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Entre a página e o mundo ou A aprendizagem do resgate:
Uma leitura de As batalhas do Caia.

 
Enfim, Portugal, pequena nau, tem visto grandes tormentas.
Eça de Queirós

 
E alimenta-se de leite e ovos, e fuma um cigarro,
e desdobra um plaid por cima dos joelhos, e parece-lhe
que tudo se contém no próprio nome que lhe puseram,
José Maria Eça de Queirós, e que escrita nenhuma se
lhe interpõe afinal entre a página e o mundo.
Mário Cláudio

Uma das linhas de força do romance português contemporâneo está na coexistência e vinculação entre o inventário crítico da realidade – pessoal ou histórico-social – e a reflexão sobre os processos de constituição interna da obra literária. Com efeito, não há propriamente novidade nesta posição. Para não irmos muito longe, digamos que ela se entronca na prática artística de importantes romancistas experimentais deste século. Em outras palavras, tal posição é mais diretamente tributária de parte significativa da grande literatura moderna, no âmbito da qual se verifica muitas vezes uma conjunção entre experimentação formal e mimese da realidade histórica, ou entre a guinada auto-analítica do romance (que se volta para a sua própria panóplia formal e compositiva) e captação crítica do social.

E é esta interseção entre literatura e reflexão teórica, no âmbito da qual o romance incorpora a teorização sobre o próprio fazer literário, que constitui uma das linhas de força do livro de Mário Cláudio, As batalhas do Caia. No entanto, esta questão tem aqui outra dimensão, o que permite a ampliação do leque de reflexões, já que se trata da retomada de um projeto literário de Eça de Queirós não concretizado. Por ser assim, o livro permite pensar não apenas sobre o fazer literário de um escritor português do século XX, que faz da reflexão sobre Portugal um dos móveis de sua obra ficcional, bem como sobre a obra de outro escritor português, este do século XIX, para quem Portugal sempre esteve no centro de seu interesse como intelectual, artista e cidadão "exilado".

Em 1878, na Inglaterra, no exercício de sua função de cônsul, Eça de Queirós tem a idéia de escrever um romance – A batalha do Caia, este o título escolhido – em que Portugal, invadido por um país estrangeiro (a Espanha), experimenta um período de completa humilhação. Só nesta situação de aviltamento nacional, submetida a uma espécie de purgação, a nação poderia encontrar forças para reagir, para superar o estado de decadência a que chegara e que propiciou a perda de sua independência. O objetivo de Eça, ao conceber tal romance, era o de causar "escândalo" e contribuir para a tomada de consciência da nação quanto à necessidade de superar sua "horrorosa condição de rebaixamento". Efetivamente, ele desejava, como afirma em sua carta a Ramalho Ortigão, dar "um grande choque elétrico ao enorme porco adormecido"1, ou seja, à Pátria.

Este idéia da invasão de Portugal pela Espanha obsidiou o autor de O primo Basílio por muito tempo. Se tal idéia lhe surgiu em 1878, como o próprio escritor afirma na carta a Ramalho já referida, num romance publicado dez anos depois, Os Maias, ela reaparece enunciada pelo personagem João da Ega a rogar ao Deus de Ourique a chegada dos castelhanos2. O fato, porém, é que Eça, em razão, por certo, dos problemas que a publicação de A batalha do Caia poderia causar à sua carreira diplomática, não concretiza o projeto, e deste o que restou foi apenas um conto publicado postumamente, A catástrofe, em que se narra a invasão de Lisboa por um exército estrangeiro.

