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A Viagem em Pedro e Paula, de Helder Macedo
Marisa Corrêa Silva - UEM
Pedro e Paula, segundo romance de Helder Macedo, pode ser lido como uma narrativa de peregrinação. Suas personagens procuram em diferentes tempos e espaços um sentido para suas vidas. As trajetórias dos protagonistas fundamentam a narrativa, cada uma emblemática das contradições e das transformações que moldaram o Ocidente na segunda metade do século XX. Para citar algumas: o feminismo, a queda do Muro de Berlim, o desvio do foco da utopia de uma noção de "igualdade" para a de "pluralidade", uma certa liberalização dos costumes de par com a sobrevivência de valores que aparentemente teriam sido ultrapassados. Além dos dois irmãos, outras personagens se delineiam através do signo da viagem: Fernanda, Gabriel, Ana, José, Ricardo Vale, o próprio narrador. Em maior ou menor grau, o deslocar-se para/em espaços distintos proporciona um jogo de imagens que marca etapas fundamentais na construção de cada uma das personagens. A viagem funciona, pois, como metáfora de busca e como elemento de composição de personagens no texto macediano. Genericamente falando, nota-se primeiro um trânsito entre três espaços que chamaremos externos, nacionais, visitados pelos personagens: Londres, Lisboa e Lourenço Marques. Cada uma dessas cidades em "L" funcionará na narrativa como fulcro simbólico de uma busca, consciente ou não, de valores e de chances de realização pessoal. E há também a dualidade do espaço regional, contrapondo Lisboa e a província, mais exatamente o Alentejo, em cujo âmbito se dá a trajetória de Fernanda. Antes de olharmos mais atentamente os espaços nacionais e regionais, convém que nos detenhamos sobre o primeiro capítulo da obra. Esse primeiro capítulo é uma espécie de resenha do tratamento que a narrativa dará à relação entre realidade e ficção. A frase inicial do texto reza: "O que certamente não aconteceu foi talvez o seguinte:". A partir desse começo desconcertante (REIS, 1998: 22-23) Macedo se apropria de várias personagens do filme "Casablanca" e procede de maneira a sugerir uma continuidade - ainda que não um fecho- no filme. Essa continuidade se divide ora em continuidade dentro do universo do filme, ora continuidade fora desse universo, quando fala-se de "Ilze" e "Lazslo" a propósito dos acontecimentos subseqüentes na vida dos atores que personificaram o casal. Não há uma delimitação formal das fronteiras entre o universo real (de Ingrid Bergmann, por exemplo) e imaginário (de Ilse), antes uma propositada dissolução de suas fronteiras. Assim, "o casal búlgaro terá conseguido ou não diluir os ignorados remorsos de culpas inocentes no seu partilhado sonho americano" (p. 15), mas "Ilse, já não Ilse, foi para a Itália (...) e começou o escândalo com o Rossellini, enquanto Victor Laszlo deve ter regressado a Hollywood..." (id.). O hábil e reiterado uso das condicionais ("terá conseguido ou não", "Laszlo deve ter regressado" ) mescladas com afirmativas ("foi para a Itália") constrói essa sensação de apagamento de fronteiras. Notemos que "Casablanca" é um filme em que os diferentes espaços, percorridos ou buscados pelos protagonistas, também possuem significado simbólico. Nesse primeiro capítulo, junto com o casal austríaco e o casal búlgaro, Ilse e Laszlo (logo a seguir "confundidos" com os atores que os personificaram) afinal aterrisam em Portugal. A partir daí, entram referências aos filmes de Antonio Silva, ao Teatro de Revista português, até concluir: "Tudo para que este livro de agora, moderno e europeu, pudesse ter começado assim, à maneira realista. Ou seja: baseado no que eu próprio vi e não no mero diz-se." (p. 17) Ora, esse "eu próprio vi" não é uma afirmação de um testemunho do real, antes o "ver" de quem vai ao cinema, testemunhar ficções que podem ou não ser baseadas em acontecimentos do real. Ele próprio viu ( = assistiu) "Casablanca" e os filmes de Silva; presumiu uma continuidade plausível na "vida" do casal búlgaro; recorda-se vagamente de uma carreira posterior de "Laszlo" em Hollywood; assistiu o diálogo da revista no Parque Mayer. O cinema e o teatro ficam assemelhados à Literatura: representação transfigurada de uma verdade que transcende o universo dessa representação. Há que ler cuidadosamente, portanto, a "maneira realista" de que nos fala o autor. Há também que se observar que o "escândalo com Rossellini" deve ter sido "visto" através dos relatos nos meios de comunicação de massa, uma vez que Macedo sequer estava na