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Isabel Roboredo Seara
Universidade Aberta - Lisboa - Portugal
irseara@univ-ab.pt

É um arrojo, sem dúvida, pronunciar algumas considerações sobre Ferreira de Castro1. Desejo partilhar um pouco dos estudos que empreendi sobre A Lã e a Neve e, sobretudo mostrar que a minha geração, aquela que nasceu quando o escritor estava no seu apogeu literário, não deixará por certo de olvidar e de ajudar a renovar e ampliar o interesse por este romancista ímpar, este escritor universal, este humanista venerado, que seduziu tantos e tantos leitores aqui no Brasil e no nosso Portugal e por esse mundo fora, que foi lido, devorado, aclamado, exaltado.

A escolha de Ferreira de Castro não foi vã. Ferreira de Castro: o viajante, o cidadão do mundo, o humanista, o universalista.

O viajante, de Ossela para o Brasil, emigrante nessa terra de seduções que descobre, que pinta, que enobrece de forma única em A Selva e em Emigrantes e a quem os nossos irmãos brasileiros devotam uma ternura especial. Viajante pelo mundo inteiro, do Mediterrâneo ao Oriente, detendo-se nos aspectos culturais de comunidades pequenas e singulares.

Nómada, sedento de conhecimento como o provam todas as suas obras.

O humanista, o universalista

Nas 100 Cartas a Ferreira de Castro, cuja publicação devemos ao ilustre historiador, director do Museu Ferreira de Castro, em Sintra e estudioso do espólio do escritor, Dr. Ricardo Alves, numa missiva dessa colectânea, de Maria Lamas, poetisa e amiga do escritor, pode encontrar-se o fundamento do qualificativo humanista que sempre acompanhará o romancista: "Evoco os sonhos que mal se atrevia a dizer alto, o fundo humaníssimo de ternura e piedade que sempre o levou a debruçar-se sobre o sofrimento dos outros homens "(199a: 103).

É a mesma fraternidade e franciscanismo que refere o Professor Bernard Émery.

O próprio Ferreira de Castro escreve no prefácio de Terra Fria : "Compreender e fraternizar com os homens sejam do Barroso ou da Serra da Estrela, da cidade em que vivo ou da aldeia em que nasci".

É esta postura humana, fraterna, compreensiva, de esperança ontológica, de credulidade numa sociedade justa, verdadeira, fraterna, sem fronteiras que desejamos sobrelevar.

Falar de Ferreira de Castro será também falar do homem da natureza, das longas e solitárias caminhadas à beira do sereno Caima ou do ingente Amazonas, será falar do mundo inteiro que sentiu e do lugar recôndito da Serra de Sintra que escolheu e onde eterna e teluricamente quis repousar.

Nos estudos linguísticos que desenvolvi era imperioso que a realidade descrita fosse algo que estivesse perto das minhas raízes, das entranhas beirãs onde nasci e fui criada. O conhecimento vivo e sentido dessas paisagens serranas, graníticas, incorruptas e agrestes, desse fervilhar da natureza animal e vegetal, dessas gentes simples, anónimas, medievas, dessas figuras hieráticas, essa comunhão de um mesmo fascínio telúrico omnipresente em A Lã e a Neve influenciou, decerto, a minha escolha.

O estímulo maior terá sido, contudo, o da leitura de tudo o que os seus biógrafos, críticos e amigos escreveram, sempre realçando a sua dimensão humana, a sua nobreza de alma, o seu testemunho de vida, enfim, a humildade deste Homem de Bem.

Que lição ímpar de humildade a carta publicada em 8 de Janeiro de 1960, no vespertino República, após a notícia da Sociedade Portuguesa de Autores, em que a sua extrema modéstia o leva a renunciar à candidatura ao Nobel pelo simples facto de não querer "estabelecer qualquer concorrência, por insignificante que fosse" com Aquilino e Torga.

