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Autobiografia e Ficção

 
Luisa Mellid-Franco
Instituto Camões - Lisboa

Um dos mais reconhecidos méritos da autobiografia, a sua verdadeira força, por assim dizer, é transmitir a ilusão de que se está em presença de um conjunto de factos reais e concretos, contados sem nenhuma espécie de mediação.

Teoricamente, uma história transcrita pelo próprio autor que acumula os atributos de narrador e de sujeito de uma acção assumidamente não-fictícia, corresponde a uma história verdadeira, reproduzindo uma realidade: a sua própria história.

Enquanto acto linguístico deliberadamente colado à ordem do factual, é equiparável a outras formas de comunicação escrita directamente dirigidas a um segundo sujeito, privilegiado entre outros, como acontece no caso de cartas que se enviam sem nenhum outro objectivo senão aquele de transcrever os acontecimentos tais como foram vividos pelo indivíduo real que a elabora e transmite a mensagem escrita. Mas um indivíduo real, isto é, de carne e osso, às vezes diz a verdade e outras vezes mente, até (ou sobretudo) em relação a ele próprio.

O impacto, e simultaneamente o valor intrínseco da autobiografia, é directamente proporcional ao seu maior ou menor poder de convicção, em geral importante. Nada mais credível, com já foi aqui dito, do que a vida de uma pessoa contada por ela própria. A veracidade associada ao relato em questão é ainda agudizada pela capacidade do leitor em refazer, quase imperceptivelmente o papel do protagonista, entrar na sua pele revivendo os factos adoptando-o e adaptando a história mediante uma leitura que tem por trás uma determinada intencionalidade nesse sentido.

Analisado de perto, dirão os especialistas da área dos comportamentos, nada de especial parece ter incorrido nesse acto, multiplicado nos mais pequenos gestos do nosso dia-a-dia e que impregna a subjectividade do leitor. Este, se o texto for conseguido, participa e projecta-se nesse texto através das palavras de quem narra uma vivência que, ao ser partilhada com esse leitor sob a forma de testemunho, o aproxima de uma forma de reciprocidade ao nível das emoções.

Assim, o narrador - como duplo do protagonista - sustenta uma estrutura de enorme força autentificadora, avalizada por um acto de linguagem dos mais comuns e contextualizado por um processo de contacto verbal habitual entre os humanos, enquanto o leitor – como confidente privilegiado e facilmente seduzido pelas marcas de veracidade que o «eu-escritor-de-si-próprio», seja ele (ou tenha querido ser) sincero ou falacioso, atesta – certifica, através da sua fortíssima anuência, a sua parte de responsabilidade na recepção de um texto para além do seu conteúdo estritamente literário.

Esquecemos, no entanto, que existe um paradoxo entre essas duas realidades, a vivida e a transcrita, e que é o seguinte:

A autobiografia é ficção quando a consideramos a partir da sua perspectiva genológica, dado que através dela o autor não pretende reproduzir, mas recriar o seu «eu». Mas por outro lado, a autobiografia corresponde à realidade no sentido concreto sob o ponto de vista do leitor que faz dela, com maior facilidade do que para qualquer outro texto narrativo, uma leitura intencionalmente dirigida por uma escrita que procuraremos analisar.

A autobiografia não significa sempre, porém, escrita intimista.

A vida privada ou secreta de um indivíduo (embora os conceitos difiram) interessa áreas de saber diversificadas como a Psicologia, a Psicanálise ou a Sociologia. Os cânones teóricos nem sempre fazem corresponder os «relatos de vida – quer se trate de «memórias», testemunhos ou a troca de correspondência já referida a título de exemplo – a obras literárias consideradas enquanto tais. A isto acresce que nem todos os textos privados(na sua designação mais abrangente) se destinam à publicação, sendo por vezes e antes de tudo um diálogo consigo mesmo ou com um amigo genuinamente íntimo, textos esses que excluem, à partida – e sob risco de «voyeurismo» – o leitor. Caberia aqui um comentário sobre a pertinência ou o crime cometido – sobretudo por familiares e editores – no tratamento dos textos póstumos de autores consagrados, mas temo extravasar o tema e o modo deste estudo.

