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A leitura da literatura no ensino médio no distrito federal
A descrição do contexto de ensino de literatura no df sob o enfoque dos alunos

 
Ana Regina Gomes
Departamento de Teoria Literária e Literaturas - TEL,
Instituto de Letras - IL, Universidade de Brasília - UnB

Vou apresentar, neste momento, o produto parcial do projeto de pesquisa A Leitura da Literatura no Ensino Médio do DF, que se desenvolveu, durante 2 anos, na Universidade de Brasília, na perspectiva de integrar pesquisa, ensino e extensão. Todos sabemos serem essas as atividades-fim de qualquer instituição de ensino superior, mas, na prática, aparecem desvinculadas, com objetivos estanques e, se alguma relação entre eles pode ser estabelecida, essa ocorre em nível teórico, desvinculada, portanto, da prática acadêmica. Por isso, a atividade que passa a ser relatada teve o propósito maior de evidenciar ser possível e necessária a integração do ensino com a pesquisa e dessas duas com a extensão.

Sendo objetivo principal de nosso projeto de pesquisa investigar como está o ensino da literatura nas escolas de ensino médio do Distrito Federal, interligado à questão tão problemática da leitura dentro e fora de sala de aula, e sabendo, por pesquisas de vários estudiosos e pela própria vivência da realidade educacional brasileira, que o ensino de literatura não se tem mostrado eficaz e prazeroso tanto para alunos como para professores, faz-se necessário caracterizar, por amostragem, o contexto de ensino de literatura no DF sob o enfoque dos alunos.

Para isso, desenvolvemos e aplicamos instrumentos de coleta de dados a 144 alunos do ensino médio do DF, principalmente de instituições públicas, de forma que, por tal instrumento, pudesse se descrever mais concretamente tal contexto, abordando questões relacionadas à leitura, à escrita e ao ensino.

A partir dos questionários, constatamos que, contrariamente ao senso comum difundido nos bastidores escolares, a grande maioria dos alunos declarou que gosta de ler (82%) e de escrever (81%). Essa constatação foi excelente, pois os dados demonstram que os alunos não são contrários ou resistentes à leitura e à escrita.

Porém grande maioria declara que não gosta da forma como a literatura é apresentada na escola. E esse seria o ponto-chave de toda a discussão da crise da leitura – e, conseqüentemente, da literatura – na escola e fora dela. De acordo com a tese de Lilian Lopes Martin da Silva1, a escola, ao invés de formar leitores e de incentivar a leitura, por intermédio de seus professores e métodos, age exatamente em sentido contrário, matando todo o potencial de leitura do mundo e da palavra que as crianças trazem para o contexto escolar – como defende Paulo Freire2. A prática de imposição de "o que ler" e "como ler" que os professores insistem em perpetuar inibe o aluno e, aos poucos, destrói o prazer natural da leitura. Associado à essa prática, o direcionamento da leitura/interpretação, representado pelas comuns fichas de leitura ou pelas perguntas superficiais do livro didático, acaba com o que há de mais proveitoso no ambiente escolar: o crescimento intelectual de cada um a partir da discussão das várias interpretações, pois os significados são preestabelecidos de modo que ocorra a homogeneização e o enquadramento de consciências, como observa Ezequiel Theodoro da Silva3.

Os motivos pelos quais cerca de 18% dos informantes não gostam de ler são porque acham que a TV e o cinema são mais interessantes e porque os livros adotados na escola e direcionados aos jovens são chatos e entediantes (depoimentos literais dos estudantes do ensino médio). Percebemos que as duas respostas caminham juntas, pois os meios de comunicação visual são, por natureza, mais atrativos e mais fáceis de se compreender, não exigem tanto esforço intelectual e, sendo os livros sugeridos pelo professor chatos, desinteressantes, os alunos não vão gostar de ler mesmo. As demais respostas obtidas com relação ao desprazer da leitura também estão intimamente relacionadas. Estando inseridos no mundo das comunicações, caracteristicamente influenciadas pelo aspecto visual e pela praticidade e facilidade, e julgando os livros entediantes, os alunos não querem um exercício intelectual mais aprimorado, que requeira maior esforço. Assim, dão como motivos a linguagem difícil dos livros e fora da realidade dos jovens, a preferência por assistir a uma notícia ou história na TV ao invés de ler um jornal ou romance – o que realça a interferência oral/visual – e o simples fato de terem preguiça. São fatores fortes que dão mais desprivilégio ao ato de ler e com os quais os professores precisam trabalhar habilmente para reverter a situação e tornar tais fatores favoráveis à prática da leitura. Um trabalho conjunto entre leitura escrita e visual pode surtir bons resultados.