O desenvolvimento do tema desta comunicação poderá parecer tecnicista, dado que se processa essencialmente num quadro linguístico. Urge, no entanto, em minha opinião, desmistificar essa imagem austera de cientificidade deste tipo de estudos e procurar que a Linguística, ciência que estuda a linguagem, a mais complexa das faculdades humanas, esteja ao serviço, dialogue e emparceire com os estudos literários e os demais campos das ciências humanas.

A escrita de Ferreira de Castro faz sentir quão importante é a análise esmiuçada das palavras. As palavras que enredam sentidos, que expressam valores, que aludem a reacções apreciativas idiossincráticas, que transbordam de beleza poética, que evocam todo o mundo de perfeição metafórica que inunda esta obra.

Porquê a metáfora?

A metáfora foi alvo de múltipos e milenares estudos. Já no século IV a.C., na Poética,o grande filósofo estagirista, Aristóteles, define, deste modo, a metáfora:

A metáfora consiste no transportar para uma coisa o nome de outra, ou do género para a espécie, ou da espécie para o género, ou da espécie de uma para a espécie de outra ou por analogia. (Aristóteles, trad.1986: 134)

A metáfora era, pois, considerada como a epífora do nome, ou seja, a transposição de um nome diferente - allotrios - nome esse que designa algo distinto. No fundo, esta teoria aristotélica é a percursora da que, séculos vindouros, se virá a designar teoria substitutiva, na medida que encara a metáfora como um pedido de empréstimo, a outro domínio, de um termo que vem ocupar o lugar de um -substituens- com um significado literal.

Esta concepção aristotélica da metáfora vai perdurar e, mesmo no período romano, sabe-se que os dois grandes retóricos, Cícero e Quintiliano, apesar de terem marcado o apogeu da retórica, pouco acrescentaram de inovador ao saber aristotélico. Quintiliano, contrariando em certa medida o saber aristotélico, apresenta a ideia de que a metáfora é uma comparação abreviada: "In totum autem metaphora brevior est similitudo". (Quintiliano, trad.1834). Afirma também que a metáfora (translatio) consiste em tirar a palavra do lugar que lhe é próprio e conduzi-la (ducere) segundo uma relação de semelhança (per similitudinem) para um lugar que lhe é estranho (alienum):

Metaphora enim aut vacantem locum occupare debet aut si in alienum venit plus valere eo quod expellit.(Quintiliano,I.O., VIII, 6, 18)

O ensino tradicional apresenta habitualmente a metáfora como similitude, na qual se dá uma elisão da partícula ou termo comparativo e, frequentemente, do termo a que se compara.

O critério de semelhança, presente na maioria das definições, com um carácter mais ou menos dissimulado, está longe, no entanto, de traduzir a ideia-base do processo metafórico. Todavia - e julgamos poder afirmá-lo seguramente - um dos aspectos que distanciam os pensamentos antigo e moderno, no que respeita à metáfora, é o seu estatuto de ornamento. Para os retóricos clássicos, uma das principais funções deste tropo era adornar, embelezar, retocar a linguagem. A linguística moderna, porém, rejeita totalmente esta concepção e defende que a metáfora é um fenómeno inerente à própria linguagem, ou seja, a metáfora é linguagem.

A base teórica dos nossos estudos fundamentaram-se numa análise semântico-pragmática baseada na teoria dos linguistas americanos Lakoff e Johnson.

Há que distinguir na trajectória destes linguistas da Universidade de Chicago a pertinácia e a coerência do estudo minucioso que empreenderam sobre a linguagem do nosso quotidano, apresentado sob o título "Metaphors we live by".

Largo mérito para estes autores que revelam que a metáfora não é apenas uma simples forma de falar ou de pensar: ela constitui a nossa experiência do mundo e domina os conceitos e as rotinas do nosso quotidiano.