Contento-me, pois em sublinhar a existência de verdadeiros «escritos íntimos», e outros «pseudo-íntimos» que diferem uns dos outros na sua concepção como texto deliberadamente público ou privado. Há ainda uma terceira categoria de textos, falsas autobiografias ou autobiografias ficcionadas, que apenas menciono, posto que muito amiúde me debrucei sobre elas. Fazem parte dessa categoria de narrativas a generalidade dos romances Históricos ou Histórico-biográficos escritos na primeira pessoa. Não poderei deixar de colocar em primeiríssimo lugar «As Memórias de Adriano» de Marguerite Yourcenar em particular, que tão bem conheço e de que tantas vezes me servi como exemplo, a ponto de resistir à tentação de o citar novamente. Em contrapartida, proponho Javier Marías que com Vidas Escritas consegue ficcionar episódios absolutamente credíveis e a partir de circunstâncias previamente testemunhadas ou transcritas, da vida de escritores consagrados – embora embora de cunho biográfico e tratadas com brevidade. No seu prólogo, o escritor explica que a ideia lhe terá surgido de uma encomenda de pequenas notas biográficas sobre autores quase desconhecidos e que ele teria decidido transpor – enquanto método – a escritores como Henry James ou Arthur Rimbaud:

La idea era, en suma, tratar a esos literatos conocidos de todos como a personajes de ficción, que probablemente es la manera, por outro lado, en que todos los escritores desean íntimamente verse tratados, com independencia de su celebridad u olvido1

O «eu» atento a si próprio e consciente do seu ego, não implica necessariamente um ser que escreve fazendo coincidir o acto de viver com o exercício da escrita.

É simplesmente impossível, ou melhor inexequível na prática (sendo apenas possível na imaginação). Ora esta diferição espaço-tempo vai condicionar a isenção a que o sujeito-escritor se impunha, ao transforma-se em protagonista por intermédio de um narrador (também ele sobreponível em termos espacio-temporais).

Paula Mourão, capta excepcionalmente bem esta falácia quando afirma que:

(...) ao procurar o «eu» no passado, o sujeito quer reorientar o porvir, autocorrigindo-se ou inflectindo no seu percurso, construindo uma utopia de si que espera poder cumprir2

Não me proponho aqui fazer a distinção, de maneira exaustiva, do que é e do que deixa de ser «Autobiográfico». Limitar-me-ei apenas a considerar – como base razoável de trabalho nesta curta abordagem – que em relação à ficção, a autobiografia tem obrigatoriamente que provocar no leitor uma profunda impressão de verosimilhança, de modo que este leia o texto como uma verdadeira descrição, como um retrato escrito, feito pelo próprio. Como aquilo que, em pintura, corresponderia ao auto-retrato, privilegiando o aspecto ilustrativo sobre o conceito de «exemplum», prendendo-se este claramente com o foro da hagiografia ou, mais modernamente, da biografia. Um único autor foi exemplar no seu auto-retrato, em plena consciência: Montaigne, no qual a ideia de partilha na comunicação entre os homens levou a nos deixar os seus Essais:

Nul plaisir a goût pour moi sans communication. Il ne me vient pas une gaillarde pensée en l’âme qu’il ne me fâche de l’avoir produite seul, et n’ayant à qui l’offrir3

Três páginas adiante, tinha aliás feito a apologia do que deixava escrito sobre si próprio, nestes termos:

Tant y a qu’en ces mémoires, si on y regarde, on trouvera que j’ai tout dit, ou tout désigné. Ce que je ne puis exprimer, je le montre au doigt (...) je ne laisse rian à désirer et deviner de moi.4

Mas prosseguindo com a imagem do auto-retrato (passo a redundância), para que um pintor possa elaborar o seu, é necessário que se olhe ao espelho. No caso, porém, do escritor, para onde terá ele de olhar, que instância lhe poderá devolver a sua imagem?

