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As modalizações anti-épicas na narrativa portuguesa contemporânea:
José Saramago, António Lobo Antunes e Mário Claúdio

(Artigo desenvolvido a partir do estudo efectuado entre Junho-Setembro de 1998
em Lisboa, graças a uma bolsa de investigação concedida por Instituto Camões)

 
Anna Kalewska
Cátedra de Iberística
da Universidade de Varsóvia

 
»É impossível comemorar Os Lusíadas inocentemente»
Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade

1. Camões - o velho/novo mito cultural português

No dizer de Eduardo Lourenço, »o 25 de Abril vem, aparentemente, destruir as bases de uma mitologia cultural que sustentava o antigo regime», aparecendo a necessidade de »substituir a antiga mitologia cultural do regime por uma contramitologia». Uma contramitologia que era capaz de se inserir na ordem ideológica, cultural e estético-literária. Ou num novo mito cultural, pronto a substituir aquelas referências culturais que eram características do antigo regime. No processo de evacuação da antiga mitologia portuguesa uma alusão óbvia é Camões. »Camões que tem servido, sucessivamente, em cada período de crise portuguesa, como motivo de discussão ou de concentração do projecto cultural português no seu nível mais alto. E cuja epopeia imperial e guerreira foi contrabalançada, ao longo dos séculos da história literária portuguesa, por uma contra-epopeia, representada por grandes personalidades literárias e culturais portuguesas como Fernão Lopes, Fernão Mendes Pinto ou José Saramago e alguns outros escritores portugueses contemporâneos.

Em O Labirinto da Saudade Eduardo Lourenço lembra que »em 1880, o centenário da morte de Camões serviu, não sem sucesso, de máquina de guerra ideológica contra a Monarquia e o conjunto de valores ou de referências a que se identificava ou a identificavam. A reapropriação, ou, seja a releitura do mito camoniano passava-se sempre como reincentivação do mito da Liberdade, do Ocidente e da Pátria. A apropriação pelo presente de uma figura do passado significa também deslocação da sua significação própria no sentido de emprestar forma a existência portuguesa num determinado tempo histórico. No tempo de Teófilo Braga tratou-se, nas celebrações do tricentenário da morte de Camões, da busca »de cobertura enobrecedora» para o combate político. Através do épico investigam-se os interesses reais do povo português, reivindica-se o amor pátrio liberal, romântico, positivista e pré-republicano. A actualização de Camões, operada cem anos depois, na época do pós-25 de Abril, cobriu-se de um manto progressista, democrático, marxista, ironicamente providencialista. Celebrou-se um momento da existência colectiva portuguesa, do povo português, traumatizado pelos sucessos de outros povos e religiões (com preponderância do povo espanhol e da religião muçulmana).

A topologia imaginária camoniana jamais significa unanimismo político forçado, beatitude religiosa, exaltação de heróis reais, porque históricos. As referências anti-épicas (ou uma contra-mitologia camoniana) exprimem, em algum romance português de hoje, uma grande liberdade crítica, exposição de profundos problemas e contradições sociais. Comemorar a obra de envergadura de Os Lusíadas - reflectida em José Saramago, António Lobo Antunes, Mário Claúdio - não se pode fazer duma maneira neutra ou meramente académica. Camões continua a pertencer à mitologia cultural e ideológica portuguesa através da qual existe e subsiste uma realidade vista como politicamente complexa ou mesmo confusa ou convulsa, uma religiosidade popular tão natural e livre quanto possível, uma exaltação de anti-heróis como Domingos Mau-Tempo, sapateiro, o seu filho João, maltos, Vasco da Gama, enfiado numa cela do Governo Civil por fazer batota nos barcos e Barnabé das índias, o grumete de Ucanha, o anti-herói. A evolução de padrões anti-épicos patenteia uma certa consciência cultural e civilizacional, entre a aculturação e independência do processo histórico.

