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Entre o ver e o olhar:
a recorrência de temas e imagens na obra de José Saramago

 
Shirley de Souza Gomes Carreira
UFRJ / UNIGRANRIO

Os romances de José Saramago, especialmente os da fase inaugurada com Memorial do convento, apresentam vários elos intratextuais , dentre os quais a dicotomia ver/olhar, que encontra sua expressão máxima em Ensaio sobre a cegueira.

A proposta desta comunicação é refletir sobre a questão da visão como temática intratextual e a sua conexão com o signo do nome e a imagem do labirinto, que são perceptíveis não só em Ensaio sobre a cegueira, como também em outros romances de Saramago, embora revelem-se de maneiras diferentes em cada um deles.

Em Memorial do convento há um desdobramento do tema da visão à medida que este se associa às personagens, ao narrador e ao próprio leitor.

Saramago cria uma personagem, Blimunda, que é dotada de poder maravilhoso, a capacidade de ver os corpos por dentro, a qual só se torna possível se ela se abstiver de comer, assim que abrir os olhos. Ela é capaz de ver as doenças que afligem os homens e descobrir nascentes d’água, assim como ver as vontades que se desprendem de homens e mulheres à beira da morte. Essas vontades são metaforicamente nuvens fechadas.

No dia em que Blimunda encontra Baltasar, o soldado maneta, com quem viria a viver, e, simbolicamente, compartilha com ele uma colher, à guisa de casamento, ela jura que jamais o verá por dentro. Ao revelar a Baltasar o porquê desse juramento, depara-se com a descrença dele e propõe-lhe que saiam juntos no dia seguinte, antes de ela comer pão, quando , então, dir-lhe-á tudo o que vir. A única condição que impõe é que ele nunca se coloque à frente dela, para que ela não o veja por dentro.

Ao contrário de sua mãe, degredada pela inquisição por causa de suas visões sobre o futuro, Blimunda só pode ver o que está neste mundo. É ela mesma que esclarece não ser o seu dom fruto de feitiçaria, posto que seus "olhos são naturais"(p. 69).

Vejo o que está dentro dos corpos, e às vezes o que está no interior da terra, vejo o que está por baixo da pele, e às vezes mesmo por debaixo das roupas, mas só vejo quando estou em jejum, perco o dom quando muda o quarto da lua, mas volta logo a seguir (...) MC, 69

Ao amanhecer do dia seguinte, tendo ambos permanecido insones pela expectativa, diz o narrador:

Blimunda quieta, de olhos fechados, alargando o tempo do jejum para se lhe aguçarem as lancetas dos olhos, estiletes finíssimos quando enfim saírem para a luz do sol, porque este é o dia de ver não o de olhar, que esse pouco é o que fazem os que, olhos tendo, são outra qualidade de cegos. MC, 70

Compare-se essa passagem com a epígrafe de Ensaio sobre a cegueira: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." ; ou ainda: "Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos, que, vendo, não vêem"(p.310).

Em ESC, há uma retomada do tema da visão, que atribui ao ver uma dimensão mais profunda que a do olhar, estendendo-se por todo o romance.

Também na História do cerco de Lisboa pode-se observar, ainda que de maneira mais vaga, a importância que a " visão" tem no universo ficcional de Saramago. O almuadem é cego e, no entanto, o romance inicia-se com uma referência poética à sua capacidade de "ver" aquilo que os seus olhos não podem olhar: "Quando só uma visão mil vezes mais aguda do que a pode dar a natureza seria capaz de distinguir no oriente do céu a diferença inicial que separa a noite da madrugada o almuadem acordou"(p. 15)

O tema da visão, principalmente em Ensaio sobre a cegueira, evolve para a conscientização do fato de que nós, seres humanos, não enxergamos o que existe, apenas o que desejamos ver. Padecemos de uma cegueira voluntária, mas conveniente. Portanto, no contexto do romance, "ter olhos" passa a ser sinônimo de "ousar ver".

Se na História do cerco de Lisboa a cegueira do almuadem propicia a agudeza de uma visão que ultrapassa o alcance do olhar, em Memorial do convento ela é concedida às personagens Blimunda e Sebastiana Maria de Jesus, cada uma com sua vertente especial da visão, natural e sobrenatural, respectivamente, e, também, ao narrador, que, disfarçado de cronista de época, invade o universo ficcional , fingindo estar em um auto-de-fé, em um processo discursivo de "ver por dentro".

Celeste Varella1, em sua dissertação de mestrado sobre o Memorial do convento, ressalta que, assim, Saramago cria a ilusão de que é possível vencer as distâncias impostas pelo tempo e empresta o seu olhar contemporâneo e crítico ao universo ficcional.

Em MC, Blimunda é o instrumento da representação do poder natural do homem, ainda que subordinado ao desejo do romancista de veicular através dela as suas convicções.

