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Fernando Pessoa, o poeta amoroso? Fragmentos de um discurso
Anna Klobucka

Gostaria de começar por via de um preâmbulo de natureza circunstancial. Confesso não me lembrar muito bem da feitura exacta do título de comunicação que enviei aos organizadores do Congresso na altura de efectuar a minha inscrição, visto que não cheguei a tirar uma cópia da ficha antes de metê-la no correio. Não posso portanto verificar se figurava ou não nesse título originalmente concebido o ponto de interrogação a seguir ao rótulo de "poeta amoroso" que escolhi apor ao nome de Fernando Pessoa, numa alusão transparente ao conjunto poemático "O Pastor Amoroso" assinado por Alberto Caeiro. Esta minha incerteza, e a possibilidade distinta da alteração, ligeira porém significativa, do título pela mão de quem o teria transcrito, confirmam quanto é problemático o assunto. Com ou sem interrogação, é evidente que tal ajuntamento se destinava a suscitar uma reacção de, pelo menos, dúvida e questionamento, se não, pura e simplesmente, de incredulidade e negação. Pois apesar de várias iluminações críticas de grande importância, às quais oportunamente me referirei, Fernando Pessoa continua, na consciência generalizada e aliás não necessariamente superficial da maioria dos seus leitores, como um poeta não-amoroso por excelência. Se o episódio sentimental experimentado por Caeiro surge, para muitos (e inclusive para os seus sócios na companhia heterónima), como um desvio anómalo dentro da obra do Mestre, da mesma maneira a visão corrente da obra pessoana no seu todo dificilmente admite que se inscrevam nela articulações amorosas classificáveis, por assim dizer, no modo afirmativo. Contudo, o dito e inegável "não-amor" não se constrói como um espaço acidentalmente deixado em branco algures à margem da rede densa e labiríntica do texto pessoano, evidência, quando muito, de um esquecimento incurioso, desinteressado e desinteressante; pelo contrário, este "vazio afectivo" é antes, nas palavras de Eduardo Lourenço, uma "espécie de ferida", ao redor da qual, de acordo com o ensaísta, reverbera toda a poesia de Fernando Pessoa como "o seu eco inutilmente multiplicado" (1986, 62) ou então "uma contínua e dilacerante variação, nos limites do insuportável, sobre a incapacidade de amar" (66).

Não poderei demorar-me aqui numa discussão atenta do julgamento crítico que acabo de citar; convém contudo sublinhar que se, por um lado, este e outros depoimentos de Eduardo Lourenço acerca do "mistério de Eros" (como já o nomeara João Gaspar Simões) possuem o grande mérito de ter submetido a uma lucidíssima atenção analítica um espaço discursivo dentro da obra pessoana que talvez mais do que qualquer outro tenha sido alvo de observações arbitrariamente acidentais e não raro orientadas por uma inflexão moral ou ideológica inconfessadamente subjectiva, por outro lado os comentários do ilustre crítico, na sua maioria publicados nos anos 70 e 80, cingem-se inevitavelmente a um corpus textual menos vasto e de certa forma, diríamos, mais arrumado, apesar de tudo, do que a bem mais abundante e diversa cornucópia pessoana que ou se encontra publicada ou está em vias de publicação neste fim de milénio (de destacar nela, sobretudo, as duas colectâneas de inéditos, Pessoa por conhecer e Pessoa inédito, reunidas por Teresa Rita Lopes, bem como as novas edições da poesia dos principais heterónimos e do Livro do desassossego, e ainda a edição muito recente da Educação do estóico de Barão de Teive, para não falar--por enquanto--em tais elementos contingentes, porém de suprema importância específicamente para a problemática de que me ocupo aqui, como as também recentemente publicadas cartas de amor de Ofélia de Queiroz para Fernando Pessoa).

