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As imagens da cidade na poesia de cesário verde

 
Cátia Monteiro Wankler

Uma cidade é, antes de tudo – diz-nos Kevin Linch1 - um ambiente físico, uma "unidade funcional", uma construção, no sentido arquitetônico do termo, composta de alguns elementos fixos, como as edificações, e outros móveis, como os homens, por exemplo.

Desde os antigos gregos e sua idéia de pólis que a cidade é o grande foco da vida intelectual e política, dos grandes debates, dos quais se originam movimentos culturais e sociais. É nas cidades que primeiro circulam novas informações, notícias inéditas e as novas tendências estéticas e filosóficas. Isto porque a cidade é o ambiente em que se encontram diferentes pessoas (e grupos), oriundas de diferentes lugares, portadoras de idéias e visões de mundo também diferentes.

Embora "a cidade" possa ser tratada, a princípio, genericamente, cada cidade tem suas particularidades, assim como cada época concebe a sua noção de cidade. A propósito disto, Linch2 afirma que a cidade possui uma "imagem pública" que se forma a partir da sobreposição das imagens criadas por vários indivíduos, sendo que cada um tem uma imagem própria e única da cidade. Para Malcolm Bradbury, a grande cidade exerce sobre o homem um "poder de atração e repulsão"3 que tem servido freqüentemente de tema para a literatura, cujo olhar vai desconstruir o espaço urbano para concebê-lo de uma maneira própria e particularizada, ordenando-o, limitando-o ou expandindo-o, para então reconstruí-lo como imagem através da linguagem.

É este o nosso assunto: as imagens da cidade a partir da poesia de Cesário Verde, passando por uma visão mais geral para então chegar a Portugal e a Lisboa, cidade observada nos poemas de Cesário.

O século XIX, historicamente, é portador de grandes mudanças, no campo intelectual, social e tecnológico. A dissolução das relações de produção ainda baseadas num modelo feudal e a Revolução Industrial de 1850 deslocam cada vez mais gente do ambiente rural para os espaços urbanos. A cidade é então o lugar primordialmente ocupado pela burguesia, que passa a ser responsável por praticamente toda sua atividade econômica, investindo, inclusive, em arte. Daí, estabelece-se uma ligação "logística" entre literatura e cidade, onde se concentravam bibliotecas, livrarias, editoras, revistas, museus etc.4 É exigência para a arte permanecer na cidade.

A literatura surgida a partir de meados do século XIX é tipicamente citadina. Isso já começa a ser percebido com o romance romântico, que, por se deter no modelo de vida burguês, tende a se concentrar mais nos espaços urbanos, mas sem perder de vista a concepção de que o campo é o lugar ideal, que concentra uma forma idílica de pureza original. Talvez pelos mesmos motivos que fizeram com que os românticos "guardassem" o desejo do campo, os realistas do fim do século XIX se afastaram cada vez mais dele, concentrando sua atenção primordialmente na vida da cidade.

É Baudelaire, no entanto, quem funda uma poesia voltada para a cidade e oriunda dela, escrevendo sobre a Paris do Segundo Império5, uma cidade grandiosa, planejada, urbanizada, centro da produção intelectual e cultural e pólo irradiador de idéias na época. A face da Paris que revela é caótica e opressora, apresenta claramente aquele caráter dicotômico que aponta para a atração e a repulsa. O olhar da poesia volta-se para o submundo, para a miséria humana: a mulher é a prostituta, as imagens são carregadas em cores fortes, sombras e detalhes, produzindo estranhamento, choque, horror e, ao mesmo tempo, fascínio. A cidade baudelairiana é também a da solidão, ou, como coloca Hyde6, baseia-se na "descoberta de que as multidões significam solidão".

Ainda segundo Hyde, é essa imagem de cidade produzida por Baudelaire que vai, de certa forma, influenciar toda a poesia produzida depois dele, sem que, contudo, nenhum consiga igualar-se-lhe neste sentido. O mais importante aqui é que poetas, ou talvez fosse melhor dizer que escritores das mais diferentes procedências escreveram sobre cidades e que, de fato, Baudelaire teve um papel primordial neste sentido.