Parece um pormenor sem importância, arrogando-se alguns críticos a comparar o escrito com o testemunhado por outrem, o que mais não é do que a comparação com o mesmo: a aparência, em ambos os casos.

Essencial, embora sistematicamente descurado nas análises teóricas sobre a autobiografia, é o estudo comparativo que passa pela interioridade do escritor e que só ele próprio conhece (e nem sempre escreve). É apenas o conhecimento de si que permite a verdadeira autobiografia, e quanto mais esta se conseguir rever na ficção, mais aproximada da vivência, e consequentemente dos factos, ela se posiciona. Neste sentido é necessário a toda e qualquer definição e a todo e qualquer debate genológico, considerar profundamente o seu carácter de fundamentação religiosa e mesmo sagrada.

Não basta distinguir entre o domínio do privado e do público, entre o sujeito de carne e osso e o protagonista de uma autobiografia. Há toda uma vertente eminentemente religiosa no sentido primordial de «re-ligio» ao nível da concepção e da definição da autobiografia, que tem como um dos mais ardentes defensores Georges Gusdorf. Este filósofo defende a seguinte tese:

Une vie humaine ne possède pas son centre en elle-même, ni sa valeur intrinsèque. Le fondement de la conscience de soi, sa justification ultime, se situe dans le rapport que cette existence entretient avec Dieu, son Créateur, et Jésus-Christ, son Sauveur5

A única pergunta que se colocaria a esta tese, com todo o respeito, uma vez que a presença de um «eu»em relação a si próprio só seria possível num espaço sacralizado e orientado pelo olhar do próprio Deus – e especificamente por um Cristo assumido como Salvador – como fazem os ateus e os agnósticos (para não referir os que não consideram Cristo como Salvador) para escrever as suas próprias autobiografias.

Outro problema que surge na charneira entre a autobiografia e a ficção é o da linha de água que separa, no caso, o protagonista desse «duplo», sendo que se a coincidência é rigorosa, o leitor deixa de poder ler o texto como autobiografia e tende a considerá-lo uma «História de vida», o que não é – a nível da recepção – exactamente o mesmo fenómeno.

É também digno de nota o facto de não participarem do mesmo estatuto narratológico os vários tipos de subscrição de autoria (pseudónimo, heterónimo, escritos anónimos, etc.) provocando leituras proporcionalmente diversificadas, que vão do simples reconhecimento à simpatia no sentido grego de sym-pathos, podendo ir até à ilusão de uma quase absoluta comunhão de sentimentos com o modelo literário.

A dificuldade em falar de si em toda sinceridade, entre o pudor e a confissão, a superação de si próprio e o lugar dos outros (os mais próximos e o público em geral), a procura da identidade e do lugar do seu próprio corpo em toda a consciência, particularmente no caso das mulheres, e as relações entre ele-próprio, a mãe a mulher a amante e a filha como tema sensível no caso dos homens, a vocação interrompida e a vida a dois, para ambos, mulheres e homens, são, deste modo «mise-en-scène» de textos experimentados na vivência dos seus autores gerando uma mono-estrutura em patamar, na qual o destinatário é naturalmente acolhido como testemunha.

O que mais pode confundir o leitor nesse convite, é a incoerência a nível de pontos de vista, que Seymour Chatman muito claramente justifica do seguinte modo:

Consider «autobiographical or first-person narration(...): the protagonist-as-narrator reports things from the perceptual point of view of his youger self. The narrator is older and wiser for his experiences6

Dito isto, o que é afinal a autobiografia?

Uma vez que a diferenciação entre os géneros literários é hoje tida (bem ou mal) como uma prática ultrapassada, e a grande necessidade de partir de uma definição – no sentido de classificação – é hoje impopular, para não dizer entendida como exercício inútil, mais ou menos restringida a meia dúzia de «pedantes» ( um pouco como a elaboração de fichas, para os modernaços das bases de dados computarizadas em portáteis). Circunscrever áreas, traçar fronteiras, levantar muros de referência entre campos de conhecimento afins ou paralelos mas não coincidentes é, pois, uma prática mal-afamada, politicamente incorrecta como hoje soe dizer-se, o que não a impede de ser tão necessária como sempre, pelo menos na organização de bibliotecas, livrarias, colecções e catálogos de editores, etc.

