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Do mito ao romance: uma leitura de O evangelho segundo Jesus Cristo
Conceição Flores
Universidade Potiguar - UnP Já conhecia algumas obras de Saramago, mas uma, em particular, constituía um desafio. Refiro-me a O evangelho segundo Jesus Cristo. A sedução que esse romance exerce em mim resulta da releitura feita por Saramago dos evangelhos canônicos. Aliás, Saramago já declarou que "ninguém será escritor se não começou por ser leitor. Essa, sim, é a verdadeira paixão" (1997: 78). É essa "paixão verdadeira" que reuniu as "vontades" do autor e da leitora, levando ao "apaixonante" mergulho nas raízes do mito fundador da civilização ocidental. Assim, elegi o Evangelho para dissertação de mestrado1. O mito de Jesus, na nossa civilização, é escritura fundadora e segue fixando parâmetros sociais, morais e religiosos. Ora, o que é que Saramago faz ao longo das 445 páginas desse Evangelho? Partindo do mito universalmente conhecido de Jesus Cristo, anunciado no Velho Testamento pelos profetas e contado no Novo pelos evangelistas, Saramago estabelece um "canto paralelo", que dialoga e preenche lacunas mitológicas. Todos os personagens são duplos destronantes de seus homônimos bíblicos. A Maria ficcional concebe Jesus, porque é casada com José e tem relações sexuais como todo casal (aliás, ao contrário do José bíblico, o ficcional é bem jovem e desempenha um papel importante na vida de Jesus). O Jesus ficcional foi parido na dor e "nasceu, como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso de suas mucosidades e sofrendo em silêncio"2 (p. 83) e cresceu como qualquer criança. Jovem, perdeu o pai, que foi crucificado aos trinta e três anos como rebelde pelos romanos. José morreu inocente, vítima do plano arquitetado por Deus. O Deus de todos os cristãos, deus de amor e perdão, tem na arquitetura ficcional a face cruel de Yaweh, o deus bíblico do Velho Testamento, que impõe sua vontade sobre os homens. Se o Jesus bíblico é aquele que existiu desde sempre, o Verbo que "se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1, 18) para que todos os homens se tornassem "filhos de Deus" (Jo 1,12) e com o Pai e o Espírito Santo forma a Trindade divina, o ficcional é um homem, vítima de um deus cruel cujo objetivo é expandir uma religião, professada apenas por um povo, o judeu. O deus de Saramago serve-se de Jesus - que não se sabe exatamente se é seu filho -, para tornar-se um deus universal, pois os seus seguidores haveriam de chamar-se katholikos, (universais). Porém, o Jesus ficcional não é submisso a Maria, sai de casa e passará quatro anos convivendo com o diabo, seu mestre na iniciação à futura vida pública. Depois conhecerá Maria de Magdala, uma prostituta, que abandonará a profissão, já que Jesus era o homem "por quem tinha esperado toda a vida" (p. 288). Maria de Magdala será a sua amada, a companheira fiel da vida. É com ela que Jesus partilha todas as angústias e sofrimentos, entre ambos não haverá segredos. Contrapondo-se ao Jesus mítico, puro e casto, o ficcional é um homem que exerce a sua sexualidade, ama e sofre. Tem um papel a desempenhar: terá que fazer milagres, pregar aos homens que se arrependam, "recorrer à imaginação" e contar-lhes "histórias, parábolas, exemplos morais" (p. 376-7), e morrer na cruz "para que a atitude dos crentes se torne mais facilmente sensível, apaixonada, emotiva" (p. 371). Bem que o Jesus de Saramago quis declinar tal papel, tentando iludir os planos divinos, mas todos nós sabemos que aos planos traçados pelos deuses nenhum mortal escapa. E Jesus morre, pregado na cruz. Parodiando as últimas palavras do homônimo bíblico, clama para o céu onde Deus, sorrindo, assiste à execução do plano vitorioso: "Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez" (p. 444). Em linhas muito gerais, eis o pacto ficcional que José Saramago estabelece a partir da releitura dos evangelhos canônicos. Operando nos vazios bíblicos, contrapondo os personagens ficcionais aos míticos num diálogo tenso e hostil, ouvimos as vozes dos primeiros, as réplicas dos segundos, numa tessitura paródica onde a citação, a paráfrase e a estilização são recursos intertextuais constantes. No primeiro capítulo da dissertação fizemos uma abordagem teórica do mito, seguindo-se uma leitura dos evangelhos canônicos, em que destacamos o nascimento de Jesus, a vida pública (os milagres e as palavras de Jesus), a paixão, morte e ressurreição. Retomamos os evangelhos, que todos nós conhecemos, não para endossá-los ou refutá-los, mas com o propósito de ressaltar a estrutura mítica que se patenteia. Partimos do pressuposto que o mito é "uma tradição sagrada, um modelo exemplar" (Eliade, 1963: 11), que instaura parâmetros axiológicos, religiosos e morais na sociedade onde é vigente. Consideramos como Eliade e Mielitinski, que em toda sociedade onde o mito continua vivo, ele é visto