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A UNIDADE ESSENCIAL: O "DRAMA EM GENTE" FERNANDO PESSOA

 
Aline Mara Garcia Lemos

Levando-se em consideração o ensaio de Jacinto do Prado Coelho em Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa (1977) percebe-se que este estudo revela a presença de "rasgos linguísticos comuns que permitem assinalar a existência de um estilo único, reflexo de uma originalidade pessoal inconfundível" (p. 174), ou seja, o crítico lusitano aponta uma similaridade de estilo entre Fernando Pessoa ortônimo e os heterônimos. Esta semelhança entre o Pessoa ortônimo e seus outros "eus" revela-se no uso de hipérbatos, antíteses e neologismos, entre outros recursos estilísticos. Portanto, apesar de reconhecer que existem caracteres individuais na obra de cada um dos heterônimos e do Pessoa ortônimo, Coelho ressalta uma unidade fundamental na obra pessoana: "não obstante os estilos dos heterônimos traduzirem atitudes temperamentais e modos de conceber a vida diferentes, é possível (...) reduzir as afinidades de estilo dos heterônimos a uma unidade psíquica basilar" (p. 140).

Partindo da análise de Jacinto do Prado Coelho, este trabalho pretende rastrear aspectos desta unidade fundamental estabelecendo relações entre o "drama estático" O Marinheiro (1913) e os poemas intitulados "Passos da Cruz", do livro Cancioneiro, ambos de autoria do Pessoa ortônimo. A contribuição que o trabalho procura acrescentar à constatação de uma unidade essencial na obra pessoana é a identificação de alguns elementos temáticos, ligados à tradição simbolista e ao saudosismo de Teixeira de Pascoaes, que na obra do modernista português ganharam complexidade e singularidade especiais. Este trabalho, em fase de aprofundamento1, apóia-se na hipótese de que, na raiz desse tronco comum, anterior à pluralidade da produção literária do modernista português, estaria a concepção metafísica do universo, que tem origem no idealismo platônico e que mantém estreitas relações com a obra dos poetas simbolistas e com as doutrinas saudosistas desenvolvidas em Portugal pelo grupo da Renascença, ao qual Pessoa esteve ligado no iníncio de sua atividade literária.

De essência metafísica e platônica, os elementos simbolistas e saudosistas presentes nos textos aqui analisados, fundamentam a unidade psíquica e estilística apontada por Jacinto do Prado Coelho.

Como primeiro exemplo do uso destes elementos simbolistas e saudosistas, serão analisados alguns aspectos de O Marinheiro. Tratando de temas metafísicos como a morte e o sonho, Fernando Pessoa demonstra sua capacidade de vasculhar o ambiente onírico, construindo um texto que se caracteriza pelas sugestões vagas e pela atmosfera irreal, no qual praticamente não se verifica nenhuma ação, o que levou o autor a denominá-lo como um "drama estático". O ambiente onírico e as sugestões vagas são características da estética simbolista, que também se apóia na musicalidade, no uso de aliterações e de sinestesias, valorizando as manifestações de uma realidade inconsciente ou oculta à razão. Pode-se dizer que, em Fernando Pessoa, essas características simbolistas vêm apresentadas em sua temática metafísica, na preocupação com aquilo que está além do mundo físico e material. Para exemplificar esta metafísica em O Marinheiro pode-se citar, primeiramente, o espaço mimético, aquele no qual se dá a ação propriamente dita. No "drama estático", esse espaço identifica-se como sendo o espaço do inconsciente, da imaginação e do sonho. Tudo é ambíguo e sugerido: "quarto que é sem dúvida num castelo antigo". O narrador não afirma "é num castelo antigo". A a ambigüidade é explorada no texto descritivo, num discurso que incorpora as impressões subjetivas, como na frase: "Vê-se que é circular"; ou, então, nesta outra: "à direita quase em frente a quem imagina o quarto".

O desenrolar da ação praticamente ocorre em um nível metafísico, já que esta ação se passa, provavelmente, apenas no inconsciente de uma das personagens (a Segunda veladora); ela ocorre, então, num plano não-material. O texto se constrói a partir de sugestões, contendo elementos esotéricos, ligados a uma interpretação ocultista do universo, revelando-se em vários símbolos, como os números: 3 veladoras, que formam 4 personagens, contando com uma morta, total que traz implícito um quinto personagem.

Os diálogos apresentam um núcleo narrativo, que se apresentam de modo fragmentário, que consiste num sonho, contado pela Segunda Veladora, sobre um marinheiro que, por sua vez, também sonhava com uma pátria ideal. Com o avançar da narração do sonho, as outras veladoras, e a própria narradora, vão desesperando-se com todas as palavras ditas, como se estas as distanciassem cada vez mais da "realidade", se é que se pode chamar de "realidade" o ambiente onírico e misterioso representado na peça. Durante esta narração, os elementos simbolistas da obra vão sendo apresentados, tanto na maneira sugestiva da linguagem, quanto no assunto predominante, que é a morte e os sonhos; tanto no tempo "real", cronológico da peça - a madrugada em que se dá o estranho velório -, quanto no espaço, onde se encontram as misteriosas personagens, o que é reforçado, ainda, pela presença de uma quinta pessoa cuja presença é referida apenas de modo indireto, nas diversas falas. Possivelmente, é no inconsciente da quinta personagem que se dá este "drama estático"; é possível interpretar a narrativa como representação de um estado interior, onde as referências a uma pessoa deitada, que é velada, fosse referências de vozes internas de uma realidade psíquica que desse modo sugerissem a presença da entidade física, que ali estivesse dormindo2. Portanto, a peça poderia ser compreendida como uma representação das vozes interiores do eu-lírico, vozes em conflito e tensão, mas todas vozes do inconsciente. Parece estranho falar em eu-lírico como o sujeito de uma peça teatral, mas o texto é mais poético do que dramático, o que é confirmado pela linguagem metafórica e simbólica.

