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A Paixão É «Rosa E Cicuta»:
Uma Leitura De A Terceira Rosa De Manuel Alegre
Maria Saraiva De Jesus*
Universidade De Aveiro Manuel Alegre apresenta em A Terceira Rosa a rememoração do primeiro amor, referida a todas as mulheres. Cláudia é uma e todas ao mesmo tempo, e o narrador, Xavier Furtado, diz procurá-la em todas as mulheres: Andarei pelo mundo, dar-te-ei outros nomes. Passará muito tempo, continuo à tua espera, inventando o teu corpo noutros corpos, reinventando o teu rosto noutros rostos. Tu és todas, tu és nenhuma, tu és só uma. O teu nome é Pandora e eu sou aquele que te procura.1 Cláudia representa, assim, a primeira mulher, criada por Hefesto e Atena, com a ajuda de todos os outros deuses, por incumbência de Zeus, que com ela quis punir a raça humana, a quem Prometeu tinha dado o fogo divino2. Hesíodo conta que Zeus a envia a Epimeteu, o primeiro homem, que a toma por esposa, sem considerar a advertência de seu irmão Prometeu, que o aconselhara a nunca aceitar um presente de Zeus. Numa versão, Pandora, movida por uma intensa curiosidade, abre a tampa de um vaso que continha todos os males, que se espalharam sobre a humanidade, sem que a esperança, que estava no fundo, pudesse sair. Noutra versão, o vaso conteria tudo de bom e teria sido levado a Epimeteu por Pandora, como presente de núpcias, a mando de Zeus. De qualquer modo, Pandora deixa escapar os bens, que voltam para a morada dos deuses, ficando com a esperança no fundo do vaso. Em qualquer dos casos, Pandora associa-se aos males da humanidade. O seu carácter é multímodo, tendo-lhe cada deus atribuído um dom positivo (a beleza, a graça, a capacidade de persuasão, etc.), mas dando-lhe Hermes a mentira e a astúcia. Deste mito, Manuel Alegre actualiza o poder de desencadear terríveis males, a capacidade de sedução e a ideia de globalidade. Diz o narrador: «O teu nome é Pandora, senhora do acaso. Podes chegar a qualquer momento, abrir o saco dos ventos, desencadear a tempestade, morrer comigo no mar imaginário do amor único» [p. 104]. Neste sentido, Pandora é também a Senhora das Tempestades, que dá título ao mais recente livro de poesia de Manuel Alegre (1998): quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo trazes o terramoto a assombração as conjunções fatais e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo3. Também o amor de Xavier e Cláudia é resultado de uma conjunção astral e Cláudia tem o poder de fazer a terra tremer: «Olá, disseste. E a terra começou a tremer» [p. 9]. A sedução é um atributo importante de Cláudia e está implícita na referência ao filme «Pandora», realizado em 1951 por Albert Lewin, tendo Ava Gardner e James Mason nos principais papéis. O narrador identifica Cláudia com Ava Gardner e identifica-se com James Mason: «Ora sou o corredor de automóveis, ora o toureiro. Pronto a morrer por ti, que és Ava Gardner [...] Mas agora sou James Mason» [p. 103]. A ideia de globalidade está implícita no sentimento de fraternidade que o narrador diz sentir no 1º de Maio a seguir ao 25 de Abril de 1974, estando Cláudia já morta. O narrador diz ver o rosto dela noutros rostos, como se ela representasse também toda a humanidade. A morte de Cláudia entrelaça-se com referências políticas, em especial com a morte, em Espanha, de um general de quem Xavier diz gostar. Trata-se de uma alusão à morte do general Humberto Delgado, ocorrida a 13 de Maio de 1965. As várias alusões e referências políticas fazem crer que a rosa referida no título e em várias partes do texto poderá funcionar também como emblema do Partido Socialista, sendo alguns elementos da sua ideologia objecto de reflexão crítica no texto, e encontrando-se o autor real referido num conjunto de figuras históricas da Resistência, na grande festa de fraternidade que foi o 1º de Maio: «[Xavier] Desfilou um pouco atrás de Mário Soares, Álvaro Cunhal, Salgado Zenha e outras figuras da Resistência. Não se viam os homens de Argel. Alguém estranhou e perguntou a Xavier: Os teus amigos Piteira e Alegre? Já deviam ter chegado» [p. 117]. É preciso observar, no entanto, que o motivo da rosa