Os romances dos anos 80 e 90 (Levantado do Chão de José Sarmago, As Naus de António Lobo Antunes e Peregrinação de Barnabé das Índias de Mário Cláudio) são estruturados camonianamente no sentido de defender e exaltar a liberdade colectiva e individual. E minam as convenções do género épico, como que confundindo a letra, o estilo e o espírito do tempo..

Muito justamente frisou Eduardo Lourenço que o diálogo com a criação camoniana nunca foi interrompido. Há poetas, mas há também prosadores contemporâneos em cuja imaginação prossegue o diálogo mais fundo com o mistério do tempo quando »(d) aqueles Reis (...) foram dilatando/ A Fé, o Império, e as terras viciosas/ De África e de Ásia andaram devastando» (Os Lusíadas, I, 2, 1-3) e também do seu tempo, prolífero nas mais variadas devastações e despovoamentos.

Aquilo que Eduardo Lourenço chamou de contra-epopeia constitui-se num perpétuo vai-vém entre a mitologia camoniana e a consciência histórica moderna, pondo a primeira a rebours. Com Fernão Lopes, João de Barros e Luís Vaz de Camões surgiu »a autoconsciência nacional» ou »o sentimento pátrio que estrutura e se consubstancia n´Os Lusíadas». É lógico que esta consciência objectiva seja posta em causa em romance contemporâneo, sendo substituída (a nível ontológico e ideológico) por uma nova realidade nacional, portadora de um traumatismo colectivo. É importante, na ordem da reflexão teórica, perscrutar alguns termos forjados a respeito do anti-épico em prosa portuguesa.

A despeito do isolamento intemporal e abstracto, glorioso e eterno do Príncipe dos poetas (lusos) pelos iluministas, românticos e modernistas, Camões - o velho/novo mito cultural português compreende a liberdade política, civil e estética no Portugal de hoje. A tomada de consciência histórico-literária dedicaremos o seguinte capítulo.

2. As modalizações do género épico - aproximação teórica

As modalizações épicas na literatura portuguesa contemporânea têm a sua origem no desafio do discurso épico oficial, ora »institucionalizado» de Os Lusíadas e começam no início da década de 80, com Levantado do Chão (1980) de José Saramago. Helena Kaufman e José Ornelas derivam o impulso anti-épico do Memorial do Convento, da morte de um construtor anónimo do convento de Mafra, »... conceived in the image of another literary figure, the old man of Restelo in Os Lusíadas, who challenges fifteenth-century institutionalized discourse just prior to the departure of Vasco da Gama to India» . Desafiando o discurso camoniano estão sendo escritos alguns romances portugueses cuja estruturação constitui o foco da presente análise. A Levantado do Chão coube o papel pioneiro na representação daquilo que os autores americanos chamaram de »o épico dos sem-voz» (»the epic of the voiceless, those who have been forgotten either by history books or by literary productions»). A antítese do discurso oficial no plano ideológico e da retórica convencional no plano estético absorve também os elementos do código literário realista e pós-modernista. A dissidência e o desafio ao discurso épico pedem a sua análise em termos mais concretos do que a anunciação modernista de um Super-Camões ou Anti-Camões.

As postulações teóricas acerca do género a que chamamos, grosso modo, anti-épico foram levantadas em 1914 por Lukács, que reconheceu as limitações do género, constatando que »a grande literatura épica não é mais do que a utopia concretamente imanente na hora histórica». O historicismo do romance foi completado, dentro da perspectiva sociológica de Lukács, pelas características seguintes:

1. A prosa épica não cria distâncias entre linguagem e conteúdo, revelando imediatamente a trivialidade da realidade social e o sentido contra-ideológico (e também contramitológico),

2. »... O romance procura descobrir e edificar a totalidade secreta da vida», perante o doloroso »apagamento do sujeito e totalidade» e redução (recomposição) genérica inevitável. Esta relativa - ironicamente tratada - totalidade de destinos dos protagonistas anti-épicos garante ao novo género uma base comum aos artefactos antigos e modernos.