Se Baudelaire escreveu sobre a grandiosa Paris, Cesário Verde escreveu sobre a provinciana Lisboa da segunda metade do século XIX. Esse foi o momento de agravamento da crise portuguesa iniciada já nos fins do século XVI devido ao processo de decadência econômica do país, que não acompanhou a evolução dos meios de produção e comércio do resto da Europa.

A época de Cesário Verde também é marcada pelo forte abatimento moral do povo português diante desta situação econômica e do enfraquecimento progressivo de sua nobreza e, portanto, de seu governo. O país estava à mercê dos ingleses há quase meio século, desde a fuga de D. João VI e da Família Real para o Brasil em 1806/1807.

A pequena burguesia rural entrava em falência e emigrava para as colônias, sobretudo para o Brasil, e aquela população da cidade cuja sobrevivência provinha do trabalho industrial estava cada vez mais miserável, pois a mecanização da produção, crescente na maior parte da Europa, em Portugal só conhecia arremedos. Este quadro persistiu e se agravou com a consolidação do liberalismo no país, embora as instituições parlamentares estivessem funcionando de modo operacional e a comunicação com o exterior fosse cada vez mais intensa.

Nesse ambiente, a chamada "Geração de 70", na qual, apenas cronologicamente, Cesário Verde se inclui, promovia alguma "agitação cultural", mas sempre, e ainda, "bebendo nas fontes" dos ingleses, alemães e, sobretudo, dos franceses. Politicamente, contudo, sua atividade era bem mais intensa e autônoma, chegando mesmo a haver debates públicos pela imprensa e proibições de suas atividades, como foi o caso das Conferências Democráticas do Casino, que pretendiam discutir a sociedade, a política e, principalmente, novos rumos da literatura nacional.

Embora Cesário Verde tenha permanecido meio que à margem desses processos, não ficou alheio à atmosfera ao seu redor, produzindo uma poesia cujo percurso se iniciou com um lirismo ingênuo e adolescente e evoluiu, rapidamente, mudando de tom e tratando de questões cada vez mais vinculadas à realidade de seu tempo e de seu país. Durante os 31 anos de sua vida, Cesário nasceu e viveu em Lisboa. Tendo levado uma vida simples de pequeno comerciante, o poeta viu, ouviu e sentiu bem de perto o dia-a-dia da capital, o que acabou se refletindo em sua poesia.

O livro de Cesário Verde, coletânea de poemas organizada pelo melhor amigo do autor, Silva Pinto, e publicada postumamente, divide-se em três séries de poemas: "Crise romanesca"(CR), "Naturais"(N) e "Poemas dispersos"(PD). De cada um deles, destacamos alguns textos marcados por imagens de cidade.

Começamos com Deslumbramentos (CR) e Esplêndida (PD) que, próximos ambos de A uma passante, de Baudelaire, apresentam uma mulher tipicamente urbana, uma transeunte (a milady): bela, solene, de olhar ardente, misturando o angelical e o demoníaco. Ela é cosmopolita, fria, altiva, diplomática e fascinante, uma "flor do luxo", cercada de conforto. É uma mulher dotada de um certo nível de intangibilidade, na medida em que possui um estatuto de superioridade em relação ao sujeito poético, chegando a despertar desejos e sentimento de vingança dos "povos humilhados", incluindo-se aí o eu do poema, por tudo aquilo que aquela figura representa

Humilhações (CR) aborda a questão das desigualdades sociais, contrapondo dois ambientes tipicamente urbanos: o interior de um teatro e a movimentação na parte de fora em dia de apresentação. O primeiro manifesta a frivolidade das pessoas envolvidas pela sofisticação dos salões e camarotes do teatro; o segundo descreve uma cena de miséria, em que uma espécie de guarda municipal espanca o povo pobre que ronda o local enquanto uma velhinha imunda e maltrapilha pede cigarros.

Como Humilhações, Contrariedades (N) destaca a miséria urbana através da figura de uma engomadeira tísica, contemplada pelo eu do poema num momento de irritabilidade em que ataca o mundo moderno, o cientificismo e a impessoalidade da própria arte, sujeitada a fatores econômicos. A engomadeira aparece, ao mesmo tempo, como um indicativo da fraqueza da sociedade apodrecida e como foco de resistência a essa mesma sociedade, na medida em que, apesar de tudo, "insiste" em manter-se viva.

