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E agora José?

 
Nádia Regina Barbosa da Silva
(Universidade Federal Fluminense)

Este ensaio se propõe a fazer uma leitura do romance Todos os nomes de José Saramago numa perspectiva nietzschiana, observando na trajetória de seu personagem principal traços presentes na trajetória de Zaratustra, herói nietzschiano, profeta do super homem.

O herói de Saramago, neste romance, é um homem comum que vê no acaso a possibilidade de dar sentido a sua vida. Esse sentido virá do novo olhar que o personagem lança sobre as coisas mais triviais que, lentamente como na história dos homens, fará mudar a sua história.

O personagem se lança na escuridão do tempo e do espaço em busca do novo que contraditoriamente poderá ser a sua origem de homem pleno de sentimentos e devires.

Essas questões levantadas justificam-se pelas reflexões de Saramago ajustadas à filosofia contemporânea que clama por um novo pensar no mundo absurdo, onde o efêmero e o instante incontrolável parecem estilhaçar o tempo em que os objetos se produzem e se multiplicam em série, destruindo o espaço e ameaçando o homem.

As preocupações desse trabalho inserem-se no campo da filosofia, em particular nas reflexões de Nietzsche que envolvem a questão da moral ocidental: platônica, socrática e castradora.

Para Nietzsche a história do Ocidente é a história do niilismo: um devir reativo de forças. A dimensão do não ser é o que é o devir do homem. O niilismo é um estado intermediário no qual uma época chega ao fim e uma nova se inicia. O niilismo é a desvalorização dos valores. Ele torna visível a decadência de uma longa tradição e surge quando se reconhece o vazio e a futilidade dos ídolos nos quais se crera até então. Torna-se necessário um novo homem antítese do homem da tradição ocidental. O super homem é o herói nietzschiano, o homem herói de si, ativo, deus de si próprio, criador de sua própria moral.

Essas reflexões acerca da necessidade desse novo homem podem ser observadas em Todos os nomes, cujo herói, mobilizado pelo acaso, buscará a sua condição de ser livre.

Neste romance, José Saramago mais uma vez se mostra como um escritor preocupado com a condição humana. Seu protagonista, o Sr. José, ainda que de uma forma não consciente, inaugura uma nova fase da alma do homem e sinaliza alguma mudança. O personagem aventura-se numa busca inusitada: uma busca do outro; uma busca do outro lado de si mesmo. José Saramago faz uma viagem até o interior do ser humano para alcançar o que há de mais profundo no coração do homem.

O protagonista é um homem de meia idade, funcionário inferior da Conservatória Geral do Registro Civil. Este funcionário cultiva a mania de colecionar notícias de jornais e revistas sobre gente célebre. Um dia reconhece a falta, nas suas coleções, de informações exatas sobre nascimento, local e data dessas pessoas. Então, passa a copiar os respectivos dados das fichas que se encontram no arquivo. O acaso fará com que a ficha de uma mulher comum se misture com as outras que ele vem copiando. O súbito contraste entre o que é conhecido e o que é desconhecido faz nascer nele a vontade de conhecer a vida daquela mulher. Assim começa a sua busca: a procura do outro e a procura de um sentido: "Pessoas assim, como o Sr. José, em toda parte encontramos, ocupam o seu tempo a colecionar (...) e provavelmente fazem-no por algo a que poderíamos chamar angústia metafísica, talvez por não conseguirem suportar a idéia do caos como regedor único do universo e tentem pôr alguma ordem no mundo" (Saramago, 1998, p. 23). Esta visão heraclitiana do caos e do acaso que Saramago tem do mundo está presente nas idéias Nietzsche.

O acaso toma uma importância fundamental na narrativa de Saramago. Ele traz à tona a reflexão filosófica do escritor que toma forma de romance. O bendito acaso a que se refere Nietzsche é uma estratégia de um jogo dionisíaco ao qual ninguém escapa. O acaso é devir. Ele expõe o homens às possibilidades; neles desperta a vontade de movimento. Em Todos os nomes o acaso muda a história do personagem lhe possibilitando uma outra mais mobilizada.

Num diálogo do personagem de Saramago com o teto, num monólogo auto-reflexivo, pensa o protagonista:

"(...)significa isso que algo pode acontecer ainda, Algo, não, tudo, Não compreendo, Só porque vivemos absortos é que não reparamos que o que nos vai acontecendo deixa intacto, em cada momento, o que nos pode acontecer, Quer isso dizer que o que pode acontecer se vai regenerando constantemente, Não só regenera como se multiplica".(Saramago, 1998, p. 48).

No pensamento de Nietzsche esse é o vir-a-ser do homem; é o vir-a-ser a possibilidade que ele é; é o vir-a-ser o poder ser o que ele é no tempo que é puro devir; num tempo que é puro transformar-se. E é desse movimento e desse caos que deverá surgir um outro homem.