como "uma história verdadeira", que transmite "fiel e rigorosamente" os "acontecimentos" narrados. Todos os que professam alguma religião, tomam como "única" a sua verdade, tendendo a ver as narrativas míticas que não lhe dizem respeito como ficção, mentira. Daí decorre que todo o discurso mítico que segue fundando religiões e/ou ideologias é um discurso monológico, onde se faz ouvir uma só voz, transmitindo uma verdade absoluta. No segundo capítulo, foi feita uma leitura comparativa de O evangelho segundo Jesus Cristo e os evangelhos canônicos. Inicialmente, fizemos uma revisão bibliográfica sobre a teoria da paródia, porque o Evangelho segundo Saramago é, de fato, uma paródia dos evangelhos. Privilegiamos a teoria bakhtianina sobre a paródia, por ser a mais abrangente e pressupor o dialogismo e a polifonia como componentes imprescindíveis à orquestração das vozes que atuam no grande diálogo que se estabelece entre os personagens do texto parodiado e os da paródia. Em seguida, foram feitos alguns recortes no romance, visando comparar a abordagem do romance com a do mito, a fim de evidenciar as trangressões ficcionais que este Evangelho abrange. Percorrer os caminhos que vão do mito ao romance foi a linha mestra pela qual nos pautamos. Sabemos que o mito é uma criação humana, uma explicação das origens e dos fins últimos... Existiu um homem chamado Jesus, que morreu pregado na cruz? Era esse homem filho de Deus e da Virgem Maria? O véu do tempo encobre as respostas aos que não perfilham uma visão teológica. Porém, o "original" do evangelho de Marcos, contido no Codex Vaticanus e no Codex Sinaiticus termina com a morte de Jesus!3 Não havendo ressurreição, a construção do mito, assente no grande achado paulino da morte e da ressurreição, se desfaz. Pouco importa, afinal, se existiu ou não um homem chamado Jesus. Importa, sim, o fascínio que continua exercendo. Se foi ou "não foi assim, tudo é o que dissermos que foi" (p. 204), diz este "evangelista" (p. 245, 388), explicitando o pacto ficcional. O narrador teceu a narrativa com a imaginação criadora e com citações dos textos bíblicos, "ex-citando" o leitor ao longo do romance. A citação tem o duplo poder de pactuar e de romper com a tradição; deslocada do contexto primeiro, torna-se um ritual antropofágico, em que o que foi devorado passa a alimentar o devorador. Do diálogo estabelecido entre o sagrado e o profano, ressurgiu um novo Jesus – um homem concebido e nascido como qualquer um de nós, que sofre, angustiado pela morte do pai, rebelde à autoridade materna. O menino Jesus foi iniciado pelo Diabo, e teve o primeiro encontro com Deus no deserto, ainda adolescente. Conheceu o amor na cama de uma prostituta. Foi a essa mulher, Maria de Magdala, que muito amou durante a vida: ela foi a amante, a companheira, a substituta da mãe. No encontro com Deus, ficou sabendo o que o aguardava. Nobre destino: expandir uma religião, torná-la universal! Compreendeu os horrores que a sua morte acarretaria e tentou evitar que o seu destino se cumprisse. Mas aos destinos traçados lá no alto, a força humana é nula. Consumou-se a tragédia, vingou o plano divino. Saramago reconhece, e nós também, que a religião, que prega amor e tolerância, não serviu para fundar um mundo justo, de paz, prosperidade e harmonia. A tônica de toda sua obra tem sido a "meditação sobre o erro" (1995: 45), por isso os seus romances recuperam as vozes marginalizadas, silenciadas no mito e na história, numa visão humanista de quem ambiciona um mundo melhor. Ao contrapor o seu "canto paralelo" aos evangelhos canônicos, Saramago devolve-nos a humanidade de um Jesus feito de papel e tinta, de palavras, mais semelhante a todos nós que o Jesus mítico. Bibliografia DAVIDSON, John. The gospel of Jesus. Rockeport, MA: Element Books In., 1995. ELIADE, Mircea. Aspects du mythe. Paris: Gallimard, 1963. MIELITINSKI, E. M. A poética do mito. Trad. de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense, 1987. SARAMAGO, José. O evangelho segundo Jesus Cristo. 13 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. _______. Cadernos de Lanzarote. Diário II. Lisboa: Caminho, 1995. _______. Cadernos de Lanzarote. Diário IV. Lisboa: Caminho, 1997.
Notas 1. Dissertação de mestrado, intitulada "Do mito ao romance: uma leitura de O evangelho segundo Jesus Cristo", defendida a 26 de fevereiro de 1999 na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 2. Saramago, José. O evangelho segundo Jesus Cristo. 13 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. As citações referentes a essa obra serão indicadas apenas com o (s) número (s)de página (s). 3. Davidson, 1995: 63, 82. Este pesquisador debate a surpreendente idéia de que o evangelho de Marcos, o mais antigo dos quatro, acaba abruptamente com o sepulcro vazio. O "original" termina no versículo 8, sendo os versículo 9-20 (do último capítulo) acréscimos posteriores. |