é muito anterior na escrita de Manuel Alegre. Já em Praça da Canção, de 1965, numa narrativa breve, de cariz autobiográfico, intitulada «Rosas vermelhas», o autor refere a importância que para si detém este símbolo: «Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira de mim mesmo»4. No tom poético da narrativa, é à mãe que se associam as rosas vermelhas que ela coloca numa jarra do quarto do autor, todos os dias 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, data e hora em que Manuel Alegre nasceu. E este sinal de ternura, amor e solidariedade acompanha-o na prisão, no dia 12 de Maio de 1963, em que, da carta já aberta da mãe, que o carcereiro lhe leva, cai a pétala de uma rosa vermelha. A ternura, o amor e a solidariedade são associados ao motivo da rosa, na maior parte das suas inúmeras ocorrências, ao longo da obra de Manuel Alegre. Em Senhora das Tempestades, no poema «A Palavra», a rosa representa algo misterioso e incognoscível, que simboliza tudo de bom que uma palavra pode conter: apetece dizer uma palavra pode ser a incognoscível palavra rosa ou a terrível palavra abracadabra apetece dizer uma palavra lavra lavra. Pode ser a palavra pa pode ser a palavra pala pode ser pode ser apenas a palavra5 Para Maria António Ferreira Horster, o motivo da rosa em Manuel Alegre assinala a influência de Rainer Maria Rilke: «[...] a insistência na reflexão metapoética e, sob este particular, a frequente comparência do símbolo da rosa com o valor de "poema" ou "poesia" deslocam a lírica de Manuel Alegre para territórios muito notoriamente rilkianos»6. Na maior parte da obra de Manuel Alegre a rosa transporta o símbolo da perfeição, que lhe é assinalado no Dictionnaire des Symboles dirigido por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant: Remarquable par sa beauté, sa forme et son parfum, la rose est la fleur symbolique la plus employée en Occident. Elle correspond dans l’ensemble à ce qu’est le lotus en Asie, l’un et l’autre étant très proches du symbole de la roue. L’aspect le plus géneral de ce symbolisme floral est celui de la manifestation, issue des eaux primordiales, au-dessus desquelles elle s’élève et s’épanouit. Cet aspect n’est d’ailleurs pas étranger à l’Inde, où la rose cosmique Triparasundari sert de référence à la beauté de la Mère divine. Elle désigne une perfection achevée, un accomplissement sans défaut. Comme on le vera, elle symbolise la coupe de vie, l’âme, le coeur, l’amour. On peut la contempler comme un mandala et la considérer comme un centre mystique7. A referência à rosa já aparece numa epígrafe de A Terceira Rosa, que reproduz alguns versos do poeta americano William Carlos Williams (1883-1963): we must come to the end of striving to re-establish the image the image of the rose [p. 7] O restabelecimento da imagem da rosa está, assim, associado ao empenhamento profundo do ser, referido ao conhecimento do amor e da mulher, mas também ao empenhamento social e até mesmo político. O desejo de manter uma relação de proximidade com a mulher, apesar da sua situação ambígua, é sugerido na primeira epígrafe, tradução francesa dos Cantiques de la Belle Dame, de um poeta russo, Alexander Alexandrovich Blok (1880-1921): «Tu es là. Tu es proche. Tu n’es pas là. Tu es très loin» [p. 7]. Eduardo Prado Coelho, a propósito de A Terceira Rosa, diz acertadamente que «Todo o livro é elaborado em torno dos paradoxos da proximidade e da distância»8. O empenhamento social e político é sugerido ao longo de A Terceira Rosa, sobretudo na sua segunda metade, com as referências ao facto de a família de Cláudia ser «da Situação», enquanto a de Xavier é da oposição ao regime político. A oposição ideológica entre as duas famílias é também um motivo do desencontro entre os protagonistas. O título de A Terceira Rosa remete-nos para um conjunto de três poemas sobre rosas que se encontram referidos no texto, numa mensagem escrita por Cláudia para Xavier. A Primeira Rosa é a do poeta francês Pierre de Ronsard (1524-1585) e o verso citado pertence à sua «Ode à Cassandre»9, publicada em Maio de 1553: Qui ce matin avait déclose Sa robe de pourpre au soleil A point perdu