Em Num bairro moderno (N), numa situação cotidiana, de alguém que caminha em direção ao seu emprego, o eu do poema observa as desigualdades sociais, através da contemplação das "casas apalaçadas", que "ferem as vistas", e uma espécie de feira-livre, onde vê uma feia e maltratada vendedora de hortaliças. Ele começa a compor aos poucos uma figura humana a partir dos produtos vendidos pela moça e a imagem que resulta disto acaba assumindo uma aparência mais vívida, exuberante e humana que a da própria criatura que as vendia, anulada que está pela situação de miséria.

Noite fechada (N), num tom carregado de lirismo, descreve o passeio romântico de um casal sob a luz do luar e do "gás amarelado" pelas ruas da cidade. Tudo transcorre calma e enlevadamente até que o homem é tomado pelo ímpeto de violentar a moça, num processo quase inexplicável de bestialização, impulsionada pelo próprio ambiente, pela atmosfera "viciada" que respira.

Dedicado a Guerra Junqueiro, O sentimento dum ocidental (N) é considerado o grande poema de Cesário Verde. Ele é dividido em quatro partes que trazem Lisboa do entardecer à madrugada, começando por "Ave Marias", cujo título remete às seis horas da tarde, horário em que as igrejas tocam seus sinos e entoam orações; é quando anoitece, as pessoas vão parando de trabalhar e ocupam as ruas para retornar à casa; o caráter contemplativo aponta para um ambiente soturno e morno do Tejo ao anoitecer. A referência ao rio define a cidade da qual trata o poema.

A Segunda parte, "Noite fechada" marca o "lusco-fusco", o começo da noite, horário do "footing", em que as luzes da cidade se acendem, despertando o sujeito para as misérias e peculiaridades do horário, que imprime um caráter de tristeza a todas as coisas. Na parte seguinte, "Ao gás", a cidade já começa a adormecer e as únicas luzes que permanecem acesas são as do "gás", das ruas. Debaixo desta luz começa a despertar e a emergir o lado baixo da cidade: são as "impuras" que vão saindo na medida em que as "burguesinhas do Catolicismo" se recolhem ao lar. Este talvez seja, no poema, o segmento mais carregado de elementos caracterizadores da grande cidade: hospitais, lojas, padarias, confecções, moda, vitrines, cetins e tecidos estrangeiros, pó de arroz. Através destes elementos são trazidos aos poucos, e mais uma vez, os índices da miséria social e individual, sobretudo nas imagens do "cauteleiro rouco" que "regouga", apontando mais uma vez a bestialização do ser humano, e do velho professor de latim pedindo esmolas numa esquina.

Em "Horas mortas", a cidade vai ficando mais vazia de vida conforme a madrugada se aproxima, pois nas ruas só permanecem os infelizes, miseráveis, catadores de lixo, ou seja, aquelas que seriam uma espécie de "anti-vida". A cidade vai se tornando disforme e cada vez mais opressiva e amarga.

Em petiz (N) e Nós (N) dividem-se ambos em três partes, seguindo o mesmo percurso, de confrontação entre campo e cidade. O primeiro poema começa com uma cena no campo, aflorando depois elementos da vida urbana, que apontam para o mesmo sentido de pobreza e perda da dignidade do elemento humano, culminando com um tom agressivo, ácido, na última parte. No segundo poema, o contraponto está entre a cidade finissecular assolada pela "Febre" e pelo "Cólera", índices, mais uma vez da miséria e da falta de condições mínimas de vida, e o campo, para onde se desloca grande parte da população buscando fugir das enfermidades. O período no campo, de que se ocupa a segunda e maior parte do poema, mostra um tempo de paz e gozo. A terceira parte marca a volta à capital e a "febre", a tuberculose, atacando aqueles que tentaram fugir e imprimindo no sujeito uma sensação de impotência e mesquinhez diante da crueldade daquele mundo.

