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Álvaro de Campos e a partida sempre adiada ...
Maria Natália Gomes Thimóteo
Universidade Estadual do Centro-Oeste Unicentro Guarapuava-Pr A poesia de Álvaro de Campos segue a trajetória da sua desilusão, do absurdo pensamento da existência, da vertigem perante o pavoroso e apaixonante ato de viver. O Campos que quer estar sozinho "enquanto tarda o Abismo e o Silêncio", revela o Pessimismo nietzcheniano da oposição, com um discurso persuasivo contra a vida. Apesar de se confessar um "amoroso", o poeta revela esse amor nesse heterônimo como uma inversão. Talvez porque tenha pedido à vida mais do que ela poderia oferecer a uma alma tão terna como a do ortônimo: "Alma nenhuma mais amorosa ou terna do que a minha jamais existiu, alma nenhuma tão cheia de bondade, de compaixão, de tudo quanto é ternura e amor".1 Essa ternura, essa amabilidade, no entanto, não se estendem à vida, que a seu ver, sempre o tratou como ‘órfão’, ou pelo menos, é assim que o poeta se sentiu por toda a sua vida. Essa orfandade irá fazer com que a sua visão sobre a vida o faça sentir cada vez mais estrangeiro e marginalizado. Assim é que "não tirou bilhete à vida", apenas pedia para ser somente "o seu vizinho". Campos é o heterônimo pessoano que teve o privilégio de sofrer uma evolução, apresentando duas grandes épocas. Teresa Rita Lopes considera essas duas épocas como sendo a primeira a do "Poeta Decadente" – 1913-1914 – ou antes de Caeiro, e a segunda, depois de Caeiro. Dentro dessa segunda época, a autora considera a existência de três fases: a das "grandes odes" do início, com o fôlego imenso do "Engenheiro Sensacionista"- de 1914 - 1923; em seguida a do "Engenheiro Metafísico" – 1923-1930 - fase em que o poeta já não se atordoa com o mundo exterior, sempre às voltas com a insônia e o cansaço de existir; e a do "Engenheiro Aposentado"- 1931-35, o Campos na sua fase mais madura, passo mais curto e o desencanto cada vez maior. Em muitos poemas, a vida pesa-lhe como um fardo de chumbo e a sua raiva de ser extrapola as raias do absurdo. A náusea, o tédio, o desassossego provocam no poeta uma dor de existir, um sentimento de vacuidade e solidão que, apesar de ter a violência e a agressividade como disfarce, não a tornam uma poesia desesperada. Antes, o sentimento que a norteia é uma vertigem incessante perante o nada, um desgosto e desinteresse pela vida, aparentemente sem causa. Em todas as suas fases, Álvaro de Campos apresenta uma tensão psíquica que se revela numa constante necessidade de mudança, de busca de novidade, mesmo sem saber ao certo o que procura: Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa, Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência, Sempre, sempre, sempre, Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma, Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...2 Em 26.04.1926, após alguns anos sem nada produzir, Campos tem outra vez rompida a sua inspiração poética, de tal maneira renovada que, nesse dia nasce o segundo poema de Lisbon Revisited e em seguida, um longo poema sem título, mas que já revela no seu primeiro verso o tom de tragédia e desencanto que irá marcar essa fase, de cor muito negra, de um Pessimismo atroz, que os outros poemas subsequentes irão confirmar e tornar ainda mais forte. Poema de exortação, extrapoético, um poema que mais parece uma "homilia negativa que nos ameaça com um efeito alienatório"3. Com o intuito de ressaltar o nenhum valor da vida, Campos defende o suicídio como sendo a única solução, não para ele, mas para o seu interlocutor. Enumera uma série de argumentos que conduzem ao convencimento da inutilidade da vida. Ah, aproveita! Que eu, que tanto amo a morte e a vida, Se ousasse matar-me, também me mataria... Ah, se ousas, ousa! De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas A que chamamos mundo? ........................................................................................... Talvez matando-te, o conheças finalmente... Talvez, acabando, comeces... E, de qualquer forma, se te cansas seres, Ah, cansa-te nobremente, E não cantes, como eu, a vida por bebedeira, Não saúdes como eu a morte em literatura! Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... Sem ti correrá tudo sem ti.4 (...) Podemos considerar este poema como o anúncio das composições futuras, espécie de profecia da "escuridade" que marca toda a fase do "Engenheiro Metafísico", prenúncio da Tabacaria de 1928, monumento do Pessimismo e do fracasso de viver pessoano. Mas aqui, a sua visão da existência nunca foi tão amarga e dilacerante. Nunca o poeta tentou com tanta violência arrancar a máscara da Ilusão do homem, de poder ser amado e contar com alguma espécie de solidariedade. " Jamais a fraternidade absoluta do seu coração com o coração anônimo dos homens encontrou tão certeiramente o eco universal onde, lendo-o, nós mesmos nos lemos"5. E continua Campos com a sua tétrica argumentação: Do mistério e da falta da tua vida falada... Depois o horror do caixão visível e material, E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali. Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas, Lamentando a pena de teres morrido, E tua mera causa ocasional daquela carpidação, Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas... Muito mais morto aqui que calculas, Mesmo que estejas muito mais vivo no além... Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova, E depois o princípio da morte da tua memória. Há primeiro em todos um alívio Da tragédia um pouco maçadora por teres morrido... Depois a conversa aligeira-se quotidianamente, E a vida de todos os dias retoma o seu dia... ........................................................................ Encara-te a frio, e encara a frio o que somos... Se queres matar-te, mata-te... Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida? .................................................................................... Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?6 Um grande desprezo pela vida e uma imensa ironia é lançado ao ego de quem ele se dirige. Se o seu interlocutor possui ainda alguma esperança de merecer sentimentos como o amor, afeto, saudade, vê-se então na condição de um órfão, que não tem o direito de provocar sentimentos depois de partir. E nem enquanto vive... Mas, o poeta, o "advogado da Morte", não é capaz de cometer tal ato. Apesar de todos os argumentos a favor do suicídio, o poeta sabe que tal ato para ser praticado deve vir acompanhado de uma coragem extrema, a qual ele não possui – "Se ousasse matar-me, também me mataria". Nesse poema, o ser humano transforma-se no que Heidegger chama de "o-ser-para-a-morte", onde o poeta nega o valor da vida por ela não apresentar um fim em si mesma e não tendo uma importância transcendente, é apenas um acidente. Ao mesmo tempo, o poeta dessacraliza o tempo. No poema, o tempo é desprovido de importância, o que entra em choque com a orientação cristã, onde os homens só têm uma vida para viver, portanto a Vida é uma preparação para a Eternidade. Como para o poeta a felicidade é inatingível, propõe que os inconvenientes da vida sejam evitados. Daí a necessidade imperativa da autodestruição. Todo o poema é uma tentativa de destruir a dúvida e o medo. O se condicional conduz o processo indutivo que culmina numa certeza incondicional. Porém, a tensão maior do poema está na sua impossibilidade de ir até o fim. O que realmente surpreende é a incapacidade de superar o conflito entre a convicção e a ação. Falta a Campos o perfil de desertor, lamentado num verso inédito: "Ah! Quem tivesse a força para desertar deveras!"7. A razão fundamental da sua pregação a favor da destruição da vida , na verdade é um agônico pedido de socorro, é uma desesperada reivindicação de mais vida. Essas razões para desmerecer a vida vêm ao encontro do pensamento de Schopenhauer: Longe de ser a negação da vontade, o suicídio é um fenômeno de forte afirmação da vontade...O suicida quer a vida, e só não está satisfeito com as condições em que ela lhe é dada. Portanto não abandona o desejo de viver, mas simplesmente a vida, já que ele destrói o fenômeno individual. Ele quer a vida, quer a existência incondicional e a afirmação do corpo; mas a