Não será com a intenção de diminuir a importância daquilo que se poderia designar como o corpus nobre da poesia ortónima e heterónima, nem de desprestigiar os fundamentos canónicos da exegese pessoana, que ecoarei as vozes críticas que insistem na necessidade de reexaminar tanto as grandes linhas de força da obra pessoana como as vertentes que nela estão claramente presentes, mas que talvez se tenham afigurado anteriormente como não mais que tributárias ou periféricas, na luz de espectro cada vez mais variado que a afamada arca do espólio pessoano aos poucos vem deixando escapar. Quanto à problemática do que escolhi chamar aqui de "fragmentos de um discurso amoroso" (aludindo, como também não terá passado despercebido, ao livro homónimo de Roland Barthes), sendo este um conjunto isotópico que abrange uma variedade extraordinária de elementos textuais ortónimos e heterónimos, tanto fingidamente "reais" como manifestamente fingidos, creio que a sua análise deve ser abordada, conforme já sugeriu José Augusto Seabra no ensaio sobre as cartas de amor de Pessoa incluído em O Heterotexto Pessoano, "em termos de migração intertextual", relacionando-se "os elementos paragramaticamente dispersos de uma textualidade múltipla, nos seus discursos e sujeitos" (1985, 74), onde "o fingimento amoroso das cartas [a Ofélia] não seria mais do que uma metamorfose dos textos poéticos, ou estes daquele" e onde (como continua, lacanianamente, o crítico) "o discurso amoroso, bem como o seu sujeito, não são mais do que essa encenação infinita de significantes" (75). Isto posto, e reconhecendo que, dentro dos parâmetros da poética "autopsicográfica", fingimento é o sine qua non de qualquer mediação discursiva da experiência humana, cabe advertir, contudo, que as configurações da dita encenação infinita de significantes não se formam apenas numa splendid isolation do texto literário e do diálogo intertextual que o envolve, mas encontram-se igualmente determinadas pelas circunstâncias pragmáticas da sua produção e consumo. Ou seja: por mais "fingidas" e intertextualmente comprometidas que fossem as cartas de Pessoa para Ofélia Queiroz, elas destinavam-se a ser lidas não apenas por uma mulher de carne e osso, mas por essa mulher, nesse tempo e espaço concretamente reais, e isto as coloca numa categoria distinta daquelas cartas ou fragmentos de cartas mais ou menos amorosas que se podem encontrar, por exemplo, no Livro de desassossego (uma das quais se autoidentifica, de facto, como uma "Carta para não mandar" [1998, 319]).

A articulação do discurso amoroso, primeiro criticamente comentada e logo ludicamente executada por Roland Barthes em Fragments d'un discours amoureux, ao mesmo tempo ilumina e complica o projecto de interpretação deste discurso e desta problemática dentro da obra pessoana. Por um lado, é obviamente relevante no nosso contexto a insistência de Barthes quanto à natureza fragmentada e figurada do discurso amoroso: ele se manifesta atravês de "bouffées de langage. . . . bris de discours" que coalescem na forma provisória de "figuras" (1977, 7). Estas não devem entender-se no sentido retórico, mas antes "au sens gymnastique ou choréographique . . . le geste du corps saisi en action, et non pas contemplé au repos . . . (8), descrição que se aproxima muito mais do sentido de materialidade dinâmica que caracteriza o "drama em gente" da escrita heteronímica. Esta reorientação do significado da "figura" amorosa desde a retórica até performance, actualizada enquanto discurso, mas irredutivelmente enraízada no gesto somaticamente concreto, oferece a meu ver uma via hermenêutica atraente, proporcionando, ao mesmo tempo, um argumento precioso contra as interpretações que desqualificam um ou outro estilhaço textual pessoano do género amoroso como um mero "exercício de estilo". Dou um exemplo entre muitos, este infelizmente colhido no prefácio de Teresa Rita Lopes para Pessoa inédito (digo "infelizmente" porque creio que esta e outras publicações da eminente estudiosa contribuiram imenso para um alargamento e enriquecimento inestimáveis da nossa compreensão do fenómeno pessoano). É como "visivelmente, exercícios de imaginação e estilo" que a autora classifica, com a intenção explícita de negar-lhes deste modo autenticidade e importância, os "vários poemas em torno do amor homossexual" que permanecem ainda inéditos no Espólio (1993, 25). Embora não tenha tido a oportunidade de examinar estes textos no seu conjunto (como a própria Teresa Rita Lopes nos diz, houve até um título escolhido para os reunir, O Livro do Outro Amor), uns excertos que me vieram parar nas mãos comprovam, a meu ver, que apenas será justificado diagnosticá-los de "exercícios de imaginação e estilo" se concedermos que também o são, guardadas todas as devidas proporções, a "Ode Triunfal", O Guardador de Rebanhos ou as odes de Ricardo Reis. Diria até que é nos tais "poemas homossexuais" (como já sugeriu Eduardo Lourenço em relação a "Antinous") que o discurso lírico de Pessoa mais se aproxima de um discurso directo do desejo (por mais filtrados que este desejo e este discurso se encontrassem através de uma consciência, por vezes dolorosamente expressa, da incapacidade de assumi-los plena e abertamente, incapacidade, diga-se à margem, que parece tanto subjectivamente assumida como socialmente imposta).

