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A Viagem Metafísica na Poesia de Cecília Meireles
Ana Maria Lisboa de Mello (UFRGS)
O tema da "viagem" é recorrente na produção literária de Cecília Meireles, presente no título do livro que a consagrou no cenário das Letras em 1938, e balizado por duas expressivas imagens - o mar e a noite - que se desdobram em constelações imagéticas. De um lado, este tema apresenta-se em uma dimensão geográfica, literal, nas referências às viagens marítimas portuguesas, aos percursos em cidades européias, indianas e outras, reunidas em Poemas escritos na Índia, Poemas de viagem e Poemas italianos, de outro, em uma dimensão metafórica, nos itinerários de um Eu em busca de si mesmo ou de uma instância incognoscível, inalcançável, utópica. Nesta segunda dimensão, o "mar" e a "noite" são os símbolos mediadores das revelações, tal como o sujeito lírico, metalingüisticamente, define o "mar" no poema "Périplo", de que citamos as três últimas estrofes: E sempre novo indiferente e suscetível! Em cada praia deste mundo te celebram Os que te amaram por naufrágios e vitórias, E religiosos se renderam, convencidos, À lição tácita dos símbolos marítimos.1 No livro Viagem, a presença do mar e das águas, ampliada pelos vocábulos náuticos, já delineia itinerários do viajante e adquire o estatuto que garantirá sua permanência nas obras posteriores. O poema "Noções", por exemplo, revela a força da imagem marítima enquanto mediadora da revelação das inquietudes do Eu frente a dualismos como eterno/efêmero, corpo/alma, uno/múltiplo e, portanto, da reflexão sobre a viagem símbolo da própria trajetória da vida, que se desdobra em movimentos para dentro em uma autocontemplação, vista como percurso a paisagens internas, levantando e intuindo respostas sobre o sentido de seu estar-no-mundo, e para fora em roteiros cujas paisagens contempladas revelam as errâncias do ser humano e ensejam reflexões do sujeito poético sobre essas rotas. Eis o poema: Para a navegação dos meus desejos aflijidos. Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos. Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge. Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza, Só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram. Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a Minha virtude era esta errância por mares contraditórios, E este abandono para além da felicidade e da beleza. Ó meu Deus, isto é a minha alma: Qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário, Como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera... (p.140) A imensidão do mar sublinha a pequenez, os limites do ser humano e, ao mesmo tempo, sugere mistério, idéias de infinito e de necessidade de abandono a uma lei maior que preside a vida. O Eu lírico expressa seus sentimentos em relação à existência com imagens construídas por vocábulos pertencentes ao campo semântico da viagem através do mar, tais como as presentes no segundo, terceiro, quinto, oitavo e décimo-segundo versos. Define-se através das imagens marítimas que melhor exprimem a idéia da vida como uma viagem cujo objetivo desconhece e, mesmo assim, a ela se entrega, buscando-se entender através de seus reflexos nas águas - locus da "navegação dos" seus "desejos afligidos", das suas "naves revestidas de espelhos" e da "errância por mares contraditórios". Frente à misteriosa e incognoscível lei que rege a vida, resta render-se aos seus desígnios, tal como sugerem os versos do poema "Êxtase": Onde se apaga e acende a salvação Deixa-te balançar entre a vida e a morte, sem nenhuma saudade. Deslizam os planetas, na abundância do tempo que cai. Nós somos um tênue polén dos mundos... Deixa-te estar neste embalo de água gerando círculos. (p. 129) Tanto na dimensão geográfica, literal, quanto metafórica, a imagem marítima desdobra-se formando campos semânticos compostos por palavras como "âncoras", "cordames", "mapas", "portulanos", "corais", "proa" e outros, presentes ao longo da obra ceciliana. Essa presença do mar advém de