Com relação ao desprazer da escrita, principalmente como ela é proposta no ambiente escolar, os estudantes apontaram como principais causas a falta de assunto e o fato de terem preguiça, porque toma muito tempo. Assim, uma das possíveis alternativas do professor, já que no geral há o gosto pela escrita, seria discutir temas e trabalhar na sala assuntos interessantes para que o aluno desenvolva seu texto escrito no espaço de tempo da aula, produzindo-se, primeiramente, textos curtos (que exigem menos tempo) para se chegar, posteriormente, aos mais elaborados. Essa prática deveria ocorrer com freqüência na escola, pois o local de escrita, apontado como de maior freqüência, foi a escola. Se na sala de aula não for desenvolvido de maneira prazerosa esse hábito de escrever, os jovens não irão escrever nem na escola, nem em casa, tampouco em outros locais. É tarefa da escola cultivar o gosto pela escrita, que já é natural nos estudantes.

Quando interrogados acerca de quais locais de leitura são os prediletos ou mais comuns, a grande maioria respondeu que lê mais em casa. Intimamente relacionado à preferência pelo ambiente familiar para a leitura, os alunos do DF declararam que seus pais, em maioria, gostam de ler. As respostas dadas comprovam a tese de estudiosos atinente ao fato de os alunos gostarem de ler ser conseqüência da influência familiar no hábito da leitura. Podemos inferir, pelos dados, que o exemplo e o incentivo familiar, principalmente dos pais, refletem no gosto e no bom rendimento da leitura das crianças e dos jovens.

Com relação aos benefícios da leitura, quase todos reconhecem seu valor. Ficar bem-informado, desenvolver a criatividade e aumentar o repertório nas conversas com os amigos foram os principais benefícios apontados pelos estudantes do ensino médio da capital do país, sendo que apenas 3,5% dos consultados não vêem benefício algum na leitura.

Quando interrogados sobre a importância do estudo da literatura nas escolas quase ninguém julgou sê-lo desnecessário, sendo que a maior parte dos entrevistados respondeu que é importante porque a literatura permite conhecer a nossa própria cultura e também a de outros povos. Outras respostas que se fizeram presentes foram: literatura faz parte da vivência humana, ajuda a desenvolver a leitura e, felizmente, poucos responderam que é importante porque o vestibular exige. Podemos perceber que os alunos do DF estão mais conscientes do porquê de se estudarem obras literárias (não apenas características das escolas literárias, como normalmente é feito no ensino médio), o que é um bom sinal.

Embora os alunos tenham se mostrado conscientes da importância da literatura, ao se perguntar se julgavam necessário conhecer a vida do autor para entender sua obra, mostraram-se ainda muito incipientes. Mais de 60% das respostas foram no sentido da necessidade da informação biográfica para a compreensão da obra. No entanto a biografia do escritor aponta apenas para a conveniência dessa aproximação, não para a imprescindibilidade dos conhecimentos biográficos ao entendimento dos textos.

Constatou-se que as leituras informativas, ou seja, as não-literárias – como: jornal, revistas (as mais citadas foram: Isto É, Veja e Capricho), quadrinhos etc. – constituem a maior preferência de leitura dos alunos entrevistados. A respeito das leituras literárias, os alunos apontaram romances, poemas, contos e crônicas, nesta seqüência de preferência. Pelos dados, podemos destacar duas observações: a primeira é que, devido à grande influência dos veículos de comunicação, os jovens preferem as leituras jornalísticas; a segunda é que as crônicas e os contos, apesar de não ser um trabalho difícil de ser realizado em sala de aula, pela temática e pela própria extensão dos textos, ainda continuam marginalizados e quase esquecidos pela escola, não estimulando, assim, a preferência dos alunos.