combinação das circunstâncias não lhe permite que assim seja,e para ele o resultado é um grande sofrimento8. Campos e a sua falta de audácia, o seu medo do desconhecido, do "horror" de " encontrar o Mistério face a face", celebra o suicídio apenas "em literatura". A vida, por pior que seja, e apesar da angústia hamletiana, é sempre preferível ao desconhecido. Essa vida-outra, incógnita, objeto de uma perspectiva aterradora, é tema incessante do Fausto: Me acabaria, me faria nada, E eu avançaria para a morte, pávido Mas firme do seu nada.9 Alguns momentos de fulgurante epifania, como se percebe no poema Magnificat, não são suficientes para afastar a angústia que lhe causa o Mistério e a necessidade de um dia o enfrentar. Em Passagem das Horas, Campos nos alerta de que " Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver./(...) Eu sou o que sempre quer partir,/ E fica sempre, fica sempre, fica sempre."10 Portanto, Campos quer vida. Clama por vida! Mesmo quando afirma o contrário. Suas queixas, seus desencantos com a vida, com o tédio, com o sono, com o cansaço, sentimentos que para ele nada mais são do que uma penitência que tem que pagar injustamente. Por mais que a vida seja sempre para "vomitar", permite-se assim um "existir" para não morrer. Apesar de vestir-se de luto para a vida, um luto que o perseguirá até o fim, tudo é preferível a ter que partir. Como no poema Là bas, je ne sais où, o poeta apregoa a sua necessidade vital de permanecer: Ficar só a pensar em partir, Ficar e ter razão, Ficar e morrer menos... Vou para o futuro como para um exame difícil. Se o comboio nunca chegasse e Deus tivesse pena de mim? ........................................................................ Partir! Meu Deus, partir! Tenho medo de partir...11 Os poemas de Campos são confissões da vida real tornadas poesia. Na dor de viver estão presentes os sentimentos vitais e poéticos, reveladores de sua frustração, do desprezo por si e pelo mundo, da passividade e desesperança. No entanto, Campos crê na sua descrença. O que o mantém "encantado" como poeta é o seu desencanto. A fé negativa é pregada através da sua voz de pregador ortodoxo. Apesar de ser um oposicional, esmagado pelo pessimismo, luta desesperadamente para continuar vivendo. Não: vou existir. Arre! Vou existir. E-xis-tir... E-xis-tir... ............................... Dêem-me de beber, que não tenho sede!12 O desconsolo e desencanto revelados em Grandes são os desertos, o questionamento implícito que reveste o "arrumar a mala do ser", trabalho infinito de Sísifo, já crente que "grande é a vida e não vale a pena haver vida", coloca-o mais fortemente diante de um sentido de "adiamento" perante todo o universo, onde a mais difícil façanha é "arrumar a mala". A rejeição da vida significa, na verdade, a reivindicação da vida. Apesar de tudo, o "morto futuro" que se anuncia em toda a obra pessoana deseja a vida, mesmo que fuja sempre, através da evasão do real, do jogo heteronímico, e de buscar todas as formas possíveis de acolhimento para o seu ser "órfão". Ele mesmo nos dá a pista para esse entendimento, quando se interroga, na voz das veladoras do drama O Marinheiro: " Porque é que se morre? Talvez por não se sonhar bastante"13. O Sonho, para Pessoa, foi um espantalho do Mistério que o aterrorizava : Se o combóio nunca chegasse e Deus tivesse pena de mim? Notas 1. PESSOA, Fernando. Obra em Prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1990,p.34 2. PESSOA, Fernando. Obra Poética, Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar, 1990, p. 370 3. SILVA, Luís de Oliveira e. O materialismo idealista em Fernando Pessoa. Lisboa, Cássica Editora, 1985, p. 157 4. PESSOA, Fernando. Obra Poética, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1990, p. 357 5. LOURENÇO, Eduardo. Pessoa Revisitado, Porto, Inova, 1973, p. 189 6. Obra Poética, pp. 358-359 7. LOPES, Teresa Rita. Álvaro de Campos – Livro de Versos.p. 208 8. O Materialismo Idealista de Fernando Pessoa, op. cit, p. 158 9. PESSOA, Fernando. Obra Poética, p. 483 10. Obra Poética, p. 343 11.Obra Poética, p. 418 12. idem, p. 380 13. Obra Poética,p. 448 |