Mário Cláudio retoma o projeto abortado do "homem da Póvoa de Varzim" e propõe levá-lo a cabo, sem a pretensão de escrever o romance como Eça o escreveria, mas sim, com a ajuda do monóculo eciano, escrevê-lo à Mário Cláudio. Para realizar a empreitada, o autor de Guilhermina apropria-se de trechos de A catástrofe e de uma certa contenção e sisudez deste conto que fazem dele peça singular na obra de Eça de Queirós. Efetivamente, o que há de mais importante é a retomada de uma idéia, de um propósito de um escritor oitocentista para, num outro contexto histórico, decorridos mais de cem anos, testar a atualidade de tal propósito no que ele tem de nuclear: a inquirição sobre os destinos de Portugal e a necessidade de construir um projeto de nação, de caráter não excludente, que evite "catástrofes" futuras. Daí o plural do título, como a indicar que o projeto de Eça pode ser repensado em outro contexto, mas que justamente por se prestar a uma nova apreciação, um novo olhar, por se tratar de um outro momento histórico, não é exatamente o mesmo, ou melhor, é o mesmo – pois a batalha imaginada por Eça é ponto de partida – e outro ao mesmo tempo – na medida em que o projeto reavaliado tem tração própria, permite pensar sobre o Portugal do final do século XX, o Portugal sobre o qual se debruça a obra ficcional de Mário Cláudio.

A estrutura de As batalhas do Caia compõe-se de dois planos. Num deles, assistimos à trajetória vivencial de Eça de Queirós, feito personagem do romance, desde o momento em que assume o posto de cônsul na Inglaterra até o dia de sua morte, incorporando-se a tal trajetória lembranças e referências a momentos anteriores da vida do escritor que remontam à infância e à juventude. No outro plano, inserido no primeiro, acompanhamos a escrita de A batalha do Caia.

O projeto de escrever um romance como A batalha do Caia insere-se no propósito da Geração de 70 de pensar sobre a nação portuguesa em decadência para tentar recuperar, no menor espaço de tempo possível, esse seu "atraso demencial"3. No romance de Mário Cláudio vemos a explicitação da "miséria portuguesa" como causa da invasão de Portugal e condição de manutenção do domínio estrangeiro. Descortina-se então todo um painel crítico que, abarcando diferentes estratos e classes sociais, expõe, em páginas com notável poder de síntese, as linhas de força do inquérito à sociedade portuguesa do Constitucionalismo que está no centro de interesse da obra de Eça de Queirós. Deparamo-nos com a "invencível inércia" de parte do povo, a baixeza do clero, a estreiteza de visão e a subserviência dos nobres, a prevalência do egoísmo da burguesia, a fraqueza dos políticos, lisonjeadores covardes dos invasores, a corrupção dos burocratas, e, até, a concessão interesseira dos serviços das "cocottes lusitanas" aos dominadores de Portugal4.

Significativamente, apenas os trabalhadores constituem a força social destoante, e é somente entre eles que se esboça a possibilidade de reação aos inimigos, como o narrador afirma, num trecho marcado por ecos da poesia de Cesário Verde:

Só as classes trabalhadoras pareciam afinal ressentir-se de algum agravo, sendo notória a exteriorização do seu infinito desconforto e da sua raiva crescente. (...) Pouco a pouco foram as varinas de Lisboa cessando de lançar os seus pregões, e desatavam a bater as chinelas com um desplante em que se denotava claríssima vontade de desfeitear os intrusos. Com estranho vagar depois tratavam os ferreiros das alimárias que os peralvilhos da estranja lhes confiavam, fixando-lhes às três pancadas as ferraduras na expectativa óbvia de que lhes viessem eles a estatelar. E impingiam-lhes os talhantes as carnes velhas e nervosas, abasteciam-nos as fruteiras das mais amargas laranjas, forneciam-lhes os aguadeiros a vaza das nascentes do cemitério, se não naquela em que haviam malevolamente mijado5.

E é nesta interseção entre o Mário Cláudio leitor de Eça e o Mário Cláudio leitor de Cesário que se configura um exemplo notável de rendimento crítico do trabalho de apropriação literária de outros autores. Sintomaticamente, uma obra como a de Cesário – à qual, em tantos poemas, o foco do sujeito poético na realidade do povo e do mundo do trabalho confere densidade reflexiva e força artística – serve de suporte a este trecho em que há um descompasso, quanto ao lugar da classe trabalhadora, entre a escrita ficcional eciana recriada por Mário Cláudio e a obra de Eça de Queirós. Do papel secundário do povo nos romances ecianos ao protagonismo dos trabalhadores na resistência aos invasores em As batalhas do Caia o salto é grande e não apenas aponta para a necessária reavaliação da crítica social e do projeto de nação de Eça e da Geração de 70 em função de seus limites históricos, como sinaliza a inviabilidade de se pensar num programa de reconstrução nacional sem priorizar a causa e a força dos que se situam na base da pirâmide social – idéia que, diga-se de passagem, alinha o livro de Mário Cláudio no plano político do dissenso neste nosso fim de século de (forjado) consenso neoconservador, fundado num déficit de espírito cívico, no retraimento da esquerda, na desarticulação do campo popular e no descrédito impingido à intervenção do pensamento crítico e dissonante.