3. Os heróis »estão sempre em busca», não conhecendo os seus fins nem caminhos; a aspiração metafísica é abolida em virtude da justificação psicológica dos actos e falas; verifica-se a falta de metafísica, de um Deus, »a ausência de uma pátria transcendental».

4. A experiência subjectiva perdeu a sua autonomia, não passa de projecçăo duma existência sem Absoluto e significação simbólica; o elemento espiritual não existe.

5. A comunidade é a soma de zeros sociais que se metamorfoseiam em milhões pela graça da voz do narrador.

6. O sistema de valores é inacabado e aberto. Acrescentemos que de certa maneira o tempo histórico é aberto pela imaginação do romancista.

A caracterização esboçada segundo Lukács falta-lhe a ordem estética e estrutural do romance pós-moderno. O presente artigo tentará, embora muito em breve, suprir esta falta. Estamos, grosso modo, perante uma forma de continuação da epopéia no romance. Interessar-nos as três obras sugeridas no título, que transformaram o discurso camoniano.

Acrescentemos que as epopeias em prosa dos anos oitenta e noventa nem sempre se libertaram dos arquétipos estruturais das epopeias de Virgílio e Camões, tais como:

- a intervenção do narrador omnisciente (que se fizera testemunha da História) ‘’na pele’’ dos deuses ou mensageiros divinos (raramente feita),

- os sonhos premonitórios (ou alucinações que concretizam anseios dos protagonistas),

- o papel da palavra (no sentido de apropriação da linguagem epopeica e sua elaboração irónica),

- a descida ao Hades (catabase),

- certos episódios de carácter independente,

- algumas inconsistências ou repetições narrativas,

- invocações, epítetos e símiles.

Complementando a teoria lukacsiana da evolução da epopeia para o romance com o pensamento de Bakhtine, Genette e Todorov e outros teorizadores de modos e géneros literários, Ana Mafalda Morais Leite, ao analisar modalizações épicas na literatura africana, traçou o quadro seguinte das componentes trans-históricas do romance derivado da epopeia:

modo - > modo

formas - > GÉNERO formas -> NOVO GÉNERO

temas -> temas

m o d a l i z a ç ã o

Neste quadro, a modalização épica aparece sempre na confluência de modos (entendidos por Alastair Fowler como »carapaças estruturais» e por nós como processos discursivos advindos de Os Lusíadas), formas e temas que redescobrem, renascem, metamorfoseiam ou fazem mesmo desaparecer os velhos modos. É de acrescentar que hoje em dia o »modo» tem significação meta-histórica, influindo na estrutura do género, concebido, lato sensu, em termos de meta-historicidade ou discurso (romance) metaficcional. O modo épico deixou de ser uma »forma natural e universal de literatura», assim como o entendeu Goethe. Passou a significar um sub-sistema gerador de sentidos derivados da matriz neo-épica (camoniana). Sendo assim, a modalização conota um conteúdo épico, dentro da ficção pós-moderna em que a presença e a elaboração do tema histórico continua a ocupar o centro da narrativa, não negando, porém, os direitos do discurso ficcional. Estamos perante um »anti-género» (antigenre, no dizer do Fowler) com a acção passada ou relativamente recente. Neste contexto, a modalização épica aparece como categoria puramente funcional e transformacional, de carácter diacrónico, aberto e progressivo.

Enquanto que o modo épico sugere a estrutura e o significado construídos a partir de Os Lusíadas, mesmo em sentido inverso, a modalização mostra como se metamorfoseiam as mesmas estruturas, formas e temas que apareceram na épica moderna.

A crítica literária portuguesa dos últimos dois decénios sugeriu alguns termos mais específicos para circunscrever melhor o velho género do romance ‘’sobre’’ um tema histórico e ‘’com’’ a tendęncia epicizante:

1. Já em 1981 se levantou a primeira voz, de Maria Lúcia Lepecki, a falar sobre »o romance histórico, numa das suas formas possíveis { (e contaminada de saga e crónica /formas para-épicas, A.K./} , onde se historiciza (torna-se semelhante ao real concreto) tanto o narrado quanto a matéria-prima, a linguagem, de que se faz o texto».

