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Eurico, o presbítero, uma narrativa de fundação

Ronaldo Menegaz

Herculano não é apenas o português moderno digno desse nome, é o inventor, o arqueólogo de Portugal como memória recuperada e fundamento da compreensão positiva do seu presente.
          
Eduardo Lourenço, Nós e a Europa, p. 29-30

Tanto a identidade de um indivíduo, que é realmente o sujeito de suas ações, como a identidade de uma nação, que é um sujeito de constituição analógica e simbólica, são "construção e invenção", conforme ensina Eduardo Lourenço1. Para o mestre de Vence, a questão da identidade nacional se liga necessariamente à "memória, reactualização incessante do que fomos ontem em função do que somos hoje ou queremos ser amanhã". Se a nação como sujeito é uma construção "analógica e simbólica", ela se forma paulatinamente no imaginário dos indivíduos que a constituem. E essa construção da nação se efetiva pelo discurso ficcional das narrativas de fundação. A nação constrói-se como uma identidade à medida que se narra. O fundo coletivo de onde se tiram as narrativas fundadoras é a memória do povo, guardada nas crônicas ancestrais, nos rituais, nas parlendas e nos contos folclóricos, enfim, naquilo que a UNESCO denomina "patrimônio invisível ou não tangível".

Étienne Balibar2 em seu ensaio Identité culturelle, identité nationale, examina a relação entre a nação e o Estado; para ele, "a cultura é o elemento distintivo que impede que se confundam as noções de nação e Estado, embora, na prática, é através do Estado que a nação se representa, pelo menos através de um Estado possível". É através das instituições do Estado que os indivíduos "reencontram a nação". Balibar prossegue dando uma definição daquilo que ele chama de "nação essencial", que outra coisa não é que a cultura. "É pelos traços permanentes de sua cultura que uma nação se prende aos modelos - ou melhor dizendo aos arquétipos da civilização de que ela é, ao mesmo tempo, encarnação e variante."

A expressão "narrativas de fundação" tem sido empregada em função de uma literatura de busca, discussão, contestação ou reforço da identidade nacional dos países periféricos da América Latina, da África e da Ásia, libertados de dominação colonialista (na América, durante o século XIX; na África e Ásia, já no século XX). Assim, no século XIX, no período que seguiu aos movimentos libertadores e à própria independência dos países ibero-americanos, surgem as primeiras narrativas de fundação desses povos, preocupados, então, com a afirmação de sua individualidade e de sua identidade em face da Espanha e de Portugal, suas antigas metrópoles. Foram lidos em seu tempo como afirmativas de alteridade, como narrativas exóticas, cheias de cor local ou, quando melhor compreendidas, como tentativas de criação de uma literatura nacional. Lidos com o olhar de hoje, essa preocupação com a total afirmação de independência intelectual e política e cultural das antigas metrópoles faz desses autores hispano-americanos e brasileiros os criadores das nações que lhes serviram de berço. São os relatos de fundação de nossas pátrias.

O conceito de literatura de fundação foi desenvolvido por Doris Sommer3 no excelente ensaio denominado "Irresistible romance: the foundational fictions of Latin America". Para essa teórica norte-americana, narrativas de fundação das nações ibero-americanas seriam, por exemplo, o romance Amalia (1855), do argentino José Mármol; Martín Rivas (1862), do chileno Alberto Blest Gana; O Guarani (1857) e Iracema (1865), de José de Alencar; María (1868), do colombiano Jorge Isacs e outros romances de outros autores românticos ou "costumbristas" desta nossa América.

Tendo o conceito de nação surgido não antes do Iluminismo e da Revolução Francesa, as narrativas com que se construía a identidade portuguesa, tais como os cronicões, os velhos livros de linhagem, as crônicas de Fernão Lopes, e até mesmo a grande épica camoniana serão reatualizados nas leituras que delas farão os românticos portugueses do século XIX, especialmente Garrett e Herculano. O romantismo, preconizador do individualismo e do nacionalismo, constitui, por suas características intrínsecas, o caldo de cultura mais favorável para o aparecimento desses relatos de fundação. Em Portugal, o romantismo entrelaça sua história com a história dos movimentos liberais. É no rastro desses movimentos que se formam nas nações-estados da Europa moderna. Sobre o papel da literatura nesse momento histórico, escreve Timothy Brennan4 em "The national longing for form":

A ascensão da moderna nação-estado na Europa no final do século XVIII e princípios do século XIX é inseparável das formas e dos temas da literatura de ficção. Por um lado os interesses políticos do nacionalismo trouxeram para as literaturas de cada país os conceitos de personagem nacional (folk character) e de modo de escrita nacional (national language). Por outro lado, a literatura participa da formação de nações pela criação da media impressa nacional (national print media) - o jornal e o romance.