Uma outra vertente de problematizações decisivas que há em As batalhas do Caia configura-se no âmbito das referências reiteradas ao processo de escrita. Aqui, o uso do recurso da auto-referencialidade tem força artística na medida em que a exposição dos mecanismos da escrita ficcional de Eça, recriada no livro, coloca em cena o próprio processo de escrita de Mário Cláudio, sinalizando, entre outros aspectos, um motivo nuclear comum do projeto ficcional dos dois escritores: a urgência de olhar para Portugal.

Ainda neste registro, a emergência da escrita do romance de Eça é pontuada reiteradas vezes pela explicitação de sua condição de empreendimento literário projetado, imaginado, mas não concretizado. No entanto, este livro que nunca existiu materializa-se enquanto peça de uma nova organização textual, constituindo uma parte do corpo do romance de Mário Cláudio. Por ser assim, os "movimentos militares" da invasão da tropa estrangeira que não passam de "conjetura" e "nunca se transformam em romance"6 inserem-se n’As batalhas do Caia de Mário Cláudio e, ao se transformarem finalmente num romance escrito no final do século XX, indicam a possibilidade de atualizar o tema da invasão estrangeira no quadro histórico português e europeu de nossa contemporaneidade.

O nexo necessário para a reconsideração crítica desse tema hoje (em uma de suas vias possíveis de atualização, diga-se), o próprio romance no-lo dá, num trecho em que o problema da invasão ganha amplitude, uma vez que é perspectivado no plano da "existência de um pacto secreto, celebrado pelos grandes países, no qual se contemplava a sumária apropriação dos mais pequenos" E, assim, "a Alemanha anexaria a França e a Bélgica, a Holanda e a Áustria, a Rússia e a Romênia, a Itália e o Fiúme e a Bósnia, e que declararia a Grã-Bretanha de uma penada de seu primeiro-ministro a guerra geral à Europa"7.

Evidentemente, a referência à eclosão possível da guerra geral e à construção da Grande Alemanha estende a consideração da problemática européia aqui explicitada até os marcos da experiência histórica do século XX. Assim, ao expor um nexo que permite articular a idéia da invasão de Portugal pela Espanha, como Eça o concebeu no século passado, ao tema da dominação de nações européias por outras, com inserção na realidade histórica de nosso tempo, o texto literário torna-se um ponto de partida para pensar em problemas e matérias de que não trata diretamente, mas que lhe gravitam na órbita, como a questão do lugar da nação portuguesa e de outros países europeus semiperiféricos no interior da União Européia neste fim de século XX. Deste ângulo, revisitando o tema da invasão estrangeira, o romance de Mário Cláudio proporciona ao leitor contemporâneo a reflexão sobre outras formas de dominação a que hoje se submetem países como Portugal no tabuleiro da Europa. No lugar da invasão de um exército inimigo, surge, por exemplo, a invasão do "pensamento único" – catastrófico sobretudo para as nações pobres –, com base no qual os imperativos técnicos, para a construção de uma Europa "monetária", têm prevalência sobre os critérios humanos e culturais, imprescindíveis se se quisesse edificar uma Europa verdadeiramente "social".

Expostas algumas problematizações que, a nosso ver, estão entre as principais que o livro suscita, é necessário destacar ainda o rendimento literário e crítico das relações delicadas entre fato e ficção, o qual se situa em âmbito ostensivo numa obra que transforma em elementos ficcionais os fatos e registros da experiência vivencial de um autor empírico. Efetivamente, em As batalhas do Caia a convergência e interação entre detalhamento empírico e emergência do ficcional constituem o princípio básico de composição do romance, o dispositivo literário nuclear com base no qual se organiza a matéria romanesca.