A referência que acabo de fazer ao discurso directo do sujeito amoroso traz-me de volta a Fragments d'un discours amoureux. Pois após um breve capítulo introdutório, o livro de Barthes configura-se, ele mesmo, como uma performance deste discurso directo, o autor com o seu metadiscurso retirando-se, literalmente, para a margem do solilóquio, espaço acessório onde se oferecem referências eruditas ou triviais que identificam os seus suportes literários, filosóficos e existenciais: Werther, Platão, conversas com amigos, a própria vida de Barthes. Desta maneira, "si l'auteur prête ici au sujet amoureux sa 'culture', en échange, le sujet amoureux lui passe l'innocence de son imaginaire, indifférent aux bons usages du savoir" (12). Não obstante a interpenetração íntima e, efectivamente, amorosa dos dois agentes do livro (o crítico Stephen Heath fala a propósito de "intelligent closeness", uma proximidade inteligente [1983, 102]), eles permanecem discursivamente distintos nesta simulação abertamente declarada e comentada como tal. Pelo contrário, as vozes ditas "amorosas" que soam na obra de Pessoa, e muito em particular as que emanam da vasta área dos inéditos, raras vezes se projectam tão explicitamente emolduradas e rotuladas com uma apellation d'origine que as permita situar num lugar preciso na escala infinitamente graduada do fingimento pessoano. Talvez nenhum dos subgéneros, ou para continuarmos a usar o quadro conceptual de Barthes, das figuras distintas do discurso amoroso ilustre este obstáculo (e este estímulo) hermenêuticos da maneira mais elucidativa do que a carta de amor. Diga-se parenteticamente que, sendo o texto epistolográfico um espaço dialogal por excelência, discurso no qual a consciência inerente da alteridade representada pelo destinatário se afigura como um dado fundamental e indelével, é evidente a importância geral deste género de escrita dentro da obra pessoana (para nem falar da fonte primária de subsistência do cidadão Fernando Pessoa, correspondente comercial em várias firmas lisboetas). Já aludi às bem conhecidas cartas que Pessoa escrevera a Ofélia de Queiroz, no decorrer da única relação amorosa não apenas textual que lhe conhecemos, e à dificuldade inerente no projecto da sua interpretação enquanto peças integrantes do "heterotexto pessoano". Como já tive a oportunidade de comentar em outra ocasião é precisamente o grau elevado de alteridade discursiva que estas cartas representam em relação à expressão estilística e mesmo subjectiva prevalente na obra de Pessoa que parece causar a reacção de perplexidade crítica patente em vários comentários publicados. Por outro lado, um texto tão manifestamente fingido como a extraordinária "Carta da Corcunda para o Serralheiro" surge, afinal de contas, bastante menos "outro", apesar de atingir, como escreve Teresa Rita Lopes, "o ponto máximo nesta escala de despersonalização que Pessoa percorria em todos os sentidos" (1990, 143). Ao mesmo tempo, porém, esta carta de amor composta pela corcunda Maria José constitui, sempre nas palavras de Teresa Rita Lopes, "o auto-retrato mais acabado" de Pessoa enquanto "'grande alma' que se sentia 'ninguém'" (ibid), incorporando até (acrescento eu) indicações tão explícitas de dívida intertextual para com os espaços centrais do imaginário pessoano como uma citação directa de um fragmento de Livro do desassossego (tanto Maria José como Bernardo Soares comparam-se a "um trapo . . . que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água") (Lopes 1990, 258). É à base de tal evidência que se chega, em relação aos textos protagonizados por um sujeito amoroso que não trazem assinatura do autor heterónimo, nem identificação do conjunto ao qual tivessem sido destinados, ao paradoxo talvez inevitável de propor como existencialmente autênticos esses fragmentos que menos se pareçam com a escrita do "Pessoa-que-conhecemos". Para dar apenas um exemplo, foi publicada no volume Pessoa Inédito uma carta--manuscrita, sem data ou assinatura--que é declaração de amor de um homem a uma mulher desconhecida. Segundo comenta a organizadora do volume, é improvável "tratar-se de pura ficção", dado o seu estilo "tão ao natural, sem o baptismo da transfiguração literária" (1993, 24), argumento que até parecia convincente se não evocasse de imediato a suspeita de que, no caso, tal transfiguração "literária" poderia consistir precisamente na aparente ausência da mesma. De uma maneira bem distinta porém análoga, algumas das cartas a Ofélia alargam e complicam os limites tanto estilísticos como subjectivos do discurso amoroso do sujeito-Pessoa, verificando-se por vezes mais escandalosas na sua proliferação desavergonhada dos diminutivos do que as mais provocadoras declarações eróticas de Álvaro de Campos.

