|
clique para imprimir este documento
António Nobre e a Literatura Brasileira -
Simbolismo e Periodização Literária Alfeu Sparemberger
UNIJUÍ - RS A existência de uma conexão entre o Simbolismo e o Modernismo é fato consolidado pela crítica literária brasileira. O Modernismo, em boa medida, é visto ainda como um prolongamento de atitudes e tendências simbolistas. Ou seja, a morte de Cruz e Sousa, que em 1893 inaugurou o Simbolismo com Missal e Broquéis, numa época em que já são claros alguns sinais pré-simbolistas, não impede a continuidade do movimento, vigoroso ainda em vários pontos do país. A passagem, portanto, entre os dois sistemas literários traz como implicação a fragilidade dos métodos histórico-literários, principalmente quando tratamos da substituição de modelos literários no conjunto do sistema literário brasileiro. A repercussão do livro Só (1892), de António Nobre, é imediata no desenvolvimento da literatura brasileira, atestando a complexa trama das relações literárias entre Brasil e Portugal. Esta repercussão alcança exatamente o período em que o Simbolismo, na fase chamada de "pós-simbolismo", constitui um momento de transição para a ruptura instaurada pelo movimento modernista. Entendida deste modo, a obra de António Nobre contribui para a continuidade do movimento simbolista. Os primeiros sinais da presença da obra de António Nobre podem ser localizados na obra do paranaense Silveira Neto, autor da elegia "Antônio Nobre" (1900): A lira tens vibrado das Nevroses; E amavas, como nós amamos tanto, O seu perfil doente, Suas queixas atrozes; E o tom enfermo de seus versos (quando A Dor mais dolorida se renova) Como o som de um órgão responsando Dentro de um templo sem altar, nem portas, Onde vão levas de almas mortas Ouvir a missa de uma cova; (...)1 O soneto "Josafá", de Antonio Francisco da Costa e Silva, mantendo o tom do texto de Silveira Neto, incluído no livro Sangue (1908), confirma a presença de António Nobre na literatura brasileira: Verlaine, Mallarmé, Cruz e Sousa, António Nobre Rezam juntos, por mim, num profundo Eucológico.2 Os poemas e poetas formados na leitura da obra nobreana conformam um número considerável, podendo-se citar Paulo da Silva Araújo, Pereira da Silva, Severiano Resende e Mário Pederneiras3. O depoimento de Antonio Austregésilo confirma a relação entre a literatura brasileira e a portuguesa, bem como a presença de António Nobre, levando-nos a supor que muitos poemas do livro Só, escritos na década de 80, já fossem do conhecimento dos simbolistas brasileiros: Não podemos negar que a maior influência nos veios (sic) de Portugal, com João Barreira, Eugênio de Castro, e Antônio Nobre. (...) Grande impressão deixara em todos nós as poesias de Antônio Nobre, do livro Só. Repetíamos freqüentemente os lindos versos do infeliz poeta lusíada, como expressões bíblicas do nosso ritual ‘Males de Anto’, sonetos, elegias, brotavam-nos da alma como as águas das fontes. Antônio Nobre foi inegavelmente um dos maiores líricos, verdadeiro messias, como lhe chamou Alberto d’Oliveira4. A repercussão da obra de António Nobre ultrapassa o primeiro grupo de autores simbolistas e, alcançando o período "pós-simbolista", distende os limites periodológicos tradicionalmente estabelecidos para aquele período literário. Assim, a presença do livro Só alcança o período imediatamente anterior ao do Modernismo e, como veremos adiante, a admiração pela obra do escritor portuense ultrapassa a semana de 22. Antes de abordarmos os três exemplos escolhidos para a confirmação da tese, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Mario Quintana, é preciso lembrar que o Simbolismo foi efetivamente mais um período de transição do que objeto de ataque dos modernistas: Os modernistas poupam o simbolismo em seu organizado ataque às correntes estéticas anteriores. Na verdade respeitam a escola simbolista, chegando mesmo a considerá-la inspiradora de muitas de suas atitudes e a admitirem até estarem dando prosseguimento aos princípios por ela formulados5. O Simbolismo, dividido em grupos e pouco organizado, apresenta-se mais como um "momento de passagem", "continuidade no desenvolvimento literário nacional". Foi, de certo modo, facilitador do surgimento da corrente modernista, pois esta reaproveita "tendências e atitudes espirituais que poderíamos denominar de simbolistas". Neste período de transição, antes da ruptura instaurada a partir de 1922, há um "verso exagerado" de Mário Sobral, pseudônimo que "esconde" o de Mário de Andrade, do livro Há uma gota de sangue em cada poema: gira, desde manhã, na paisagem funesta... De noite tempestou chuva de neve e de granizo... Agora, calma