cette vêprée Les plis de sa robe pourprée, Et son teint au vôtre pareil. Las! voyez comme en peu d’espace, Mignonne, elle a dessus la place Las, las, ses beautés laissé choir! O vraiment marâtre Nature, Puisqu’une telle fleur ne dure Que du matin jusques au soir! Donc, si vous me croyez, mignonne, Tandis que votre âge fleuronne En sa plus verte nouveauté, Cueillez, cueillez votre jeunesse: Comme à cette fleur, la vieillesse Fera ternir votre beauté. Vinculando-se a uma longa tradição literária que já vem da Antiguidade, Ronsard utiliza o motivo da rosa para representar a fugacidade do tempo, a precariedade da beleza e da vida, para incitar a destinatária a fruir o tempo presente, segundo o ensinamento do carpe diem horaciano. A rosa é particularmente expressiva nesse contexto, como refere Fernando de Herrero a propósito da elegia anónima «De rosis nascentibus», atribuída a Ausónio, que desenvolve o mesmo tema: [...] considerando la figura, suavidad, olor, color, lustre, blandura y belleza de la Rosa, hermosísima entre las otras flores, y que su ser no dura más que el curso de un día; conoció, que ésta le daría palabras deleitosas, bellas y escogidas, cuales pretende el poeta. Porque como ninguna flor hay más amable, ninguna más agradable de olor, y así ninguna dura menos, no se podía hallar otra más conveniente para el sujeto. Y con artificiosa y figurada descripción, y con suave número de versos gastó toda la elegía en la poco durable y casi momentánea vida de la Rosa. Y hablando de ella se deja entender que trata de la fragilidad y flaqueza humana, aunque no da muestra de ella sino en el verso postrero10. Também a rosa de Ronsard acentua a fragilidade e a fraqueza humanas, a beleza efémera da flor e da mulher. E a rosa de Manuel Alegre lembra também a efemeridade do amor. A Segunda Rosa da obra em análise de Manuel Alegre refere-se ao poema «To the rose upon the rood of time», publicado em 1893 no livro intitulado The Rose pelo poeta irlandês William Butler Yeats (1865-1939): Come near me, while I sing the ancient ways: Chuchulain battling with the bitter tide; The Druid, grey, wood-nurtured, quiet-eyed, Who cast round Fergus dreams, and ruin untold; And thine own sadness, whereof of stars, grown old In dancing silver-sandalled on the sea, Sing in their high and lonely melody. Come near, that no more blinded by man’s fate, I find under the boughs of love and hate, In all poor foolish things that live a day, Eternal beauty wandering on her way. Come near, come near, come near - Ah, leave me still A little space for the rose - breath to fill! Lest I no more hear common things that crave; The weak worm hiding down in its small cave, The field-mouse running by me in the grass, And heavy mortal hopes that toil and pass; But seek alone to hear the strange things said By God to the bright hearts of those long dead, And learn to chaunt a tongue men do not know. Come near; I would, before my time to go, Sing of old Eire and the ancient ways: Red Rose, proud Rose, sad Rose of all my days11. A tristeza associada à rosa de W. B. Yeats deve-se à insatisfação com o tempo presente e ao desejo de cantar as tradições da Irlanda. O poeta dirige-se à rosa, incitando-a a aproximar-se, para testemunhar a estreita relação que ele deseja estabelecer com a Natureza e com Deus. Diferentemente do poema de Ronsard, as coisas simples que vivem apenas um dia são depositárias de uma eterna beleza errante: «In all poor foolish things that live a day, / Eternal beauty wandering on her way». A urgência do canto vai de par com a sugestão da proximidade da morte. A Terceira Rosa de Manuel Alegre refere-se a um poema do poeta americano Edward Estlin Cummings (1894-1962): one. It will not be a pansy heaven nor a fragile heaven of lilies-of-the-valley but it will be a heaven of blackred roses my father will be (deep like a rose tall like a rose) standing near my swaying over her (silent) with eyes which are really petals and see nothing with the face of a poet really which is a flower and not a face with hands which whisper This is my beloved my (suddenly in sunlight he will bow, & the whole garden will