|
clique para imprimir este documento
A LISBOA QUEIROSIANA
Rosane Gazolla Alves Feitosa1
Eça de Queiroz, construtor de seres imaginários habitando paisagens reais, executadas em obediências aos ditames do " realismo" , procura fazer coincidir o espaço físico-existencial com suas personagens, ou melhor, com o texto onde estas vivem. Como diz Álvaro Lins (1945, p.47): " A geografia dos romances de Eça de Queiroz revela-se tão sugestiva quanto a fisionomia e a psicologia das suas personagens." A descrição queirosiana acumula elementos diegéticos dinamizadores da construção romanesca- os "objetos-personagens"-. Os mesmos provocam, aceleram, ajudam a caracterizar a personagem, a revelar a sua atitude mental, a criar uma atmosfera propícia para o desenrolar do conflito e são atuantes na organização da trama. Esses "objetos-personagens", considerados como elementos da narrativa, são aqui considerados obras de arte, tais como - edificações, monumentos, praças, dentre outras. De acordo com José-Augusto França (1980), nelas buscaremos sua " estrutura profunda, para além da aparente". Além do objeto de arte/objeto-personagem, procuraremos "o involuntário para além do que voluntariamente lá pôs o autor. (...) é preciso procurar na sua presença, ou mesmo no que nele está presente, a informação que certamente acarreta. Mas, mais do que essa, que tem ainda pressuposto exterior, aquela que ele, objecto (de arte), é (...) binômio significante - significado considerado na sua totalidade de signo. (...) assim um edificio existe para além da sua utência sacra ou profana, através dos símbolos em que se realizada e cuja responsabilidade é também ultrapassada pelos signos formais em jogo". Portanto, arte e história nos levam a entender os fatos da vida social de uma época ou nação, expressos em outra história que, em parte, delas depende, mesmo que inocentemente ignore tais fatos. Um exemplo claro de tal proposta é verificar como o século XIX se esclarece um pouco mais com a leitura que podemos fazer da arte em que nele se produziu, ou pôde produzir-se. É manifestação própria das preocupações de objetividade do romance realista a localização e caracterização geográfica do espaço ou cenário onde atuam as personagens, cujos movimentos nos vão proporcionando o desenrolar da ação, o seu "tempo" e o seu ritmo. Esse espaço, em que as personagens se deslocam, resultado de uma observação e de uma análise minuciosa, exerce influência sobre elas, à maneira do determinismo de Taine, adquirindo, na novelística do século XIX, um grande valor simbólico. Daí sua importância como elemento catalizador, integralizador, já que, para provocar no leitor a sensação de autenticidade da sua ficção proposta pelo Realismo, Eça de Queiróz buscou, dentre outros procedimentos narrativos, a descrição dos espaços nos quais ocorre a diegese. O espaço físico não é meramente gratuito ou estético; ele motiva o diálogo, dinamiza a ação, liga-se à vida das personagens, estabelecendo uma correlação íntima com a movimentação, projetando-se, muitas vezes, no seu comportamento e estado de espírito. A pormenorização de certos ambientes, como a descrição de deslocações das personagens através de Lisboa, permitiu situar e determinar locais capazes de constituirem um roteiro bastante preciso da geografia novelística queirosiana de Lisboa, tal como o passeio de Luísa e do Conselheiro Acácio em O Primo Basílio (v.1, p.1021-1025). Dificilmente encontraremos tons de otimismo na descrição de cenas urbanas nos romances de seu período realista. A cidade de Lisboa irá refletir o sentimento que percorre a sua obra - o sentimento de decrepitude econômico-social da pátria e da degenerescência da raça, através do seu monóculo impiedosamente inquisitorial. Eça focaliza a raça portuguesa desse modo: "Que figuras! o andar desengonçado, o olhar mórbido e acarneirado, cores de pele de galinha, um derreamento de rins, o aspecto de humores linfáticos, a passeata triste de uma raça caquéctica em corredores de hospital: e depois um ar de vadiagem, de ora aqui vou, sim senhor, de madracice, olhando em redor com fadiga, o crânio exausto, e a unha comprida, para quebrar o cinza de cigarro, à catita. (Queiroz, 1979,v.2, p.1391) A recriação do espaço diegético que Eça faz da capital lisboeta é vivo reflexo do sentimento decadentista em relação ao país. A "obssessão da decadência nacional, dum progressivo e inelutável declínio de todo o País, complexo de morbos, reacções, profecias e desesperos que podíamos resumir na expressão de miséria portuguesa, atravessa todas as grandes obras literárias da segunda metade século XIX." (Medina, 1974, p.33). "Lisboa é Portugal - gritou o outro - Fora de Lisboa não há nada. O país está em todo entre a Arcada e S. Bento!...