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AS TRÊS DIMENSÕES
AS TRÊS PARTES
DO CORPUS LÍRICO DE CAMÕES

 
LEODEGÁRIO A. DE AZEVEDO FILHO
(UERJ/UFRJ)

A delimitação do corpus lírico de Camões, dentro do vasto universo textual que lhe tem sido atribuído, com ou sem razão, ao longo de 400 anos, levou o professor Emmanuel Pereira Filho a propor, em caráter ainda preliminar e pioneiro, a teoria do cânone mínimo, como base para qualquer investigação posterior de crítica autoral ou de crítica textual. Para isso, estabeleceu a exigência do tríplice testemunho quinhentista incontroverso, amplamente apresentado e discutido por nós no primeiro volume da nossa edição da Lírica de Camões (História, Metodologia, Corpus), publicado pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda, de Lisboa, em 1985. Ainda aí, procuramos justificar a alteração desse critério, adotando em nossa edição a exigência preliminar, para a inclusão de qualquer texto lírico no corpus minimum de atribuição camoniana, não mais de três testemunhos quinhentistas incontestados, mas apenas de dois. Na verdade, o duplo testemunho quinhentista, desde que incontroverso, é mais suficiente para a constituição de um corpus minimum ou irredutível, que servisse de base a discussões posteriores não só de crítica autoral, mas também de crítica textual. Até porque, em ecdótica, nem sempre se impõe o princípio jurídico de que testis unus, testis nullus, muitas e muitas vezes sendo perfeitamente válido o testemunho único, desde que incontroverso. Assim, diante do lamentável e precário estado em que os textos líricos de Camões foram herdados, já nos pareceu ser rigor plenamente aceitável a exigência de dois testemunhos quinhentistas incontroversos, um confirmando o outro. E chegamos, como sabem os que leram os cinco volumes já publicados da nossa edição da Lírica de Camões (apenas o corpus minimum), com textos estabelecidos à luz da tradição manuscrita, mas em confronto crítico com a dupla ramificação da tradição impressa, a que vem de RH – RI e a que vem de FS, e chegamos – repetimos – à conclusão de que apenas 133 textos poderiam, diante dos dados de que dispõe a crítica até o presente momento, integrar o cânone mínimo de incontroversa atribuição camoniana.

Como se trata de uma metodologia inteiramente nova, com uma proposta de trabalho que parte dos manuscritos apógrafos da época, pois lá é que se encontram as perdidas raízes da Lírica de Camões, para confrontar as suas lições com as leituras da dupla tradição impressa "aperfeiçoada" ou deformada pelo tempo, houve naturais resistências ou mesmo imcompreensões duvidosas, que só o tempo e o progresso da nossa investigação irão, aos poucos, desfazendo. Claro está que há, em numerosos manuscritos do século XVII em diante, textos atribuídos a Camões com testemunho simplesmente nulo, por serem apenas cópias da tradição impressa. Como é evidente, tais manuscritos não foram trazidos à colação, a eles aplicando-se o princípio da eliminatio codicum descriptorum. Quanto à alegação de que é possível encontrar-se, numa cópia manuscrita do século XVII ou de séculos posteriores a este, um texto transcrito, provavelmente, de um autógrafo camoniano (ou cópia direta de um autógrafo) ou mesmo apógrafo copiado de outro apógrafo, ou até um idiógrafo, com maior valor que um testemunho do século XVI, este último resultante de várias cópias anteriores, e isso como simples hipótese formulada para questionar o rigor do conceito do termo quinhentismo do testemunho, é claro que ela não resiste ao menor exame crítico. Antes de mais nada, tal hipótese ou tais hipóteses teriam que ser confirmadas, com a indispensável apresentação dos textos em tais condições. E isso, apesar da autoridade de doutas afirmações, nunca se fez. Na verdade – e nem todos conseguiram ainda perceber isso! – o quinhentismo do testemunho é assegurado por documento do século XVI ou documento descendente de outro que se possa considerar como tal. Sirva de exemplo o "Índice" do perdido Cancioneiro do Padre Pedro Ribeiro, sendo o Cancioneiro de 1577 e o seu Índice dos fins do século XVII, como hoje se sabe. Que temos então? Simplesmente temos um testemunho quinhentista que se revela num documento tardio, mas descendente comprovado de um códice do século XVI, assegurando- se assim o quinhentismo do testemunho, pouco importando que isso tenha sido revelado no século XVII.

Ainda como pretensa restrição metodológica, passou-se também a questionar a autonomia ou a independência de alguns testemunhos quinhentistas por nós trazidos à colação, crítica que se desfaz com extrema facilidade, em face das teorias das lições disjuntivas ou separativas. Como é óbvio, mesmo que descendam de um só e mesmo antígrafo, dois ou três testemunhos, apresentando lições separativas, são perfeitamente autônomos ou independentes. Põem-se por terra, assim, e por inconsistência, as restrições mais freqüentes que fazem ao nosso método de investigação, sempre com muita segurança afirmativa e nenhuma prova científica.

