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A mise en abyme de Terra sonâmbula
Paloma Vidal (UFRJ)
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A leitura de Terra sonâmbula abriu-nos um leque de temas a serem explorados: a riqueza da linguagem poética e mítica, o retrato literário da guerra civil moçambicana, a pluralidade de narrativas, o papel definitivo da oralidade na literatura africana... Frente a tantas possibilidades, optamos por uma análise ao mesmo tempo específica e abrangente, isto é, a partir de um tema restrito, mas que diz respeito à estrutura da obra como um todo, procuramos abarcar alguns pontos essenciais do romance de Mia Couto. O tema a que nos referimos é a mise en abyme, expressão já canonizada dentro dos estudos literários, mas que ainda assim não dispensa uma apresentação. Ela foi empregada pela primeira vez pelo escritor francês André Gide em 1893; ao comentar a composição de seu texto La Tentative amoureuse, Gide descreveu assim este procedimento: "Gosto bastante que numa obra de arte, encontre-se assim transposto, na escala dos personagens, o tema mesmo da obra. Nada esclarece melhor e estabelece com mais segurança todas as proporções do todo"1. Trata-se, portanto, de inserir uma obra dentro da obra, numa espécie de emboîtement. Tal estrutura pode também ser representada por um escudo, acolhendo em seu centro uma réplica em miniatura de si mesmo. Como o próprio Gide assinala, a mise en abyme já fora utilizada por escritores como Shakespeare em Hamlet, Edgar Allan Poe em A Queda da casa de Usher ou Goethe em Wilhelm Meister. Por viabilizar a pluralidade de narrativas, evidenciando a complexidade das relações escritor/obra/leitor, ela foi revalorizada pela literatura contemporânea. Em Terra sonâmbula, a mise en abyme aparece na relação entre a história de Muidinga e os diários de Kindzu. A história de Kindzu desenvolve-se dentro da história de Muidinga e funciona como um espelho interno que reflete as vivências de Muidinga. Além disso, Muidinga, ao ler os diários, identifica-se com Kindzu pela correspondência entre as experiências dos dois, de modo que o amadurecimento de um corresponde ao amadurecimento do outro, numa aprendizagem que se dá por meio da leitura. Kindzu torna-se, assim, um duplo de Muidinga, pois, espelhando-se nele, o menino encontrará sua própria história. A presença do "duplo" é fundamental para a mise en abyme, pois é através dele que se efetua a passagem entre os níveis narrativos. Partindo da mise en abyme central, constituída pela relação Muidinga/Kindzu, chegamos a algumas particularidades que dizem respeito não só a Terra sonâmbula, mas à literatura moçambicana como um todo. Em primeiro lugar, evidenciamos na escrita as marcas da oralidade, que traz consigo todas as tradições, os mitos, as lendas contadas de geração em geração. Em Terra sonâmbula, essa oralidade aparece na multiplicação incessante de histórias, o que nos faz atentar para uma mise en abyme específica dessa literatura. Em segundo lugar, percebemos que a mise en abyme pode funcionar como um meio para atingir um objetivo primordial de todas as literaturas africanas: a elaboração da história. 2
Inicialmente, gostaríamos de retomar o conceito de mise en abyme, observando suas particularidades. Lucien Dällenbach, no seu livro Le Récit spéculaire, define a mise en abyme como um espelho interno à obra que reflete a totalidade do relato por meio de reduplicação2. Essa definição, que tem como ponto de partida a nota do diário de Gide e o uso que críticos e escritores fizeram da expressão mise en abyme, procura ser o mais abrangente possível, contemplando as variações em torno dessa estrutura. Segundo Dällenbach, há basicamente três tipos de mise en abyme: a reduplicação simples, a reduplicação ao infinito e a reduplicação aporística. A reduplicação simples é constituída por um fragmento que estabelece uma relação de similitude com a obra que o inclui. Assim, encontramos este tipo de estrutura em Hamlet, quando Hamlet encena a peça que deve incriminar Cláudio, retratando a própria trama da tragédia. Ou ainda, em Um Amor