Saramago entende esse movimento humano como necessário e vital e vê na burocracia e na moral hierárquica formas calculadas que diminuem, cada vez mais, a alma dos indivíduos.

O arquivo é opressor, labiríntico, assustador e totalitário – como a sociedade humana.. É contra essa opressão e pela desordem da vida face à ordem da morte que se insurge o personagem.

Como Nietzsche, Saramago nos fala da necessidade urgente de uma transformação do coração humano. Essa transformação fundamental recriará uma nova ética devolvendo ao homem a consciência. No entanto, essa transformação só será possível a partir de uma reflexão , isto é, de um diálogo freqüente do homem com ele mesmo. A história do profeta Zaratustra de Nietzsche é uma auto-reflexão; uma espécie de gestação de uma mudança que transformará seu coração. O personagem de Saramago, o Sr. José, na sua solidão, questiona a sua vida, dialogando consigo mesmo. A solidão é o estado necessário para uma auto-reflexão; a solidão que é para Nietzsche a preocupação com a tarefa de existir. O Sr. José, no limite da sua solidão, percebe a ausência de referências que o imobiliza. É a busca dessas referências que o coloca em movimento.

A procura do Sr. José lança-o, à experimentação de sensações, a desterritorializações e contradições. Ora, Zaratustra representa precisamente estes limites do espaço; esta acessibilidade às coisas mais contraditórias como a mais elevada espécie de tudo que existe. É preciso que se renuncie a si à procura de si e empenhar-se na mudança através da alma, dessa alma esquecida, filha de Dionísio, que traçará o seu caminho com o intuito da criação. Em Todos os nomes, Saramago aponta para a possibilidade de se descobrir essa alma dionisíaca. lta.

No romance, Saramago nos mostra um mundo onde os homens, com seus direitos e vontades, aparecem recolhidos, diminuídos, plasmados, condicionados a uma invisibilidade pública; a uma burocracia total, onde a identidade se dilui – Todos os nomes são todos os homens. É preciso desmoralizar essa moral burocrática e falsa em favor da vida e de uma nova ética.

Este estado em que mergulharam os homens, ou seja, um mar de mediocridade e de hipocrisia; um mundo autoritário e assustador, vazio de referências, onde não se encontra nada que os faça crer no dia de amanhã, esse estado pode ser visto como niilista. É este o niilismo saramaguiano que deverá constituir-se de uma passagem, pois enquanto homem comprometido com seu tempo, Saramago acredita numa humanidade nova; num novo homem com uma nova vontade de poder generosa e criativa, capaz de inventar a diferença e a identidade humana.

Pode-se dizer que o personagem de Saramago acena para alguma mudança, pois deixando emergir o leão que existe dentro de si, o Sr. José, impulsivamente, quer tomar as rédeas de sua vida, lançar-se ao mundo e ao tempo. Quer desterritorializar-se, reinventar a sua história, e, com um coração de leão, experimentar sensações possíveis e suas, jamais vivenciadas; dizendo não a uma conduta dita correta. Isto é um despertar do vazio. Na solidão de seu esquecimento o Sr. José quer conquistar a sua liberdade; quer ser senhor em seu próprio deserto.

A propósito, diz Zaratustra: "criar novos valores, isso também o leão ainda não pode fazer; mas criar para si a liberdade de novas criações, isso a pujança do leão pode fazer". (Nietzsche, 1977, p. 44).

Mas para que surja um novo homem o Sr. José não deverá fraquejar. Saber-se que é perigoso passar para o outro lado, e que, somente na condição de leão é que pode ocorrer essa travessia. O espírito de leão é um despertar de um sono. Este despertar fará com que o metódico, exemplar e imaculado Sr. José se transforme num mineiro de carvão à espera de encontrar , no fundo da mina, o carbono puro de um diamante. E num primeiro mergulho nessa mina escura, o personagem utiliza-se de um rústico e vulgar rolo de cordel – o seu fio de Ariadne – para reconduzir ao mundo dos vivos aquele que se prepara para entrar no reino dos mortos. Tudo indica que o propósito do mergulho é o de ultrapassar as fronteiras, tendo em vista o extenso rolo de fio que não seria próprio de quem tudo na vida pode fazer seguindo cuidadosamente uma linha reta.