duas fontes: de um lado, a origem açoriana, decorrente de ascendência materna, de outro, a proximidade com o mar na cidade natal, Rio de Janeiro. Para os que vivem em ilhas ou próximo às costas, o mar pode moldar a sensibilidade e a feição de ver a vida. Dos búzios, ecoam sons do mar símbolo da vida em seu incessante movimento, tal como é definido no poema "Mar Absoluto" do livro de mesmo título (1945): "O mar é só o mar, desprovido de apegos,/ matando-se e recuperando-se.../ É o seu grande exercício" (p. 266). Em Cecília Meireles, a influência da avó materna na sua visão de mundo, bem como na própria construção poética pode-se constatar em poema escrito em 1961, intitulado "Cata, cata que é viagem à Índia", cujo vocabulário náutico mais uma vez se faz presente para se referir às longas e perigosas viagens empreendidas pelos portugueses ao exótico Oriente. O título do poema retoma uma expressão açoriana que incita à ação, ao movimento, à viagem e seus versos questionam o sentido daquelas viagens que ceifaram tantas vidas em naufrágios, como bem alerta o eu poético: "Não esqueçamos o preço da viagem:/ tantos ossos misturados ao coral e às estrelas-do-mar". (p. 1187). Os vocábulos náuticos surgem na poesia ceciliana como elementos para compor o cenário das viagens, os dramas decorrentes, as indagações sem respostas, ao mesmo tempo que se prestam como mediadores para, simbolicamente, ensejar um mergulho na interioridade do sujeito lírico, que busca um sentido maior para o existir. A constante recorrência aos símbolos marítimos, que constituem um dos campos imagéticos do tema da viagem, permite afirmar que, como nenhum outro poeta brasileiro, a autora traz dentro de si a voz do mar, através da qual baliza e simboliza suas indagações sobre o "mundo" e o "transmundo", expressões empregadas pela escritora para caracterizar os focos de reflexão de seu fazer poético, em entrevista a Pedro Bloch.2 A noite é outro símbolo recorrente na poesia de Cecília Meireles, afeito a aludir às instâncias da obscuridade plena de mistérios, a viagens a dimensões metafísicas, intuídas por um Eu que quer encontrar nessas paragens um sentido maior, situado além da vida na matéria, para justificar a existência. Quando o tema de viagem ganha uma dimensão metafórica, tanto a imagem marítima quanto a noturna desenham uma atitude imaginativa que consiste em "captar as forças do devir"3, exorcizando o conteúdo negativo da passagem temporal e da morte, para transformá-las em conteúdos benéficos, já que vistas sob a ótica do eterno retorno de tudo ou da possibilidade de ser de outro modo e em outra instância. Daí a recomendação dos versos: "Não aflijas com a pétala que voa, / Também é ser deixar de ser assim..." (p.319) Tal como nos mitos cosmogônicos, em alguns poemas, a noite vem associada ao mar, para simbolicamente idealizar o locus da origem da vida, o qual tem as qualidades marítimas "reino de metamorfose" e noturnas reino do silêncio, solidão e mistério. Paradoxalmente, a noite dos lugares transcendentes tem suas claridades, uma luz que guia, " mais segura a luz do meio-dia", como afirma San Juan de la Cruz no poema "Noite escura"4. Assim, imagens marítimas e noturnas balizam a viagem a dimensões metafísicas, revelando a familiaridade de linguagem poética com a mítica. Nos mitos de criação, noite e águas estão seguidamente associadas para descrever um estado imediatamente anterior ao surgimento da vida na dimensão terrena. Na poesia ceciliana, a noite é a imagem que traduz e pontua a viagem a um plano transcendente em Doze noturnos de Holanda (1952) e Solombra (1963). Nesses dois livros, os poemas têm entre si um fio narrativo que os interliga e assinala o progressivo alcance da dimensão metafísica pelo sujeito lírico, que vai revelando seus assombros, suas dúvidas, suas perplexidades. Doze noturnos de Holanda, que já traz no título a referência à noite, " à alta,à vasta noite estrangeira" conforme verso do poema "Dois" -, compõe-se de poemas que vão anunciando o paulatino adentramento do Eu lírico