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Imagens de Jesus: A Relíquia e Memórias de Judas
Aparecida de Fátima Bueno
Universidade Federal de Viçosa 1. Introdução Em Álbum de Família, num capítulo dedicado à Relíquia, Óscar Lopes afirma que a versão da morte de Jesus, tal como ocorre nessa obra de Eça de Queiroz, tem um precedente em Les mémoires de Judas, de Petruccelli della Gattina, já que, do mesmo modo que no texto de Eça, no romance do escritor florentino "Jesus é conscientemente narcotizado para alívio dos sofrimentos e para simulacro da ressurreição"1. Aliás, diversos críticos já comentaram que há uma proximidade entre esses dois romances, sem entretanto, debruçarem-se sobre eles e efetivamente discutirem como se daria esse contato. De fato, um confronto entre as duas obras revela que as proximidades entre elas não se restringem ao episódio da Paixão de Cristo. Discutir, portanto, as relações entre as imagens de Jesus presentes nos dois romances é o objetivo desta comunicação. 2. Les Mémoires de Judas la septième année du gouvernement de Ponce Pilate à Jérusalem.2 O livro de Petruccelli della Gattina, publicado em Paris no ano de 1867, tem como narrador, como o próprio título sugere, Judas que, como sabemos, segundo a tradição bíblica, foi o apóstolo que traiu Jesus. Entretanto, no romance de Gattina, Judas faz parte de um grupo de conspiradores, que reúne representantes de diversas seitas judaicas, e que luta contra a dominação romana na Judéia. Três mulheres terão participação decisiva nessa trama: Cláudia, mulher de Pilatos, que se unirá temporariamente aos conspiradores; Ida, que, de fato, se chama Míriam, e é irmã de Jesus, mas que depois saberemos ser amante do procurador romano, e por quem Judas se apaixonará; e Maria de Magdala, que no início é amante de Judas, porém depois o abandona e se une aos seguidores do novo profeta da Galiléia. Um outro personagem que terá grande participação nessa trama é Jesus Bar Abas. Este personagem, bufão como Judas no-lo apresenta, tem uma relação estreita com a família de Jesus. Casado com uma irmã da mãe do Rabi, acolherá em sua casa Míriam, a quem depois venderá a um soldado romano sem saber que, de fato, o comprador é Pilatos, que havia se encantado com a beleza da jovem hebréia. Bar Abas se considera, portanto, por afinidade de parentesco, tio de um dos personagens importantes dessa história. O romance de Petruccelli della Gattina tem todos os ingredientes de um grande folhetim. No início da trama, Pilatos e sua mulher pouco convivem, pois Cláudia acha que o marido se casou com ela apenas por interesse, desprezando-o por isso. Já Pilatos supõe que a esposa seja amante de Judas, pela proximidade existente entre eles. Judas, no entanto, como já comentamos, ama Ida, sem saber que ela é, de fato, amante do marido de Cláudia. E assim constrói-se a ciranda amorosa do romance: Judas ama Ida/Míriam, que ama Pilatos, que ama Cláudia, que só mais tarde vai se apaixonar pelo marido. A aproximação de Cláudia e Judas se dá pelo interesse dela de se unir aos conspiradores. Ela justifica esse seu envolvimento na conspiração contra Roma por seu desejo de se vingar de Tibério, já que ela e a mãe haviam sido humilhadas pelo imperador romano. Cláudia sugere que os revoltosos utilizem os tesouros do Templo de Salomão, para que possam comprar a aquiescência dos soldados e fomentar a revolução3. Judas acata essa sugestão, mas, para sublevar o povo, ele e Hannah, líder do sanedrim, haviam concordado da necessidade de um profeta, de um Messias, que unificasse as diversas seitas, que pudesse ser manipulado por eles ou descartado caso se tornasse inconveniente. Em função dessa estratégia, Judas deixa Jerusalém à procura de um homem que se encaixasse nesse perfil. É assim que acaba encontrando Jesus, que prega em Cafarnaum. É assim que reencontra Maria de Magdala, entre os seguidores desse novo profeta. Assim que conhece Jesus, e pode travar um contato maior com ele durante uma ceia em casa de Maria de Magdala, Judas tenta arrebanhá-lo para o projeto central de sua vida: a luta para expulsar o invasor romano. Descobrem então as divergências que existem entre o pensamento de cada um deles4. Judas acredita que o que pode unir as várias seitas judaicas é o ódio ao estrangeiro. Jesus, que