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Discussão da identidade açoriana na obra de Daniel de Sá:
Ilha grande fechada e Crônica do despovoamento das ilhas
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Luiz Antonio de Assis Brasil

Daniel de Sá é escritor que, à semelhança de seus conterrâneos portugueses, pratica com igual desenvoltura uma grande variedade de gêneros. Este açoriano de São Miguel, entretanto, tem demonstrado uma atenção especial à narrativa de ficção, e importa agora destacar duas obras que, em maior ou menor grau, revelam facetas da identidade insular, em especial da ilha de origem.

Ilha grande fechada1 mostra-nos a trajetória de um fiel a realizar a tradicional romaria da Quaresma, quando comunidades masculinas inteiras deslocam-se por toda a ilha, rezando e cantando de freguesia em freguesia; nesse peregrinar obsessivo, vão (re)conhecendo a sua ilha, e ainda melhor, a si mesmos, pois longos são os vagares, as noites em camas estranhas, as intempéries e os momentos de silêncio entre os cânticos e orações. João, o protagonista, já com a saudade conduzindo seus passos, acompanha a procissão dos orantes e ao mesmo tempo desvela seu passado; espera-o, ao fim do trajeto, o aeroporto, que o levará para uma viagem sem retorno, na qualidade de emigrante para o Canadá. Como gesto definitivo e trágico, sacrifica sua cadela, a simbolizar a quebra voluntária dos afetos que ficam. João, por isso, é um ser hamletiano, perdido entre a pequenez de sua ilha e a emigração, que transparece como algo rigorosamente inexorável e intransponível, a que ele se entrega como a um caminho sem volta. Coloca-se assim a evasão como um destino ao qual o açoriano se entrega com a fatalidade do cumprimento de um dever. O resultado é a errância, a transitoriedade e o permanente desejo da volta. Quando acontece, essa volta nunca é satisfatória: o emigrado jamais poderá deixar de ser americano, e mesmo que construa uma casa - em geral suntuosa - em sua freguesia original, contribua para a igreja e participe das festas coletivas, todos lhe conhecem a história. Intentando uma análise mais ampla, percebemos quanto os componentes tradicionais da literatura açoriana estão presentes nessa obra: a sensação de estar-se numa prisão, o desejo de evadir-se, a saudade a roer os calcanhares, a estreiteza do ambiente insular, a desconfiança das terras estrangeiras.

Já na Crônica do despovoamento das ilhas,2 Daniel de Sá mostra-nos uma outra realidade: aqui já não há quem abandone a ilha, mas todos são prisioneiros desse cárcere que se circunda de infinitude por todos os lados. O título, grafado no singular, o é naquele sentido antigo: então temos crônicas, onze no total, que tratam dos teres e haveres açorianos, nomeadamente da ilha de São Miguel, mas cujos interesses vão além. No plano da linguagem, o Autor dá-se ao luxo de mimetizar o léxico e a sintaxe dos velhos papéis públicos e privados lusitanos, sem que isso comprometa a atualidade textual; isto é: percebe-se, nas linhas e entrelinhas, que estamos ante um escritor de hoje, que pensa e avalia mediante critérios de hoje. O resultado é uma prosa enovelada e tensa, plena de subentendidos, a tecer sua urdidura através de achados lingüísticos que, se guardam o sabor dos séculos, seduzem por sua brilhante modernidade. Não é, por certo, malabarismo ocioso ou mero exercício de escrita; para além de representar a recuperação da abundância semântica dos vocábulos e a revitalização de sua fraseologia habitual, significa uma profunda intenção.

No que toca à matéria, é preciso recordar que os Açores conviveram com o isolamento — e esse termo, no caso, nunca foi tão literal — e com os rigores de uma Natureza na qual os terremotos não pertencem apenas à História. Isso, essa particularidade, deu ao Arquipélago e à sua cultura uma singular mundividência, repetindo nas Ilhas o fenômeno que Alejo Carpentier atribui à América Latina: o convívio de todas as eras num mesmo tempo. Assim, falar do passado açoriano é, também, falar do seu presente, e referir-se ao presente é remeter inapelavelmente ao passado — e a recriação da linguagem arcaica, dentro dessa perspectiva, harmoniza-se ao conteúdo narrado, o que mostra a unidade e a solidez de propósitos do livro.

Daniel de Sá, como intelectual atento, sabe quanto sua terra é pródiga em fatos, e na Crônica do despovoamento das ilhas resgata o imaginário coletivo naquilo que tem de mais genuíno e identificador. São histórias que todos sabem – ou passam a saber -, buscadas nessa memória plural, em Gaspar Frutuoso, nos arquivos e na imaginação, dando-lhes um tratamento da mais intensa possibilidade. Se é elaborada a partir de episódios reais — contemporâneos ou pregressos — ou inventados, não deve ser motivo de indagação, portanto: estamos acostumados a isso de Homero a García Márquez. E não se pense em ficção histórica, é, sim, ficção, a ser avaliada sob critérios da ficcionalidade.