2. A citadíssima Teresa Cristina Cerdeira da Silva reconhece, no Levantado do Chão, uma »tentativa de transcrição do modelo clássico», em que »nem mesmo Camões tivera êxito» e propõe-se a falar em »anti-épico» ou no romance »grandiosamente épico», numa »epopéia campesina».

3. Maria de Lourdes Netto Simões constata que na ficção portuguesa mais recente, os acontecimentos do Abril começam a esfumaçar-se, embora se acentuem as preocupações com a recuperação da identidade, perdida naquela ocasião. Chega-se a dessacralização dos mitos históricos que sustentavam a identidade do português. É o que faz António Lobo Antunes ao escrever a »antiepopéia» As Naus com olhar amargo e irônico. Intertextualizando parodicamente Os Lusíadas de Luís de Camões, Lobo Antunes, ao falar dos retornados de África, retoma e desglorifica os heróis de Camões (...).

Manuel Alegre concebe Peregrinação de Barnabé das Índias em termos de uma viagem/epopeia do avesso, seguindo inclusões genéricas possíveis:

(...) este livro é um diário do bordo de uma peregrinação imaginária, onde o pícaro e o trágico se conjugam e em que na epopeia desconstruída se presente outra epopeia, ainda que o avesso, é um Vasco da Gama reduzido às proporções do humano que nos vem dizer quem é afinal o herói destes lusíadas que estavam por contar: Barnabé, o povo, Todo-o-Mundo e Ninguém.

5. Last but not least, Maria Alzira Seixo reconhece no título do romance de Mário Claúdio a intertextualidade pícara da alusão a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, sugerindo eventualmente a matriz camoniana: »a transcrição ficcional da epopeia lusa» e »uma espécie de contra-epopeia, ou de epopeia marginal».

Das alíneas apresentadas acima perfilha-se a estrutura miscigenada de uma anti- ou contra-epopeia em prosa meta-histórica, cuja base se apoiou na desconstrução e intertextualização de Os Lusíadas. Como se opera este processo, produtor de uma modalização anti-épica, procuraremos demonstrar no capítulo seguinte (sendo o prefixo ‘anti-’ acrescentado ao termo empregado por Maria Mafalda Leite e legitimizado como denominador comum em Cerdeira da Silva e Maria de Lourdes Netto Simőes).

3. As três anti-epopeias ou romances ou romances »dos cascos das caravelas ancoradas»

Os três romances em questão: Levantado do Chão (1980) de José Saramago, As Naus (1988) de António Lobo Antunes e Peregrinação de Barnabé das Índias (1998) de Mário Cláudio estabelecem relações de transformação épica com Os Lusíadas, tornando-se reactivadores genéricos do hipertexto camoniano. Se recorrêssemos às categorias transformacionais de Genette (transcendentes, no sentido genérico), tais como hipertextualidade, derivação e transformação genérica, recuperaríamos, em três autores escolhidos, o quase irreconstituível modo épico, dentro das suas mais diversas formas e estruturas. A exemplificada criação literária de Saramago, Antunes e Claúdio permite recuperar a relação com a maior das tradições literárias portuguesas.

Segundo a sugestão de Mafalda Leite, a transformação genérica pode-se atribuir o nome de modalização épica (anti-épica, na nossa terminologia), porque se recupera não só uma categoria temática (a gesta heróica da luta do povo alentejano pela liberdade, o regresso de colónias à metrópole ou a viagem às Índias contada do ponto de vista de um anti-herói), mas também alguns aspectos formais do género épico. »Modalização épica engloba, desta forma, o sentido transformativo e reactivador do género - repara Mafalda Leite, perguntando se no século XX ainda se escreve épica. Digamos que as três obras em causa encarregam-se de transformar o género, de modalizá-lo, contando e transcrevendo sempre a História portuguesa.