O inventário não existindo sem comentário prévio, é curioso que, ao fazê-lo no âmbito da autobiografia, esta categoria é regularmente excluída de uma outra, a do romance, e em caso de dúvida é imediatamente absorvida pela referida designação, «romance», se for considerada com pergaminhos de obra literária. Se, pelo contrário, a autobiografia não corresponde aos cânones teóricos (leia-se, como estes não estão claramente circunscritos, sobretudo se o seu autor não fizer parte dos ditos «consagrados»), os inventariadores de serviço adscrevem-na invariavelmente à categoria de «conjunto de depoimentos pessoais» e com sorte à de «testemunho».

A palavra «autobiografia» começa por surgir em França por volta de 1850, como sinónimo do termo «mémoires», e depressa o substitui porque apresenta vantagens – sobretudo a de permitir a derivação de adjectivos – em relação àquele cujo principal inconveniente era o de não poder ser utilizado no singular sob pena de mudança de sentido.

A definição, porém, mais ampla e mais dotada de razoabilidade é a de Philippe Lejeune, que embora não entre em contradição com Georges Gusdorf se impõem pelos termos eficazes em que é expressa:

Récit rétrospectif en prose, qu’une personne réelle fait de sa propre existence, lorsqu’elle met l’accent sur as vie individuelle, en particulier sur l’histoire de sa personalité7

Mas o que é realmente um «récit rétrospectif?, um relato, uma narrativa retrospectiva, sendo que narrativa oral ou escrita – supostamente verdadeira – pode literalmente opor-se a um romance, por definição «fictício»?

O narrador, peça nuclear deste tipo de relato, quando mergulha profunda e conscientemente na escrita da sua autobiografia, apenas tem como fonte aquilo que evoca: o seu passado. Está preso, enjaulado ao seu compromisso e quando começa a «contar» os dados estão lançados e o jogo (se assumido com honestidade), ultrapassa-o O seu único recurso, o último, é optar pela narrativa: ficcional ou confessional.

Alguns escritores temerários pensaram-na como algo de prospectivo, enquanto outros a escreveram deliberada e obsessivamente, multiplicando-a em ficções, que se revelariam mais tarde ser autobiografias antecipadas.

Mas em todos eles o olhar para trás foi o único método que correspondeu ao género, e o passado – no que diz respeito à história – foi, é e será a única dimensão temporal compatível. Não obstante, a utópica retrospectiva perfeita de uma existência a partir de um determinado ponto é materialmente impossível, pondo a nu as sua limitações que se podem resumir no facto que se vive a vida num sentido e que a mesma se conta em sentido contrário.

Por outro lado a narrativa de toda uma existência não pode ser totalmente coberta pelo relato retrospectivo. E nesse caso, a dúvida espreita: Se há grandes secções da cronologia memorável que são pura e simplesmente negligenciadas, preteridas ou apenas afloradas no texto autobiográfico, onde fixar o ponto de partida? A verdade é que a autobiografia acaba por deslizar sistematicamente, num conjunto de crónicas que correspondem a um período bem delimitado da vida do seu autor. Uma das soluções recorrentes é a selecção de uma tranche. Nesta escolha a infância é particularmente visada, talvez não tanto para começar por ordem cronológica, como pelo distanciamento provocado pelos anos e pelas emoções entretanto desenvolvidas em relação a essa fase de perdas e danos. Adolescência e idade adulta, constituem, por extensão, vertentes da mesma lógica.

