clique para imprimir esta páginaclique para imprimir este documento
Dialogismo e Alegoria no Sítio do Picapau Amarelo1
Adriana Cerdeira
Beatriz Andreiuolo

A primeira idéia para esse trabalho surgiu quando, no desenrolar da pesquisa desenvolvida na PUC-Rio, percebemos uma nova possibilidade de encarar a infância atual desprendendo-nos de uma visão maniqueísta e nostálgica, que defende a idéia de que a infância de hoje, por conta do progresso tecnológico e das transformações nas estruturas sociais (especialmente o consumo), é "pior" do que a de outrora. Tampouco adotaríamos a postura inversa: "as crianças de hoje são tão mais espertas!". Notamos que para abordagem de tal assunto seria necessário um olhar sereno2 que não qualificasse uma infância como melhor do que a outra, mas sim, que as percebesse como diferentes: cada uma, a seu modo, participa e constrói a história e a cultura de seu tempo.

Qual seria, então, o lugar da infância no mundo contemporâneo? Que lugar os adultos reservam para essa infância? Como falar dos encontros e desencontros entre adultos e crianças?

Pensando que as teorias psicológicas sozinhas não respondem a essas perguntas, preferimos recorrer à Literatura, especificamente à obra de Monteiro Lobato por ser ele um autor que propicia um encontro entre mundos diferentes (infância de ontem e de hoje, infância e vida adulta), privilegiando a alteridade e as relações dialógicas.

Desta forma temos a intenção de, ao traçar o percurso da criança, verificar de que forma ela foi capaz de construir uma história que fosse realmente sua, uma história capaz de separá-la do adulto, e marcar com isso uma singularidade. Com a proposta de percorrer esse caminho sabemos que é necessário nos prepararmos para todos os seus desvios, uma vez que não encontraremos uma reta sequer que não venha a ser surpreendida por alguns tropeços - desses que nos levam a mudar de rota e, dessa forma, nos permitem escrever uma nova história. E o fio condutor desta análise será a obra de Monteiro Lobato.

Foi retomando a leitura de alguns de seus livros que nos deparamos com material riquíssimo para abordar a questão da descoberta e do uso da linguagem pelas crianças. Primeiramente podemos pensar nas histórias e fábulas contadas pelo autor que, ao narrarem o dia-a-dia da vida de uma família, misturam a fantasia à realidade, e o fazem de uma tal maneira que a fantasia não parece destoar, pelo contrário, é ela que dá o tom.

A intertextualidade que se verifica claramente na obra de Lobato, onde se misturam fantasia, fábula e mitologias a realidades históricas do Brasil e do exterior, faz com que seja possível transmitir um conhecimento contemporâneo de forma menos autoritária, uma vez que este é reavaliado a partir de muitos olhares, concordantes ou não, a partir de muitas vozes que trazem consigo a marca dos lugares de onde falam. Tudo o que se diz no espaço do texto lobatiano é enriquecido a partir dessa pluralidade, pois passa por um crivo que é alteritário. O que vemos presente é a interação de dois mundos, um real e outro imaginário, mas que estão de tal forma fundidos na realidade do sítio, que ele seria como uma espécie de espaço intermediário entre um consciente (mundo real) e um inconsciente (mundo da fantasia). E, como nos diz E. Yunes, "dessa interação entre os desejos inconscientes e a realidade consciente nasce o indivíduo descondicionado e a harmonia que vemos realizada no Sítio do Picapau Amarelo"3.

Trataremos então de um cotidiano especial, que envolve num mesmo contexto crianças, adultos, animais e bonecos. Buscaremos desvendar as relações que se estabelecem dentro deste vasto grupo, os papéis que cada um deles possui, os papéis que vão conquistando ao longo da trama e que, portanto, fazem com que tais personagens sejam complexos, não previsíveis, e que, à medida que se vão desenvolvendo, interagindo com o espaço e com o grupo, vão também, aos poucos, tornando-se autores de suas próprias falas, que não estão pré-determinadas.

