|
clique para imprimir este documento
A troupe dos meninos poetas
Ana Claudia da Silva
Universidade de São Paulo / FAPESP Esta comunicação, desenvolvida com o apoio da FAPESP, é parte de um projeto mais amplo que busca rastear as personagens infantis na obra do autor moçambicano Mia Couto e do brasileiro Guimarães Rosa. Estas encontram-se inseridas num grupo significativo que desfila por toda a obra dos dois autores. Tratam-se de seres errantes, cegos, exilados, videntes, velhos, loucos, crianças, bêbados: uma multidão de tipos humanos que têm em comum o fato de serem colocados continuamente à margem da sociedade. Do conjunto dessas personagens, pois, priorizamos as crianças como objeto mais específico de estudo. Esta escolha se justifica não apenas pelo fato de as mesmas ocuparem um lugar privilegiado na obra dos dois autores, mas por possuirem qualidades que as assemelham aos poetas. Para isso, procuramos tecer alguns fios aproximativos entre duas personagens: Muidinga, uma das personagens centrais do romance Terra sonâmbula, de Mia Couto e Miguilim, protagonista da novela "Campo Geral", de Guimarães Rosa. Do conjunto das personagens infantis existentes nas obras dos dois autores, destacam-se Muidinga e Miguilim como seres paradigmáticos desses universos ficcionais. A despeito das diferenças culturais que geram-nos em suas singularidades, os dois meninos guardam entre si algumas semelhanças. Além do fato de estarem ambas à margem da sociedade, essas duas personagens têm em comum uma capacidade de apreender a realidade pelo olhar e reconstrui-la através da linguagem. Miguilim traz em si o olhar da criança que apreende o mundo e o admira, nomeando-o e revelando-o através da palavra. Muidinga, por sua vez, redescobre a si mesmo assistindo ao lento despertar da terra moçambicana. Muidinga O romance Terra sonâmbula1, do autor moçambicano Mia Couto, é uma trama de narrativas que se entrelaçam a partir da leitura dos cadernos de Kindzu, feita pelo menino Muidinga. Interessa-nos, nesta comunicação, focalizar a personagem logo no início do romance, quando nos é apresentada. O primeiro capítulo coloca-nos diante de uma paisagem desoladora: "Naquele lugar, a guerra havia morto a estrada"2. Um lugar indefinido, uma guerra, uma estrada destruída. Nesse cenário de ruínas, caminham um velho e um menino. A longa viagem, sem outro destino que não o fugir da guerra, inicia-se por insistência do miúdo, desejoso de encontrar seus pais. A primeira informação que o narrador nos dá após revelar o nome do garoto, Muidinga, é que este caminhava à frente desde o início da viagem. É de se notar que, já aqui, nesse pormenor que poderia passar despercebido aos olhos de um leitor menos atento, instaura-se um abismo a separar (ou a unir?) o jovem e o mais velho: é a criança que caminha à frente, como se coubesse a ela, e não ao velho, como seria de se supor, a tarefa de indicar o caminho, o rumo, o norte. Na seqüência, o narrador coloca-nos brevemente ao par da história do menino: acometido de grave doença, Muidinga fora abandonado num campo de refugiados. Tuahir, o velho, toma-o sob sua guarda, dispensando-lhe os cuidados necessários para o restabelecimento da saúde e incumbe-se de ensinar-lhe novamente os inícios: Muidinga reaprende a andar, falar, pensar. E cantar. "Quando iniciara a viagem, já ele se acostumava de cantar, dando vaga a distraídas brincriações."3 O neologismo brincriações assinala a capacidade criadora própria das crianças, em suas brincadeiras e histórias. Na sua viagem, o velho e o menino acabam por refugiar-se num velho machimbombo4 queimado. Mais uma vez é o miúdo quem insiste com o mais velho para que se respeite a tradição e limpe-se o lugar, enterrando os corpos incendiados. Tuahir, cansado da viagem, reluta, mas Muidinga apresenta-lhe um último argumento decisivo: "Lhe peço, tio Tuahir. É que estou farto de viver entre os mortos."5 O velho cede ao desejo do garoto e ambos saem a enterrar os cadáveres. Feito isso, percebem terem deixado para trás um outro corpo, junto ao qual encontrava-se uma mala fechada. Enterram também este e em seguida verificam que a mala continha, além de roupas e comida, alguns cadernos e papéis velhos. Cedendo a uma intuição, o menino guarda para si os cadernos. À noite, acendem a fogueira. Muidinga senta-se perto do fogo e começa a ler. Na verdade, esse é um momento