Notas

1. Doravante CCE. Mantivemos a ortografia do texto.

2. "Coisas há hi, que passam sem ser cridas,/ E coisas cridas há sem ser passadas... Mas o melhor de tudo é crer em Cristo. (CAMÕES).

3. Que ecoa a célebre "receita" de Garrett, nas Viagens na minha terra.

4. Podemos nos perguntar até que ponto o narrador estaria sendo irônico ou até que ponto esta linguagem científica não seria adotada com naturalidade, sem intuito irônico, sobretudo porque já em Amor de perdição ela é encontrada: "O que é o coração dos dezoito anos, o coração sem remorsos, o espírito anelante de glórias, ao cabo da estagnação da vida?/ O coração é a víscera, ferida de paralisia, a primeira que falece sufocada pelas rebeliões da alma que se identifica à natureza, e a quer, e se devora na ânsia dela, e se estorce nas agonias da amputação, para os quais a saudade da ventura extinta é um cautério em brasa; e o amor, que leva ao abismo pelo caminho da sonhada felicidade, não é sequer um refrigério." (p. 194).

5. Isso é um endosso ao ideal literário de Camilo de evitar as descrições de paisagem ou de elementos naturais de forma idealizada. Veja-se a esse respeito o comentário irônico à descrição pormenorizada de um boi, feita por António Joaquim em Vinte horas de liteira: "É a descrição mais completa que tenho ouvido de um boi! /..../ Parece incrível que tu, assim conhecedor e entusiasta da parte plástica e escultural do boi, me não tenhas permitido que eu te contasse a importância do boi no Egipto." (p. 185). A reflexão é ainda mais objetiva em Duas horas de leitura: "A paisagem gosto dela nas litografias da Ilustração francesa. /..../ No quadro do Estio, de Durameau, acho encantadora a abóbada viridente das matas /..../ mas, se a tentação de ver a realidade me vence, vem o pó, e cega-me; vem o calor, e reduz-me a manteiga; uma farpa de silva rasga-me o casaco /..../ Oh! Como é deleitoso o estio! (Grifos nossos, pp. 124-125).

6. CASTRO (1994), P. 66. Daí a crítica que se encontra no livro acerca do romance francês. Cf.: REIS (1994), p. 106.

7. Nesse sentido, o desfecho de A queda dum anjo se assemelha ao de CCE: não há uma visão maniqueísta que oponha absolutamente os protagonistas em sua fase final em relação à inicial, ocorrendo, pois, não melhoria dos protagonistas, mas uma transformação natural: "/..../ Teodora vivia contente, esquecida, feliz!" (p. 184); "Averiguei quanto em mim coube o viver interno de Efigênia e do primo. Convinha-me descobrir amarguras lá dentro, para tirar delas o sintoma da expiação. Não descobri coisa alguma, que não fosse invejável." (p. 186).