Itália. Cinema, teatro e relatos de comunicação de massa passam a valer como origem de testemunho, opostos ao "mero diz-se". É como se a possibilidade de distorção e/ou manipulação dos conteúdos fosse menos importante do que a verdade simbólica que eles instituem ao serem recebidos e universalizados, passando a integrar o repertório de uma grande quantidade de indivíduos que se identificariam, mais ou menos conscientemente, com certos valores ali postulados. O repertório desse imaginário coletivo é uma "verdade" e um testemunho na medida em que fornece casos exemplares de uma determinada mundivisão, de uma determinada ideologia, de uma determinada cultura. Viajar pelo repertório do imaginário não é, portanto, centrar fogo na ficção: é, também, "à maneira realista", visitar um registro simbólico de uma sociedade. Essa mistura propositada entre ficção e realidade é, também, uma clara advertência ao leitor de que as fronteiras não importam dentro dessa obra. O apoderar-se das personagens de um dos filmes mais populares que há acaba sendo uma espécie de manifesto do autor, explicando ao leitor atento seus procedimentos específicos de: a)- Intertextualidade, aliás iniciada já nas epígrafes, que são verdadeiras chaves de leitura do romance. Seis citações viajam (e não utilizamos esse termo por acaso) de Bernardim Ribeiro a Camões, a Garret, Eça, Cesário e Machado de Assis. A importância da viagem é bastante conhecida na obra dos três primeiros autores; em Eça, pensemos na contraposição "anglicidade vs. portugalidade romântica" n’ Os Maias, ou no tratamento do tema em A Cidade e as Serras. A "Lisboa interior" de Cesário e o Brasil universalizado de Machado emolduram bem o quadro. Aliás, o fragmento escolhido de Cesário ("E eu recompunha, por anatomia/ um novo corpo orgânico, aos bocados") remete imediatamente à teoria do mosaico (composição literária feita de harmonização de fragmentos) que Macedo propõe em seu primeiro e extraordinário romance, Partes de África. b)- Intratextualidade. Exemplificando, tomemos o pequeno trecho de Teatro de Revista que é posto a "dialogar" com "Casablanca" numa passagem de ritmo alucinado: -Compére: Veneza!... Ó Menina Flausina, parece que já vem ali a gôndola. Música, maestro! Coro: Veneza, Veneza... Foi por isso que a Ilse (...) teria caído com febres de África. Mas sempre se podia chamar o falso médico do filme onde o Vasco Santana, o que estava para o António Silva como o Bucha estaria para o Estica (...) e podia cantar-lhe um fado terapêutico, que era o melhor que se podia arranjar num país onde já dizia o outro que a ocupação nacional é estar doente (...) E que foi, cantando e rindo, a imagem dessa Lisboa (...) que me ia chegando às minhas remotas partes de África. (pp.16-17) "Casablanca", Os Maias, teatro de revista, cinema português, tudo isso parte para compor um sistema de referência interno ao texto, assumido como tal pelo narrador; intratextual. c)- Desconstrução da narrativa tradicional: através de, em primeiro lugar, jogar-se abertamente com a questão da ficcionalidade; em segundo, de esse mesmo jogo tornar-se tão complexo que desestabiliza quaisquer pretensões metaliterárias. Aliás, esse desmistificar da metaliteratura já se dava em Partes de África (DAL FARRA, 1993: 117-120). Além disso, essas referências também cumprem um papel proléptico (Cf. Genette) de diversos elementos da narrativa subseqüente. Começa o livro, portanto, com uma peregrinação ao imaginário, ao repertório da contrafacção que acaba por simbolizar um estado de coisas dentro do mundo real. Não importa que as referências culturais que permearão o livro todo (música, ópera, cinema, teatro, pintura) possam ser díspares sob um ponto de vista mais purista, que ressinta-se, por exemplo, do fato de "Casablanca", gênero ligado à fase de implantação da indústria cultural, ser posto lado a lado com as óperas de Wagner: o repertório dessas referências é já em si revelador. Trata-se de um determinado espaço e de um determinado tempo em que a mistura dessas referências díspares faz parte do repertório de qualquer indivíduo razoavelmente culto que pertença a esse contexto. Viaja-se, por assim dizer, de "Casablanca" a "2001: Uma Odisséia no Espaço"; de Antonio Silva aos Irmãos Marx; de Mozart a Stravinsky e Schoenberg; de Debussy e Satie a Liszt; de Wagner a Joplin; do "Noivado do Sepulcro" aos concertos na Gulbenkian e óperas no S. Carlos; de Matisse a Balthus; da revista no Parque Mayer ao Teatro de Maria do Céu Guerra. Mais ainda, podemos cruzar essas referências e viajar de