tem críticas e condena veementemente essas várias seitas, se decepciona com essa perspectiva, pois vem para pregar o amor entre os homens5. Entretanto, apesar das divergências, Judas convence Jesus a ir pregar em Jerusalém e pensar em sua proposta: de unir-se aos conspiradores e vir a ser o profeta que vai libertar o povo judaico do jugo romano. A trama então ganha um outro rumo. Judas se aproxima de Ida, sem saber do envolvimento dela com Pilatos, mas sabendo parte de sua história através de Bar Abas, que também desconhece que o verdadeiro amante da sobrinha é o procurador romano. Sabendo que Ida foi abandonada pelo amante, Judas tenta de tudo para se casar com ela. No dia das bodas, no entanto, Jesus, que é convidado do noivo, denuncia diante de todos a situação da irmã: " Quoi! nous sommes ici chez la maîtresse de Pilate! On épouse la maîtresse de Pilate!"6. Ficamos sabendo, então, que Judas narra distanciado quarenta anos desses acontecimentos que viveu: "Hélas! quarante ans sont passés depuis ce jour fatal et je tremble encore, en écrivant ces phrases"7. Depois desses fatos a trama se intensifica. Cláudia, já apaixonada pelo marido, fica mais que consternada quando sabe de sua ex-amante; decide permitir, entretanto, que esta continue viva desde que nunca mais se aproxime de Pilatos. Enquanto isso, Jesus, que se encontra em Jerusalém, tomou uma decisão muito importante e que comunicará a Judas: decidiu que não se unirá aos conspiradores, pois abdicou do papel de Messias político: "Le rabbi de Nazareth renonçait définitivement au rôle de messie politique, qu'il avait caressé quelque temps, après le tableau que je lui avais dessiné de la situation des esprits dans l'ancien royaume d'Hérode"8. A decisão de Jesus está intimamente vinculada ao fato de ter pregado em diversas províncias não judaicas e ter constatado que o ódio aos estrangeiros não era tão grande assim9. Judas vai nos revelar que só soube da decisão de Jesus tarde demais, quando não podia fazer mais nada para evitar uma catástrofe: "Le rabbi ne me dit rien cependant de son changement intérieur, de ses dispositions agressives. Je ne le sus que trop tard, helás! quand une suite d'imprudences avait rendu le mal irréparable et le remède impossible. Puis d'autres complications vinrent précipiter la catastrophe"10. Jesus passa então a pregar no Templo e acaba provocando a ira dos judeus. Se os saduceus e essenianos, cada um em função de seu interesse próprio, são tolerantes com as admoestações do Rabi de Nazaré, com o ataque e críticas que este faz à lei judaica e ao comportamento dos membros de diversas seitas, entretanto os fariseus não aceitam a sua pregação e denunciam-no ao sanedrim11. O tribunal judaico acata a denúncia e, depois de interrogá-lo, tentando convencê-lo a rever as suas posições, decreta a sua prisão. Judas deixa claro que se precisasse sacrificar o Messias em função da sua causa, do movimento revolucionário a que está engajado, não hesitaria. Porém, como acredita que Jesus é o único que pode intervir a seu favor, diante de Ida, faz tudo para proteger o irmão da amada.12 Após a prisão e condenação de Jesus, a sua única saída seria a intervenção de Pilatos. Ida, sabendo da condenação do irmão, procura o antigo amante, mas ao ser vista por Cláudia acaba presa e jogada por esta num tanque cheio de moréias, que a devoram viva. Pilatos, como registra a tradição bíblica, tenta salvar Jesus, mas, pressionado pelos próprios judeus que ameaçam denunciá-lo a César, acaba condenando-o. Ainda tenta livrá-lo propondo ao povo a libertação de um prisioneiro. O povo, no entanto, escolhe Bar Abas, que havia sido preso por ter matado um homem que atentou contra a sobrinha, talvez o único ato heróico deste personagem durante toda a narrativa. Não havendo mais o que ser feito, Judas e Maria de Magdala decidem tentar reverter esse quadro com um estratagema arquitetado por ele: dar a Jesus um vinho narcotizado que o colocasse em coma profundo e, com isso, simulasse a sua morte. Judas consegue também que Joseph de Ramatha, personagem que não havia aparecido até então, reivindique o corpo, para enterrá-lo em sua propriedade particular. Maria de Magdala, como fica sugerido, seduz o centurião romano responsável pela crucificação, Lentulus, conseguindo para Jesus