bow)12 Neste poema modernista de E. E. Cummings, diz-se que o céu da mãe não será de amores-perfeitos nem de lírios do campo, os quais estão conotados com fragilidade. Será um céu de rosas vermelho-negro, de cores fortes e de qualidades também fortes. Daí a comparação: o pai é profundo como uma rosa e alto como uma rosa. A rosa é a flor da excelência. A metáfora da flor continua na configuração do poeta, voltado para a mãe com olhos que são realmente pétalas e com uma face que é também uma flor. Todo o jardim se inclinará, seguindo os movimentos do poeta e do seu pai. Já nos poemas de Ronsard e de Yeats as rosas eram vermelhas, de acordo com a predilecção de Manuel Alegre. Aqui é a cor irreal que marca a força da posição do poeta. Esta rosa em que se mesclam os tons fortes do vermelho e do negro é a mesma flor com que Cláudia esperava Xavier antes da missa, na varanda da casa da tia Filipa, querendo a flor significar um sim, isto é, que Cláudia continuava a gostar dele. No poema de Cummings são importantes as referências à mãe e ao pai, tal como o são n’A Terceira Rosa. A mãe e o pai de Xavier pronunciam-se sobre a paixão de Xavier e de Cláudia. Para Rosário, a mãe, a paixão existe «desde sempre». O pai alerta-o para a permanência da paixão, mesmo no período do seu desgaste: «- Tem cuidado, disse Afonso Furtado, a paixão é passageira, mas depois fica. Passa e não passa» [p. 45]. Também a referência à mãe de Cláudia é importante, para a configuração da filha. Tal como a sua mãe, Cláudia representa na obra um mistério: nunca se dá totalmente; é um elemento indecifrável. Este mistério é associado ao facto de a mãe ter morrido quando ela nasceu. Ela é ela e ao mesmo tempo a mãe. Num dos fragmentos de comunicação directa em segunda pessoa, entre parênteses, o narrador diz-lhe: «sempre foste um mistério dentro do mistério» [p. 131]. A proximidade entre o narrador e Cláudia encontra-se bem marcada nos parênteses, que instituem uma comunicação directa entre o eu e o tu, com a utilização da segunda pessoa do singular. Os parênteses são utilizados de uma forma muito pessoal, encontrando-se alguns que se abrem num capítulo e só se fecham daí a alguns capítulos, como acontece entre os capítulos 14 e 17. Os capítulos intermédios desenvolvem todos a comunicação directa entre o eu e o tu. Assim se conjuga a referência aos eventos passados e a insistência no valor do presente, em que Xavier procura Cláudia nos vários elementos espaciais, directa ou indirectamente implicados com o passado. A Terceira Rosa é também uma obra sobre o amor. O carácter sagrado do amor é evidente, nas várias referências à missa, em que Xavier sentia nos olhos de Cáudia «uma espécie de milagre» [p. 12]. Depois da fé perdida, Cláudia é para ele o próprio Deus. O amor é «graça», «alquimia», «uma liturgia de sagração e encantamento» [p. 33], «uma qualquer fatídica ou benéfica conjunção astral. Era assim: ela e só ela, como a outra metade de si mesmo» [p. 11]. O amor subverte a vivência do tempo: é «uma plenitude, um tempo devagar, um esplendor. [...] Plenitude, essa breve, tão breve eternidade» [p. 17]. Mas à paixão é também associado um conjunto de qualidades positivas (simbolizadas pela rosa) e de qualidades negativas (representadas pelo veneno da cicuta): O que sei, mas isso outros o dirão muito melhor, é que a paixão é uma festa e um veneno, rosa e cicuta, rima com puta, agora sim, palavra certa para tanto fogo e tanta mágoa. Com a paixão se vive e se desvive, durante anos assim foi, vivia para ela e por ela desvivia, não podia viver com ela, sem ela não viveria [p. 83]. Vida e morte ao mesmo tempo, a paixão é iconograficamente representada pela rosa vermelho-negro, cores que simbolizam estes sinais contrários. O número três é o número da perfeição, da totalidade, como é referido em vários dicionários de símbolos13, mas não nos podemos esquecer de que ele inclui os números um e dois. Neste sentido, as rosas de Ronsard e de Yeats, juntamente com a de Cummings, detêm uma importante relação intertextual com o texto de Manuel Alegre, representando todas facetas diferentes de uma complexa vivência do amor e da paixão.