de Swann, que antecipa os temas principais da vida de Marcel. Este é propriamente o caso da obra dentro da obra. Na reduplicação ao infinito, o fragmento, além de estabelecer uma relação de similitude com a obra que o inclui, ele próprio inclui um fragmento que estabelece com ele uma relação de similitude e inclui um fragmento que... e assim por diante. É a obra dentro da obra dentro da obra... ao infinito, como dois espelhos confrontados. Em Contraponto de Aldous Huxley, por exemplo, o personagem-escritor Philip Quarles imagina um romance infinito em que haveria um homem escrevendo um romance em que haveria um homem... T. Todorov, no seu texto "Os homens-narrativa", considera essa capacidade de se multiplicar infinitamente a essência das narrativas que utilizam o encaixe, como as Mil e uma noites. Embora Todorov não utilize a expressão mise en abyme, percebemos a correspondência entre o que ele descreve e a reduplicação ao infinito: Toda a narrativa deve tornar explícito o seu processo de enunciação; mas para isso é necessário que apareça uma nova narrativa em que esse processo de enunciação seja apenas uma parte do enunciado. Assim, a história que conta torna-se também e sempre uma história contada, na qual a nova história se reflete e encontra a sua própria imagem. Por outro lado, toda a narrativa deve criar novas narrativas: dentro de si, para que seus personagens possam viver; e fora, para que o suplemento que ela inevitavelmente comporta, possa ser utilizado3. Finalmente, a reduplicação aporísitica ou paradoxal ocorre quando o fragmento parece incluir a obra que o inclui, tornando a relação indecidível. Assim, em Paludes de Gide, o fato de que o narrador esteja escrevendo um livro que se chama Paludes faz com que, por momentos, os dois coincidam de forma paradoxal. Há, por exemplo, um trecho em que alguém diz ao narrador que ele deveria incluir tal coisa em Paludes e ele responde que isso já está ali. A qual Paludes está se referindo: ao de Gide ou ao do narrador? Outro exemplo deste tipo de reduplicação é a passagem nas Mil e uma noites, citada por J.L. Borges, em que o rei ouve da boca da rainha a sua própria história; ouve a história inicial que engloba todas as outras e que se engloba a si mesma. 3
Como já vimos, a mise en abyme principal de Terra sonâmbula ocorre entre a história de Muidinga e os cadernos de Kindzu. Muidinga é a voz que dá vida à narrativa de Kindzu. Uma narrativa que, por sua vez, reflete os temores e os sofrimentos de Muidinga, já que Kindzu também se confronta com os horrores da guerra. Ambos procuram uma saída para o estado em que se encontram, rodeados de destruição e morte; em volta de Muidinga: A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte4; e em volta de Kindzu: A guerra crescia e tirava dali a maior parte dos habitantes. Mesmo na vila, sede do distrito, as casas de cimento estavam agora vazias. As paredes, cheias de buracos de balas, semelhavam a pele de um leproso5. As aventuras de Kindzu proporcionam a Muidinga um antídoto contra a estagnação de sua vida. "Letras do sonho", os cadernos de Kindzu penetram na vida de Muidinga para preencher o vazio de uma existência desmemoriada e sem esperança: "os cadernos de Kindzu se tinham tornado o único acontecer naquele abrigo"6, diz o narrador. E mais adiante: "os escritos de Kindzu lhe começavam a ocupar a fantasia"7. Assim, até o final do livro haverá um jogo de alternância entre os capítulos dedicados a Muidinga e os cadernos de Kindzu. O paralelismo é rompido quando as duas narrativas se unem, ao descobrimos que a história de Kindzu faz parte da história de Muidinga ou vice-versa. Tentando fazer uma correspondência entre o que dissemos antes sobre a mise en abyme e Terra sonâmbula, diríamos, em princípio, que se trata de uma reduplicação simples. Os cadernos de Kindzu são uma narrativa dentro da narrativa e, até certo ponto, refletem a experiência de Muidinga. Há um espelhamento entre as duas histórias, que se evidencia, como assinalamos, no nível da estrutura do livro (número de capítulos corresponde ao número de cadernos). Porém, a narrativa