clique para imprimir esta páginaclique para imprimir este documento
FIDENE/UNIJUÍ – RIO GRANDE DO SUL – BRASIL
DEPARTAMENTO DE ESTUDOS DE LINGUAGEM – ARTE – COMUNICAÇÃO
 
CABALA E HETERONÍMIA EM FERNANDO PESSOA
OS CAMINHOS DO SEFER TEMUNÁ

 
LARRY ANTÔNIO WIZNIEWSKY
Ijuí, Agosto de 1999

O significado de base do termo Cabala, em hebraico tradição, denota um enraizamento histórico-cultural cuja dimensão maior situa-se exatamente no espaço da influência do passado sobre o presente, de forma prática e simbólica. A evolução desta tradição, através dos tempos e dos espaços, alcançou em Fernando Pessoa um estágio singular, em complexidade e ineditismo. A biografia de João Gaspar Simões nos mostra, em capítulo específico, a dimensão e o grau de aprofundamento desta perspectiva, no campo das preocupações com o hermetismo e a gnose, manifestas pelo autor e sobre cujas dimensões, no mais das vezes, podemos apenas especular.

Na compreensão de João Gaspar Simões, todo o saber ocultista buscado por Pessoa está subsumido na dimensão cabalística de sua obra. A Santa KABBALAH, como a chamava reverentemente o poeta, seria para ele a fonte comum, simultaneamente, de todo o iluminismo e de toda a filosofia esotérica. Através dela poder-se-ia articular as duas balizas que dimensionam o campo cultural dos interesses maiores de Pessoa: racionalismo com esoterismo. O sentido não excludente dos campos do saber, na perspectiva cabalística, a colocam como um modo de interpretação e "leitura" do mundo. A própria cabala é, no entender de João Gaspar Simões (p. 243) "uma coleção de tradições hebraicas, relativa à interpretação do Velho Testamento".

Para dar conta da importância da Cabala na obra de Pessoa, basta que no reportemos a sua nota editorial, escrita por ocasião da publicação do poema dedicado a Sidónio Paes, de 30 de março de 1933. No quesito Posição Religiosa temos "Cristão Gnótico (...). Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações como a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta de Maçonaria". (Simões, op. cit, p. 579).

No plano explícito de sua declaração, F. Pessoa funde portanto duas tradições em uma só, vinculando-as ao fio único da Tradição Secreta do Cristianismo. O poema ortônimo Iniciação, citado por Simões a propósito de ilustrar suas afirmações dá conta, no plano da análise literária, deste mesmo processo iniciático e nas formas como se deu.

Para o enfoque do presente trabalho, interessa-nos mais, um outro aspecto da relação entre o texto de Fernando Pessoa e a tradição da cabala. Entenderemos para tal a cabala, além de sua óbvia função hermenêutica, como uma tradição multicultural conformada simbolicamente e transmitida de geração a geração, através de códigos, apropriados tanto ao desvelamento como à ocultação do real e suas formas de apresentação.

Em seu texto A CABALA E SEU SIMBOLISMO Gershom Scholem faz referência a um livro fundamental para o estudo da cabala e sua interpretação; O SAFER TEMUNÁ. Este título refere-se a um livro surgido por volta de 1250, para embasar a teoria, na forma de uma interpretação mística, das vinte e duas letras do alfabeto hebraico. O livro em questão apareceu na Catalunha e a identidade de seu autor ainda é desconhecida (podendo ser ele múltiplo). O texto trata das relações entre as sefirots inferiores e a multiplicidade de criações que pode ser por elas propiciadas. Segundo Scholem, para os cabalistas da Catalunha, estas regras eram representações simbólicas das etapas do processo pelo qual todas as coisas emanam de Deus e voltam a Ele.

Em um de seus livros anteriores, AS GRANDES CORRENTES DA MÍSTICA JUDÁICA Scholem já havia estabelecido as relações entre o Temuná e a Cabala, através da figura de Abuláfia. Por volta de 1270 (50 anos após o surgimento do Sefer Temuná), Abulafia já havia concluído em suas pesquisas místicas, que o acesso aos mais profundo segredos da teologia e da cosmologia se dariam por três métodos distintos do caminho da cabala: Guematria, Notarikon e Temurá. Guematria (donde geometria) reduz a palavra a números. No Notarikon, cada letra de uma palavra serve como "sigla" de outras, desvelando o sentido da primeira nesta relação. No Temurá, que significa literalmente "permita", as letras de cada palavra são intercambiadas, de acordo com regras pré-estabelecidas, para a obtenção de novos sentidos ou relações com outros vocábulos.

Considerando as linhas gerais destes três vocábulos e caminhos, bem como as rlações estabelecidas por F. Pessoa com a Santa Kabbalah, é possível encontrar, na perspectiva do Sefer Temuná, uma fecunda relação entre o fenômeno de heteronímia e este modo de penetração no nível simbólico, que envolve a permutação das 22 letras do alfabeto hebraico. É possível dizer que, em nível do puro significante, todo o processo heteronímico de Fernando Pessoa pode ser considerado como um imenso processo de Temurá. O processo é esta possibilidade de permutação infinita, articulando-se sobre um arquétipo, ou, mais especificamente um "modelo". Este é o centro do qual emanam todas as manifestações do discurso pessoano, com todas as permutas de palavras, enunciados e significados referenciados no poeta "ele-mesmo".