Para Lakoff, todo o nosso sistema conceptual, de que nos servimos para pensar e agir é de natureza metafórico: o tempo é tratado segundo o modelo do espaço, a discussão, segundo o modelo da guerra, ou seja, compreendemos os conceitos em termos de metáforas sistemáticas ("o amor é uma viagem , a discussão é a guerra, o tempo é dinheiro, etc.").

A metáfora surge, assim, como estratégia, como mecanismo cognitivo que, a partir de relações de semelhança leva à apreensão imediata de saberes ordenados, estruturados e à compreensão, por comparação subjacente, de conhecimentos que a percepção directa não pode veicular.

Importa também referir que a retórica tradicional e designadamente a latina, desde Cícero a Santo Agostinho, atribui à linguagem três funções: docere, placere e movere .

Docere consiste em transmitir uma informação, placere pode entender-se como a expressão da função estética e movere encerra a função de persuasão ou conativa.

1. A primeira função docere corresponde, pois, à transmissão de uma informação. A metáfora, segundo Le Guern, consiste na formulação sintética de um conjunto de elementos de significação que dizem respeito ao significado usual e corrente da palavra e que são compatíveis com o novo significado imposto pelo contexto e o emprego metafórico. Poderemos enunciar, dentro desta primeira função, dois domínios particulares:

a) - um domínio cognitivo, no qual entendemos a metáfora como uma forma de tornar o conhecimento um acto marcado afectivamente. Assim, a sua formulação dá ao "outro" (leitor ou interlocutor) directivas emocionais. A metáfora, ao estabelecer novos elos de ligação, modifica o nosso conhecimento do mundo.

La métaphore unit ce qui est à la fois semblable et dissemblable: elle est la forme même de la connaissance créatrice qui fait la synthèse du divers et unit semblables et contraires dans une totalité organique et vivante. (Molino, 1979: 16)

Le Guern afirma que a metáfora cognitiva tem uma função capital na linguagem amorosa, na linguagem religiosa e na poesia (Le Guern, 1973: 72). Nesses três domínios, o locutor tenta exprimir o inefável. Na poesia foi, sobretudo, a partir dos românticos que a dimensão cognitiva foi privilegiada. É, pois, o processo estilístico essencial numa vertente hermenêutica, da procura das correspondências, das identidades secretas. Baudelaire afirmava: "Au commencement du monde étaient l’analogie et la métaphore" e Mallarmé retorquiu a esta afirmação dizendo: "Je raye le mot comme du dictionnaire". A poesia simbolista confirmou esse poder totalizador da metáfora. Lembremos, a este propósito, Camilo Pessanha que insistiu na atribuição desse equivalente espiritual a todo o elemento natural. Assim se entende o que separa a metáfora e a comparação. Esta

associa dois referentes e impõe uma visão dupla dos elementos interligados; a outra, a metáfora corresponde a uma procura da unidade. Ousamos afirmar que a comparação

conserva no seu processo cognitivo uma dimensão espacial e temporal, que tendem a ser abolidas no caso da metáfora.

b) um domínio denominativo, ou seja, a metáfora permite em múltiplos casos, atribuir um nome a determinadas realidades, objectos ou conceitos para os quais a língua corrente não fornece um termo próprio. Daí que seja esta uma das funções mais divulgadas da metáfora: a do enriquecimento lexical.

c) um domínio didáctico, na medida em que o raciocínio metafórico assume uma função de explicitação, ou seja , "dá a compreender".Encontra-se este tropo em discursos de carácter filosófico, moral, espiritual e até científico, nos quais o comparante pertence ao domínio do sensível.

2. Por outro lado, na segunda função placere encontram-se as motivações mais importantes que presidem ao uso da metáfora.

A tradição retórica quis incutir-lhe um papel de ornamento estilístico, puramente decorativo. Esta função ornamental, como referimos anteriormente, era a função em destaque na retórica clássica. Estava associada tradicionalmente ao discurso poético, ao discurso descritivo e visava ornar o discurso e embelezar o referente. Assim se explica que a grande maioria dos trabalhos sobre a pertinência metafórica se desenvolvam em textos poéticos.