Wagner a "Casablanca", de Debussy a Matisse, de Maria do Céu Guerra a "2001". O movimento de apropriação histórica (cf. SILVA, 1995: 117-124) dá-se não somente na linha temporal, mas também num cruzamento de gêneros e formas através das leituras individuais que se podem fazer das temáticas abordadas, dos modos de representação, citações e influências, etc. Alguns elementos dessa "viagem pelo imaginário" referendam os aspectos míticos e psicanalíticos que serão utilizados na narrativa, especialmente no tratamento dos temas do incesto e da repressão. A Tetralogia do Reno e "Casablanca" destacam-se entre eles, a começar pelo sugestão da "dentista-parteira" alemã de que os gêmeos sejam batizados como Sigmundo e Siglinda. A máscara de "segurança" que se apõe aos mecanismos de repressão asseguradores de dominação política também é apresentada, e de forma didática, em "Casablanca"; e será recuperada na trajetória do inspetor da Pide. A partir do capítulo introdutório, temos a narrativa propriamente dita, que abrange duas gerações mas centra-se na vida dos gêmeos. De Portugal a Londres e Moçambique, Pedro e Paula vão em busca de um espaço que lhes permita realizar sua potencialidade humana (seja ela apresentada como eufórica ou disfórica pela narrativa). Além disso, temos Gabriel (padrinho dos gêmeos e, anos depois, companheiro de Paula), Vale, Fernanda (namorada que Pedro abandona grávida, acreditando ter ela feito um aborto, e com quem se casa anos depois) Ana (a mãe) e José (o pai), cada um com seu "roteiro de viagem", por vezes a cruzar-se e descruzar-se com os dos protagonistas. Se olharmos bem cada um desses "roteiros", compreenderemos que não existe em Pedro e Paula um determinismo no sentido convencional do termo, onde o simples mudar de espaços condiciona as atitudes e projetos de vida. Cada um dos personagens reagirá aos mesmos pontos de peregrinação segundo sua própria natureza. Por exemplo, Paula vai a Lisboa e depois a Londres em busca de um espaço social que lhe permita um tipo de estudos e uma carreira que certamente ser-lhe-iam negados em Lourenço Marques. Moçambique é, para ela, o espaço onde sua potencialidade humana é negada e aprisionada; o espaço de domínio do sistema de valores que condenou sua mãe a tornar-se uma pessoa frustrada e resignada e que, caso nele permaneça, torna-la-á igual à mãe. Já a breve estadia em Londres representa para Paula um encontro consigo mesma. Após isso, ela faz suas opções; encontrou-se por um momento num espaço onde sua independência e seus valores eram possíveis, mais que isso, eram prováveis. Seu retorno a Portugal, embora motivado pelo apego ao irmão, acaba sendo uma ampliação de sua individualidade. Expliquemos: ela deixa o contexto onde pôde afirmar seus valores, mas leva esses valores consigo para afirmá-los num contexto muito diferente e, sob vários aspectos, menos tolerante: o de Lisboa. Em Londres, ela vai aprender a liberdade de uma forma mais profunda do que já havia "ensaiado" em Portugal. Ao regressar a Lisboa ela passará a ensinar essa liberdade amadurecida, ao menos no contexto da narrativa, que contempla e erige Paula em exemplo através de várias estratégias, uma delas a própria afirmação do narrador de que "tomei partido: gosto da Paula, apetece-me a Paula..." (p.47). Isso não que dizer que os espaços nacionais sejam absolutamente rígidos em sua imagem de conservantismo/mediocridade vs. libertarismo/brilho. Londres também é o espaço onde Gabriel leva uma vida estagnada; e Lourenço Marques é o palco de uma tragédia colonialista, onde as relações de poder, levadas ao extremo, concedem uma liberdade perversa ao sadismo de um Ricardo Vale. Conservantismo, sim, mas em meio à mediocridade que se depreende do meio laurentino a ação da PIDE (condenável, sem dúvida, mas jamais desprezível) sobressai como realização de uma distopia. Lourenço Marques, polo sem privilégios da relação colonial, não oferece possibilidades eufóricas, mas não se esgota na mediocridade. Pedro, por sua vez, sai jovenzinho de Moçambique a Lisboa com a intenção de buscar o "bom ensino", o diploma na metrópole que distingue os filhos das melhores famílias da colônia. Não é sua liberdade que busca, senão a continuação de um projeto colonialista, ao contrário da irmã. Após alguns anos em Lisboa, ele sofre uma espécie de colapso nervoso e simplesmente não comparece aos exames finais de medicina. Pior que isso, não tem coragem de revelar aos pais sua situação. Ricardo Vale, inspetor da PIDE, colaborador de José, vem de Lourenço Marques e obtém que o