Com relação à leitura de poemas, 70% dos alunos não os lêem com freqüência. Isso é a grande prova da marginalidade da leitura e do trabalho com poesia na escola, embora seja esse tipo de texto literário perfeitamente adequado ao espaço de sala de aula. É uma leitura densa, um texto inteiro, curto e pode ser analisado na íntegra e com eficiência. Ao invés de dar tanta prioridade às leituras informativas (revistas, jornais etc.), a escola precisa resgatar o espaço da poesia, assim como o do conto e da crônica. Com referência aos motivos pelos quais os alunos não gostam dos poemas, constata-se que a maioria dos estudantes associa "melosidade" à poesia, ignorando a existência de textos dessa natureza que têm cunho social ou referencial, desprovidos do que chamam de pieguices. Com respeito à dificuldade da linguagem, devido ao caráter de densidade da comunicação literária, justifica-se pela falta de contato sistemático com poemas, em detrimento a outras formas de textos.

Outra constatação importante para se chegar ao perfil do aluno do ensino médio do DF foi a revelação de que se detêm à mensagem, nos poemas, e à fábula, nas narrativas. Por estes dados, infelizmente, evidencia-se que os alunos estão em um nível rudimentar de leitura, detendo-se apenas na "historinha" transmitida. Nota-se que a maioria dos estudantes, apesar de estarem no ensino médio, ainda fazem uma leitura primária, superficial, não aprofundando o nível de leitura. Ainda não compreenderam que a mensagem escrita apresenta uma possibilidade para a reflexão, questionamento e recriação do real, como bem ressalta Ezequiel Theodoro da Silva4.

Foi surpreendente observar que mais da metade dos alunos (54%) responderam que estudam gramática a partir de contos, romances e poemas, ou seja, fazem do texto literário um pretexto ao estudo gramatical. E é exatamente isso o que não deve ocorrer no ensino. Tendo a literatura a permissividade de ser o desvio das normas gramaticais, estudar gramática usando por exemplo esse tipo de texto é um erro duplo, pois, como bem defende Marisa Lajolo5, o texto não é e nem deve ser pretexto. O texto literário deve ser analisado por si mesmo, observando-se sua principal característica: ser objeto artístico.

É fato que os jovens do ensino médio gostam de ler, contudo, por grande influência dos meios de comunicação visual, tão presentes na vida moderna, preferem as leituras informativas. O que provavelmente tem ocorrido é a ineficiência das práticas de leituras propostas pela escola, com a presença de metodologias que, paulatinamente, aniquilam o potencial da leitura dos jovens, ocasionando um nível rudimentar de leitura dos alunos, que se detêm apenas na "historinha" transmitida. A partir desse perfil, chegamos à conclusão de que os estudantes ainda não se conscientizaram do caráter libertador do ato de ler, de que, nas palavras de Ezequiel Theodoro da Silva6, "o exercício de sua consciência sobre o material escrito não visa o simples reter, memorizar ou reproduzir literalmente o conteúdo da mensagem indiciada pelos caracteres escritos mas principalmente o compreender e o criticar." E isso é muito sério, pois metodologias falhas podem causar o efeito exatamente contrário: o desprazer da leitura e a resistência a ela.

Pelos aspectos negativos detectados, as reflexões que fazemos são no sentido de a escola atentar-se para o fato de que a TV, o cinema e agora a Internet estão atraindo mais os jovens e que ela precisa propor metodologias de leitura mais interessantes, que facilitem a discussão e a apreciação dos significados do texto (não apenas os superficiais), cruzando as interpretações dos alunos. Estudar literatura não deve ser apenas estudar escolas literárias, tampouco se deve usar o texto literário como objeto do estudo gramatical; há a necessidade urgente de priorizar o caráter artístico do texto literário. Por outro lado, a comprovação de que o exemplo familiar é muito importante ao prazer da leitura vem fortalecer o papel também dos pais nessa tarefa do estímulo de ler, pois o hábito da leitura começa quando criança e em casa.


Notas

1. Silva, Lilian Lopes Martin. Leitura escolarizada – a didática da destruição da leitura. Campinas: FE Unicamp. Tese de Mestrado não-publicada, 1984.

2. Freire, Paulo. A importância do Ato de Ler. São Paulo: Cortez e Aut. Associados, 1985.

3. Silva, Ezequiel Theodoro da. Leitura na escola e na biblioteca. Campinas, São Paulo: Papirus, 1986.

4. Silva, Ezequiel Theodoro da. Leitura na escola e na biblioteca. Campinas, São Paulo: Papirus, 1986.

5. Lajolo, Marisa. "O texto não é pretexto". In: Zilberman, Regina (org.) Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 11.ͺ ed., Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993, p. 51-62.

6. Silva, Ezequiel Theodoro da. Leitura na escola e na biblioteca. Campinas, São Paulo: Papirus, 1986, p. 52.