Ela é a mulher julgada herege porque não consegue ver nos símbolos do Cristianismo a santidade que este prega. Para ela a hóstia contém apenas uma nuvem fechada; a mesma que ela vê nos simples seres humanos. A intromissão de um certo Saramago, "que saiu penitenciado por culpas de insigne feiticeiro" no segundo auto-de-fé reitera a metáfora do "ver por dentro".

O leitor é convocado a revisitar a corte de D. João V, não estando, portanto, imune à revisão do passado propiciada pelo olhar do narrador contemporâneo.

Na entrevista a Carlos Reis2, publicada no Jornal de Letras, em 14 de outubro de 1998, Saramago afirmou que seus livros expressam o conjunto de dúvidas, inquietações e interrogações que o acompanham, como cidadão, como pessoa, diante do tempo, da morte, do amor e da idéia de Deus existente ou não.

Se em MC essas inquietações que geram literatura nos parecem um tanto ou quanto encobertas pelo estilo barroco da escrita e pelo fascínio exercido pelas personagens, em ESC elas tomam forma em uma horrenda viagem através do labirinto das relações humanas, em um mundo do qual já não fazem parte as regras de civilização, onde os homens "são o que são".

A cegueira branca que se espalha, afetando a população de um local não nomeado no romance, reduz os homens ao grau zero da civilização, ao ponto onde tudo tem de ser refeito, recomeçado, reaprendido. O mundo de imagens passa a ser substituído por um mundo de ruídos e todos, com exceção da mulher do médico, a única que não sucumbe à cegueira, se vêem diante de uma vida sem os referentes do seu lugar antropológico3.

Assim como Blimunda— "a mulher de olhos excessivos, que para descobrir vontades nasceu"—a mulher do médico tem um papel especial: ela é "a que nasceu para presenciar o horror". Embora de modos diferentes, ambas são mulheres dotadas de olhos excessivos, destinadas a ter olhos que ninguém mais tem.

A mulher do médico presencia a redução do homem à barbárie, à "antiga horda", cuja única lei é a do mais forte, regida pelo instinto de sobrevivência. E, quando saem do manicômio e perambulam pela cidade, cabe a ela guiar os cegos da primeira camarata, qual "liberdade guiando o povo".

A imagem bíblica do cego guia de cegos, imortalizada pictoricamente e revivida com a deambulação do grupo pelo labirinto da cidade, preconiza o fim do romance, quando, em conversa com o marido, a mulher do médico percebe que a cegueira verdadeira não é aquela da qual todos vão se recuperando aos poucos e inexplicavelmente. A cegueira verdadeira é aquela em que todos continuam imersos, que independe do senso natural da visão.

A errância pelo labirinto da cidade sugere um rito de passagem, uma espécie de prova necessária ao aprendizado da visão. Tendo os cegos, finalmente, regressado à cidade, verifica-se que estão tão presos quanto antes, na quarentena. Claro está, no entanto, que o desfecho do romance não sugere que o aprendizado foi concluído. Ele apenas deixa entreaberta a porta para que o aprendizado aconteça. A conclusão de que estão todos cegos, "cegos que vêem, cegos que , vendo, não vêem", demonstra que da experiência resultou a auspiciosa consciência da cegueira, o primeiro passo para o aprendizado da visão.

Em sua análise de Ensaio sobre a cegueira, Teresa Cristina Cerdeira da Silva4 afirma que o romance pode ser lido inversamente como um ensaio sobre a visão, dizendo:"Longo será o percurso que conduzirá as vítimas à iluminação do processo absurdo que sofrem". "Para curar essa cegueira só uma outra que torne evidente a primeira"(p.692).

O signo do nome é abordado por Saramago de forma diversa em seus romances, mas em três deles ele está associado à visão. Ao suprimir os nomes das personagens, não só em Ensaio sobre a cegueira, como também em Todos os nomes, Saramago retoma a questão do nome, já abordada antes em Memorial do convento.

Em Memorial do Convento, ela está associada à idéia de perpetuação da vida. Quando Blimunda diz a Baltasar que pronunciar o nome de alguém é uma forma de mantê-lo vivo, além da vida física, ela se refere ao poder da palavra registrada, que torna eterna tanto a verdade quanto a mentira. Na realidade , Saramago tenta "reparar" a indiferença da História Oficial em relação aos inúmeros anônimos que construíram não só o convento de Mafra, como também a própria história de Portugal. A proposta do Memorial do convento é narrar o memorial dos esquecidos, o que Saramago efetivamente faz ao conceder voz aos excluídos da História, a personagens "marginais". É graças ao seu artifício que o romance nos proporciona a oportunidade de refletir sobre o passado histórico, que nos concede a possibilidade de re-ver esse passado.

Em Ensaio sobre a cegueira, Saramago opta pelo anonimato das personagens, como uma maneira de universalizar a experiência, abrangendo todas as pessoas, todos os nomes. Ao fazê-lo, nós também, leitores, somos levados para o universo ficional e experimentamos a cada página a dolorosa trajetória das personagens do romance.