rapaz faça novamente os exames através do exército. Tendo sido "transformado em metáfora nacional de falso médico" (p.70), o rapaz acaba por regularizar discretamente sua situação e encontrar refúgio em Lourenço Marques, onde torna-se por algum tempo um dos luminares da intelligentsia local. Fá-lo de uma maneira semelhante, embora mais confortável e menos dramática, à de Fernanda ao retornar para a província após ser abandonada. Quando, à pág. 95, lê-se que Pedro "passou a ser o médico da moda e o favorito genro potencial de toda a cidade. Foi-se portanto deixando ficar em Lourenço Marques, finalmente desvanecido o pesadelo distante dos seus últimos tempos de Lisboa...", o tipo de oposição que o texto cria entre Lisboa e Lourenço Marques é clarificado. Embora os exames tenham afinal sido prestados através de um subterfúgio, Pedro não consegue superar a sensação de falha. Lisboa, onde os colegas da Faculdade e a irmã sabiam a verdade, é o lugar da vergonha, espaço onde a "superioridade" encontrada na colônia se desfaz para dar lugar à consciência da sua dependência do pacto de silêncio implicitamente celebrado com os ex-colegas (através do esquecimento) e abertamente celebrado com Paula através da afetividade. Na colônia, onde não se soubera da falha, a mentira dos exames bem-sucedidos pode ser vivida e dar início a uma existência "venturosa". Mas a mentira (e a vida que se inicia a partir dela) tem duração limitada. A independência de Moçambique e a conseqüente nacionalização da medicina forçam Pedro a regressar a Lisboa, cenário de sua falha; é como se a relação colonial e os privilégios criados artificialmente para os colonizadores ficassem metaforizados nessa trajetória vitoriosa de Pedro, baseada no desconhecimento de seus pares sobre sua falha passada; e o desfazer-se dessa vida através da ruptura da situação colonial fosse um desvestir de máscara, uma vez que Pedro, sozinho e por seu próprio valor, não será bem-sucedido na metrópole. O final da guerra colonial, o suicídio do pai e a nacionalização da medicina destroem a ilusão de segurança em que Pedro vivia. Seu regresso a Lisboa é para ele uma reiteração do fracasso, regresso ao espaço onde falhara, abandono de um lar confortável pela má moradia e o anonimato que julga não merecer. Seus sentimentos sobre Gabriel, Paula e a própria mãe (que mora numa bela casa em Azeitão, graças a Paula e Gabriel) não são narrados (no sentido do narrador onisciente), mas suas atitudes indicam uma inveja surda e não assumida do que julga ser a "boa vida" deles. Por exemplo, após o casamento e o reconhecimento da paternidade de Elmano, Fernanda e Ana estabelecem a princípio uma aparência de bom relacionamento. Ao descobrir que Ana quis amamentar o próprio neto, Fernanda corta relações com a sogra e Pedro aumenta o rancor da mulher contra Ana contando-lhe a estranhíssima relação da mãe com Ricardo Vale (p. 148). Ou ainda, quando Fernanda o persuade a interditar a mãe, a focalização centra-se no rapaz e persegue uma irritação crescente e injusta contra Ana e Paula, até terminar em "nunca esqueceria as humilhações que o tinham feito passar" (p.165). A viagem é, para Pedro, uma provação e uma tentativa de fuga. Ao sair de África para estudar em Lisboa, ele passa pelas "provações" do comportamento rebelde de Paula e do colapso nervoso nos exames. De lá, foge para Lourenço Marques: se consegue alguma paz de espírito, também passa pela "provação" do suicídio paterno no final da guerra. Expulso de Lourenço Marques, foge a contragosto para Lisboa: o difícil recomeço e a relativa pobreza são, para ele, novas provações, humilhações, após o sucesso laurentino. Sem alternativa melhor, ele torna a viajar, desta vez para o Alentejo, buscando um passado "corrigido"; refugia-se em Fernanda e acaba por responsabilizar a mãe e a irmã pelos percalços causados pelo desmantelamento do império colonial. Os pais dos gêmeos partilham uma grande viagem, que é a ida a Lourenço Marques. Revoltado por ter sido preterido na carreira diplomática, José escolhe fazer carreira em Moçambique como uma fuga de sua frustração. Lá, torna-se (ou revela-se) um burocrata incapaz de compreender a realidade que o cerca; segundo o próprio Ricardo Vale, "o pateta da política dos espíritos" (p. 108). Ana, acompanhando o marido, com quem se casara sem grande inclinação, vê-se gradativamente exasperada por uma vida de frustração pessoal; acaba por tornar-se neurótica, talvez desequilibrada (como interessa a José e depois a Pedro rotulá-la), certamente manipuladora a partir de