Além deste teor metafísico, há ainda imagens presentes na peça que descrevem a incerteza e o mistério da vida. A imagem do "olhar para a chama da vela" , por exemplo, que aparece na fala da Terceira veladora, sintetiza o gesto de "olhar para a vida", "para o vivido". Outra imagem representativa é a imagem do barco sonhado, que não tem destino definido, confundindo-se assim com a própria essência da vida. Uma outra imagem ainda relevante no relato do sonho, ressaltando o platonismo e o saudosismo na peça, aparece no seguinte trecho: "Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca" (1980, p.114).

O mar das outras terras seria o mar ideal e perfeito, possível somente no mundo das idéias platônicas. O mar que se vê é o mar real e o que causa saudades do mar ideal, existente no mundo dos sonhos. Esta saudade do desconhecido é característica do Saudosismo português, movimento literário que desejava, entre outros objetivos, estabelecer uma simbiose entre saudade histórica e saudade da "alma", de essência platônica, resultando ambas numa pátria ideal. O desejo desta pátria ideal, saudosista , está presente em O Marinheiro na pátria criada pelo próprio marinheiro em sonho, por ele descrita como ideal. Verifica-se, ainda, a saudade metafísica que as veladoras revelam ter de um outro mundo, como subentende-se em: "Todo este país é muito triste...Aquele que vivi outrora era menos triste" (1980, p.114).

Também em "Passos da Cruz" encontram-se indícios deste saudosismo, justificando mais o seu aspecto metafísico. A saudade que se percebe nestes poemas de Fernando Pessoa não se referem à pátria terrena, portuguesa, mas a uma pátria celestial, ou melhor dizendo, uma pátria do Além.

Uma forma de melhor definir esta saudade é chamá-la de "nostalgia metafísica", como se pode depreender da leitura dos versos:

"Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo com quem lido (1992 , p.58)"

Parece haver nestes versos uma distinção entre o "humano povo" com quem o poeta lida e o seu Rei, que estariam num mundo além do material. Percebe-se uma clara relação entre esta nostalgia metafísica e a idéia de que o poeta teria sido incumbido de uma missão:

"Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções do Além,
E as palavras que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anômalo sentido" (1992, p.57)

Posicionando-se como emissário de um rei desconhecido, o sujeito poético diz cumprir instruções do Além, externando palavras que soam estranhas a ele mesmo, como se as dissesse independentemente de sua vontade, espontaneamente. Pode-se concluir que, em Fernando Pessoa, o Saudosismo teria contribuído para marcar a consciência do eu-lírico a respeito de uma missão superior. Assim como em O Marinheiro também em "Passos da Cruz" percebe-se uma sugestão de que uma força maior impulsiona tudo, podendo esta ser o inconsciente.

Há semelhanças destes poemas com o drama estático ainda devido à conotação metafísica e ao imagismo descritos pelo eu-lírico ao longo dos poemas de "Passos da Cruz", o que confere a esses textos poéticos uma atmosfera de sonho. Assim sendo, pode-se afirmar a possibilidade de semelhança temática entre estes trabalhos de Fernando Pessoa: a busca metafísica de uma essência do universo e do ser, confirmando a hipótese da unidade temática que une todas as facetas do poeta. A essa busca platônica do poeta pelo mundo perfeito deve-se a unidade essencial de sua obra, que tem por objetivo compreender a verdadeira essência do ser, buscando-a não neste mundo sensível, mas sim no desconhecido mundo do "Além", que também poderia ser chamado, como na teoria de Platão, como mundo inteligível.


Bibliografia

BOTELHO, Afonso. Da Saudade ao Saudosismo. Lisboa: Biblioteca Breve,1990

COELHO, Jacinto do Prado. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. São Paulo: Verbo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1977.

PESSOA, Fernando. O Eu Profundo e os outros Eus. (Seleção e nota Editorial de Afrânio Coutinho). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

PESSOA, Fernando. Antologia Poética (Selecção e Apresentação de Isabel Pascoaes). Lisboa: Biblioteca Ulisséia de Autores Portugueses, 1992.


Notas

1. Esta comunicação apresenta resultados parciais de uma pesquisa em andamento, que a autora está desenvolvendo como bolsista do PET/Letras/CAPES, sob orientação da Profª Drª Maria Lúcia Fernandes Guelfi, na FCL-UNESP/Araraquara.

2. Embora não seja possível fecher uma interpretação como a única plausível, pela própria ambigüidade estrutural do texto, arriscamo-nos a dar esta interpretação, com base no final do drama, quando alguns sons como o chiar de um carro e o cantar de um galo remetem o leitor passa uma realidade externa, para a qual o personagem que estaria dormindo acordasse.