( Queiroz, Os Maias, p. 170). Eis aqui o espaço do Portugal queirosiano, do Portugal constitucionalista, regenerador do Século XIX: da "Arcada" (situada no Terreiro do Paço ou Praça do Comércio), sede do Governo durante a Monarquia até o Palácio de "São Bento", sede do Palarmento constitucionalista _ eis o resumo do Portugual contemporâneo de Eça de Queiroz. Situado e definido em poucas palavras e também governado por poucos, esse Portugal monárquico-constitucionalista, tem sua vida sócio-político-econômica decidida por um pequeno grupo que freqüenta os bares e cafés do Chiado, o ambiente representativo da sociedade lisboeta da época: "O que um pequeno número de jornalistas, de políticos, de banqueiros, de mundanos decide no Chiado que Portugal seja - é o que Portugal é. (Queiroz, 1976, v.2, p.820). Eça de Queiroz faz um comentário ácido acerca da política e da situação sócio-econômica de Portugal, já que, nas suas obras, a política, em todos os seus aspectos, e a literatura estão entrelaçadas. Portanto, ao percorrermos o nosso itinerário constitucionalista, estaremos resgatando o espaço-tempo ficcional e histórico de Portugal. Iniciaremos o nosso percurso no local em que "esse século XIX português se gerou, num parto catastrófico - a Baixa Pombalina".(França, 1980, p.10) Depois do terremoto de 1755, o plano geral de reconstrução (1758-1763) foi desenhado e dirigido por arquitetos portugueses, mas a intervenção do primeiro ministro Pombal foi decisiva. A cidade nova refletia a concepção que o estadista tinha do Estado. Verificamos a preocupação com a uniformidade arquitetônica: planta geométrica, retilínea, altura igual para todos os edificíos, ausência de qualquer sinal exterior que pudesse sugerir a nobreza do proprietário. Nenhuma porta diferente, proibição de jardineiras ou vasos nas janelas. As igrejas também foram obrigadas a alinhar-se pela altura dos demais prédios. Na praça principal, reúnem-se as forças que para Pombal deviam formar o País: nos andares nobres, as secretarias de Estado; por baixo delas, a servi-lhes de suporte, as lojas do comércio - a Arcada -. Do antigo paço real não ficou vestígio. O próprio nome do lugar, Terreiro do Paço, foi corrigido para Praça do Comércio. A mudança das palavras não teve poder contra a força do hábito e a denominação de nome - de "Real" para "Comércio", "é o fato cultural e político, mais importante do pombalismo". (França, 1980, p.11) Ao rei e à corte sobrepõe uma nova classe privilegiada que faz o comércio necessário ao País "em reforma". Pombal mandou erigir, no centro da Praça do Comércio, a estátua do rei D. José I, cujo cavalo avança esmagando víboras, as "víboras da reação". A existência da estátua, que manifesta uma relação política que ignora a corte dos nobres é do "comércio", da burguesia. Em resumo, a "arquitetura" de Pombal, a Baixa "Pombalina", como ficou conhecida através dos romances de Eça de Queiroz, especialmente em O Primo Basílio, revela a fragilidade ideológica deste documento. "Esta foi logo contrariada nos seus valores emblemáticos com o regresso de um regime que, em certos aspectos, restaurava os privilégios nos quais a monarquia pré-Pombal se apoiava" (França, 1980, p.11). Para Eça, a Baixa é sinônimo de degradação, de conservadorismo, de reduto da pequena burguesia constitucionalista. É o ambiente, o cenário, por excelência, do espaço físico de O Primo Basílio, tão sarcasticamente criticado, representando o descrédito do regime constitucionalista, católico e monárquico, "O Primo Basílio apresenta, sobretudo, um pequeno quadro doméstico, extemamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa: a senhora sentimental, mal educada, (...) arrasada de romance, lírica, sobreexercida no temperamento pelo ociosidade e pelo mesmo fim do casamento peninsular, que é ordinariamente a luxúria, nervosa pela falta de exercício e disciplina moral,etc, etc. - enfim, a burguesinha da Baixa." (Queiroz, v.3, p.517) Pelas referências que faz à Rua do Ouro, Passeio Público, Rossio, Teatro D. Maria II, Rua da Madalena, Rua Nova do Carmo, Arco da Bandeira, Praça da Alegria, Aterro, Arcada dentre outras, verificadas no passeio do Conselheiro Acácio e de Luísa. (Queiroz, v.1, p.1021-1025), temos uma radiografia física, social e econômica da Baixa Pombalina, com descrições que tipificam os comportamentos dissolutos e os vícios do Constitucionalismo monárquico, paradigma da "miséria portuguesa". No Rossio, praça situada no centro