Nessa incursão, as dicotomias clássicas do tipo claro/escuro, reto/labiríntico, limpo/sujo, vão por águas abaixo na mente do Sr. José. O medo não existiu até o momento em que o Sr. José encontrou a parede; o fundo que, como um raio súbito, lhe fez correr um frio pelo corpo, num impacto com a memória, que o remeteu a uma anamnésia e lhe fez voltar ao tempo de criança quando tinha pesadelos como aquele momento. Nos pesadelos de infância, ele se via num canto de parede; num muro fechado e, no extremo do corredor, oculta pela treva, uma pequena e simples pedra (talvez a pedra originária a ser reesculpida). Essa pedra avançava para ele, como se não fosse pedra, mas lama; como se não fosse lama, mas sangue grosso.

No entanto, a essa escuridão brusca que avançou para o Sr. José e lhe pegou a face como uma ventosa, deverá ele retornar para reesculpir aquela pedra. A pedra que tornou-se lama numa origem adâmica e cristã e que agora é sangue em sua recriação, revelando a verdadeira origem do homem. Nessa missão, o personagem de Saramago será o verdadeiro herói de si. Herói no sentido de tornar-se livre e capaz de fazer e dirigir a sua história.

Portanto, no lançar-se na escuridão, o problema não é o de lançar-se, mas o de transformar-se, transportar-se. O lançar-se dará origem à procura, antes inocente. E quando o homem se lança, inaugura para si um fundo e poderá ir às raízes, interiorizando as potencialidades de suas origens e que, recriando-se, voltará à vida, por si só, transformado. Esse homem é dionisíaco; esse homem integrou-se ao jogo do acaso e modificou-se; esse homem tornou-se dono de si. Esse homem vasculhou suas origens com dor , possibilitando, a si mesmo, a recriação e a vida.

E agora José? É necessária uma viagem dessa ordem para que o homem possa reinventar-se.É preciso um salto que alcance as suas raízes e o coloque em reflexão, transformando-o. É preciso evitar o abismo, sem medo, e inaugurar um novo tempo de uma nova ética.

Pela voz do profeta Zaratustra, em seu canto ébrio, Nietzsche refere-se a esta questão:

"Ah! Profundo é o mundo!(...) O velho sino, ó doce lira! Cada dor dilacera o teu coração, dor de pai, dor de avôs, dor de remotos antepassados; a tua fala tornou-se madura (...) o próprio mundo amadureceu"(Nietzsche,1977, p. 321).

Para Nietzsche, o tempo de mudança não será apenas o tempo onde as coisas começam e acabam, mas o tempo que começa e que acaba; que se quebra e que se junta; o tempo que é o poder do deixar ser simultaneamente o construtor e o destruidor no jogo dionisíaco.

Para o Sr. José é preciso eliminar as evidências da morte, pois a morte é vida: "(...) é preciso, sim, rasgar ou queimar o documento original onde fora averbada uma data de morte"(Saramago, 1998, p. 278). É necessário sucumbir à escuridão para descobrir-se. O homem é um passar e um sucumbir. Passado, presente e futuro são uma só escuridão a ser descoberta. Para ela converge o tempo e dela nascerá o dia.

No romance, existe um personagem que atua como um contraponto do protagonista. É aquele que representa a ordem e toda a resistência à mudança. Este personagem é o Conservador.

O Conservador é o velho. Representa a tradição que com a permissão do próprio homem o fez alienar-se de si. Portanto, o Conservador é também uma possibilidade do Sr. José; ele é parte de sua alma que deve ser superada. Porém, nas evidências, o Conservador representa o poder arbitrário e totalitário a que os homens estão submetidos. Nada escapa ao seu domínio.

Num discurso, o Conservador, que desde o início das aventuras do Sr. José, o observa, faz também as suas reflexões: "Estou consciente da mudança dos tempos, da necessidade duma contínua actualização de meios e processos na vida social"(Saramago, 1998, p. 204). Mas, ao mesmo tempo que a conduta do protagonista começa a fazer eco na consciência do Conservador, essa consciência resiste: "Ninguém irá viajar ao tempo passado para mudar uma tradição"(Saramago, 1998, p. 205). O Conservador de Todos os nomes não só resiste como também faz uma declaração de princípios: "a preservação do espírito a que chamarei de continuidade e de auto-reconhecimento orgânico, deve prevalecer sobre qualquer outra consideração, sob pena, se assim não procedêssemos, de assistirmos ao derrubamento do edifício moral"(Saramago, 1998, p. 204). Gera-se um conflito na alma do velho homem. Este, ao que parece, não se mostra indiferente ao que acontece com o Sr. José, pelo contrário, surge-lhe uma disposição semelhante a de quem , habituado a vencer sempre, se encontrou, pela primeira vez na vida, perante uma força maior que a sua. Dessa forma, alguma reflexão lhe é inevitável. O velho Conservador abre-se para a mudança; para algum movimento que o envolve em conseqüência da conduta do Sr. José. E, a propósito da mudança de perspectiva daqueles que costumam mandar, Zaratustra profere: "(...)mandar é mais difícil que obedecer. E não somente porque quem manda carrega o peso de todos os que obedecem e é fácil que este peso o esmague"(Nietzsche, 1977, p. 127).