A identidade dos personagens do Sítio do Pica Pau Amarelo está sempre em construção pois parte de um diálogo constante entre gerações (e espécies!). É nesse sentido que procuraremos trabalhar a importância da linguagem, que é aquilo que caracteriza e marca o homem, e que, portanto, é o meio através do qual o sujeito pode se implicar em algo, ser autor de transformações e construir uma história.

Ao iniciarmos esse trabalho não sabíamos o que nos aguardava e nem aonde iríamos chegar. Uma idéia que nasceu dos estudos que vínhamos fazendo sobre a infância: sobre sua forma de representação, sua fala, sua autonomia, enfim, sobre a inserção desse sujeito-criança na sociedade contemporânea. Um trabalho que se transformou inúmeras vezes em uma viagem pessoal: visitamos diversos lugares, diferentes épocas que já começavam a se esfumaçar, a fazer mais parte de um passado do que de nosso presente. Quando nos vimos prestes a embarcar nessa aventura, achamos que deveríamos levar conosco, para além de nossa bagagem particular, a literatura, a filosofia e a psicologia. Viagem de buscas, confusa muitas vezes, mas necessária. Viagem de descobertas nas áreas humanas e de redescobertas em nossas produções individuais. Viagem de encontros, fantástica, como uma Viagem ao Céu.

O trabalho, porém, nunca se resumiu somente a uma coleta de dados, a uma pesquisa histórica a respeito da evolução do reconhecimento da infância pelo adulto. Falávamos disso sim, mas também de como essa criança do passado - confinada a um não lugar, sequer merecedora de representação - ainda estava presente hoje: adaptada, mascarada com as tecnologias contemporâneas, mas presente ainda. Reflexão histórica, reflexão política, reflexão subjetiva.

Não há como falar de crianças sem pensar na criança que fomos. Ela está em nós, latente, muitas vezes adormecida, mas esperando para ser acordada… e, quem sabe, um dia, um lindo príncipe montado em seu cavalo branco não chega para despertá-la? Foi pensando nisso, unindo o que estudamos com o que lemos, com o que um dia nos significou muito e hoje ecoa em nossos ouvidos, chamando-nos novamente para perto dessa questão, que resolvemos escrever sobre a infância de amanhã, de hoje, de ontem… sem ordem. Falamos de infância, logo não podemos impor um rigor, uma linha de desenvolvimento.

A criança está na história, mas se quisermos fitá-la ou encontrar com ela, devemos tentar seguir seus saltos, como num jogo, como se brincássemos: pique esconde, amarelinha, pular corda, corrida, estátua. A infância se constrói nesse ritmo, indo e vindo, ora sim, ora não. Não pode ser aprisionada. É livre. É subjetiva. É a infância de que lembramos. É nossa também.

*

Estamos tão acostumados a ver e a falar de crianças que hoje qualquer estudo sobre a infância merece cuidado muito especial. Não pelo seu desconhecimento mas justamente pelo excesso de conhecimento que há sobre o assunto. O contato e a intimidade nos dão a falsa impressão de um conhecimento pleno, que já se esgotou, e isso nos leva a um arriscado acomodamento de conceitos e de visões.

A infância, ao longo de sua história, teve sempre seu espaço definido pelos adultos. De uma criaturinha sem alma ao pequeno homem, até ser olhada como criança, ela passa do completo descaso ao estatuto de objeto da ciência. Assim, o lugar da infância foi sendo construído e modificado através do tempo. Em geral quando comparamos o tratamento que se deu ao que atualmente se dá às crianças, compartilhamos um sentimento de alívio e buscamos condenar o desinteresse e a indiferença de outrora, em contraponto com o desenvolvimento de teorias e estudos que em nosso dia-a-dia nos ajudam a perceber a importância desse ser recém chegado.

O que não nos perguntamos é se a criança é realmente vista e cuidada de forma a não ser mais percebida como um ser de passagem, confinado a um não lugar, que deve assimilar as regras que nós construímos, e se esses diferenciados papéis que adquiriu lhe garantem a vez e a voz ou se tão somente criam um discurso sobre a infância sem a sua fala, impedindo-lhe de ocupar verdadeiramente o lugar de um sujeito social construtor de cultura.