A questão da dita «escrita feminina» como «sede tipológica» por excelência da narrativa escrita na primeira pessoa, também me parece ultrapassada. Não me alongarei sobre este tema, mas muito se poderia dizer sobre as características deste tipo de textos (e não da escrita em geral), pela mão de sensibilidades mais femininas ou mais masculinas, mas acima de tudo não dividindo o mundo em dois, entre homens e mulheres.

Continuidade e mudança, assim como uma focalização de dentro para fora e em associação livre de ideias e sentimentos, não temendo contradições, é apanágio de uma sensibilidade com características femininas em diversos graus, por isso a ficção autobiográfica, biográfica e histórica são áreas privilegiadas em determinados escritores, independentemente do seu sexo. Ao tempo linear, prefere-se uma percepção cíclica da duração e da reiteração. Ao ensaio, prefere-se a memória, sendo que a separação do escritor e do autor tende a tornar-se ténue e a passar quase desapercebida, sendo a escrita uma extensão de si próprio.

Segundo Marguerite Yourcenar, a tarefa do historiador e do autor de ficção históricas (note-se que ela não faz distinção de sexo), consiste em:

Refaire du dedans ce que les archéologues du XIXème siècle ont fait du dehors8

A minha opção pessoal, neste estudo como em toda a minha investigação, é a de privilegiar a vertente memorialística, seja ela sob a forma biográfica, autobiográfica ou histórica, em detrimento da perspectiva psicanalítica e/ou sociológica. Por outras palavras, interessa-me a subjectivação radical dos acontecimentos relatados, apenas quando o narrador de memórias homodiegéticas sucumbe ao discurso declaradamente autobiográfico.

Se a autobiografia tem um sexo ou uma idade em que, empurrados por uma fatalidade biológica, escritores e leitores são tentados, dado estarem mais susceptíveis ao seu perfume (no caso de quem a escreve) e à sua música (no caso de quem lê), apenas esse fenómeno me interessa ampliar. Escapa assumidamente a esta proposta de análise tudo o que não se contente em estabelecer nexos entre os três elementos teóricos que resultam na dupla ilusão da autobiografia e da ficção: As circunstâncias a que o quotidiano sujeita o protagonista; As convenções literárias, cuja maior importância, no caso, é a do pacto de leitura. E por fim o ingrediente fundamental, sem o qual, nem os factos nem a narrativa que os enquadra existiriam enquanto obra literária: A invenção, a imaginação, a criatividade no seu estado mais puro.

Autobiografia e ficção cruzam-se timidamente primeiro para se entrelaçarem solidamente depois, tecendo vidas que não sendo propriamente as dos seus autores, poderiam tê-lo sido. Dificilmente se encontra algo mais perfeito e genuíno do que um projecto de vida contado como deveria ter sido, como o sujeito que a escreve a posteriori a tinha querido sonhar, antes de que as circunstâncias tivessem feito – como um prisma cristalino – inflectir em outra direcção, desdobrando a brancura da sua luz em todas as cores do arco-íris.

Rio de Janeiro
Agosto de 99


Notas

1. Javier Marías, Vidas Escritas, Madrid, Siruela, 1992, 3ªed., p.11

2. Paula Mourão, "O secreto e o real – Caminhos contemporâneoas da Autobiografia e outros artigos intimistas", Românica – Revista de Literatura, 3 ( Faculdade de Letras de Lisboa, 1994 ), p. 28.

3. Montaigne, Essais, Paris, ed. Vikkey, ed. des PUF, 1965, III, IX, p.986

4. Ibid., p.983

5. Georges Gusdorf, Les Écritures du moi, Lignes de vie, vol.I, Paris, éd. Odile Jacob, p.210-211

6. Seymour Chatman, "Discourse: Nonnarreted Stories", Essential of the Theory of Fiction, London, Leicester University Press, 1996, 2ªed., p. 256

7. Philippe Lejeune, Le Pacte autobiographique, Paris, éd. du Seuil, 1975

8. Marguerite Yourcenar, "Carnets de notes de Mémoires d'Hadrien, 1952, Oeuvres Romanesques, Paris, Gallimard, 1982, p. 524