na esfera noturna. A noite vai sendo caracterizada de poema a poema, de uma forma cumulativa, delineando aos poucos o teor metafísico da instância percorrida pelo Eu lírico que, lentamente, vai-se desligando da condição diurna. No poema "Um", a noite é descrita como "sem elos...Inocência eterna,/ isenta de mortes e natividades,/pura e solitária, deslembrada, alheia, / mudamente aberta para extremas viagens" (p. 447). Na noite, o sujeito lírico, vai-se transfigurando, tornando-se outro, assumindo a sua alteridade, conforme nos revela a quinta estrofe: Nem creio que SEJA: perduro em memória, À mercê dos ventos, das brumas nascidas Nos dormentes lagos que ao luar se evaporam. (p. 447) A imagem noturna une-se à marítima na primeira estrofe do poema "Três" para nomear e decifrar o incognoscível, revelando a noite como a instância da construção da vida, da origem de tudo, onde as coisas "regressam à sua infância", "devolvidas a uma pureza total, a uma excelsa clarividência" (p. 449) - eis o porquê da sua paradoxal claridade: Ela tem sua claridade, seus caminhos, suas escadas, seus andaimes. A grande construção da noite sobe das submarinas planícies Aos longos céus estrelados Em trapézios, pontes, vertiginosos parapeitos Para obscuras contemplações e expectativas.(448-9) Em um diálogo com a noite, o sujeito lírico de Doze Noturnos de Holanda entrega-se ao mistério, deixa-se conduzir às paragens noturnas, lê o que até então nunca havia lido e murmura: Mais tempo para os meus olhos, - vida, areia, amor profundo...- Conchas de pensamento sonhando-se desertamente E o discurso lírico desdobra-se em duas vozes: a do sujeito poético que utiliza o discurso indireto para "narrar" a sua introdução na esfera noturna e a da noite que, em estilo direto, vai estimulando a viagem uma fala lida ou intuída pelo eu poético, à medida que vai-se familiarizando com a linguagem noturna: Vem ver que lembranças esvoaçam na fronte quieta do sono, E as pálpebras lisas, e a pálida face, e o lábio parado E as mãos livres dos vagos corpos adomecidos ..... Vem ver o silêncio que tece e destece ordens sobre-humanas, E os nomes efêmeros de tudo que desce à franja do horizonte! E a linguagem da noite era velhíssima e exata. E eu ia com ela pelas dunas, pelos horizontes, Entre moinhos e barcos, entre mil infinitos noturnos leitos. Meus olhos andavam mais longe do que nunca ... e liam, liam, liam o que jamais esteve escrito.(p.448) Na viagem às instâncias noturnas, através da qual o sujeito lírico vai-se afastando da "realidade" diurna e se familiarizando com a nova linguagem, ocorre uma inversão ou relativização dos antigos valores, como se, revelado o reverso da vida, tudo ganhasse um novo sentido, uma plenitude inaudita, uma palpitação diferente: E comigo rodava por seu mundo silencioso e liberto. Não havia mais nada: somente seu poder, sua grandeza, sua solidão. Era deserta, ausente, e, ao mesmo tempo, repleta e palpitante. Alastrava e secava miragens, e não ficavam mais vestígios. E era uma estranha surdez , penetrante, Sorvendo todas as falas e músicas. (p.450) As idéias que no dia tomam relevo desmancham-se em esfera noturna, devolvidas a uma "pureza", a um "silêncio", a uma "equivalência". Tudo aquilo que era múltiplo, diverso, nítido à luz do dia torna-se difuso, uno: Porque a noite passava cada vez mais longe, E tudo quanto ao sol toma relevo Na noite é mundo submerso, nevoento e generalizado. (p. 452) A compreensão da vida através da imersão na noite vai-se aprofundando no itinerário do sujeito lírico, de tal forma que no poema "Sete", ele revela a compreensão do Um, da sobre-humana essência que acolhe tudo e já dispensa a mediação das imagens, uma vez inserido nessa "grandeza": Nada, porém, se perde ou esquece, embora tão finamente Disperso nessa grandeza. Gastam-se as imagens e os símbolos; mas a essência resiste. (p. 452 - "Seis") ... Tudo se encontra nesta bruma: O burburinho histórico, a vítima e o carrasco; A melodia da sereia nórdica, à proa do barco da conquista; ... Praga e suspiro, acontecimento