sua postura de vítima, como atesta o diálogo com Paula nas páginas 153 a 156. O regresso de Ana a Lisboa ocorre após a Independência de Moçambique e o suicídio do marido: trata-se do oposto da peregrinação, o oposto do regresso de Gabriel. Ana já não luta por mais nada, projeta sua realização na filha e ao mesmo tempo ressente-se do fato de Paula ter obtido sucesso em seus projetos pessoais. Nesse ponto, sua relação com Vale é de uma coerência extrema, embora isso não diminua sua estranheza. (Vale, sob pretexto de levar notícias da "filhinha querida", acaba por demonstrar métodos de tortura utilizando uma foto de Paula que Ana lhe mostra. Isso acontece repetidas vezes - segundo Vale). Ana passa a ser um eco do passado, perdida em Azeitão, finalmente internada em um asilo. Ela perde as próprias metas ao casar com José e a ele entregar o comando de sua vida; morto o marido, ela não se reencontra, passa a procurar nos filhos a voz de comando a que obedecer. Sua patética fantasia de apossar-se do neto (Elmano) resume essa temática da vida de frustrações que tenta se projetar compensatoriamente nas gerações seguintes. É fundamental observar que o fato de a Lourenço Marques não se ter atribuído nenhuma possibilidade efetiva de desenvolvimento eufórico não significa, de maneira nenhuma, que Macedo assuma uma postura blasé com relação à África. A relação colonial é que é vista como criadora de um beco sem saída para os habitantes de seu polo oprimido, seja ele qual for. Ao tornar-se autônomo, esse mesmo espaço se transforma e essa transformação é simbolizada primeiro no fato de Vale ter que fugir de lá; esse lugar já não é seu habitat, antes um ambiente a ele hostil. Depois, as modificações desse ambiente acabam por obrigar Ana e, ainda adiante, Pedro, a voltarem para Lisboa. Ao deixar de ser colônia, Moçambique expulsa (ou destrói, como no caso de José) as personagens que emblematizam sua mediocridade e conservantismo. A volta dos gêmeos a Lisboa é um ponto crucial na rota dessa peregrinação: só a partir daí é que as diferenças na trajetória de cada um passam a ser significativamente comparáveis, cada um constituindo-se como narrativa de uma potencialidade humana e não como produto do meio. É em Lisboa que Paula consuma o amor com Gabriel e estabiliza sua vida afetiva. Essa união acaba por tornar mais proveitosa a vida de Gabriel, que volta a se interessar pelo ativismo político. Esse homem, a quem o exílio em Londres fora a busca de uma liberdade estéril (simbolizada pela vida "contemplativa" e pelo fracasso de seu casamento, seguido de vários relacionamentos breves e insatisfatórios), faz de sua viagem de volta a Lisboa o retomar de um projeto perdido. É como se Gabriel, após um interregno marcado pela frustração que o faz comparar-se a um voyeur (p. 42), reencontrasse o próprio rumo numa pátria que abandonara por julgar erroneamente não ter mais o que lhe oferecer. Se em Londres Gabriel encontra um anonimato confortável, onde pode cultivar seu suposto cinismo e desilusão, é lá que o vai buscar Paula, que experimenta, pela primeira vez, longe do poder paterno direto ou indireto, exercido pelo irmão "protetor", uma liberdade efetiva. O encontro definitivo entre ambos, porém, não se dará nessa Londres ao mesmo tempo metafórica de liberdade e de estagnação. acontecerá, como já dissemos, em Lisboa. Londres representa a chance, o potencial de tudo para acontecer ou não acontecer. O retorno ao espaço lisboeta é que confirmará o encontro ocasional, a possibilidade efetivada do leque entreaberto. Ali Paula acaba sendo, ao contrário do que se poderia esperar de uma personagem que pregava a rebeldia e o inconformismo, "exemplar": um bastião de certos valores humanos. Ela tenta sinceramente ajudar a mãe e o irmão; tenta manter uma relação amistosa com Fernanda; tenta mesmo suportar a presença de Vale quando Pedro teme que o inspetor revele seu fracasso aos pais. Lealdade, apego à família, fidelidade sem esforço ao companheiro, generosidade, simpatia pelas causas libertárias, etc.: Ana, Fernanda e Pedro parecem ter mantido apenas as aparências desses valores, ou ainda have-los, a partir de um determinado ponto, pervertido - como o "amor materno" de Ana, tornado em brincadeira perversa com Vale. A confrontação entre os irmãos é prenunciada no livro através de diversas prolepses, de indícios e de verdadeiros "ensaios". Curiosamente, esses "ensaios" são sempre esvaziados ou contornados pela disposição conciliatória da "rebelde" Paula. (Por exemplo, no diálogo às págs. 133-134, quando Pedro