A reação de muitos leitores, que se dizem incapazes de terminar de ler o livro, dada a sua crueza e contundência, é prova de que o autor atingiu o seu objetivo de inserir-nos no seu universo ficcional, muito embora muitos de nós ainda estejamos nos recusando a "reparar" naquilo que nossos olhos nos mostram.

Em Todos os nomes, à exceção do protagonista— significativamente chamado José— nenhuma outra personagem é nomeada. O senhor José é, há vinte e seis anos, um auxiliar de escrita que cumpre com dedicação todas as suas tarefas, sem jamais reclamar. Mora numa casa geminada à Conservatória Geral do Registro Civil, onde trabalha, e tem por única distração colecionar recortes de jornais com imagens e notícias das maiores celebridades nacionais.

A Conservatória é por si só um labirinto pouco iluminado, onde os verbetes dos vivos e dos mortos estão dispostos de tal maneira que o dos mortos fique mais ao fundo , imerso na escuridão. Uma noite o senhor José decide fazer uma pesquisa na Conservatória, utilizando a porta há tempos cerrada pela proibição do Chefe. Lá, onde, no passado, um pesquisador de heráldica perdeu-se por vários dias— tornando obrigatório o uso do fio de Ariadne— subitamente lhe cai em mãos um verbete de uma mulher desconhecida, cujo passado e presente ele passa a investigar.

Em Todos os nomes a imagem do labirinto se repete sucessivamente: o labirinto da Conservatória, o labirinto da cidade, a escola tornada labirinto pela atmosfera de escuridão— que, aliás, permeia todo o romance— e o labirinto do cemitério.

O labirinto sugere a itinerância, o vagar sem rumo, a procura. Assim, o tema do labirinto já havia sido levemente introduzido em Memorial do Convento, expresso através da busca de Blimunda pelo seu homem, Baltasar, e , por conseguinte, da perpetuação de uma existência livre do conceito de culpa e de pecado. O tema se repete com maior amplitude em Ensaio sobre a cegueira, quando os cegos , ao sair do manicômio, andam sem rumo por uma cidade imunda, em busca de comida e das próprias casas.

A trajetória no labirinto, o locus da itinerância, corresponde a um não-lugar, isto é, a um local onde não é possível recuperar de todo o lugar antropológico dos que nele transitam. Assim sendo, de nada valem para os cegos as imagens da memória no labirinto da cidade, uma vez que essas imagens, sendo visuais, são incapazes de reconduzir os cegos às suas casas.

Em Todos os nomes a imagem tetrapartida do labirinto tem um significado mais amplo, pois compõe o ciclo da vida. A Conservatória contém todos os nomes, de mortos e vivos; a escola é o espaço do passado; a cidade é o espaço da busca e o cemitério, que normalmente é concebido como o espaço dos mortos, através da troca de tabuletas, passa a ser o espaço onde a verdade e a mentira têm igual equivalência. Não há, pois, como dissociar nos romances citados os três temas— visão, labirinto e nome— uma vez que estão intimamente relacionados na economia dos romances em questão.

Se Blimunda nos fala de algo "que não é agradável de se ver", isto é, o homem por dentro, e revela como a história perpetua a vida, a mulher do médico nos recorda a nossa cegueira voluntária.

Todos os nomes , por sua vez, nos mostra os limites tênues que separam a vida da morte e a verdade da mentira, todos mediados pelo poder da palavra. Assim, nas palavras do pastor de ovelhas, que troca os nomes e datas das sepulturas no cemitério, a nossa percepção do mundo é desafiada:

(...) a única coisa que sei é o que penso quando passo diante de um desses mármores com o nome completo e as competentes datas de nascimento e morte, Que pensa, Que é possível não vermos a mentira, mesmo quando a temos diante dos olhos. TN,241

Cada um dos romances citados contém uma etapa de uma proposta do autor, que se diz mais ensaísta que romancista, já que escreve ensaios com personagens, ensaios estes que são o locus das suas reflexões sobre questões que o afligem enquanto indivíduo.

Saramago costuma dizer que os seus livros levam uma pessoa dentro. Neste trabalho, ousamos dizer que seus livros levam pessoas dentro: levam cada um de nós , imbuídos da nossa cegueira voluntária, e levam, também, esse distinto senhor, que, inexplicavelmente, a natureza quis que nascesse com "olhos excessivos".


Notas

1. Celeste Varella, Memorial do convento: uma narrativa palimpsesta, Rio de Janeiro, PUC, Dissertação de mestrado em Literatura Portuguesa,1995,p.110

2. Carlos Reis, Diálogos com Saramago, Lisboa, Caminho, 1998,p.45

3. Marc Augé, Não lugares:introdução a uma antropologia da sobremodernidade.(Trad. de Lúcia Mucznic),Venda Nova, Bertrand, 1994,p 58-62

4. Teresa Cristina Cerdeira da Silva, "De cegos e visionários: uma alegoria finissecular na obra de Saramago",Cânones & Contextos, Congresso Abralic, Anais, v.3,Rio de Janeiro,UFRJ,1998,p.691-694