Garrett e Herculano estiveram tanto nas trincheiras das lutas em favor de uma constituição liberal, como constituíram a vanguarda da renovação literária através da implantação dos cânones românticos. Ao redimensionar as velhas narrativas à luz dos conceitos de nação e cidadania estatuídos na Declaração Universal dos Direitos do Homem, Herculano vai reelaborá-los como narrativas de fundação. É o que se dá nos textos medievalizantes das Lendas e Narrativas, como "A dama pé-de-cabra", "O bispo negro", "A morte do lidador", "Arras por foro de Espanha", "A abóbada", etc, histórias retomadas e recriadas num momento em que Herculano acreditava estar Portugal corrigindo sua rota depois daquilo que para ele não passou de um desvio: a trajetória por outros chamada gloriosa do século XVI.

Nas "Notas" ao texto de Eurico, o presbítero5, Herculano, depois de confessar que não sabe como classificar seu livro: "Sou o primeiro que não sei classificar este livro, nem isso me aflige.", contextualiza o drama do presbítero godo num período de transição entre o fim do Império Godo e o "nascimento das sociedades modernas da Península". No prólogo da obra fica demonstrada a intenção do autor: fazer um romance de tese sobre o celibato forçado dos sacerdotes. O êxito da empreitada está longe de ser incontestável. Se Eurico não logrou esquecer o amor de Hermengarda e sofreu a mais tenebrosa ausência de seu amor, nunca se poderá dizer do presbítero que ele não tenha sabido superar e transfigurar sua paixão em ação, tanto pastoral quanto guerreira, quando lhe foi mister fazê-lo. Um romance sobre o tema do celibato sacerdotal, conduzido com mais propriedade, ainda estava por vir e teve sua forma definitiva em 1880, alguns 36 anos depois. Como romance de tese sobre o celibato dos presbíteros, o Eurico pode ter falhado, no entanto, tenha ele tido ou não consciência disso, é pertinente fazer hoje sua leitura como uma narrativa de fundação. Ao retomar os primeiros anos do século oitavo, quando se adensavam os indícios de decadência do Império Gótico e, tomados do fervor típico dos neoconvertidos, os povos do norte da África, como vanguarda da fé islâmica, atravessavam o estreito de Gibraltar e invadiam a Península Ibérica, Herculano volta-se para a fase embrionária dos reinos que se constituirão os actantes políticos da História da Península. Contemplando esse fato como o alvorecer dessa nova era, escreve Herculano ainda na nota 1 de seu romance:

A Espanha romano-germânica transformou-se na Espanha rigorosamante moderna no terrível cadinho da conquista árabe. A obra literária (novela ou poema - verso ou prosa - que importa?) relativa a essa transição deve combinar as duas fórmulas - indicar as duas extremidades a que se prende; fazer sentir que o descendente de Teodorico ou de Leovegildo será o ascendente do Cid ou do Lidador; que o herói se vai transformar em cavaleiro; que o servo, entidade duvidosa entre homem e cousa, começa a converter-se em altivo e irrequieto burguês.

A narrativa de Herculano contempla a integridade da Península como um todo político, sob a hegemonia dos reis góticos e unificados pela religião cristã, a despeito de todas as lutas intestinas que dilaceram tal unidade imperial, e das traições de autoridades, tanto civis quanto religiosas, que se aliam aos inimigos vindos de África. A invasão árabe assume em Eurico, o presbítero o significado de um golpe de misericórdia a um império que já estava condenado à decadência pela razão mesma do poder que havia acumulado. Ao se assimilarem aos romanos com quem conviveram pacificamente nas terras conquistadas, os godos receberam do povo que os precedeu no domínio da Península vícios e corrupção. Escreve Herculano:

A civilização, porém, que suavizou a rudeza dos bárbaros era uma civilização velha e corrupta. Por alguns bens que produziu para aqueles homens primitivos, trouxe-lhes o maior dos males, a perversão moral. A monarquia visigótica procurou imitar o luxo do império que morrera e que ela substituíra. Toletum quis ser a imagem de Roma ou de Constantinopla. Esta causa principal, ajudada por muitas outras, nascidas em grande parte da mesma origem, gerou a dissolução política por via da dissolução moral.