Como a modalização anti-épica se processa e impregna nos textos de autores contemporâneos?

A regra geral é »a obsessiva reposição dos cenários da história» e a cumplicidade constante do narrador com os anti-heróis: os Maus-Tempos, os Vascos, os Barnabés, os »sobreviventes de caravelas arrombadas», o que nos permite incluir as três obras na metaficção histórica. Se procurássemos, porém, mais processos discursivos (bem como derivações temático-estilísticas) advindos de Os Lusíadas, teríamos um elenco de modalizações anti-épicas, ou derivações discursivas do modelo camoniano.

Relembremos, em primeiro lugar, que a linguagem anti-épica não cria distâncias entre a forma e o conteúdo, revelando a trivialidade da realidade social (como vimos já em Lukács): »um velho no Inverno existe da constância da ceia, e confortam-se-lhe os órgãos de se saber alimentado, e adia para mais tarde o pasto dos bichos da terra«. A frase citada de Mário Claúdio incorpora o sentido camoniano da famosa reflexão sobre »um fraco humano» (Os Lusíadas, I, 106, 5) de »curta vida» (I, 106, 6), »um bicho da terra tão pequeno» (I, 106-8), indignando »o Céu sereno». Só que as razões de »indignação» dos céus são bem diferentes na anti-epopeia: não a dilatação da Fé e do Império nas terras pagãs (sendo a palavra »indignação» uma lítote mediante a qual Camões afirma a grandeza dos portugueses), mas a sugestão da última degradação do género humano. A mesma metáfora encontra-se, em José Saramago, com o sentido contra-ideológico do texto genericamente reactivado. Em Levantado do Chão deparamos com a desconstrução da »ideologia do poder através do resgate irónico da sua própria voz». A cruel voz do narrador imobiliza e anula o discurso previamente épico: »é preciso que este bicho da terra seja bicho mesmo (...), é preciso que o homem esteja abaixo do animal (...), é preciso que o homem se degrade para que não se respeite a si próprio nem aos seus próximos». A já citada Teresa Cristina Cerdeira da Silva reconhece justamente neste trecho a lição camoniana (e também evangélica), marcada pela postura paródica e dessacralizadora em relação a Os Lusíadas. Tanto José Saramago, como António Lobo Antunes e Mário Claúdio usam a ironia em função de »dessacralizaçăo» da palavra camoniana.

Em Saramago, a pretensa cumplicidade do narrador com o discurso do poder (entre muitas outras conivências) coloca a fala épica em ridículo; através da máscara camoniana redimensiona-se a relação do protagonista colectivo com o mundo, transportando um forte sentido contestatário:

(...) Viva Portugal, não o entendo, Estamos aqui reunidos, irmandados no mesmo patriótico ideal (...), fiéis continuadores da grande gesta lusa e daqueles nossos maiores que deram novos mundos ao mundo e dilataram a fé e o império, mais dizemos que ao toque de clarim nos reunimos como um só homem em redor de Salazar (...), o génio que consagrou a sua vida ao serviço da pátria, contra a barbárie moscovita.

O narrador assume falsamente a palavra opressora e o efeito se revela contrário; para parafrasear as palavras de Cerdeira da Silva, desloca-se o discurso saramaguiano do épico (culturalmente sagrado) para o anti-épico e desassombradamente humano. A tendência aparente para desmistificar a fala camoniana caracteriza, com a mesma insistência narrativa, O Levantado do Chão, As Naus, Peregrinação de Barnabé das Índias.