3. Propositadamente para o final, reservámos a função movere: explicitar, persuadir, emocionar, provocar reacções, são estes os objectivos que se pretendem atingir. A metáfora, como mecanismo argumentativo, está mais próxima da persuasão afectiva do que da convicção lógica.

Todavia, mesmo estas metáforas que encerram um carácter singularmente argumentativo tendem a provocar uma reacção afectivo-sensível, ou seja, os enunciados metafóricos acarretam uma carga afectiva e seduzem através de uma série de argumentos que o raciocínio lógico jamais poderá controlar.

É nossa opinião que todas as metáforas exprimem um juízo de valores, dado que a imagem que introduzem, subtil e inconscientemente, interpela-nos e provoca uma reacção afectiva.

Assim, centraremos a nossa atenção no carácter explicativo, descritivo e, consequentemente, emotivo do texto literário escolhido, porque:

la métaphore a le plus souvent pour fonction d'exprimer un sentiment qu'elle veut faire partager: c'est là qu'on doit chercher la plus importante de ses motivations. (Le Guern,1973: 75)

A identificação do enunciado metafórico não é um processo simples. A própria detecção do enunciado é já um acto interpretativo que pressupõe decisões do leitor no processamento do material textual. Identificar determinados traços sémicos, integrá-los num contexto textual, são as duas faces de um mecanismo cuja complexidade é directamente proporcional ao grau de imprevisibilidade e ineditismo da figura.

Na obra A Lã e a Neve de Ferreira de Castro2, os enunciados metafóricos proporcionaram-nos um fio condutor que levou a descobrir analogias, pertinência e sentido, harmonia e coerência. Se nos fosse permitida aqui uma comparação, diríamos que tal como Leibniz conseguia ler a arquitectura do universo numa simples gota de orvalho, assim a interpretação de uma obra literária deveria ser capaz de reconhecer o universo total de uma obra naquilo que, à primeira vista, parece simples pormenor acidental ou acessório.

Elaborámos matrizes lexicossemânticas3 que nos permitiram concluir, como pudemos comprovar pela análise estatística ,que há um domínio da reacção apreciativa à presença e à ausência de estímulos. Esses estímulos são maioritariamente precisos, ou seja, realidades concretas, observadas ou sentidas, mas ocorrem algumas vezes estímulos imprecisos, mostrando o carácter transitório, indelével da realidade descrita.

Há, num grande número de enunciados metafóricos uma humanização da natureza que está bem patente na alta frequência do traço [+Humano].Os exemplos mais significativos destes enunciados metafóricos são os que passamos a transcrever:

O Zêzere correndo e cantando entre os penedais do seu leito M62
A estrada salvava a ribeira M15
Aqueles dois degraus abertos na anca da montanha M14
As beiçorras da serra M73
Baforada de nevoaça M77
A mudez da terra M85
Toucas de algodão em rama M130
Um gemer de pedra M161
Uma águia veio remando de longe M155
Uma folhita ...se debruçava na estrada M382
O céu andava de carranca M450
A fúnebre ária do vento M475

Refira-se ainda que, por vezes, a descrição da serra e da sua realidade envolvente é feita através de unidades lexicais emprestadas de outros domínios. Servem de exemplo, os enunciados em que esses empréstimos são retirados de um domínio aquático:

A vila... parecia uma grande concha verde M19
A serra...(como) um bote de serpente M29
Ao distender-se, forma altivos promontórios M31
(a serra) sugere um fabuloso réptil anfíbio e descomunal M38
Dir-se-ia rasgado por um casco de navio M64
...pela incisão da quilha M66
Paisagem submarina M87
Os zimbros...eram polvos envolventes M222

Há uma constante animização da natureza e o traço [+Animado] tem também uma frequência elevada. Exemplos:

O dorso da serra M42
O nascimento de duas pedras M89
A neblina começara a esgarçar-se para a banda do vale M91
Solitárias folhitas M217
Rebanhos de nuvens M279
O Zêzere regougava M193
O vento largara-se a uivar M464
O vento ululava M474
O vento teimava nos seus rugidos M496

Outro dos casos que urge realçar é o aparecimento, em determinados enunciados metafóricos, de uma concomitância de estímulos pertencentes a dois ou mais domínios. Os exemplos mais esclarecedores têm, pois, um fundamento sinestésico: o enriquecimento da representação - o objecto ou a realidade são apreendidos simultaneamente através de sentidos diferentes, provocando, desse modo, uma idealização do referente descrito.

Exemplos:

Uma baforada de nevoaça M77 apela a dois estímulos, visual e táctil;
Um silêncio húmido M81 que, por sua vez, liga em concomitância os sentidos sonoro e táctil;
A terra transida M168 (visual e táctil);
Bagos gordos e raros (da chuva) M189- estímulos visual e táctil;
Uma raiva surda M218 - concomitância de sensações;
Ásperas encostas M223 - visual e táctil;
Um som alegre de flauta M231- sonoro e sensitivo;
Um silêncio frio M265- ausência de estímulo sonoro e presença de estímulo táctil;
Múrmuro fio de água M319- visual e sonoro;
Um áspero caminho M328- visual e táctil;
O seu olhar morno vagueava M392 - visual e táctil;
O orvalho estalava M402 - visual e sonoro;
Uma paz doce M525 - visual e gustativo;
Uma paz perfumada M526 - visual e olfactivo;
O gordo aroma das tílias M534 - táctil e olfactivo;
O gelado silêncio da montanha M536- ausência de estímulo sonoro e presença de estímulo táctil.

A observação atenta e rigorosa das matrizes lexicossemânticas permite-nos, ainda, afirmar que outra característica que sobressai da análise dos traços sémicos é a noção de impreciso. Esta impõe uma visão menos explícita e que concorre para uma procura do indeciso. A visibilidade é filtrada, como que por um véu. Através desse jogo, a paisagem descrita tende a dissolver-se, a diluir-se, a turvar-se. E os enunciados derivam para uma evocação não-figurativa, próxima da abstracção e da estética impressionistas.

Exemplos:

Farrapos de neblina M75
A sua lã parecia diluir-se, tornar-se também névoa M88
A neblina começara a esgarçar-se M91
Atrás dele estendiam-se as primeiras sombras da noite M243
A crosta verdoenga da montanha M245
O lusco-fusco apardaçara já a montanha M254
Mas vaga era a luz M515

Sobressaem, nos traços sémicos dos enunciados, macro-categorias que delimitámos e que estão intimamente relacionadas com os estímulos aqui focados.

Assim, a Cor aparece referida em múltiplos enunciados:

O lusco-fusco apardaçara toda a terra M12
Uma poalha escura envolvia tudo M13
O lugar de becos soturnos M16
O lugar...carregado de negrume M17
O outono começara a acobrear M59
Esbranquiçados penedos M69
Toucas de algodão em rama M130
Um fundo ígneo M132
Nuvens alvacentas M185
Um fundo verde de campos agricultados e de florestas M204
O Sol prateava agora M213
A crosta verdoenga da montanha M245
O lusco-fusco apardaçara já toda a montanha M254
Uma estrela ainda pálida surgira no céu M267
A manhã pintara-se com as suas melhores cores M286
Um Sol de prata a arder M287
Um Sol... estadeava-se em céu azul M288
O eterno negror dos Cântaros M295
Os sargaços mostravam-se todos garridos M300
A manhã de mil fulgores M308
O vale cromático no casaredo M343
O Sol raramente rompia o céu plúmbeo M368

Outro dos pólos catalizadores que escolhemos, intimamente ligado com o antecedente, foi o da Luz. Estes lexemas ocorrem maioritariamente na descrição da tempestade na serra , a páginas 68 e seguintes da obra.