de Kindzu é evidentemente mais do que um fragmento-reflexo da narrativa de Muidinga. Não se pode dizer, como fazemos no caso de Hamlet, que há uma trama principal de que o fragmento é uma reduplicação. Por ser a história de Muidinga uma pura ausência de memória e de esperança a narrativa de Kindzu vai muito além do fragmento; ela é a própria história de Muidinga: "os escritos de Kindzu traziam ao jovem uma memória emprestada sobre esses impossíveis dias". Os cadernos devolvem a Muidinga sua existência, na identificação com Kindzu e na descoberta de sua verdadeira identidade. Seguindo ainda a tipologia da mise en abyme, descobrimos uma semelhança entre Terra sonâmbula e as narrativas encaixadas descritas por Todorov. Assim como as Mil e uma noites, Terra sonâmbula possui a "dilatação incessante" das narrativas orais. Nas escritas marcadas pela oralidade, uma narrativa pode sempre levar a outra, pois há um excedente que fica fora do desenvolvimento fechado da intriga e que é completado por uma outra narrativa que, por sua vez, também é falha e precisa ser completada por outra. Assim, no relato de Kindzu, surge Farida, que relata sua própria história: "Me chamo Farida, começou a mulher o seu relato". Na narrativa de Farida, por sua vez, aparecem sua irmã gêmea, Virgínia e Romão Pinto que, mais adiante, também irão contar suas histórias. Como mostra Todorov, os relatos se encaixam por meio desses homens (ou mulheres)-narrativa: "o personagem é uma história virtual que é a história da sua vida. Qualquer novo personagem significa uma nova intriga"8. Há ainda outra aspecto das narrativas encaixadas que aparece em Terra sonâmbula: contar significa viver. Os personagens contam sua história em busca de um sentido para a vida. Contar é uma maneira de elaborar os traumas e de questionar a realidade. Este é o caso de Kindzu: "quero pôr os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências", ele diz no início do primeiro caderno. Ou ainda de Farida: "ela só tinha um remédio para se melhorar, diz Kindzu, era contar sua história". "Divididos entre dois mundos", tanto Kindzu como Farida estão à procura de sua identidade. Na própria escolha da língua já se impõe o dilema: "esses fantasmas nos falam em nossas línguas indígenas. Mas nós já só sabíamos sonhar em português". A pluralidade de relatos de Terra sonâmbula evidencia a pluralidade de culturas e a necessidade de cada indivíduo de achar seu lugar nessa pluralidade. Por outro lado, conta-se também para não sucumbir à realidade, para evadir-se dela. É o caso de Dona Virgínia que se refugia nos relatos para não ser vítima da violência que a cerca: Dona Virgínia amealha fantasias, cada vez mais se infanciando. Suas únicas visitas são essas crianças que, desde a mais tenra manhã, enchem o som de muitas cores. Os pais dos meninos aplicam bondades na velha, trazem-lhe comida, bons-cumprimentos. A vida finge, a velha faz conta. No final as duas se escapam, fugidias, ela e a vida9. Gaspar, por sua vez, é ameaçado de morte se não contar sua história, e ela deve ser alegre, porque, em meio da guerra, as crianças já conhecem de sobra histórias tristes. Porém, sendo também filho da guerra, o relato de Gaspar não pode ser menos triste do que o de todos os outros: Gaspar começou a medo. Contou a sua vida, sem esconder detalhe. Desfiou prosa por tempo. Quando se calou a chuva tinha parado. Os miúdos se entreolharam. Não tinham gostado, era uma estória triste. Nos dias de hoje, quem quer fantasiar desgraças?10. 4