Em conclusão, aliás muito pouco conclusiva, visto tratar-se aqui apenas de um esboço preliminar dum projecto em construção, gostaria de evocar um comentário de Shoshana Felman acerca da relação entre o erotismo e a linguagem que se me afigura altamente pertinente para a problemática dos "fragmentos do discurso amoroso" na obra pessoana e dos comentários críticos que este discurso tem suscitado: "Si le problème du mythe de Don Juan est en effet celui du rapport de l’érotique et du linguistique, le scandale consiste non pas tant dans le fait que le linguistique est toujours érotique, mais dans le fait–bien plus scandaleux–que l’érotique est toujour linguistique" (157).

Se a experiência efectivamente vivida de Fernando Pessoa poderia ser vista como uma imagem inversa do mito de Don Juan, a obra pessoana, pelo contrário, apresenta-se como uma versão relativamente homónima desta voracidade insaciável perante a vida (ou a linguagem) e desta multiplicação desenfreada de projectos (amorosos ou literários) que caracterizam o paradigma donjuanesco (e nem estou a referir-me aqui especificamente ao donjuanismo bastante explícito de um Álvaro de Campos sensacionista). O escândalo inerente nesta promiscuidade erótico-linguística é algo que os fragmentos do discurso amoroso dispersos através da obra pessoana chegam a comentar com uma insistência por vezes obsessiva, mas não raro também extremamente subtil, como nestas odes de Ricardo Reis dirigidas à sua Lídia horaciana nas quais à acostumada renúncia ao prazer erótico associa-se estreitamente uma exortação ao silêncio e mudez ("A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos."). Ou como no seguinte fragmento inédito, onde um espaço deixado em branco no último verso pelo próprio autor parece surgir, metatextualmente, como um comentário à própria confrontação amorosa e discursiva que o fragmento descreve:1

Quantas vezes, fallando com tuas fallas,
Me esqueço d’ellas de pensar em ti;
Olhas-me, extranhas, e, offendido, calas.
 
E não te sei explicar porque não te ouço.
Busco desculpas
Mas a razão não posso.


Notas

1. Este e outros fragmentos do que não chegou a ser O Livro do Outro Amor encontram-se numa folha tipografada, datada 5-7-1919 (cota da Biblioteca Nacional: 43-50). Agradeço a Richard Zenith a gentileza de me ter facultado a fotocópia do inédito.


Obras citadas

Barthes, Roland. Fragments d’un discours amoureux. Paris: Seuil, 1977.

Felman, Shoshana. Le Scandale du corps parlant: Don Juan avec Austin, ou, la séduction en deux langues. Paris: Seuil, 1980.

Heath, Stephen. "Barthes on Love." SubStance 37/38 (1988): 100-106.

Lopes, Teresa Rita, ed. Pessoa por Conhecer. Roteiros para uma expedição. Lisboa: Estampa, 1990.

Lopes, Teresa Rita, ed. Pessoa Inédito. Lisboa: Horizonte, 1993.

Lourenço, Eduardo. Fernando, Rei da Nossa Baviera. Lisboa: IN-CM, 1986.

Seabra, José Augusto. O Heterotexto Pessoano. Lisboa: Dinalivro, 1985.

Soares, Bernardo (Fernando Pessoa). Livro do desasossego. Edição Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.