O que buscamos é apostar no intercâmbio e na valorização das diferenças, pesquisando e trabalhando com a criança, e não fazendo dela um mero objeto de estudo. O processo dialógico é, nessa medida, aquele que prioriza a construção do diálogo na interlocução, em que tanto a subjetividade da criança quanto a do adulto estão envolvidas, pois nenhuma das duas pode correr o risco de ser descartada por conta de uma homogeneização. Nesse sentido buscamos rever conceitos padronizados, pois sabemos que a fala da criança não pode ser desperdiçada já que ela vem repleta de novos significados que, por ilustrarem seu momento, o que vêem, como pensam, garantem-lhe um peso relevante que vai interferir na construção de um novo sentido, na produção de uma nova linguagem.

Toda fala é dialógica no sentido que ela vem carregada de um peso cultural que antecede o sujeito. Na fala de cada um de nós se cruzam muitas outras pois, ao falar, nós falamos nosso próprio tempo, nossa cultura, nosso meio social, as leituras que fizemos e as leis sociais que nos formaram. Para Bakhtin quando falamos, agimos ou pensamos, não o fazemos apenas por nós mesmos, mas a partir das marcas de um grupo social: todo signo, inclusive o da individualidade, é social. Nesse sentido o ato da fala, na medida em que é pronunciado, entra no fluxo da comunicação verbal e passa a poder ganhar diferentes interpretações. Aquilo que é dito não pode, pois, ser transmitido como um produto acabado uma vez que, quando é enunciado, está lançado nesse fluxo ininterrupto já habitado por antigas falas e que, certamente ecoará, dando margem à criação de uma outra linguagem que "nunca está completa, é uma tarefa, um projeto sempre caminhando e inacabado"4. Logo, o diálogo é mais do que um jogo de réplicas; é a fundamentação mesma da fala de cada sujeito.

Assim, ao invés de considerar o conhecimento do adulto como superior, passaríamos a apostar no intercâmbio e na valorização das diferenças, já que adulto e criança lêem o mundo sob óticas diversas. É nessa interação, no exercício de interlocução que ambos são capazes de construir um conhecimento novo. Dar voz à criança, permitir a troca dialógica, são gestos que garantem a possibilidade de expressão de um discurso que é ao mesmo tempo singular e coletivo.

No Sítio do Picapau Amarelo encontramos coisas surpreendentes que desafiam a compreensão daquele que, através da leitura, for visitá-lo desprevenido ou com expectativas de encontrar apenas um sítio como outro qualquer. De fato esse sítio não é qualquer sítio. O que o leitor encontra lá, para além de uma família, é um espaço de reflexão.

Vemos, muitas vezes, reunidos adultos e crianças que, numa troca generosa deixam-se levar, uns aos outros, pela experiência e imaginação de seu comparsa, partindo para uma viagem fantástica, de fantasia sim mas que, por isso mesmo, traz algo de concreto para a relação que estabelecem: a possibilidade de ouvir aquilo que o outro tem a dizer, ou seja, permitir-se destruir antigas concepções aprisionadoras e visitar lugares novos, vivenciando situações que não faziam anteriormente parte daquilo que constituía sua história, mas que poderiam vir a ser parte dela de alguma forma e em algum momento, quando os sentidos fossem sendo redefinidos.

Essa destruição deve ser lida num sentido benjaminiano, ou seja, é a destruição de uma forma falsa de experiência - que crê na existência de uma verdade única e que é entendida de forma literal, - para que se possam criar novas e diferentes relações com as coisas e com a vida. Benjamin nos fala da necessidade de se ter uma outra leitura que não busque, sob as palavras do discurso, unicamente seu sentido habitual, mas a possibilidade de outras versões. Esta seria a base de um procedimento alegórico que procura descontextualizar aquilo que parece estar fixado e ser intransponível, para inseri-lo em outros lugares onde ganharia novo significado: "cada pessoa, cada coisa, cada relação pode significar qualquer outra"5. Nesse sentido a realidade não é única mas sim plural, temporária, alegórica.