O tom narrativo é marcado na maioria das vezes pela sátira e pelo humor, tornando as crônicas matéria de fácil e prazerosa leitura, como se vê na quase-fábula Dos escravos que eram gente, no qual um servo troca de roupas com seu amo para que este não seja roubado, e acaba o servo por assumir a identidade do amo, que debalde tenta convencer os outros que não é o servo e sim o senhor, e nessa teimosia deve ser conduzido a um convento, e de lá a um hospício, até que venha a admitir que é quem nega ser. Mas há também momentos reflexivos, em capítulos que ferem as cordas íntimas da anima açoriana, como a emigração, já vista aqui: na crônica-título do livro, e que o encerra, é narrada a calamitosa travessia do Oceano que faz José Belizário, em demanda do Brasil, no século XVIII. O leitor acompanha a palpitante e odienta viagem, em que o mal menor são os enjôos e a degradada comida, e na qual não faltam as doenças e as mortes derivadas da condição brutal em que são transportados aqueles que buscam lugar melhor para exercerem as suas vidas. Em A glória de mandar, e formando um pendant, o Autor discute a dialética entre a América e a Europa, pondo a nu a incompreensão dos primeiros povoadores relativamente aos indígenas, ensejando o comentário "... que o que mais faltou nesse tempo foi os novos senhores do Novo Mundo serem tão justos com os verdadeiros donos dele como entre si procuravam ser" (p. 181), o que vem a reforçar o juízo de Montaigne em seu ensaio Dos coches, no qual verbera as atrocidades cometidas pelos europeus contra os nativos americanos.

Há também momentos de lirismo, como em Das infidelidades conjugais ou das fidelidades amorosas; aí é contado um drama de paixão que ultrapassa todos os percalços de um meio conservador. Vejamos: Beatriz, mulher fidalga e casada, foge de Santarém com João de Guimarães, vindo o casal a estabelecer-se em São Miguel. Na fuga, levam muitos bens de Martim Anes — o marido —, inclusive um filho que não era dele. Julgando-se desforrado por ver-se livre do incômodo dessa pseudo-filiação, Martim Anes perdoa os adúlteros, o que leva João Guimarães a peticionar a D. Afonso V, pedindo-lhe que os perdoe, tal como já o esposo o fez. Viu sua ousadia compensada: a resposta, inédita num monarca austero e tão guerreiro, consente no indulto. Restabelece-se a paz, e ita diis placuit...

Há, igualmente, uma discussão a respeito das autoridades continentais em serviço nos Açores, civis ou eclesiásticas. Mandadas por Lisboa, interagem com a ambiência insular, o que se percebe em Os justos e os pecadores. Aqui, um "ouvidor teimoso" e um "corregedor desobediente" maltratam um ao outro, lançando excomunhões e interditos mútuos que se estendem ao povo, e tão ferozes que obrigam os povos de Ponta Delgada a fazerem requerimento a El-Rei para implorar que Sua Majestade ponha um fim aos seus penares. Em outra crônica — Destemida gente — vemos que, à falta de mouros para cortarem a cabeça, os ilhéus praticavam os jogos de canas, substituindo a energia bélica por algo mais sensato, embora ainda perigoso. Testas rachadas, membros lesados, tudo fazia parte de um ritual de aproximação entre as diferentes comunidades, propiciando cenas de rústico cavalheirismo. Os ressentimentos, porém, levavam a conflitos reais: Simão Lopes, juiz ordinário da Ribeira Grande, buscando desforrar-se de uma ofensa sofrida nos jogos, vem a ferir a Pêro Gonçalves, mas de imediato, liga-lhe as feridas, e, não satisfeito com esse gesto, manda-lhe o melhor médico da Ilha, que, por fim, trata cientificamente — digamos — do desafeto.

A destacar o profundo humanismo que informa os textos; estamos ante um desses escritores em que mesmo o humor e a sátira estão a serviço da reafirmação de valores essenciais como a vida e a dignidade, o que não é pouco em nossa época cínica. Todas suas personagens, plebéias ou grandes, parecem antes vítimas do que algozes, ainda que cometam eventuais torpezas. Não se trata de pieguice ingênua, o que tiraria sua importância, mas de uma real compreensão do homem e suas inseparáveis circunstâncias, e que nos Açores em especial são agudamente sentidas.

Bem pensado, este último livro de Daniel de Sá celebra uma espécie de exorcismo dos fantasmas ancestrais que pervagam as Ilhas, e não hesita tocar nas pedras de escândalo que há tanto incomodam, como, por exemplo, o Santo Ofício, a escravatura e os delitos de morte. Tudo é revisto sob uma óptica congruente e compreensiva, nada mais restando intocável.

O que acima foi dito e resumido poderia lançar a errônea impressão de que se trata de obra referente por exclusivo aos Açores; muito ao contrário: a interdependência com a realidade continental é flagrante, e nem poderia deixar de ser, visto que as Ilhas, em que pese a distância, guardam uma profunda relação com a Pátria, estabelecendo com ela um constante diálogo. Se a Crônica diz respeito aos Açores de modo direto, também diz à realidade portuguesa-continental e de além-mar, estabelecendo uma verdadeira ponte cultural entre as variantes geográficas e emocionais do idioma. Iríamos além: assumindo o mote açoriano, amplia-se para uma reflexão sobre o próprio homem e seu papel no mundo, o que lhe garante a universalidade.

Assim sendo, Ilha grande fechada e Crônica do despovoamento das ilhas completam-se no sentido de a primeira tratar de quem parte, e a segunda a de quem fica; a quem parte, é reservado o desgarramento, a perda da identidade e uma triste forma de viver; quem fica é compulsoriamente impelido a viver uma vida de pequenos afetos e grandes iras, numa sucessão quase previsível de eventos. Ao fim e ao cabo, ambas as obras tornam-se uma evidência de que a díade cárcere-infinito – tão bem tratada por José Martins Garcia3 - é a eterna sombra a povoar os medos e ansiedades de quem vive na ilha e, ao mesmo tempo, demonstra – como diz o mesmo Daniel de Sá – que sair da ilha é a pior maneira de ficar nela.


Notas

1. SÁ, Daniel de. Ilha grande fechada. Lisboa: Salamandra, 1992.

2. SÀ, Daniel de. Crônica do despovoamento das Ilhas. Lisboa: Salamandra, 1995.

3. MARTINS GARCIA, José. Para uma literatura açoriana. Ponta Delgada: Universidade dos Açores, 1987.