e paz. Somente o vento continua com seu oou...6 O "verso exagerado" foi o que mais interessou a Oswald de Andrade. "A inusitada e agressiva rima de Mário de Andrade - rima bem mais de Mário de Andrade do que de Mário Sobral - surgia, aos olhos de Oswald, como uma confirmação às suas frustradas tentativas inovadoras".7 Talvez esta rima não seja mais ousada do que aquela presente no poema "Ladainha", de António Nobre, incluído na segunda edição do livro Só: Dorme filhinho! dorme, dorme "ó-ó"... Dorme, minha alma canta-te cantigas, Que ela é velhinha como a tua Avó!8 O livro de Manuel Bandeira, A Cinza das Horas, onde encontramos o poema "A Antônio Nobre", é um claro exemplo do período de transição em que se encontra a literatura brasileira. Pós-simbolista na dissolução das formas e na simplicidade, a aceitação da obra de A. Nobre não ocorre no plano exclusivo da produção, mas também no plano da experiência de leitor, traço que, no soneto referido, demonstra uma identificação existencial com o autor do Só: Há a ingenuidade santa do menino; Que amaste os choupos, o dobrar do sino. E cujo pranto faz correr o pranto: Com que magoado olhar, magoado espanto Revejo em teu destino o meu destino! Essa dor de tossir bebendo o ar fino, A esmorecer e desejando tanto...9 O último exemplo aqui indicado atesta as dificuldades classificatórias com que se deparam os métodos histórico-literários. Desenvolvido principalmente na região Centro/Sul, o Simbolismo varia de um Estado para outro, como ainda pode, cronologicamente considerado, aparecer num período mais tardio, mas com impacto importante para a literatura ali desenvolvida e com uma participação, portanto, específica na série geral da literatura brasileira. O Simbolismo no Rio Grande do Sul ocupou as duas primeiras décadas do século XX e confirma a presença da obra de A. Nobre no Brasil. Neste Estado, o movimento foi responsável por uma mudança radical nos temas e linguagens praticados até então. O impacto do Simbolismo só é superado na década de 50. Para o rompimento com o localismo/regionalismo, os simbolistas contam com a fundamental contribuição dos poetas portugueses, entre eles A. Nobre. O depoimento de Mario Quintana, sinalizado a "confluência" com a obra de A. Nobre, a que se poderia acrescentar o de Álvaro Moreyra, é o reconhecimento da importância para os escritores gaúchos da obra do escritor português: Em meu primeiro livro A Rua dos Cataventos tenho, por dever e devoção, um soneto a ele dedicado e mais uma referência em outro poema. Isto bastou para acusarem em mim a influência de António Nobre. Protesto: não há influência - há confluência, pois a gente só gosta de quem parece com a gente.10 O soneto referido por Mario Quintana apresenta não só uma identificação literária com o autor português mas também existencial, fato constatado igualmente no poema de Manuel Bandeira. A rima arrojada de Mário de Andrade, e que tanto interessou a Oswald, não o é, como vimos, muito mais audaciosa do que a de António Nobre, nem sempre visto como simbolista, mas como, em muitos casos, um neo-romântico. Assim, o Simbolismo efetivamente constitui um período de transição para o Modernismo, ultrapassando-o em alguns casos, e esta transição configura um "núcleo de uma meditação histórico literária que se queira não apenas cronológica, mas estrutural, acerca da substituição de sistemas literários específicos dentro da série mais ampla do sistema literário brasileiro"11. (Julho, 1999) Notas 1. In CAROLLO, Cassiana L. Decadismo e simbolismo no Brasil. Crítica e poética. Vol.2. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos; Brasília: INL, 1981. p.213-4. 2. In MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. Vol.2. 3ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1987. p.923. 3. Ver a esse respeito NEVES, João Alves das. "A influência de António Nobre na poesia brasileira" in Ocidente - Revista Portuguesa Mensal. n.355, v.73, nov., 1967, p.194-211. 4. In MURICY, Andrade. Op.cit. Vol.2. p.687. 5. In BRITO, Mário da Silva. História do modernismo brasileiro - Antecedentes da Semana de Arte Moderna. 5ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1978. p.207. 6. São Paulo: POCAI E COMP., 1917, p.13. 7. In BRITO, Mário da Silva. Op.cit., p.79. 8. In NOBRE, António. Só. Introd. Agustina Bessa-Luís. Porto: Livraria Civilização, 1983. p.123. 9. In BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. São Paulo: Círculo do Livro, s/d. p.44. 10. In STEEN, Edla Van. "Mario Quintana" in Viver e escrever. vol. 1. Porto Alegre: LePM, 1981. p.13. 11. BARBOSA, João Alexandre. "Prefácio", in MURICY, Andrade. Op.cit. vol1. p.XV. |