Digamos, alegando ao ponto segundo de Lukács, que ao grumete de Ucanha, Barnabé das Índias, revela-se-lhe »a totalidade secreta da vida», perante o relativo distanciamento da personagem de Vasco da Gama, seu homólogo na descoberta das Índias. »A verdade é que se lhe convertera o Mundo num livro descerrado onde inumeráveis sinais se leriam» - escreve Mário Cláudio, miscegenando os tempos do romance, as suas personagens e as suas falas e abrindo um maior espaço de heterododoxia. É Barnabé, um moço simples e grosseiro, que ascende ao convés de S. Rafael e conhece o mecanismo do Universo, sem saber, contudo, se um Deus existe: »E num absoluto de treva se lhe convertera o Universo, e tendo-se-lhe dissipado as fronteiras do ser, era como no centro de uma esfera de névoas, e em constante expansão, que se suspendia».

Mesmo tendo conhecido a Máquina do Mundo e experimentando a ascenção de Vasco da Gama, Barnabé continua a ser um anti-herói, não chegando a realizar o seu destino pessoal, mas diluindo-se na comunidade de iguais a si - os zeros éticos e morais. Vasco da Gama, por seu lado, torna-se no romance de Mário Cláudio cúmplice do narrador e »persiste em tecer comentários sobre pessoas e coisas». As mais diversificadas cumplicidades (e comprometimentos com o quotidiano, com o poder e o contra-poder) modalizam a fala épica de três autores, dentro e fora da verosimilhança espácio-temporal. A inocência dos navegadores e marinheiros camonianos perdeu-se através de séculos de história revisitada, reconstituída, reescrita e recontada.

Entre outros motivos derivados de Os Lusíadas a anti-epopeia de Mário Claúdio aflora o escorbuto, a tromba marítima, o »mostrengo» - um novo Adamastor que balbucia numa língua desconhecida, traição dos pilotos árabes, as falas de Samorim e do »perro do Catual», títulos de D. Manuel. Falando com uma pomba, Barnabé lembra-se do seu amigo Leonardo, de uma ilha e de »ninfas nuas, nas nascentes se banhando». Vasco da Gama, em As Naus de António Lobo Antunes representado como comerciante de solas, passa uma temporada »na Ilha dos Amores, gasto por um cardume de ninfas insaciáveis». O mesmo episódio foi caro ao narrador heterodoxo de Levantado do Chão, quando falou sobre »a festa dos abraços» (depois da detenção dos grevistas de Monte Lavre), invocando »(...) famintos beijos na floresta, qual floresta qual merda, abraçam-se os desgraçados uns nos outros, e choram, parecia a ressureição das almas(...)». É de frisar o uso do epítetos anti-épicos e o rompimento total com o estilo grandiloquente de epopéia..

Em Mário Cláudio, o maravilhoso está reduzido a uma visão alucinada (pelos brindes sucessivos à sorte)... do anjo São Rafael de proa, à »tranquilizadora aparição» sem nenhum poder divino que passa a desempenhar funções narrativas, revelando a Barnabé a vontade do Altíssimo, »o Absoluto que à Sua imagem e semelhança» o criou. No anti-épico mudou drasticamente o projecto do homem e de Deus, sendo o divino ‘’feito’’ à imagem do humano, em subversão total à ordem do mundo consagrada pela revelação da palavra de Deus. Estamos perante a epopeia »(...) da pequenez do homem e dos intentos que leva» e da falta de metafísica, de um Logos, de um elemento espiritual, adivinhados por Lukács. O comandante e o grumete são uns cegos, que somente »soltavam gemidos desalentados, e nem isto se escutava no vazio da abóbada em que por completo o Orbe se tinha convertido». No anti-épico, a Providência aparece como mais um dispositivo discursivo, revelando umas verdades, mas tão-somente pela graça do narrador, sendo reduzida, ironicamente, a »sustentador bordão dos cegos e estrela norteante dos peregrinos». José Saramago vai ainda mais longe nos seus romances: acusando a injustiça divina, prova a inexistência de Deus, assumindo falsamente a palavra opressora do Poder.