e remorso... Tudo paira na estrutura da noite Em seus arquivos superpostos... (p. 453 "Sete") As indagações sobre o sentido e valor das pequenas coisas do cotidiano humano - tais como "Que vale o pensamento humano/ esforçado e vencido/ na turbulência das horas?" (p.454) transformam-se, no poema "Dez", em indagações maiores, quando o eu poético se pergunta para quem "trabalha" a vida no universo: Para quem trabalha o flamejante universo? Para quem se afadiga amanhã o corpo do homem transitório? Para quem estamos pensando, na sobre-humana noite, Numa cidade tão longe, numa hora sem ninguém? Para quem esperamos a repetição do dia, E para quem se realizam estas metamorfoses, Todas as metamorfoses, No fundo do mar e na rosa-dos-ventos, Numa vigília humana e na outra vigília, que é sempre a mesma, sem dia, sem noite, incógnita e evidente?(p. 456) No último poema de Doze noturnos de Holanda, o sujeito lírico novamente faz uso da imagem da água para falar da morte como afogamento e uma imersão no Um, através dos "líquidos caminhos", feitos de silêncio, sem "palavras", nem "ais", tal como revelam as estrofes finais: Sem podridão nenhuma, Jazerá um afogado nos canais de Amsterdão. E eu sei quando ele caiu nessas águas dolentes. Eu vi quando ele começou a boiar por esses líquidos caminhos. Eu me debrucei para ele, da borda da noite, E falei-lhe sem palavras nem ais, E ele me respondia tão docemente, Que era felicidade esse profundo afogamento, E tudo ficou para sempre numa divina aquiescência Entre a noite, a minha alma e as águas. Sem podridão nenhuma, jazerá um afogado Nos canais de Amsterdão. Não há nada que se possa cantar em sua memória: Qualquer suspiro seria uma nuvem, sobre essa nitidez. (p. 459) O símbolo noturno regerá Solombra5, palavra que Cecília Meireles recuperou do português antigo e que evoluiu para a forma "sombra". Esse nome, que já traz em si a idéia de noite, de mistério, constitui-se o símbolo diretor do livro, cujos vinte e oito poemas têm entre si um elo de continuidade que "narra" novamente a progressiva imersão do Eu lírico na noite. Trata-se de um exercício místico de aceitação da morte - vista como inserção na dimensão noturna e compreendida como transformação em outro modo de ser, motivo por que o Eu lírico a ela se entrega, acolhendo a lição do vento que lhe recorda um saber anterior: a que não se recusa a esse final convite, em máquinas de adeuses, sem tentação de volta. ... Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina: "Agora és livre, se ainda recordas". (p. 794) Assim, nas viagens a instâncias metafísicas, o "mar" e a "noite" são, na poesia ceciliana, símbolos eleitos para expressão e nomeação do incognoscível, da sobre-humana vida que o sujeito lírico intui, eufemizando o absurdo da morte e concebendo esse destino inevitável como uma transmutação em outra forma de ser, própria da condição supra-sensorial. No desenvolvimento do tema da viagem a dimensões transcendentes, o símbolo revela-se mediador do significado diante da "impossibilidade do signo exprimir" indagações e respostas sobre o sentido da vida "face à inelutável instância da temporalidade e da morte"6. Notas 1. MEIRELES, Cecília. " Périplo". Mar Absoluto e outros poemas. In: ___ Poesia completa . Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. P. 347. (Grifamos) Obs: A partir de agora, citaremos apenas as páginas dos poemas ou excertos retirados desta obra. 2. In: " Pedro Bloch entrevista Cecília Meireles" Revista Manchete, Rio de Janeiro, 630: 34-7, maio 1964. 3. Cf. DURAND, Gilbert. "O regime noturno da imagem" In: __ As estruturas antropológicas do imaginário. Lisboa: Presença, 1989. p. 135. 4. In: A poesia mística de San Juan de la cruz. Trad. de Dora Ferreira da Silva. São Paulo: Cultrix, s.d. p. 71. 5. Sobre Solombra, publicamos comunicação efetuada no Congresso da FILLM. In: Actes du XIXe Congrès de la Fédération Internationale des langues et littératures modernes. Brasília: EdUnB, .1996. 3Ί vol. P.1238-1245. 6. DURAND, Gilbert. Op. cit. nota 3, p. 270. |