O último ponto que gostaríamos de tratar é o da relação entre a mise en abyme e a história. Terra sonâmbula é claramente uma crítica e uma revisão da história de Moçambique, mais especificamente de um período dessa história: a guerra civil. Para falar da "guerra que contaminara toda a terra", Mia Couto penetra nas contradições de sua terra. A forma que ele deu ao romance é inseparável do papel crítico que ele exerce. É inevitável hoje que a literatura fale da história. Num período curto de tempo, o mundo vivenciou inúmeras guerras guerras mundiais, coloniais, civis que abalaram a ingenuidade diante do real. Na literatura, isso se manifestou como uma forte tomada de consciência do seu papel no processo histórico. A literatura não podia mais se dar o luxo de isolar-se dentro de uma realidade própria. A idéia de que a literatura cria suas verdades independentes e de que história e ficção são dois campos separados, foi fortemente questionada. Viu-se a necessidade, principalmente por parte dos grupos ex-cêntricos, como mulheres, negros, imigrantes, etc., de que a literatura fosse uma denúncia do statu quo. A denúncia partiu de um questionamento da história como verdade fatual e absoluta. Os próprios historiadores promoveram esse questionamento que acabou os aproximando da literatura. Como determinar a verdade de um fato se tudo o que temos na história são relatos, e os relatos sempre podem ser ficcionais? Como estabelecer o limite entre o que consideramos fato e o que sempre se descartou como sendo ficção? Quem pode estabelecer esses limites? O que é, afinal de contas, a história oficial? Esse questionamento ganhou proporções muito amplas a partir de obras como as de Michel Foucault e Walter Benjamin. Foucault, em A história da loucura, colocou em evidência o processo histórico que excluiu a loucura em nome da racionalidade, mostrando que o que consideramos uma verdade absoluta da humanidade teve início no século XVII. Foucault sempre recorreu a textos de naturezas diferentes (literários, científicos, técnicos, etc) para fundamentar seu trabalho, sem privilegiar um em favor do outro, mostrando, pelo contrário, que os discursos só ganham seu valor de verdade em função de uma rede de poder. Por outro lado, Benjamin, em "Sobre o conceito de história", assinalou a necessidade de se romper com o continuum da história e com a idéia de progresso. A história é feita de rupturas (descontinuidades, na terminologia foucaultiana), de pequenos e grandes acontecimentos, de ruínas que o historiador tradicional junta e finge se tratar de um tempo homogêneo. É próprio dos revolucionários explodir esse continuum e enfrentar a história enquanto "tempo de agora". A literatura, como dissemos, tomou parte nesse processo crítico. Retornou-se à história, mas sem o olhar ingênuo das literaturas históricas do século XIX. Mais do que isso, a literatura encenou o problema da separação entre ficção e história. Inserir esta última como componente fundamental de uma obra literária faz surgir imediatamente a questão: o que é história e o que é ficção? Admitindo as duas hipóteses ser ao mesmo tempo história e ficção a literatura encontra-se numa situação paradoxal. Diz Linda Hutcheon em Poética do pós-modernismo: "Mais do que ambígua, a arte pós-moderna é duplicada e contraditória. Existe um repensar da tendência modernista de se distanciar da representação, repensar realizado por meio da inserção material e da posterior subversão dessa representação"11. Ficção e história se entrelaçam no romance de Mia Couto, afastando a perspectiva utópica, parcial ou panfletária. Pelo contrário, apresenta-se uma pluralidade de perspectivas; através da mise en abyme, promove-se uma intertextualidade que prefere muitas vozes à voz única, que opta por uma polifonia mais enriquecedora. Assim, temos um texto que valoriza a multiplicidade de raças, de versões, de histórias e de lendas que compõem Moçambique. Aliada ao uso do fantástico e à elaboração poética da linguagem, a mise en abyme viabiliza a criação de uma comovedora paródia da guerra civil moçambicana.
Notas 1. GIDE, André. Journal. Paris: Gallimard, 1992, p.41 (tradução do francês feita pela autora). 2. DÄLLENBACH, Lucien. Le Récit spéculaire essai sur la mise en abyme. Paris: Seuil, 1977, p. 52 (tradução do francês feita pela autora). 3. TODOROV, Tzvetan. "Os homens-narrativa". in, p.93. 4. COUTO, Mia. Terra sonâmbula. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995, p. 9. 5. Ibid., p.27. 6. Ibid., p.41. 7. Ibid., p.59. 8. TODOROV, Tzvetan. "Os homens-narrativa". op.cit., p.85. 9. COUTO, Mia. Terra sonâmbula. op.cit., p.192. 10. Ibid., p.199. 11. HUTCHEON, Linda.Poética do pós-modernismo, Rio de Janeiro: Imago, 1988, p.158. |