O protagonista de Mário Claúdio não é nada mais que um »ser daninho que Satanás apostara em reivindicar». Vasco da Gama, Barnabé, Diogo Cão e Bartolomeu Dias estão lançados nas »jogadas de existência». António Lobo Antunes vai mais longe na troça do heroismo colectivo, quando invoca, anti-epicamente »raça de heróis e marinheiros (...) que definham de diarreia de leite de coco na Guiné, vagueia, a beber água choca nas dunas de naufrágio de Moçambique». Na visão do romancista D. Fuas Roupinho »(...que na terra/E no mar resplandece juntamente», Os Lusíadas, VIII, 17, 1-2) pede esmola a Almeida Garrett; Manoel de Sousa de Sepúlveda, por sua parte, é calvo e viúvo e trabalha num laboratório de análises clínicas. Baralha-se, no processo de modalização épica, o tempo do discurso e o da história. Imaginam e redescobrem-se »os capítulos de uma história que a gente vária haveria de narrar».

José Saramago, dessacralizando os símbolos nacionais, está perfeitamente ciente de que na mitologia cultural portuguesa se fez »o uso habitual de Afonso Anriques e Nuno Álvares Pereira». A verdadeira aprendizagem cívica individual ou colectiva não é possível no género anti-épico, porque não existe a univocidade do mundo, há, porém, multiplicidade de visões e apagamento de fronteiras entre personagens e vozes falantes. O Noblista não tem constrangimento em dizer que aquilo que nós chamamos de ‘’modalizações anti-épicas’’ »são exageros do narrador, efeitos de educação medieval, imaginar exércitos de gente armada e flâmulas de cavalaria, quando apenas se trata de uma dispersa tropa de rústicos (...)». O que vale é somente a arte de »contar as histórias», que serão »vistas e inventadas, vividas e imaginadas», sendo a »arte suprema» a »de apagar as fronteiras entre uma e outras».

É de frisar a permutabilidade de funções narrativas: Péro da Covilhã, um dos protagonistas/narradores de Mário Claúdio, deixa o seu »canto» para descer em Lisboa, embarcar na armada e ceder a palavra ao narrador, que a passará às sucessivas personagens. A modalização do discurso anti-épico apoia-se na tradição da intradiegese camoniana. Os três autores recorrem à técnica de não coincidência entre ponto de vista e centro de orientação narrativa. Mais especificamente, trata-se do processo de multiplicação das vozes narrativas, em paralelo com a consciencialização das personagens a nível diegético. Em António Lobo Antunes, estas vozes narrantes - as histórias de Luís Vaz de Camões, Diogo Cão, Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque, Nuno Álvares Pereira , D. Sebastião e de outros protagonistas da História portuguesa bem como de »marinheiros desempregados» desdobram-se em discursos modalmente polivalentes, abrangendo o ‘’eu’’ falante e o narratário. Fractura-se também a estrutra interna do romance, chamado pelos respectivos narradores de um »diário inútil», »uma epopeia inverosímil por um mar de neptunos furiosos», transpondo os seus próprios limites e regressando, num movimento pendular, ao ponto de vista de partida - a mundivivência de um ser português fracassado e impotente. Os Maus-Tempos, Vasco da Gama, o grumete de Ucanha, bem como o Rei D. Manuel são, no fim de contas, »um único indíviduo que se observa ao espelho». Manoel de Sousa Sepúlveda »(...) fornece a Camões a possibilidade de uma edição de bolso de Os Lusíadas, com bailarinas nuas na capa, publicada numa colecção de romances policiais», D. Sebastião é esfaqueado em Marrocos »por roubar a um maricas inglês, chamado Oscar Wilde, um saquinho de liamba», Fernando Pessoa multiplica-se em dezenas... E »o povo abandonava os castelos e mudava-se para o Luxemburgo ou a Alemanha, à procura de trabalho em fábricas de automóveis e de moldes de plástico. Os duques geriam sucursais de bancas na Venezuela. Os oficiais da escola de Sagres fumavam mortalhas de heroína e exploravam bares em Albufeira».