O que fica marcado, porém, é que o olhar da poesia de Cesário Verde sobre a cidade é o de um observador atento e que a todo o momento revela-se mais próximo dos oprimidos do que dos opressores, pois é nesses termos que a questão se coloca: esta dicotomia fica muito clara, na medida em que contrapõe a feiúra e a beleza associadas à miséria e ao luxo, em que os que "vivem" são aqueles que estão do lado da "frivolidade burguesa", do lado do teatro e não da pedinte, da vendedora de hortaliças ou da engomadeira tísica.

Se o sujeito desses poemas não é o mendigo, não é também o burguês abastado que freqüenta os salões ou percorre as ruas em carruagens; se ele vai ao teatro, sua roupa é surrada e o que fica desse contato é a realidade nua e crua das ruas em cenas de Humilhações. Ao falar da cidade, o espaço físico em si tem pouca importância, a não ser para explicitar os problemas sociais a ele associados. O único destes poemas que se detém na questão física é O sentimento dum ocidental, que, no entanto, é marcado por um componente de crítica social muito forte também. Isto nos revela que a observação da cidade pelo sujeito não se dá no âmbito da mera contemplação, imbricando-se pelos caminhos da crítica e, até mesmo, de um certo "panfletarismo".

Algumas questões sobre a cidade são recorrentes nos poemas de Cesário, como as ruas à noite, a iluminação pública a gás, pedintes, prostitutas, vitrines, artífices de rua - como sapateiros e ferreiros - e, sobretudo, as cenas de vida burguesa. Estas últimas recebem um tratamento "ácido", que imputa à burguesia, de um jeito ou de outro, a responsabilidade pela miséria, pela dor, pela perda da dignidade humana, pela coisificação ou bestialização do homem devido às condições precárias de vida. De qualquer modo, as imagens presentes nos poemas de Cesário são aquelas que compõem um universo de angústia e se enfeixam na imagem que encerra "Horas mortas", quarta e última parte de O sentimento de um ocidental:

Enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar! (p. 103)

A cidade é grande, dura, opressiva demais; ela aprisiona o ser, condenando-o a uma espécie de morte em vida.

Se pensarmos em termos da cidade que serve de objeto aos poemas de Cesário, voltaremos ao já citado provincianismo da Lisboa de seu tempo. Os textos deste poeta demonstram preocupações e angústias muito próximas às dos textos de Baudelaire, cujo objeto era a "capital do mundo ocidental"7. Isto quer dizer, basicamente, que a visão da cidade vai depender sempre de um olhar, como postula Kevin Linch, e que este olhar está sempre subordinado a algumas condições gerais pertinentes a cada ambiente, a cada sociedade, a cada período de tempo.

Se para a poesia de Cesário a Lisboa da segunda metade do século XIX parece tão grande, cruel e opressora quanto a Paris do mesmo período, é porque pretende-se engajada com a realidade imediata que o olhar que a compõe detém. Um olhar que parte de um campo intermediário, como já aludimos anteriormente, que se revolta pelos que estão pior e contra os que estão em melhores condições que seu sujeito.


Referências Bibliográficas

1- BRADBURY, Malcolm e McFARLANE, James. Modernismo: guia geral (1890 - 1930). Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

2- COLÓQUIO LETRAS. Homenagem a Cesário Verde, Lisboa, 93, 152 p., set./1986.

3- LINCH, Kevin. A imagem da cidade. Tradução de Maria Cristina Tavares Afonso. Lisboa: Edições 70, s.d.

4- VERDE, Cesário. O livro de Cesário Verde (seguido de algumas poesias dispersas). Edição revista por Cabral do Nascimento. 10. ed. Lisboa: Editorial Minerva, s.d.


Notas

1. A imagem da cidade. Tradução de Maria Cristina Tavares Afonso. Lisboa: Edições 70, s.d.p.23

2. Ibidem. p.57

3. As cidades do modernismo. In: BRADBURY, Malcolm e McFARLANE, James. Modernismo: guia geral (1890-1930). Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p.77

4. BRADBURY, M. Op. cit. p. 76

5. HYDE, G. M. A poesia da cidade. Ibidem. p. 277

6. Op.cit. p. 275

7. Usamos esta expressão no sentido de que Paris era a cidade culturalmente mais importante do período aqui tratado.