insulta violentamente a irmã e esta reage com um "Deixa lá, Pedro. Pois é.") Na verdade, embora o incesto e a confrontação estejam prefigurados, o leitor surpreende-se com a maneira que ambos ocorrem. O inspetor da PIDE, Ricardo Vale, se desloca entre Lisboa e Lourenço Marques, mas tem também passagens pela "África do Sul, Malawi, complicações no aeroporto de Londres, um trânsito rápido em Espanha para ainda cheirar um arzinho vindo de Portugal, até que chegou no ano seguinte à zona Norte do Rio." (p. 107) Essas rápidas linhas são indícios da vetorização na trajetória de Vale. Nesse "roteiro" das ex-colônias para a Metrópole, em países que viviam sob regimes ditatoriais, etc., sobressai a menção às complicações em Londres. Essas complicações fazem pendant com a quase detenção que Gabriel sofre ao chegar no aeroporto da Portela, em Lisboa (p. 71), marcando a oposição "ditadura/liberdade" que as duas cidades assumiram na época em que se passa essa parte da ação. Em seu reaparecimento em Lisboa, Vale continua perverso e sádico: aprendeu, porém, a jogar com o potencial alheio para a violência. Factualmente, ele é o estopim da violência final de Pedro contra Paula. Embora utilize sempre o discurso (sinistro) do "desejar proteger", o que se vê é Vale jogando com as fraquezas de Ana, Pedro e da própria Paula, até que a confrontação cuidadosamente evitada durante anos venha à luz, e aconteça no primeiro momento em que Paula insulta o irmão, jogando-lhe ao rosto sua nulidade como ser humano. Esse inspetor (ou simplesmente pide, o nome da corporação tornado genericamente a descrição sumária de um tipo) também é quem "esvazia" Ana e Pedro de seus últimos resquícios de dignidade. É através do seu narrar que ficamos sabendo das entrevistas onde Ana lhe cedia a fotografia de Paula para que ele lhe explicasse técnicas de tortura; é através de sua influência que Fernanda finalmente convence Pedro a interditar os bens da mãe; é por sua ação direta, enviando a Paula a carta que Pedro lhe escrevera, que ocorrem a briga final e o estupro. A peregrinação de Vale pelas ditaduras refinou sua monstruosidade. Temos ainda Macedo, o autor-narrador. Ele também vai da Inglaterra a Portugal, nesse percurso conhecendo Paula, Pedro e Gabriel, e afinal ouvindo de Paula a narrativa de que, dentro do texto, afirma se apropriar. Segundo essa lógica interna ao texto, Macedo se institui narrador através do conhecimento (e posterior relato) de uma estória, o que acontece durante as viagens. Do ponto de vista da construção do autor-narrador no texto, a viagem é a um só tempo o germe e o espaço de sua própria constituição. De jovem marxista a proprietária de imóveis, cuja última vitória "aquisitiva" se dá às custas da mãe do marido, Fernanda exemplifica à perfeição o tipo de mulher narrado na anedota inglesa sobre as ladies expressando seu repúdio ao sufragismo: "Qualquer esposa que não seja capaz de influenciar o marido a votar em quem ela deseja não é digna desse marido". Fernanda tem uma trajetória toda definida em termos do "espaço interno". Ela é, no momento em que surge na narrativa, (p. 56) uma jovem ingênua. Engravidada e abandonada por Pedro, ela desaparece, aparentemente após um aborto. Anos depois, em 1972 (p. 131), Fernanda reaparece abruptamente com o filho que, afinal, resolvera ter e criar sozinha. Em 75, quando fica sabendo da estória, Pedro vai procurá-la e acaba por encontrá-la em Borba, no Alentejo. Esse regresso à província, onde enfrentara dificuldades devido à situação de mãe solteira e à atividade política (conta que ela e a criança chegaram a estar na cadeia); e onde afinal se tornara delegada regional, fundamentam a evolução da personagem. A dureza das situações que Fernanda teve de enfrentar é apenas mencionada pela narrativa; seu regresso à província vai, simbolicamente, dirigi-la às próprias raízes. Essa jovem socialista que prega a reforma agrária irá, assim que tiver oportunidade, transformar-se em aquisidora de bens imóveis, numa perversão do sentimento de amor pela terra. O regresso a Lisboa pela mão de Pedro, com quem se casa, é a "volta por cima". Sua primeira ida a Lisboa foi, a um só tempo, um fracasso (gravidez, abandono) e a semente de seu triunfo futuro (casamento, domínio sobre o marido, enriquecimento). Os anos passados no Alentejo são, simbolicamente, os anos de germinação dessa Fernanda implacável e obstinada, cuja transformação em capitalista é narrada à pág. 143: ... não rir demais da caricatura inimiga de si própria em que a tenaz militante porventura se irá