No Sítio somos capazes de perceber essa não linearidade, essa ruptura com a compreensão superficial. No entanto, para que se chegasse aí, foi preciso um crescimento, uma reconstrução da realidade capaz de trazer para dentro do racional aquilo que não pode ser controlado: o inesperado. Inicialmente "Dona Benta era outra que achava muita graça nas maluquices da neta (…) de fato, nunca dera crédito às histórias maravilhosas de Narizinho. Dizia sempre: "isso são sonhos de criança"6. Gradualmente esse julgamento muda, há a destruição de uma postura centrada e unilateral, "o que assegura a autenticidade do pensamento dialético"7, e Dona Benta passa a dar mais ouvidos aos netos e, inclusive, a acreditar que o mundo em que vivem as crianças "é muito mais interessante do que o nosso".

Dona Benta suspirou.

- Se este meu sítio não é um sonho, disse de si para si, é então a coisa mais espantosa que o mundo ainda viu.

E beliscou-se para ver se estava dormindo e era sonho. Doeu. Logo não era sonho.8

A proposta de um olhar alegórico vem provocar também uma reabilitação da história, quer dizer, faz com que toda interpretação tenha que ser lida a partir dos referenciais de diversos tempos, levando o presente a ser pensado a partir de diferentes momentos tornando-se, pois, passível de novas compreensões. Se o símbolo aponta para a eternidade da beleza e para a unidade da palavra , a alegoria gera a impossibilidade de se falar em um sentido eterno, em uma identidade essencial das palavras e do ser. Benjamin acreditava que a linguagem queria sempre dizer algo a mais do que aquilo que primeiramente dizia, ela se construía e se reconstruía constantemente, fugindo, assim de um sentido único.

Desse modo seria preciso que a temporalidade e a historicidade fossem preservadas para que significações transitórias fossem construídas, para que de fato cada pessoa, cada coisa e cada relação pudesse ser olhada a partir dos diferentes níveis de significação que se vão alterando de novo e sempre.

E nesse percurso, aparentemente incoerente, encontramos a maior de todas as coerências: a possibilidade de o sujeito ser singular, de expressar genuinamente aquilo que ele pensa, aquilo que ele sabe ser já que, como diz Dona Benta, "as idéias são filhas de nossa experiência"9; e, assim, não se deixar transformar em um mero repetidor de idéias que tem sua subjetividade fabricada.

Na obra de Monteiro Lobato a Emília aparece inúmeras vezes como questionadora e transgressora, como aquela que através da palavra vai subverter o papel da criança construído socialmente. No lidar com crianças observamos que estas se submetem ao diálogo adulto, mas que os lugares ocupados nessa relação não são fixos e podem-se inverter. Emília talvez seja a representante ideal que incorpora esse espírito: de asneirenta, que dizia coisas inconvenientes, ela vai-se transformando em sábia, traçando assim o percurso, a evolução da criança que aos poucos vai ganhando voz e se tornando autora da própria fala.

-... Mas na Inglaterra é diferente. São uma beleza os quartos das crianças lá, com pinturas engraçadas rodeando as paredes, todos cheios de móveis especiais, e de quanto brinquedo existe.

-Boi de chuchu, tem? Indagou Emília.10

É justamente através dessa fala da boneca (uma fala própria) que pretendemos constatar a dimensão crítica da infância, muitas vezes encarada como um lugar de passagem no qual o sujeito, ainda inacabado, se constitui num vir-a-ser. Procuramos enfatizar a necessidade de se reconhecer que a criança se constitui na história e na cultura. Ela é hoje, no seu presente. É na interlocução, na produção a dois, onde tanto a subjetividade do adulto quanto a da criança são essenciais, que o adulto se rende à fala sábia da criança e constrói com ela um novo conhecimento.