O que se pode estranhar no Eurico é o tratamento que Herculano dá aos árabes (tomando-se aqui o termo árabe dentro da maior generalidade). Os conquistadores são sistematicamente vistos como os vilões do romance; eles são os excluídos, como se deles nada de bom houvesse advindo à Península. Herculano não visualiza a contribuição étnica dos mouros na formação dessa "Espamha moderna", que ele vê surgir "no cadinho terível da conquista árabe". Contrapondo-se à exaltação épica e às virtudes guerreiras de Pelágio e de seus homens, os invasores africanos são apresentados como brutos e ferozes; os cavaleiros árabes como violentos e luxuriosos, animais no cio à procura das virgens godas, nobres e castas.

Se no romance de Herculano, a Espanha é ainda tomada como um todo, já se vislumbra a identidade de algumas das partes constituintes desse todo, ou seja, os "futuros reinos" da Espanha moderna. No correr da narrativa, o narrador evidencia, dentro da massa homogeneamente valorosa dos homens das diversas regiões da Península, os soldados da Lusitânia e da Galécia, como os melhores entre os melhores. Veja-se um trecho do cap. IX, p. 83:

Rodeados dos mais ilustres guerreiros, Roderico estava no centro das tiufadias formadas pelos espadaúdos soldados da Lusitânia setentrional e da Galécia, em cujas feições se divisava ainda que descendiam dos indomáveis Suevos.

No cap. XIII, p. 124, surge a figura de Gutislo, "homem agigantado e de fera catadura", que é o guardião da caverna de Covadonga, abrigo de Pelágio e berço da Reconquista. Gutislo é lusitano, antigo caçador de lobos do vale do Munda, o qual é ainda destacado no cap. XVII, p. 171. "... por fim, a figura membruda e selvática do lusitano Gutislo assomou no arco irregular que servia de pórtico àquela habitação roubada pela desventura às feras."

Assim como nas narrativas de fundação da nacionalidade brasileira - pense-se especialmente em Alencar - os negros escravizados foram esquecidos, e os índios foram submetidos a uma espécie de pasteurização, despojados de sua identidade e revestidos de uma idealização que os tornou portadores de valores brancos, ocidentais e cristãos, assim Herculano configura uma Espanha godo-romana, onde o elemento mouro é rejeitado como inimigo e encarnação do mal. Isso não o impede, entretanto, de escrever: "A Espanha romano germânica transformou-se na Espanha rigorosamente moderna no terrível cadinho da conquista árabe." Tudo se dá como dá como se Herculano, para a criação de seu herói romântico, nesse caso, um presbítero godo-romano, expressão cabal de um representante da Europa cristã, precisasse mostrar o mouro como seu antípoda na fé e na moral.

Assim, ao apresentar essas cogitações sobre o romance de Alexandre Herculano, espero ter trazido uma contribuição para uma nova leitura dos textos medievalizantes dos iniciadores da narrativa romântica em Portugal. Não se trata apenas de uma tendência estética do romantismo essa volta à Idade Média. Ao reassumir e reelaborar as narrativas das origens nacionais, Herculano está de novo fundando Portugal sobre as bases dos conceitos iluministas de nacionalidade e cidadania.


Notas

1. LOURENÇO, Eduardo. Nós e a Europa ou as duas razões. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988. p. 9.

2. BALIBAR, Étienne. "Identité culturelle, identité nationale" in Quaderni. La revue de la communication no. 22. Paris, AZ Presse, 1994. p. 53-65.

3. SOMMER, Doris. "Irresistible romance: the foundational fictions of Latin America in Nation and Narration. edited by Homi K. Bhabha. London and New York: Routledge, 1999. p. 71-98.

4. BRENNAN, Timothy. "The national longing for form" in Nation and Narration. edited by Homi K. Bhabhia. London and New York: Routledge, 1999. p. 44-70.

5. HERCULANO, Alexandre. Eurico, o presbítero. Introdução de Carlos Reis. Lisboa: Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, Editora Ulisseia, 1998.