Para Saúl Sosnovski, os primeiros versículos do livro do gênese já estabelecem que a criação foi levada a cabo mediante fórmulas verbais. Desta forma a preocupação central da tradição e o projeto primordial do cabalista é a aprendizagem deste processo gerador. Considerando as ralações de Fernando Pessoa com o universo da Cabala e sua perspectiva particular e visão de sua inserção na cultura ocidental e na tradição gnótica, o Sefer Temuná ganha ainda mais uma surpreendente face: o caminho dos sábios. O Sefer Temuná nos apresenta a história da viagem dos quatro sábios que penetraram no PARDÉS (um dos modos de conhecimento) e seu cominho de acesso ao paraíso. Sosnowski indica em seu texto que o Sefer Temuná explicita a jornada de quatro sábios que entraram no PARDÉS, modo de conhecer que encerra em si tudo que se encontra na Torá, quer dizer, o conhecimento total do universo. Dos quatro, Ben Azai morreu, Ben Zona enlouqueceu, Aher (Elisa Ben Abuiah) renegou sua fé; só o Rabi Akiva "saiu em paz". Já a tradição citada no Talmud e por Scholem sobre o Radi Akiva diz que: "Há um homem que existirá ao final de várias gerações e Akiva diz Ben Iossef é o seu nome e ele deduzirá (interpretará), por cada pequena linha, infinidade de leis. A tradição, a partir do Sefer Temuná, confirmaria este jogo. (Sosnowski p. 30).

Ora, esta configuração quaternária dos destinos dos sábios nos permite aproximar da relação cabalística do Sefer Temuná os quatro principais heterônimos pessoanos, incluindo-se aí o Fernando Pessoa-ipse, como arquétipo e origem de todas as transformações.

Desta forma, podemos estabelecer que;

  1. Alberto Caeiro configura a viagem do sábio Ben Azai, devido à circunstância de já estar morto para a constelção heteronímia;
  2. Álvaro de Campos assume a trajetória de Ben Zoma, cujo destino é "a loucura";
  3. Ricardo Reis, como Aher (Elisa Ben Abuiah) renegou sua fé, isto é, poder ser visto, de acordo com Luís Oliveira como o único heterônimo que "sucumbe ao dogmatismo".
  4. Fernando Pessoa-ipse, como Rabi Akiva, "saiu em paz", mantendo a relação paralelística com o Rabi Akiva.

Este "sair em paz" do ipse/ortônimo nada mais é do que uma redução do estatuto do poeta como ente "de carne e osso, assim de se pegar" e ao mesmo tempo como criador e fonte da progenie heteronímica, projetando-se para além dele, assim como Pessoa é o poeta do Além-Deus.

Estes elementos de alta complexidade, que envolvem a aproximação de Fernando Pessoa de Cabala, não excluem nunca o aspecto lúdico do fazer poético. Ao contrário, reforçam-no. Como afirma Scholem (p. 342) "É descendo às profundezas de seu próprio ser que o homem erra por todas as dimensões do mundo; em seu próprio eu, ergue as cancelas que separam uma fronteira do outra; em seu próprio eu finalmente ele transcende os limites da existência natural e, ao fim do seu caminho, sem como que um único passo atrás de si, descobre que Deus é "tudo em tudo", e que não há "nada senão Ele". A cada um dos infinitos estágios do mundo teosófico correspondente a um determinado estado de alma-real ou potencial, mas de qualquer maneira capaz de ser sentido e percebido-o cabalismo torna-se um instrumento de análise psicológica e de autoconhecimento, um instrumento de precisão daquilo que é, não raro espantoso".

Desta forma, a aproximação da obra de Fernando Pessoa do Sefer Temuná, considerado tanto o seu aspecto de "permuta" sobre um universo estabelecido (fazer poético) quanto o caráter mítico da viagem dos quatro sábios, reveste-se de profunda significação. Como diz Abuláfia a respeito da ética sobra a Torá "Deves virá-la e revirá-la, pois turo está nela". "Ela está inteiramente em ti e tu estás inteiramente nela" (Scholem, 143).

Cabe por fim notar que, como nos ensina Scholem, as letras são determinadas por imaginação e pensamento que o influenciam através do movimento e que concentram o seu pensamento em temas dificultosos, sem que o percebamos de todo. Como já havia descoberto Anbuláfia, o "Caminho dos Nomes" indica que, quanto menos compreensíveis eles são, mais alta é sua ordem, até que se alcance a atividade de uma força que não mais está sob o controle de alguém, mas sim que sob cujo controle se achem sua razão e seu pensamento.


Bibliografia

1.PESSOA, Fernando. Obras completas. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1977.

2.SCHOLEM, Gershom. Grandes correntes da mística judáica. São Paulo, Perspectiva Série Estudos, 1972.

3.________. A cabala e seu simbolismo. São Paulo, Perspectiva, 1997.

4.SILVA, Luís de Oliveira. O materialismo idealista de Fernando Pessoa. Lisboa, Clássica,1985.

5.SIMÕES, João Gaspar. Vida e obra de Fernando Pessoa. Lisboa, Bertrand, S/d.

6.SOSNOWSKI, Saúl. Borges e a Cabala. São Paulo, Perspectiva, 1991.