A criança como ser recém chegado, que encontra um mundo pronto, tem uma compreensão da realidade e uma percepção de mundo diferentes da do adulto. Ela é questionadora e modificadora, pois que desafiando a lógica dominante escapa do enquadramento normativizado, dando um novo sentido a utilização dos objetos, possibilitando uma nova contextualização das coisas. Como se faz um boi de chuchu? Com palitos e chuchu. Mas chuchu é pra comer e não pra brincar... O contraste entre o brinquedo industrializado e aquele produzido pela própria criança está no fato de que o último é fruto de um processo criativo, no qual a criança aparece como autora, enquanto o primeiro vem pronto, vem preencher um desejo. Nesta relação percebemos dois movimentos: o primeiro é aquele que vem de dentro pra fora: o brinquedo idealizado pela criança ganha formas concretas - corresponde ao sonho, ao boi de chuchu da Emília; o segundo trabalha de forma inversa, é o movimento de fora pra dentro e seria o desejo do consumo que incita, que impõe um padrão: o objeto concreto que vai ao sujeito .

- Que maravilha das maravilhas! exclamou Narizinho, de olhos arregalados, sentindo uma tontura tão forte que teve de sentar-se para não cair.

Era um vestido que não lembrava nenhum outro desses que aparecem nos figurinos. Feito de seda? Qual seda nada! Feito de côr - e côr do mar! Em vez de enfeites conhecidos - rendas, entremeios, fitas, bordados, plissés ou vidrilhos era enfeitado com peixinhos do mar. Não de alguns peixinhos só, mas de todos os peixinhos (...) E esses peixinhos-jóias não estavam pregados no tecido, como os enfeites e aplicações que se usam na terra. Estavam vivinhos, nadando na côr do mar como se nadassem n’agua. De modo que o vestido variava sempre, e variava tão lindo, lindo, lindo, que a tontura da menina apertou e ela pôs-se a chorar.

- É a vertigem da beleza! exclamou dona Aranha sorridente, dando-lhe a cheirar um vidrinho de eter.

(...)

O mais lindo era que o vestido não parava um só instante. Não parava de faiscar e brilhar, e piscar e furtar-côr, porque os peixinhos não paravam de nadar nele, descrevendo as mais caprichosas curvas por entre as algas boiantes. As algas ondeavam as suas cabeleiras verdes e os peixinhos brincavam de rodear os fios ondulantes sem nunca toca-los nem com a pontinha do rabo. De modo que tudo aquilo virava e mexia e subia e descia e corria e fugia e nadava e boiava e pulava e dançava que não tinha fim.11

Ao dialogarmos com Monteiro Lobato queremos pensar que a criança que se implica como autora, dona do seu desejo, que privilegia suas necessidades essenciais ao invés daquelas que lhes são dadas está, de certa forma, criando um espaço de exercício de subjetividade. A "tontura da beleza" que acometeu Narizinho só pode se dar porque há de fato singularidade no processo criativo, há o espanto do imaginário diante do sonho, da fantasia. O vestido, assim como a criança, está sempre se modificando, nunca é o mesmo, e nesse variar marca sua diferença: "era um vestido que não lembrava nenhum outro". Tal diferenciação começa desde o momento em que é fabricado:

A curiosidade de Emilia veio interromper aquele extase.

-Mas quem é que fabrica essa fazenda, dona Aranha? perguntou ela, apalpando o tecido sem que Narizinho visse.
- Este tecido é feito pela fada Miragem, respondeu a costureira.
- E com que a senhora o córta?
- Com a tesoura da Imaginação.
- E com que agulha o cose?
- Com a agulha da Fantasia.
- E com que linha?
- Com a linha do Sonho.
- E...por quanto vende o metro?

Narizinho, já mais senhora de si, deu-lhe uma cotovelada.

- Cale-se Emilia. Os peixinhos podem assustar-se com as suas asneiras e fugir do vestido12.

Sabemos que fugir dos padrões fabricados pela sociedade contemporânea é negar o momento em que vivemos, mas reconhecemos também que a criança precisa ter disponibilidade para romper com as significações dominantes, para que, vez por outra, possa vestir-se com o tecido da fada Miragem.

É interessante notarmos como a intervenção de Emília ao perguntar o preço do metro chama a menina à realidade. Mais uma vez a boneca desempenha o papel transgressor : é realmente um vestido lindo, é feito de sonhos, mas tem um preço.

Monteiro Lobato resgata a dimensão crítica da infância. Seus personagens-crianças refletem sobre questões reais e imaginárias e ilustram neste trânsito a própria condição da infância. Neste sentido, vale ressaltar que o conceito de alteridade se aplica à teia de relações de suas histórias: Dona Benta e Tia Nastácia estão tão imersas no mundo fantástico das crianças quanto estas o estão na realidade dos adultos, e nisso não há mesmo qualquer estranheza.