tornar se ou quando vestir a pele do inimigo, a imitar o inimigo para melhor se vingar dele, até que a imitação se tornasse em natureza e a pele postiça na que já outra não pudesse ser a menos se esfolada o que, convenhamos, sempre aleija. A segunda ida a Lisboa permite que essa Fernanda se realize em relativamente pouco tempo. Antes do final desse capítulo, já a teremos proprietária de casas, rompida com a sogra (cuja amizade pelo neto a princípio favorecera, e há indícios textuais de que só o fizera por interêsse), dominando Pedro. Ao buscar Fernanda e o filho no Alentejo, Pedro encontra o sustentáculo de que necessitava para dar impulso à sua carreira como médico. Escudado pela vontade da mulher, pode dar-se ao luxo de alimentar os rancores desta contra a própria mãe, Ana, e contra Paula. As rupturas, a partir daí, ocorrem pela intermediação de Fernanda, embora o marido sempre tenha algumas palavras a acrescentar para açular a indignação da mulher. Pedro e Fernanda são complementos naturais um do outro, tanto como diz o narrador terem sido Ana e José. Ou seja: a viagem de Pedro ao Alentejo também tem conotações ambíguas. Se lá ele busca o próprio passado representado por Fernanda, e encontra nesse passado forças para melhorar sua condição presente, ele também faz desse "resgate do passado" o motor com que desenvolverá seus piores defeitos: a falsidade, a deslealdade, o egoísmo acomodativo. No confronto final com Paula, ele afirma: "É à Fernanda que devo tudo. Exclusivamente." (p. 181). Da ótica da evolução da personagem, essas palavras são exatas. A mulher é quem proporciona a Pedro a vitória do ponto de vista material, e o naufrágio final de seus valores humanos. Se pensarmos em tudo isso como metáfora, poderíamos dizer que, contrariando Freud, nem sempre o resgate do passado significa a solução da neurose. Poderíamos inclusive fazer um parêntesis relacionando a predileção de Pedro por Wagner e seus heróis míticos predestinados a falhar (pensemos em Sigmundo e sua peregrinação em busca do próprio passado e da própria identidade, cuja tentativa de resgate leva-o à destruição), e ecos do nazismo (discutivelmente) prenunciado na mitologia wagneriana. Tema que fatalmente nos levaria de volta a "Casablanca"... A jornada de Fernanda ao Alentejo também tem, como já antecipamos, pontos em comum com a volta do recém-formado Pedro a Lourenço Marques. Ambos vão de regresso a um espaço onde suas desditas são ignoradas. Se ele pode firmar-se no status afinal obtido de médico, ela também pode reconstruir a estória de seu abandono, tal como o faz às pags. 139-140, ao fazer o filho pensar que o pai nunca os procurara antes porque "teve de ir para a África,(...) onde havia a guerra". A diferença maior é que Fernanda teve que criar o filho sozinha, com medo da PIDE, sem família que a apoiasse, enfim: sob condições muito mais difíceis. Pedro tem diversos privilégios na colônia. Mas, como já vimos anteriormente, as dificuldades enfrentadas fortalecem o ânimo de Fernanda, capacitando-a a dominar totalmente o marido anos depois; e Pedro apenas se fragiliza mais em África, torna-se mais e mais egoísta e incapaz de lidar com adversidades. É como se essas peregrinações quase que simultâneas preparassem um para o outro, tornando possível e mesmo desejável uma união que, no tempo da faculdade de Medicina, seria impensável para o rapaz. De modo que temos o espaço regional (Alentejo) a um só tempo assimilado funcionalmente ao espaço da colônia (local para onde se "fogem" dos fracassos) e contraposto a esse mesmo espaço (pois no Alentejo se focaliza a vida de uma personagem "oprimida", destituída de privilégios, e em Lourenço Marques o foco está com um detentor de privilégios). Trata-se, de qualquer maneira, de um espaço de retrocesso, de volta a um passado reconfortante. Mais do que a própria identidade, Fernanda - e Pedro, ao buscá-la- tentam encontrar no Alentejo a recordação de tempos mais felizes, anteriores à falha de cada um: o abandono e o colapso nervoso. Só que, ao invés de reencontrarem uma inocência perdida, encontram o germe da perversão dos valores humanos. Comparemos essas jornadas com as de Paula e Gabriel, que buscam ou o espaço do futuro (Londres) ou o espaço da luta presente (Lisboa), sem jamais intentarem recobrar um passado mitificado. É por isso que a Lisboa de uns é tão diferente da Lisboa dos outros: esses vivem pelo e para o passado, para a preservação desses valores retrógrados a partir do momento em que isso lhe dê privilégios; aqueles vivem o presente, aceitando e