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Alberto Caeiro – O Mestre Do Paganismo
Vera Lúcia da Conceição Siqueira
É através da carta enviada por Fernando Pessoa a seu amigo e crítico literário Adolfo Casais Monteiro, em 13 de janeiro de 1935, que tomamos conhecimento da gênese de Alberto Caeiro: "( Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na gênese dos meus heterônimos literários, que é, afinal, o que V. quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe a história da mãe que os deu à luz.) "Ai por 1912, salvo erro ( que nunca pode ser grande), veio-me à idéia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular( não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato de pessoa que estava a fazer aquilo. ( Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)" "Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já não me lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de março de 1914 – acerquei-me de uma cômoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, ‘O Guardador de rebanhos’. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a ‘Chuva oblíqua’, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reação de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro ". (PESSOA, Fernando, 1969, p. 697). O surgimento do mestre Caeiro desencadeia o nascimento de todos demais heterônimos: "Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jato à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a ‘Ode triunfal’ de Álvaro de Campos – a ‘Ode’ com esse nome e o homem com o nome que tem. (...) " ( PESSOA, Fernando, 1969, p. 697). CONSIDERAÇÕES DE RICARDO REIS ACERCA DE ALBERTO CAEIRO Nos apontamentos soltos de Ricardo Reis, encontramos as seguintes observações sobre o seu mestre: "...a naturalidade e a espontaneidade dos poemas de Caeiro (...) são, ao mesmo tempo, rigorosamente unificados por um pensamento filosófico que não só os coordena e concatena, mas que ainda mais, prevê objeções, antevê críticas, explica defeitos, por uma integração na substância espiritual da obra." ( PESSOA, Fernando, 1990, p. 197). " Mas como quem sente a Natureza, e mais nada. / E assim escrevo, ora bem, ora mal, / Ora acertando com o que quero dizer, ora errando, / Caindo aqui, levantando-se acolá, / Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso". "( Louvado seja Deus que não sou bom, / E tenho o egoísmo natural das flores / E dos rios que seguem o seu caminho/ Preocupados sem o saber / Só com o florir e ir correndo". Poeta objetivo exprimindo em quatro de suas canções impressões inteiramente subjetivas, todavia, como o próprio Reis esclarece, não podemos dizer que houve erro, já que esses poemas "foram escritos durante uma doença e que, portanto, têm por força que ser diferentes dos seus poemas normais, por isso que a doença não é a saúde". Notamos que a objetividade do poeta é abrandada em virtude do mesmo estar amoroso, fazendo surgir um pequeno desvio no seu paganismo, já que a idéia, essencialmente pagã, usa, por vezes, um traje emotivo. Antes de estar amoroso: "Porque quem ama nunca sabe o que ama". "Amar é a eterna inocência, / E a única inocência não pensar..." "Pensar incomoda como andar à chuva / Quando o vento cresce e parece que chora mais". Após estar amoroso: "Amar é pensar". / "Penso em ti, murmuro o teu nome: e não sou eu: sou feliz." Esse "traje emotivo", como diz Ricardo Reis, não acontece abruptamente: nos poemas finais de O Guardador de Rebanhos, já podemos perceber o prelúdio da unidade idéia-emoção: Mentem a tudo o que eu sinto,/ São do contrário ao que eu sou..." "Escrevi-as estando doente/ E por isso elas são naturais". Em O Pastor Amoroso, não temos, em Caeiro, um poeta subjetivo, o que acontece é que o subjetivismo e o objetivismo se confundem, pois ele começa agora a refletir sobre as sensações. "Não sei o que fazer das minhas sensações". Agora não são apenas sensações, são sentimentos: Antigamente acordava sem sensação nenhuma: acordava". É ainda Ricardo Reis que nos afirma que a coerência intelectual prepondera sobre a