Mas houve ainda quem confundisse – e isso já é mais grave! – corpus miminum com a totalidade dos textos líricos que poderiam ter sido escritos por Camões. Aliás, uma confusão de quem não se preparou, tecnicamente, para fazer críticas (que seriam bem recebidas, se procedentes) ao nosso trabalho. Também não conseguem perceber que o nosso método é, sobretudo, afirmativo e não propriamente negativo. Com efeito, em relação aos textos que não atenderam às exigências do critério adotado, em momento algum foi declarado que nenhum deles possa ser de Camões. Aliás, em face de tais incompreensões é que resolvemos propor as bases para, dentro do vasto e tumultuado universo lírico atribuído ao Poeta, apreender, além do corpus minimum (133 textos), o corpus addititium (em princípio com 113 textos)e o corpus possibile (em princípio com 10 textos), num total ainda provisório de 256 textos. Com isso, sempre em função dos dados de que dispõe a crítica até o presente momento, será possível oferecer uma abrangência probabilística, é certo, mas totalizadora, do almejado corpus lírico de Camões. Um corpus que nada tem a ver com o conceito de universo, por ser constituído em função de critérios de rigor máximo. E como é do nosso gosto trabalhar em grupo, sugerimos à professora Marina Machado Rodrigues, que integra o Programa Internacional de Estudos Camonianos da UERJ, que, em caráter ainda provisório e a partir das indicações por nós dadas na "Introdução Geral" ao primeiro volume dos Sonetos, publicado em 1987, desse início logo à pesquisa, com apresentação dos seus primeiros resultados ao XXVIII Congresso Brasileiro de Língua e Literatura, realizado na UERJ, de 22 a 26 de julho de 1996. Quanto ao corpus possibile, segundo a sugestão que nos fez o pesquisador Álvaro de Sá, que se tem dedicado com muito empenho e muita competência ao trabalho, coube à professora Cláudia Amorim e a ele próprio dar os primeiros passos nesse sentido, também com apresentação dos resultados (iniciais e ainda provisórios) ao XXVIII Congresso Brasileiro de Língua e Literatura, em Mesa-Redonda de que participou ainda o professor Accacio José Pinto de Freitas, a quem coube iniciar a pesquisa em torno do corpus alienum. Ver Atas do citado Congresso. Rio de Janeiro, SBLL, 1997.

Aos poucos, por tanto, vai a lírica de Camões encontrando adequado tratamento ecdótico, exatamente porque o método (sem abandonar a tradição impressa, pois ela serve de confronto) propõe um movimento de retorno à tradição manuscrita, onde se encontram perdidas as raízes autênticas da poesia lírica camoniana. Em tudo isso, recorde-se que não há nenhum autógrafo de Camões, nem mesmo idiógrafo, tudo partindo dos manuscritos apógrafos, ainda não suficientemente estudados. E a tão almejada sistematização em tais investigações de autoria e de textos parece encontrar agora as suas dimensões cientificamente desejáveis e possíveis, com a divisão em três partes do corpus apreendido no vasto e heterogêneo universo lírico atribuído a Camões, ao longo de mais de quatrocentos anos.

Escolhemos o Congresso de Lusitanistas para comunicar as notícias acima apresentadas em termos de rigorosa síntese. Sobre as três partes do corpus há muito o que investigar e pesquisar, ano após ano, pois sempre se nos deparam novidades impressionantes no território lírico do Poeta. Seja como for, o corpus minimum vem sendo publicado por nós em Lisboa (Imprensa Nacional – Casa da Moeda), graças à visão de Vasco Graça Moura e A. Braz Teixeira, ainda no ano em curso devendo aparecer o volume das Odes, que é o segundo tomo do terceiro volume, pois o primeiro foi dedicado às Canções. Antes disso, foram publicados o primeiro volume, prefaciado por Antônio Houaiss, e que é uma introdução histórica e metodológica da matéria aqui considerada, nele indicando-se os textos integrantes do corpus minimum; e o segundo volume foi prefaciado pelo professor Sílvio Elia, em dois grossos tomos dedicados aos Sonetos. O próximo volume a sair, depois do terceiro em seus dois tomos, será o das Elegias em tercetos, até que se chegue ao último, que vai ser o das Redondilhas. E antes do volume das Redondilhas serão publicados os seguintes: o das Oitavas e o das Éclogas. A coleção será encerrada com um volume de Glossário, ou seja, um índice analítico do vocabulário da lírica de Camões, a partir do corpus minimum, para confronto com o vocabulário do corpus addititium e do corpus possibile. O corpus alienum, muito heterogêneo, pelo menos no presente momento, está fora de nossas cogitações.

Observação:

O volume das Oitavas já foi publicado em julho de 1999. Assim, restam apenas os volumes das Éclogas, das Redondilhas e do Glossário, que espero ter força humana para concluir.