Do que está dito conclui-se que o épico modaliza-se quase sempre com a »autoconsciência nacional», aquele dado traumatizado, mas inalterado na sua essência - no entender de Eduardo Lourenço. A José Saramago, António Lobo Antunes e Mário Claúdio interessa, de facto, a »representação do sujeito nacional português» e »reavaliação da identidade nacional». Com a manipulação irónica dos factos históricos, na recriação, ora na reefabulação histórica opera-se a interrogação explícita sobre o presente, o diálogo transformador com o modelo camoniano, investigando-se também a crise de identidade. Em três olhares retrospectivos e impossível escapar aos fantasmas da História - os »mostrengos» dos descobrimentos miscegenados com os fantasmas do (pós) 25 de Abril. Nesta oscilação do discurso e da história constitui-se o modo anti-épico.

Evidentemente, as modalizações anti-épicas contribuem para a desconstrução de um sujeito nacional português a um revolucionário maltês, a um grumete cínico e ignorante, a um escritor obstinado de páginas (oitavas) dificilmente publicáveis. Se os Antónios, Vascos e Luíses adquirem uma identidade, é só na multiplicidade de outras vozes, iguais a si, sendo uns metonímias de outros e »de um todo que deles não difere». Enquanto a modalização épica das obras de Saramago, Antunes e Claúdio dialoga com Os Lusíadas e recupera a dicção historiográfica do poema, a contestação do género (o anti-épico), busca traçar um perfil amargo e irónico do protagonista, a sua besteira, a sua fisiologia e venalidade, que não se redimem pela graça divina, mas multiplicam, ad infinitum, pela voz do narrador. Este é o mecanismo de uma modalização anti-épica.

A »consciencialização da identidade nacional» e a apropriação anodinizadora de Camões, iniciadas no séc. XIX com releituras de Os Lusíadas já não redimensiona exclusivamente a cultura portuguesa que se interroga sobre a sua razão de ser. Antes pelo contrário, as modalizações anti-épicas transcrevem ofensivamente os mecanismos camonianos para uma prosa carregada de sentidos pós-modernistas, dando lugar à outras transformaçőes de discurso narrativo num código literário incipiente e ainda pouco definido. O modo épico metamorfoseia-se em conjunto com outros modos, formas e temas, escrevendo-se, talvez, de novo a primeira oitava do poema por »(...) um homem de nome Luís a quem faltava a vista esquerda».


Bibliografia*

1. Aguiar e Silva, Vítor Manuel, Teoria da Literatura, Coimbra, Livraria Almedina, 1983, 5a ed.

2. Cerdeira da Silva, Teresa Cristina: José Saramago, entre a história e a ficção: uma saga de portugueses, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1989, 1a ed.

3. Cláudio, Mário, Peregrinação de Barnabé das Índias, Publicaçőes Dom Quixote, Lisboa 1998, 1a ed.

4. Fowler, Alastair, Kinds of Literature, An Introduction to the Theory of Genres and modes, Oxford, Clarendon Press, 1982, 1st. ed.

5. Kaufman, Helena Irena, Ficção histórica portuguesa do pós-revolução, Madison, the University of Wisconsin (dissertação de doutoramento policopiada), 1991.

6. Leite Morais, Ana Mafalda, A modalização épica em »Mayombé» e »Pão e Fonema», Lisboa, Departamento de Literatura da FLUL (dissertação de doutoramento policopiada), 1998.

7. ----------, Modalização épica nas literaturas africanas, Lisboa, Vega, 1995, 1a ed.

8. Lobo Antunes, António, As Naus, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1988, 1a ed.

9. Lourenço, Eduardo, O Labirinto da Saudade, Psicanálise Mítica do Destino Português, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1978, 5a ed.

10. Saramago, José, Levantado do Chão, Lisboa, Caminho, 1994, 10a ed.


* A bibliografia contém três obras de prosa portuguesa (em negro) que constituiram o foco da nossa análise, bem como alguns outros trabalhos de teor académico, que considerámos importantes. As referências de jornais e revistas literárias ficam em notas de rodapé.