Nessas viagens os personagens do Sítio - adultos, crianças e animais - percorrem caminhos nunca antes permitidos e, portanto, dificilmente percorridos por um integrante de sua categoria. A boneca fala, pensa, é astuta, ordena, mais do que isso, lidera. Deixa de ser um objeto que é carregado por outra pessoa e que vive apenas as fantasias dessa outra pessoa. A boneca do sítio não é assim, não admitiria ser assim. Ela é singular e, justiça seja feita, não é apenas uma boneca, mas sim, uma "criatura-gente" que evoluiu de boneca de pano a gentinha . As crianças, por sua vez, além de fazerem aquilo que toda criança faz e gosta, que é brincar e criar, são incentivadas a entrar por esses caminhos e convidar os demais para compartilhar de suas descobertas e pensamentos. As crianças do Sítio não têm papéis sociais fixos. Ao contrário, transpõem esses lugares a toda hora, subvertem a lógica estabelecida sem culpa: ora são crianças num sítio, ora são príncipes e princesas em seus reinos. Ora aprendem com a fala madura dos adultos, ora os levam a refletir sobre aquilo que estes já julgavam entendido.

Assim, nesse Sítio tanto as crianças quanto os bonecos deixam de ser objetos para serem, como os adultos, sujeitos com voz, autores no mundo de sua própria história.


Bibliografia

BENJAMIN, A. & OSBORNE, P. (1997). A Filosofia de Walter Benjamin. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

CASTRO, L.R & JOBIM E SOUZA, S. (1998). Pesquisando com Crianças. In: Revista de Psicologia Clínica, n0 09.

GAGNEBIN, J.M. (1994). História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Editora Perspectiva.

JOBIM e SOUZA, S. (1996). Sujeito, linguagem e verdade nas palavras imagens de Walter Benjamin e Mikhail Bakhtin. In: MOTTA, M.E. & FÉRES-CARNEIRO, T. (org.) A psicologia em contexto. Rio de Janeiro: PUC, Dep. de Psicologia.

KONDER, L. (1988). Walter Benjamin - O Marxismo da Melancolia. Rio de Janeiro: Campus.

LOBATO, J.B.M. (1937). O poço do Visconde. São Paulo: Companhia Editora Nacional.

LOBATO, J.B.M. (1945). Reinações de Narizinho. 11a ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional.

LOBATO, J.B.M. (1967). Peter Pan. 12a ed. São Paulo: Brasiliense.

LOBATO, J.B.M. (1997). A chave do tamanho. 42a ed. São Paulo: Brasiliense.

PENTEADO, J.R.W. (1997). Os filhos de Lobato - o imaginário infantil na ideologia do adulto. Rio de Janeiro: Dunya Editora.


Notas

1. Este ensaio é parte do Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) orientado pela Prof. Doutora Solange Jobim e Souza na PUC-Rio durante o ano de 1999.

2. Termo utilizado por Martin Heidegger em seu texto Serenidade.

3. YUNES,E. apud PENTEADO, J.R. Os filhos de Lobato. p.185

4. JOBIM e SOUZA, S. Sujeito, linguagem e verdade nas palavras de Walter Benjamin e Mikhail Bakhtin. In: A psicologia em contexto p.113.

5. Walter Benjamin apud KONDER, Leandro. Walter Benjamin - O Marxismo da Melancolia p. 28.

6. LOBATO, J.B.M. Reinações de Narizinho. p.19.

7. FUCH, E. apud Andrew Benjamin e Peter Osborne in: A filosofia de Walter Benjamin p.12.

8. LOBATO, J.B.M. O poço do Visconde. p.102.

9. LOBATO, J.B.M. A Chave do Tamanho. p.11.

10. LOBATO, J.B.M. Peter Pan. p.167.

11. LOBATO, J.B.M. Reinações de Narizinho. p.15.

12. LOBATO, J.B.M. Reinações de Narizinho. p.16.