da Baixa Pombalina, em Lisboa, um dos espaços diegéticos recorrentes na ficção queirosiana, ergue-se uma coluna coríntia com a figura de D. Pedro IV, uma estátua pedestre, simbolizando mais as virtudes cívicas do rei do que suas virtudes guerreiras. Este monumento foi erguido em 1870, no momento áureo do Cenáculo, da Geração de 70, de As Farpas de Eça de Queiroz e de Ramalho Ortigão. No cume da coluna, encontra-se D. Pedro IV, de uniforme de general com o manto, insígnia de realeza e a cabeça coroada de louros. Na mão direita segura a Carta Constitucional, enquanto a mão esquerda encontra-se apoiada na espada. Na base da estrutura piramidal, em pedra de lioz, estão sentadas, nos ângulos, quatro figuras: Prudência, Justiça, Fortaleza e Moderação, valores que, bem analisados, expressavam exemplarmente a mundividência do constitucionalismo conservador, que acabou por hegemonizar o liberalismo português. A estátua, com a postura de D. Pedro, pretendia ser um símbolo de união nacional e de recalcamento da memória da guerra civil. Este monumento carrega profundas conotações ideológicas que possibilitam ao leitor perceber as idéias das personagens, a ironia do narrador, funcionando como um elementos significativo na diegese. A data de inauguração de monumento a D. Pedro IV é altamente conotativa em relação aos integrantes da Geração de 70 que eram contra o constitucionalismo, ao qual atribuíam a decadência em todos os setores da vida sócio-econômico-política da realidade portuguesa. Outro fator que se leva em conta é a estátua de D. Pedro IV, símbolo do constitucionalismo e, por conseguinte, o alvo preferido das farpas de Eça de Queiroz, situar-se num dos espaços mais citados ao longo da obra queirosiana. "Vossa Majestade está no alto de uma coluna, esguia, polida e branca como uma vela de estearina, e mostra, equilibrando-se sobre uma bola de bronze, um papel, a Carta - ao clube do Arco do Bandeira. É a quem Vossa Majestade a mostra. O clube do Arco do Bandeira pela sua atitude, modesta e digna, parece não dar por tal. Vossa Majestade está com a espada na bainha. Vossa Majestade passa à posteridade com um rolo de papel na mão - como um tabelião ou um vale. Nada que lembre o soldado. É uma estátua - doméstica" (Queiroz, v.3, p.1246). É de O Primo Basílio esta descrição realista enfatizando a decadência do povo português, o sistema de governo _ o constitucionalismo. Podemos concretizá-la pelo conjunto: Rossio, logradouro central da capital de Lisboa e a estátua de D. Pedro IV, símbolo de um constitucionalismo falhado, ambos situados na Baixa Pombalina. "No Rossio, sob as árvores, passeava-se; pelo brancos, gente imóvel parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos passavam, com o chapéu na mão, abanando-se o colete desabotoado; a cada canto se apregoava água fresca do Arsenal; em torno do largo, carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céu abafava - e a noite escura, a coluna da estátua de D. Pedro tinha o tom baço e pálido de uma vela de estearina colossal e apagada" (v.1, p.927). As obras de Eça de Queiroz da década de 70 serão a denúncia de um país em crise de valores, de instituições, além da própria crise econômico-política. Por meio dos objetos-personagens/obras de arte, pudemos captar o sentido de miséria portuguesa em fatores que julgamos ser suas coordenadas essenciais: a degenerescência da raça, a mediocridade do poder político, a generalização da apatia e/ou do pessimismo nacionais.
Bibliografia consultada A . C. Matos, Imagens do Portugal queirosiano, Lisboa, INCM, 1987. Álvaro Lins, A história literária de Eça de Queiroz, 2.ed., Porto Alegre, Globo, 1945. Aniceta de Mendonça, Da descrição aos objetos-personagens nos romances de Eça de Queiroz, Separata de Revista de Letras, Assis, n. 14,1972. António M. B. Machado Pires, A idéia da decadência na Geração de 70, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1980. DICIONÁRIO DE EÇA DE QUEIROZ, Org. e coord. A. Campos Matos, Lisboa, Caminho, 1983. _______ , Obras de Eça de Queiroz, Porto, Lello & Irmão, 1979. v.1. _______ , Os Maias, Lisboa, Livros do Brasil, s/d. Isabel Pires de Lima, As máscaras do desengano, Lisboa, Caminho, 1987. João Medina, Eça de Queiroz e a geração de setenta, Lisboa,Moraes, 1980. _______, Eça político, Lisboa, Seara Nova, 1974. Joel Serrão, Da "Regeneração" à República, Lisboa, Horizonte, 1990. José-Augusto França, Perspectiva artística da história do século XIX português. Análise Social, Lisboa, n. 61-61, p.9-27,1980.
Notas 1. Departamento de Literatura- Faculdade de Ciências e Letras- UNESP-19800-000-Assis-SP. |