Exemplos:

O lugar de becos soturnos M16
Temíveis sombras M52
Um relâmpago recortava M131
O crepúsculo aproximava-se M234
Fulmintes coriscos M140
Uma faísca rabiante M159
Um golpe de luz M164
Outros relâmpagos laceraram a escuridão M172
Estendiam-se as primeiras sombras da noite M243
A escuridade aumentara mais M266
Um Sol de prata a arder M287
O sol agora irisava M305
A manhã de mil fulgores M308
Um débil fulgor M360
Aquele imenso clarão a doirar a noite M361
Uma vaga claridade M413
Foscos dias de Inverno M420
Um luar difuso M445
Um sol límpido M523

Por outro lado, toda a percepção e representação humanas são, antes de mais, tornadas possíveis e condicionadas pela intuição a priori subjectiva do espaço. A captação dos dados sensíveis sob a forma ou intuição pura do espaço é a primeira operação do processo do conhecimento humano e este não pode em caso algum dispensar ou ultrapassar essa condição. Toda a concepção humana é, por conseguinte, originariamente espacializada. Exprime-se o apreendido e o representado recorrendo às metáforas espaciais. Estes enunciados designam, descrevem ou qualificam actividades do espírito que invocam claramente, como sua condição de possibilidade e de enunciabilidade, uma hipotipose espacial.

A expressão do espaço serve, desde sempre, e de uma forma aparentemente universal, de pólo catalizador, de domínio por excelência das transferências metafóricas (cf. Lakoff e Johnson 1980 e Langacker 1987). Parece, pois, incontestável afirmar que a experiência do espaço constitui um dos fundamentos básicos a partir do qual o homem organiza conceptualmente outros domínios mais abstractos.

Relativamente a este domínio destacam-se, nas matrizes lexicossemânticas, os verbos de movimento com emprego metafórico fundamentado.

No nosso corpus há evidentemente este emprego metafórico de determinados verbos e ousamos destacar os exemplos mais ilustrativos:

O Zêzere correndo...entre os penedais M8
A serra ... ondula sempre M27
A serra contorce-se aqui, alteia-se acolá, abaixa-se mais adiante M28
A terra descia em degraus M60
Os penedos que se erguiam no seu leito M70
Baixavam no céu uns rumores M79
O nevoeiro rasgou-se M94
A muralha crescia rapidamente M125
O nevoeiro que se retirava M126
Uma águia veio remando de longe M155
As nuvens estendendo-se sobre o circo M156
O Zêzere crescera num instante M191
O regato que cortava a Nave M229
O milhano traçava lentas voltas M230
Antes da noite cair M236
Um silêncio frio que lhe descia para os pulmões M265
Rebanhos de nuvens erravam no céu M280
A lã descendo em ondas fofas M332
Cantigas que voavam para longe M358
Alguma folhita se debruçava na estrada M382
O seu olhar morno vagueava M392
A noite que caía, ventosa, gelada M419
Sobre a Lua transitavam nuvens M447
Os pinheiros dançavam M454
A neve rodopiava M468
O gelo retorcia-se em pingentes M480
O sol espirrando raios M508

Realce-se o emprego maioritário, apanágio da descrição do mesmo tempo verbal: o imperfeito. Nos exemplos acima transcritos enunciados neste tempo, nota-se o efeito produzido pelo seu emprego. As impressões fixam-se, persistem, mantêm-se na nossa imaginação, e a sua momentaneidade adquire uma segunda representação perdurativa, subjectiva. O emprego do imperfeito detém e eterniza a realidade e os fenómenos dela, criando esta série de imagens em estado durativo. O intérmino das acções provoca uma

impressão de intemporalidade, do perpétuo deslizar das coisas. É um ver pictórico em que os factos da natureza são percebidos em estado de duração, num constante e permanente devir.