Notas 1. MANUEL ALEGRE, A Terceira Rosa, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1998, p. 135. Daqui para diante, nas referências a esta obra a paginação será indicada no corpo do trabalho. 2. Cf. PIERRE GRIMAL, Dicionário da Mitologia Grega e Romana, tradução do original francês por Victor Jabouille, Lisboa, Difel Difusão Editorial, [s.d.], pp. 353-354. 3. MANUEL ALEGRE, Senhora das Tempestades, prefácio de Vítor Aguiar e Silva, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1998, p. 25. 4. MANUEL ALEGRE, 30 Anos de Poesia, prefácio de Eduardo Lourenço, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1995, p. 31. 5. MANUEL ALEGRE, A Senhora das Tempestades, ed. cit., p. 71. 6. MARIA ANTÓNIO FERREIRA HORSTER, "«L'important c'est la rose» - uma leitura de Rilke nos nossos anos 60 e 70", Runa: Revista Portuguesa de Estudos Germanísticos 20 (2/1993), p. 164. 7. JEAN CHEVALIER et ALAIN GHEERBRANT (eds.), Dictionnaire des Symboles: Mythes, rêves, coutumes, gestes, formes, figures, couleurs, nombres, réalisation Marion Berlewi, Paris, Ed. Seghers et Ed. Jupiter, 1974, pp. 112-113 [1e. édition: 1969]. 8. EDUARDO PRADO COELHO, "Nós somos de outro azul", Público, suplemento Leituras, 13 de Fevereiro de 1999, p. 8. 9. RONSARD, Poésies Choisies, Volume I (1545-1560), avec une notice biographique [...] par Paul Maury, Paris, Librairie Larousse, [s.d.], 2 vols., p. 39. 10. ANTONIO GALLEGO MORELL (ed.), Garcilaso de la Vega y sus Comentaristas, Madrid, Editorial Gredos, 1972, 2ª ed., p. 370. 11. W. B. YEATS, Uma Antologia, selecção e tradução de José Agostinho Baptista, Lisboa, Assírio & Alvim, 1996, pp. 8-11. Transcrevo a expressiva tradução de José Agostinho Baptista: Rosa vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias! Aproxima-te, vem até mim, enquanto de outrora os tempos canto: O de Cuchulain, em luta com a maré inclemente; O do Druida sombrio, filho dos bosques, de olhos calmos, Esse que alimentou os sonhos de Fergus e a indizível ruína; É a tua tristeza o que antiquíssimas estrelas Dançando com sandálias de prata sobre o mar, Cantam em sua alta e solitária melodia. Aproxima-te pois, agora que já não me cega o destino do homem, E posso encontrar sob os ramos do amor e do ódio, E nas mais simples coisas que vivem apenas um dia, A eterna beleza errante, errando ainda. Aproxima-te, vem até mim, vem - Ah, deixa-me algum espaço Que de seu hálito a rosa encha! Que não seja eu quem não ouve o que implora; O verme indefeso e oculto em seu pequeno esconderijo, A ratazana que entre as ervas de mim foge, E a terrível esperança mortal que labuta e morre; Que seja eu quem ouve as estranhas coisas ditas Por Deus aos luminosos corações dos mortos antigos, E aprende essa língua que os homens ignoram. Vem até mim; antes de partir queria o Velho Eire cantar e cantar de outrora os tempos: Rosa vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias. 12. E. E. CUMMINGS, Collected Poems, New York, Harcourt, Brace and Company, 1938, 2ª ed., poema 218. 13. No dicionário de símbolos já citado, diz-se: «Trois est universellement un nombre fondamental. Il exprime un ordre intellectuel et spirituel, en Dieu, dans le cosmos ou dans l'homme. Il synthétise la tri-unité de l'être vivant ou il résulte de la conjonction de 1 et de 2, produit en ce cas de l'Union du Ciel et de la Terre. [...] 3, disent les Chinois, est un nombre parfait (tch'eng), l'expression de la totalité, de l'achèvement: il ne peut y être ajouté. C'est l'achèvement de la manifestation: l'homme, fils du Ciel et de la Terre, complète la Grande Triade. C'est d'ailleurs, pour les Chrétiens, l'achèvement de l'Unité divine: Dieu est Un en trois Personnes» (JEAN CHEVALIER et ALAIN GHEERBRANT (eds.), Dictionnaire des Symboles, ed. cit., p. 333). |