de revelação, pois o menino descobre que já sabia ler: "Balbucia letra a letra, percorrendo o lento desenho de cada uma. Sorri com a satisfação de uma conquista. (...) Seus olhos se abrem mais que a voz que, lenta e cuidadosa, vai decifrando as letras. Ler era coisa que ele apenas agora se recordava saber."6 Nota-se, no trecho citado, a sensação de prazer, de conquista despertada pela leitura. Depois, no decorrer da história, a leitura dos caderninhos levará Muidinga a descobrir sua própria identidade, sua história, seu passado que, afinal, lhe vem revelado pelos escritos do morto. A descoberta da leitura abre ainda possibilidades ilimitadas para o menino, que se admira: "(...) afinal, sabia ler? Que outras habilidades poderia fazer e que ainda desconhecia?"7 A palavra inaugura, assim, para Muidinga, um novo horizonte, do devir, do vir a ser: todo o conhecimento – de si mesmo, da sua terra, da sua gente – se torna agora acessível, constituindo força motriz da transformação. O menino sem memória e sem passado torna-se, assim, sujeito, protagonista da História. Miguilim Se o processo de conhecimento, para Muidinga, passa fundamentalmente através da palavra escrita, o mesmo não ocorre com o menino de Guimarães Rosa. Miguilim não possui a habilidade da leitura, que só ao final da novela se tornará possível com a sua ida para a cidade, onde terá a possibilidade de freqüentar a escola e aprender um ofício. A poesia, entretanto, não é desconhecida do menino, que volta, para tudo que o cerca, um olhar admirado. Há, no nosso entender, três modos de conhecimento privilegiados em Miguilim. Um deles é a intuição. Segundo Dante Moreira Leite8, Miguilim não tem a compreensão imediata das coisas que se passam à sua volta: percebe-as, mas não alcança explicá-las, como no caso da briga entre o pai e a mãe: "Miguilim entendeu tudo tão depressa, que custou para entender."9 Também é por intuição que o menino se recusa a entregar à mãe o bilhete do Tio Terêz; do mesmo modo, ainda, toma consciência da morte iminente do Dito. Outro modo de conhecimento em Miguilim é a percepção sensorial. Miguilim guarda de tudo impressões de cores, texturas, cheiros, perfumes: "O relar da folha da enxada, nas pedrinhas, aqueles bichos miúdos pulando do capim, a gente avançando sempre, os pés pisando no matinho cortado. Dava o cheiro gostoso, de terra sombreada. As moças de lindos risos, na fazenda grande do Barboz, as folhagens no chão, as frutinhas vermelhas de cheiro respingado (...)"10 Aqui, fios da lembrança – memória sensorial - se misturam às sensações do presente, compondo um todo de significados que o menino não alcança jeito de explicar. Há ainda um terceiro modo de conhecer, em Miguilim, que é o conhecimento poético. Bem cedo é despertado nele o encantamento pelas palavras. Miguilim gostava de contar estórias. Nas lembranças escassas da terra natal, o Pau-Roxo, o menino lembrava de um terreirinho com um peru: "(...) o peru era a coisa mais vistosa do mundo, importante de repente, como uma estória (...)"11 Ao voltar da viagem que fizera para ser crismado, Miguilim desculpa-se por não ter trazido uma lembrança para os irmãos. E vai logo inventando história: "¾ Estava tudo num embrulho, muitas coisas... Caiu dentro do corgo, a água afundou... Dentro do corgo tinha um jacaré, grande..."12 Miguilim era tão bom contador de histórias que o Dito, nos últimos instantes de vida, manda chamá-lo e pede-lhe que conte a história da Cuca Pingo-de-Ouro. Miguilim, entretanto, tomado pela emoção da perda iminente do irmão adorado, não consegue. O momento de maior revelação na narrativa se dá no final, quando chega ao Mutum o Dr. José Lourenço, do Curvelo. Observando Miguilim, o médico descobre a sua miopia, que se confirma quando o doutor lhe empresta os óculos. Miguilim coloca-os e, pela primeira vez, descobre que o mundo à sua volta era muito mais bonito do que ele até então tinha enxergado. E admira-se de mais ver: "Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo..."13 Ao entusiasmo de tanto ver, segue-se a paixão de contar. Miguilim carece de correr pra dentro, contar a todos o que tinha visto. Não bastava a descoberta, era preciso comunicá-la, transformar em palavra viva a experiência vivenciada. Antes, ainda, de partir para a cidade, Miguilim pede ao doutor para emprestar-lhe novamente os óculos. E finalmente descobre: o Mutum era bonito! Olha muito para tudo e para todos, já em jeito de despedida, querendo guardar nos olhos aquilo que, mais uma vez, a emoção do momento impedia de exprimir. Os meninos poetas Nesta breve incursão pelo mundo das personagens infantis, gostaríamos de enfatizar que, ao lado da percepção sensorial, também uma certa capacidade imaginativa de recriação do real é privilégio tanto dos meninos quanto dos criadores literários. É por isso que Henriqueta Lisboa refere-se a Miguilim como um menino poeta: Se observarmos o comportamento de Miguilim em diferentes ensejos, seu psiquismo, reações e intuições, experiências afetivas, reflexões mentais, problemas morais, deslumbramento diante da natureza, apreensiva sensibilidade, fascinação pela sete cores, desejo de compreender e ser compreendido, pudor no sofrimento, faculdade de contenção, fantasias despautadas, chegamos à conclusão tranqüila de que se trata de um menino poeta.14 O poeta, assim como a criança, é aquele que ad-mira, que olha, que se deixa surpreender pela verdade oculta em cada ser. Sua arte não é só artesanato, arranjo de palavras de uma certa forma mais ou menos agradável, mas parte de uma revelação: o poeta mostra ao leitor um certo modo de conhecer alguma coisa, de apreender o mundo. A poesia, portanto, é instrumento de conhecimento do real. O olhar do poeta detém-se sobre as coisas e as palavras com a mesma admiração de Muidinga ao descobrir em si a capacidade de ler, ou de Miguilim, ao colocar os óculos do doutor: apetece-lhe antes de tudo conhecer e, depois, feita a descoberta, comunicá-la. Desse modo, ver, vislumbrar, intuir, perceber, sentir, contar e ler, que são formas de conhecimento que atuam plenamente no universo infantil, são igualmente qualidades que aproximam as crianças dos poetas. Assim como Muidinga e Miguilim, encontraremos na obra de Mia Couto e Guimarães Rosa um número significativo de personagens infantis que guardam a essência de uma sabedoria secreta, privilégio da infância, que o homem parece perder com o crescimento. A construção dessas personagens aponta para uma necessidade de buscar, na origem da vida, esse outro modo de conhecer inerente à infância, de onde brota a expressão poética. Para concluir nossa reflexão, gostaríamos de lembrar as palavras de Mia Couto, no prefácio do recém lançado livro do poeta Virgílio de Lemos: "A infância, esse tempo mais inventado que vivido, é um ancoradouro, retaguarda e inspiração de toda a aventura. E a vida do poeta passa a ser erguida com os mesmos materiais da infância – magia e invenção."15 Compete a nós, leitores, portanto, saborear as deliciosas brincriações com que, ao longo dos tempos, poetas da estatura de Mia Couto e Guimarães Rosa, entre tantos, teimam em nos saudar. Bibliografia: COUTO, Mia. "Prefácio". In LEMOS, Virgílio de. Eroticus moçambicanus: breve antologia da poesia escrita em Moçambique. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. COUTO, Mia. Terra sonâmbula. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. LEITE, Dante Moreira. Psicologia e literatura. 3ª ed. São Paulo: Ed. Nacional; Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1977. LISBOA, Henriqueta. "O motivo infantil na obra de Guimarães Rosa". In: COUTINHO, Eduardo F. (sel.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. ROSA, João Guimarães. Manuelzão e Miguilim (Corpo de baile). 9ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Notas 1. COUTO, Mia. Terra sonâmbula. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995. 2. Op. cit., p. 9. 3. Op. cit., p. 10. 4. Ônibus. 5. Op. cit., p. 12. 6.Op. cit., pp. 14-15. 7.Op. cit., p. 41. 8. LEITE, Dante Moreira. Psicologia e literatura. 3ª ed. São Paulo: Ed. Nacional; Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia, 1977. pp. 178-192. 9. ROSA, João Guimarães. Manuelzão e Miguilim (corpo de baile). 9ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 22. 10. Op. cit., p. 132. 11. Op. cit., p. 16 (grifo nosso). 12. Op. cit., p. 18. 13. Op. cit., p. 140. 14. LISBOA, Henriqueta. "O motivo infantil na obra de Guimarães Rosa". In: COUTINHO, Eduardo F. (sel.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. (Fortuna Crítica; 6). p. 174. 15. In LEMOS, Virgílio de. Eroticus moçambicanus: breve antologia da poesia escrita em Moçambique. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 16. |