Apreendemos determinadas construções, marcadamente idiolectais, que revelam de uma relação afectiva e sensitiva estabelecida entre o sujeito da enunciação e a realidade descrita.

Por detrás de uma grande parte dos enunciados, há um instinto analógico que produz imagens de grande poder visualizador. Recordem-se o impacto do adjectivo e do atributo que estimulam representações visuais e auditivas que abrem horizontes à fantasia do leitor.

A amálgama de conceitos abstractos e concretos, a fusão do mundo físico com o mundo moral, a matéria inerte que ganha constantemente vida emotiva, determinam indefectivelmente um estilo idiossincrático.

Animismo e personificação da realidade descrita são outras manifestações desse intenso metaforismo que, por sua vez, procede da tendência psicológica inata ao sujeito enunciador para perceber a dualidade e tentar resolvê-la na unidade.

O carácter liricamente impreciso da adjectivação reforça o efeito dos substantivos (relembremos :" um olhar morno").

Há uma inclinação para esfumar a visualização da natureza, envolvendo-a numa névoa. É, pois, relevante a diminuição da nitidez dos contornos, o sentido do vago, do indefinido. O propósito destes enunciados é produzir uma evocação da natureza em "mancha" pictórica, de linhas imprecisas, apanágio da pintura impressionista. A natureza é apreendida numa imagem de perfil nebuloso.

Contribui também para a coerência do texto a atribuição de atitudes morais à natureza inanimada. O mundo insensível aparece animado com uma estranha vitalidade, da qual o processo metafórico é o principal agente condutor.

Em nossa opinião, este animismo não é senão uma manifestação, a mais forte, do subjectivismo, tendência que dá mais importância aos ecos emocionais que a realidade desperta do que a própria representação do real.

Examinámos as correlações entre os diferentes traços sémicos que estruturam o universo metafórico descritivo em A Lã e a Neve. Impôs-se-nos como largamente dominante a reacção apreciativa a determinado estímulos que se relacionavam intimamente com os sentidos. Encontrámos um elevado número de enunciados metafóricos em que a natureza é tratada como um ser humano e os fenómenos naturais descritos como seres biológicos. É, pois, uma concepção antropomórfica. Pudemos concluir que a descrição da natureza através dos enunciados metafóricos apela também a evocações, a representações, a halos conceptuais, contribuindo, portanto, para a catalização da compreensão e a consequente visão da realidade descrita.

Os enunciados metafóricos revelam o duplo gume de uma função intelectiva e de outra afectivo-sensorial.

A fusão do mundo físico com o mundo moral, a matéria inerte que ganha constantemente vida emotiva, o cromatismo singular da natureza, determinam indefectivelmente um estilo idiossincrático.

É da fusão habilísima destes ecos emocionais e da representação do real que lhes subjaz, que flui o ineditismo metafórico da obra.


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Notas

1. A nossa participação neste Congresso foi financiada pelo Instituto Camões, através do Programa Lusitânia. Reconhecidamente agradecemos esse apoio. O presente artigo retoma a investigação que desenvolvemos na tese de mestrado, apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em 1997.

2. A obra A Lã e a Neve de Ferreira de Castro que serviu de base ao nosso trabalho de investigação é a 15ª. Edição da Guimarães Editores, impressa em 1990. Recordamos que a 1ª. Edição deste romance foi dada á estampa em 1947.

3. A indexação que é referida ( letra M, inicial de matriz, seguida de um ou mais algarismos) indica apenas o número da matriz lexicossemântica que foi elaborada para cada um dos enunciados metafóricos (Cf. Seara 1997, página 82 e seguintes). Nestas matrizes, introduzimos no canto superior direito o número da linha e o número da página respectiva; por sua vez, na parte central citámos o enunciado recolhido e na parte inferior destacámos os traços semânticos pertinentes para a nossa classificação semântica.