mesmo buscando as mudanças. É como se houvesse uma clivagem temporal desse mesmo espaço lisboeta, causada pelo vetor do olhar dos protagonistas. Pedro e Paula contrapõe, dessa forma, três tipos de peregrinação: primeiramente, a do espaço externo, que vai a outros países e culturas em busca de imagens (de liberdade, como a Londres de Paula; de consolo na mediocridade, como a Lourenço Marques de Pedro e José) que concretizem/presentifiquem necessidades e impulsos de cada personagem, em determinados momentos de crise em suas vidas. Se a imagem de Londres no texto é predominantemente a de liberdade, Portugal representa um espaço intermédio, onde Fernanda, embora presa por seu ativismo político, não sofre nada semelhante às torturas que a PIDE faz aos supostos revolucionários moçambicanos. Lourenço Marques (e não Maputo: a distinção entre a colônia e o país independente é fundamental) é o espaço da degradação da mediocridade em neurose (Ana), em tolice (José), em egoísmo extremo (Pedro). É o espaço onde só encontra "brilho", num sentido absolutamente disfórico, o sadismo de Ricardo Vale. A relação crise/viagem se repete em diversos momentos da narrativa (saída de Paula de Moçambique, falha de Pedro nos exames, encontro de Paula e Gabriel, volta de Pedro a Lisboa, transformação de Fernanda em capitalista, morte de Gabriel, etc.) embora não especificamente na confrontação final entre Pedro e Paula, que culmina no estupro. Mas nesse momento, a Lisboa em que os irmãos vivem já é uma Lisboa multifacetada, a cidade onde vivem em liberdade tanto os artistas libertários quanto os ex-inspetores da PIDE, espaço múltiplo onde passado, presente e futuro convivem quase que sem se aperceberem, a não ser em encontros ocasionais na Gulbenkian ou no S. Carlos. Já se trata de uma Lisboa onde espaços externos convivem na mesma urbe. O segundo tipo de peregrinação é a do espaço interno, não somente por tratar-se de um mesmo país mas também porque representa uma retração, uma reelaboração íntima (e porque não intimista?) das próprias raízes. Ao contrário do que se poderia imaginar, essa reelaboração dentro do livro acaba sendo polêmica: se, de fato, ela dá a Fernanda e empresta a Pedro forças para vencer as dificuldades e, sob seu ponto de vista pessoal, triunfar, por outro lado também é o período de incubação de uma perversão dos valores tradicionais, que leva os mesmos Fernanda e Pedro a tornarem-se criaturas totalmente perdidas para valores humanos, personagens disfóricas. A importância dessas peregrinações é enfatizado pelo capítulo inicial, com o seu corpus de referências culturais, com destaque para "Casablanca". Esse capítulo instaura o terceiro tipo de peregrinação, radicalmente distinta das outras duas: a viagem ao imaginário, de onde saem os significados simbólicos que permearão o livro, evidenciando a funcionalidade das diferentes imagens dos espaços externos e internos e seus jogos dentro da narrativa. Concluímos, assim, que o signo da viagem em Pedro e Paula se inicia através de um intertexto com obras de Bernardim Ribeiro, Garret, Camões, etc; manifesta-se dentro do texto como estratégia de evolução de personagens; e ainda assume uma dimensão simbólica e estabelecedora de certos protocolos de leitura ao configurar-se logo no primeiro capítulo como viagem ao imaginário. É como estratégia na construção das personagens que a importância de viagem na obra se faz notar a um primeiro olhar; mas ela só alcança um grau mais profundo e original ao correlacionar-se com a viagem ao imaginário; essa correlação é que mostra a consciência que o texto evidencia das próprias estratégias internas. Ao invés de se utilizar de uma metalinguagem, constrói-se a dimensão profunda e simbólica do tema da viagem em Pedro e Paula logo no primeiro capítulo, após as epígrafes, através do jogo com o repertório das referências. Referências Bibliográficas: Maria Lúcia Dal Farra, "Epitáfio para a Metaliteratura.", Revista "Vértice" II série, nº 53 (Março/Abril de 1.993) 117-120. Gérard Genette, -Figures III, Paris, Editions du Seuil, 1972. Helder Macedo, Pedro e Paula, Lisboa, Presença, 1.998. _______________- Partes de África, Lisboa, Presença, 1.991. Carlos Reis, "Helder Macedo e Rita Ferro: As Duas Literaturas". JL (Jornal de Letras, Artes e Idéias), 717 (08 a 21/04/98), 22-23. Marisa Corrêa Silva, "Apropriação Histórica: um breve estudo do conceito." Revista Pós- História,vol3
(Assis,UNESP,1995)117-124. __________________- "Partes de África: cartografia de uma Identidade Cultural Portuguesa". Inédito, 1.999. |