A transformação do olhar do Conservador sobre o arquivo se faz com a sua mudança de atitude em relação ao lugar dos mortos e dos vivos na Conservatória. Esse novo olhar está vinculado ao renascimento a que se propôs o Sr. José, isto é, à vida. A morte é a continuação da vida. A morte é vida e não esquecimento.

O Conservador se dá conta de que é absurdo separar a morte da vida e anuncia a criação do arquivo da humanidade. Isto quer dizer que todos os que viverem, todos, os vivos e os mortos, devem estar no arquivo juntos, porque a humanidade não é só os que vivem.

Concluindo, Saramago chega a Nietzsche através de Heráclito. Ambos inspiram-se no filósofo pré-socrático para explicarem as suas visões de mundo. O mundo que é movimento e devir.

A dualidade de mundos inteiramente diversos não existe para Heráclito. Ele não separa o mundo físico de um mundo metafísico, ou seja, não há de um lado as qualidades determinadas e de outro a indeterminação indefinível. Tudo é movimento; nada tem duração fixa.

Na verdade, o mundo é uma grande mistura que deverá sempre ser agitada. Da experiência dos opostos é que surge o vir-a-ser. E esse vir-a-ser e perecer se constrói e se destrói sem nenhum discernimento moral, ludicamente. É como um jogo de dados. Assim as coisas são e estão no mundo. Assim é o mundo. Ele é sentido; é ação; é desdobramento da ação; é exposição. O mundo busca sempre a unidade de sentidos. O mundo é o homem e o homem é o mundo.

Tais reflexões presentes no mundo do Sr. José vão ser encontradas na história de Zaratustra. Nesse mundo, o raio súbito é o acaso que é vida e que traz consigo a emergência do tempo. Tempo de mover-se em outros espaços a serem descobertos. A escuridão do tempo/espaço revelará a origem do homem em sua potencialidade e transformará o mundo.

O súbito heraclitiano, que em Nietzsche e em Saramago é o acaso, deslocará o homem tornando-o diferente na repetição que é a sua história: a história do mundo. A cada arremesso, os dados se configuram diferentemente. Essa diferença é a identidade humana esquecida. O imobilismo é um estado passageiro. Pois como pensou Heráclito, as coisas que parecem fixas exprimem, apenas, uma supremacia momentânea. Portanto, esse estado de alma está aí para ser superado em nome da vida.

É hora de o homem lançar a semente de sua mais alta esperança. É hora de deslocar-se, de tornar-se livre da prisão do tempo e do espaço medidos e calculados. É hora de desatar-se do fio de Ariadne que o aprisiona numa moral opressora. É hora de o homem criar o seu fio dionisíaco.

No mundo transformado, passado , presente e futuro não estão separados. Nele, encontram-se juntas a vida e a morte; a vida e o pensamento; o mundo físico e o metafísico. Como na nova Conservatória Geral do Registro Civil que se tornou um arquivo da humanidade onde estão juntos, no mesmo espaço, vivos e mortos, pois morte é vida. Dessa maneira, não há dualidade de mundos e assim se mantém viva a memória. Essa é a potencialidade do homem em suas origens: a vida; a pulsão.

A história do Sr. José é uma história da busca dessa pulsão, livre para ser vivida; otimista e trágica.


Bibliografia

Friedrich W.Nietzsche, Assim falou Zaratustra. Um livro para todos e para ninguém, Rio de Janeiro, Ed. Civilização brasileira, 1977.

_____A genealogia da moral, São Paulo, Ed. Moraes, 1995.

_____Ecce Homo (como cheguei a ser o que sou), Rio de Janeiro, Ed. Ouro, s/d.

Gerd Bornheim (org), Os filosofos pré-socráticos, São Paulo,Ed. Cultrix, 1997.

Gilles Deleuze. Diferença e repetição, Rio de Janeiro, Graal, 1988.

Hanna Arendt, Apud. Miguel Abensur, In Adauto Novaes (org).Tempo e História, São Paulo, Cia. das Letras, 1992.

Jacques Derrida, Demeure (fiction et témoignage), In: Passions de la littérature, Paris, Galilée, 1996.

José Saramago, Todos os nomes, São Paulo, Cia. das Letras, 1999.

Maria Helena Varela Santos, Os labirintos da razão. Filosofia, Porto, Porto Editora, 1991.

Os pré-socráticos: fragmento, doxografia e comentários, São Paulo, Ed. Abril Cultural, 1995.

Outros

Entrevistas com José Saramago em Arquivos da Internet.