sentimental ou emotiva: Trazem o candeeiro e dão as boas noites, E a minha voz contente dá as boas noites." Caeiro é o resgate do verdadeiro paganismo que o cristianismo fez com que se perdesse: Porque pensar é não compreender... / O mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... Eu não tenho filosofia: tenho sentidos..." É o inocente olhar pagão, é o sentir primeiro, sem a contaminação Cristista que insere a pessoa, pelo batismo, em uma cultura. É a reconstrução da essência pagã. Reis o mais disciplinado de todos os heterônimos e o que mais se aproxima de Caeiro, finaliza seu comentário: a disciplina exterior, pela qual a força tomasse a coerência e a ordem que reina no íntimo da obra". "Exagero, porventura e abuso. Tendo aproveitado a ressurreição do paganismo que Caeiro conseguiu, e tendo, como todos os aproveitadores conseguido a fácil arte secundária de aperfeiçoar, é talvez ingrato que me revolte contra os defeitos inerentes à inovação com que aproveitei. Mas, se os acho defeitos, tenho, embora os desculpe, que os apelidar de tais". (PESSOA, Fernando, 1990, p. 202). Álvaro de Campos, o poeta das emoções, em suas Notas para a Recordação do meu Mestre, dá-nos uma visão encantadora de Caeiro: (...) "Vejo ainda, com claridade da alma, que as lágrimas da lembrança não empenham, porque a visão não é externa... "A expressão da boca, a última coisa em que se reparava – como se falar fosse, para este homem, menos que existir – era a de um sorriso como que se atribui em verso às coisas inanimadas belas, só porque nos agradam - , flores, campos largos, águas com sol – um sorriso de existir, e não de nos falar. Meu mestre, meu mestre, perdido tão cedo! Revejo-o na sombra que sou em mim, na memória Que conservo do que sou de morto..." (PESSOA, Fernando, 1990, pp. 246-247). Ao mesmo tempo que Pessoa, Reis e Campos, através dos seus comentários sobre o mestre, deixam claro para nós as suas características, traçam também a maneira como eles mesmos pensam: -Ricardo Reis "pensa" com a razão; -Álvaro de Campos "pensa" com a emoção; -Alberto Caeiro "pensa" com a sensação. POEMAS DE CAEIRO – COM RELAÇÃO AO CONTEÚDO Tanto Ricardo Reis quanto Álvaro de Campos colocam-se a par do estilo de Caeiro, contudo vale ainda salientar outros aspectos. Uma das características marcantes dos poemas de Caeiro é o sensacionismo, manifestando uma visão objetiva das coisas. Em decorrência disso, temos: -A sensação das coisas tais como são, sentindo tudo da maneira que é: "Eu não tenho filosofia: Tenho sentidos... / E os meus pensamentos são todos sensações./ Penso com os olhos e com os ouvidos / E com as mãos e os pés / E com o nariz na boca". -O sentir sem pensar que sente: "Amar é a eterna inocência, / E a única inocência não pensar..." -A inocência de olhar, eliminando os vestígios de subjetividade: "Creio no mundo como um malmequer, / Porque o vejo. Mas não penso nele / Porque pensar é não compreender..." -Abolição das fronteiras de tempo e espaço: "Vê-las sem tempo, nem espaço, / Ver podendo dispensar tudo menos o que vê". "Mas eu não quero o presente, quero a realidade; / Quero as cousas que existem, não o tempo que os mede" -A aceitação de todas as desigualdades e injustiças sociais, estoicismo, aceitação da naturalidade da própria natureza: Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,/ Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,/Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno – /Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,/E encontra uma alegria no fato de aceitar – /No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável". Caeiro se limita a perceber tudo quanto há, todo o fenômeno, sem querer interpretá-lo: é um fenomenologisa puro. "O luar através dos altos ramos,/ Dizem os poetas todos que é mais/ Que o luar através dos altos ramos / Mas para mim, que não sei o que penso, / O que o luar através dos altos ramos/ É, além de ser/ O luar através dos altos ramos, / E não ser mais/ Que o luar através dos altos ramos." Caeiro é nominalista, recriando a visão primitiva das