Ao longo do livro, há uma série de datas precisas acerca da vida de Eça, inclusive a data e até a indicação quase exata da hora em que morreu o escritor8. Temos, assim, uma exposição muito condensada e precisa de alguns momentos significativos da trajetória biográfica de Eça de Queirós, em que os planos temporais se superpõem, ou seja, misturam-se os tempo da "avidez de vida" da infância e juventude e o da proximidade da morte do escritor a tomar o soro, esperança última de "remédio providencial"9.

Além disso, n’As batalhas do Caia partes de cartas do autor de A relíquia são incorporadas como elementos de composição do livro e, portanto, informações biográficas extraídas da correspondência do escritor tornam-se matéria de romance.

Sob a vigência do movimento instituinte de um texto urdido num nexo estrutural entre estatuto da ficcionalidade e esta fidelidade ao factual que destacamos, tornam-se menos nítidas as fronteiras que separam a esfera do vivido e a esfera do imaginado. Mais concretamente: as notícias de cunho biográfico, os registros de experiências vividas pelo Eça-autor empírico, reordenadas pela fatura da obra, e as notações ficcionais de pormenores de composição do Eça-personagem do romance formam arranjo único porque bem concatenadas pelos nexos internos da estruturação rigorosa do livro. Também numa interação com a mobilização de recursos do nível do factual ou do registro documental, surge ainda toda uma constelação de referências, mais ou menos ostensivas, ao mundo de ficção saído da pena de Eça de Queirós.

Encenar parte da trajetória de vida de Eça de Queirós no palco da ficção para refletir sobre o legado intelectual, artístico e ideológico do autor real; ou, sob a inspiração de Eça, fazer de uma batalha de ficção, uma batalha que jamais se realizou, uma via para pensar sobre dificuldades históricas do Portugal real – estes são, como vimos, intentos centrais do romance de Mário Cláudio e dão bem a medida, em função das problematizações que promovem, do alcance reflexivo propiciado pela articulação bem sucedida de recursos ficcionais e matérias da ordem do biográfico ou do empírico.

Em notação última, digamos este é um livro sobre a aprendizagem do resgate. Pode resgatar-se algo para o fazer reviver em novas bases, noutro contexto. Este o sentido da tentativa de recuperar a Pátria invadida, a qual só se divisa no romance como possibilidade para as classes populares. E em As batalhas do Caia a aprendizagem do resgate sinaliza ainda a necessidade de releitura da obra do "pobre homem da Póvoa de Varzim". Uma obra que, como a de Mário Cláudio, ao materializar-se na página (em tantas páginas), cria um novo mundo, em cujas malhas lêem-se Portugal e o Mundo.


Bibliografia

CLÁUDIO, Mário. As batalhas do Caia, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1995.

LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 4ͺ ed., 1991.

QUEIRÓS, Eça de. Obras de Eça de Queirós, Porto, Lello e Irmão Editores, (s/d), vol. II.

VIANA FILHO, Luís. A vida de Eça de Queirós, Rio de Janeiro, Nova Fronteira; Brasília, INL, 1984.


Notas

1. Cit. por Luís Viana Filho, A vida de Eça de Queirós, Rio de Janeiro, Nova Fronteira; Brasília, INL, 1984, p. 124.

2. Eça de Queirós, Obras de Eça de Queirós, Porto, Lello e Irmão Editores, (s/d), vol. II, p. 118.

3. Expressão usada por Eduardo Lourenço em: Eduardo Lourenço, O labirinto da saudade, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 4ͺ ed., 1991, p. 90.

4. Mário Cláudio, As batalhas do Caia, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1995, p. 92 – 96.

5. Mário Cláudio, op. cit., p. 96 – 97.

6. Mário Cláudio, op. cit., 1995, p. 77.

7. Mário Cláudio, op. cit., 1995, p. 116.

8. Mário Cláudio, op. cit., 1995, p. 136.

9. Mário Cláudio, op. cit., 1995, p. 175 – 181.