coisas pela linguagem: "Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da natureza,/ Porque há homens que não percebem a sua linguagem,/ Por ela não ser linguagem nenhuma". Ele elimina de sua visão poética a metáfora e a imagem, pretendendo cingir-se ao objetivismo da pura identidade: "Cada coisa é o que é". O panteísmo ametafísico é outro traço marcante em sua obra. Deus é o conjunto de tudo quanto existe, é a universalidade dos seres. A problemática de Deus só tem sentido se Deus for o mundo em que vivemos. É a divinização da natureza. "Não acredito em Deus porque nunca o vi./ Se ele quisesse que eu acreditasse nele,/ Sem dúvida que viria falar comigo / E entraria pela minha porta dentro/ Dizendo-me, Aqui estou!/ (...)/ Mas se Deus é as flores e as árvores/ E os montes e sol e o luar,/ Então acredito nele. No seu misticismo naturalista, ele não nega a existência de Deus, nega o falar e o pensar em Deus: "Pensar em Deus é desobedecer a Deus,/ Porque Deus quis que o não conhecêssemos./Por isso se nos não mostrou..." Fernando Pessoa diz que Caeiro encara a natureza de um modo metafísico e místico, que é "o puro místico do sensacionismo". "Se quiserem que eu tenha um misticismo, esta bem, tenho-o. / Sou místico, mas só com o corpo./A minha alma é simples e não pensa./ O meu misticismo é não querer saber./ É viver e não pensar nisso. A negação da memória, a afirmação do instante também é encontrada: "A recordação é uma traição à natureza,/ porque a Natureza de ontem não é Natureza./ O que foi não é nada, e lembrar é não ver". Ele desembrulha-se e torna-se não homem, mas um animal humano, sem pretensões pré-concebidas, contentando-se com a gratuidade da Natureza e trazendo o Universo ao Universo. "Ainda assim, sou alguém./ Sou o Descobridor da Natureza./Sou o Argonauta das sensações verdadeiras. /Trago ao Universo um novo Universo / Porque trago ao Universo ele-próprio". A multiplicidade, o mistério, o devir das coisas: "A Natureza é partes sem um todo./ Isto é talvez o tal mistério de que falam". A verdade primordial se explica pela pluralidade da Natureza, que não existe como um todo. Devia haver adquirido um sentido do ‘conjunto’;/Um sentido como ver e ouvir do ‘total’ das cousas/E não, como temos, um pensamento do ‘conjunto’; / E não, como temos, uma idéia, to ‘total’ das cousas./E assim – veríamos – não teríamos noção do ‘conjunto’ ou do ‘total’,/ Porque o sentido do ‘total’ ou do ‘conjunto’ não vem de um total ou de um conjunto/ Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes". Utilizando-se do recurso da tautologia, Caeiro, com freqüência, diz a mesma coisa recorrendo a formas diferentes. "Sei que a pedra é real, e que a planta existe./ Sei isto porque elas existem./ Sei isto porque os meus sentidos mo mostram./Sei que sou real também./Sei isto porque os meus sentidos mo mostram,/ Embora com menos clareza que me mostram a pedra e a planta./ Não sei mais nada. / Sim, escrevo versos, e a pedra não escreve versos./ Sim, faço idéias sobre o mundo, e a planta nenhumas./ Mas é que as pedras não são poetas, são pedras; / E as plantas são plantas só, e não pensadores". Resumindo, podemos afirmar que Caeiro: -Assume com naturalidade a verdade; -Não tem ciência; ele é a ciência; -Não é pagão; é o próprio paganismo; -É ingênuo e natural, infantil, sem malícia, em estágio de originalidade; -É o homem das sensações em estágio puro. Nele não há transcendência. Finalizando essas considerações acerca do mestre Caeiro, cabe citar Eduardo Lourenço que diz: "...só em sonho saímos do espaço inumano que nos cerca. Ele inventou, para poder respirar o irrespirável, as formas óbvias para existir no meio de uma civilização onde só se podia ‘ser’ não ‘sendo’. ( LOURENÇO, Eduardo, 1983, p. 157). "Pessoa (...) Foi (...) apenas uma sensível alma lusitana terrorizada pela própria audácia e sofrendo como uma danado a visão e a pressão de uma sociedade estruturalmente hipócrita, uma sociedade que se levanta todas as manhãs da cama imaculada onde nunca se passou nada que a perturbasse". (Idem, p. 159). |