tratamento especial. Ficamos sabendo que ele não tem seus pés trespassados pelos cravos, e é apoiado de maneira especial na cruz para não sofrer tanto. Judas e Maria, entretanto, ficam preocupados com a aparência de Jesus e temem ter exagerado na dose do vinho: Le rabbi ne répondit cependant pas un mot. Sa lutte intérieure se peignait sur sa figure, crispait son front, ternissait tour à tour ou faisait flamboyer son regard. (...) Une fièvre intense s'alluma immédiatement dans son sang. Bientôt après il demanda à boire. J'empreignai une éponge dans le vin épicé et la lui portai aux lèvres. Le rabbi but, et dix minutes après, il tomba dans une espèce de coma si complet, si puissant, que Marie et moi craignîmes um instant que la forte dose du narcotique qui devait soulanger la douleur ne l'eût empoisonné.13 Depois desses acontecimentos a narrativa se precipita. Jesus, aparentemente morto, é retirado com cuidado da cruz e transportado até o jardim de Joseph de Ramatha. Judas então nos conta que ele e Maria cuidam de Jesus, e que, dois dias depois, ela espalhou entre os discípulos que o Rabi havia ressuscitado: Le surlendemain, elle répandit la nouvelle parmi les disciples du rabbi que celui-ci était ressuscité. C'etait nécessaire pour assurer le succès de tout ce que nous venions de faire, l'impunité de Lentulus, l'oubli de Pilate, calmer les consciences timorées des membres du sanhédrin, qui avaient cru la loi outragée et devaient la croire vengée. Pilate et Hannah cependant surent de moi la vérité.14 Judas termina esse capítulo, o penúltimo da obra, falando que "Trois mois après, ma soeur veuve, Noah [uma escrava que servira Ida], mon ami et moi, nous nous embarquions à Joppa pour Tarente"15. Por fim, no último capítulo, bastante breve comparado aos outros, ficamos sabendo que se passaram três anos e o grupo que partiu de Jerusalém se encontra em Roma. Ficamos sabendo por Judas também que esse seu amigo encontra-se muito doente: "Mon ami se mourait de consomption"16. É interessante que em nenhum momento se explicita a identidade desse amigo, que tudo leva a crer tratar-se de Jesus. O que sabemos, e que Judas nos conta, é que esse amigo definha de tristeza já há três anos, desde que chegaram de Jerusalém. Nesse último capítulo nada mais resta a fazer, tanto que, após descrever os últimos instantes de agonia de Jesus, Judas declara que "Il était mort", e assim termina o romance de Petruccelli della Gattina. 3. A relíquia e Les mémoires de Judas> Tu poses en Christ; nous cherchons un général. Tu te proclames Dieu; nous avons besoin d'un tribun que crie au peuple: Lève-toi, Dieu le veut!17 Nós esperamos um Messias que traga uma espada e liberte Israel, e este, néscio e verboso, declara que só traz o pão da verdade! (...) A única verdade útil é que não deve haver romanos em Jerusalém!...18 Havíamos dito que Óscar Lopes aponta uma estreita relação entre a versão de Eça para o episódio da crucificação e a que aparece na obra de Petruccelli della Gattina. De fato isso ocorre, afinal, no episódio do sonho do Raposão, ficamos sabendo que também foi dado a Cristo um vinho narcotizado para simular a sua morte, porém seus amigos não conseguem reanimá-lo depois: Ao anoitecer segredou o homem por fim, com um murmúrio triste de água correndo na sombra voltámos ao túmulo. Olhámos pela fenda: a face do Rabi estava serena e cheia de majestade. Levantámos a pedra, tirámos o corpo. (...) Em casa de José estava Simeão o Essénio, que viveu em Alexandria e sabe a natureza das plantas: e tudo fora preparado, até à raiz do baraz... Estendemos Jesus na esteira. Demos-lhe a beber os cordiais, chamámo-lo, esperámos, orámos... Ma ai! Sentíamos, sob as nossas mãos, arrefecer-lhe o corpo!... Um instante abriu lentamente os olhos, uma palavra saiu-lhe dos lábios. Era vaga, não a compreendemos... Parecia que invocava seu pai, e que se queixava de um abandono... Depois estremeceu: um pouco de sangue apareceu-lhe ao canto da boca... E, com a cabeça sobre o peito de Nicodemos, o Rabi ficou morto!19 O que não é possível inferir é o grau de participação de Jesus nessa farsa. Aliás, em nenhuma das duas obras dá para saber com exatidão se Jesus foi conivente com o ardil preparado por seus amigos para salvá-lo, se foi, portanto, conscientemente narcotizado, como quer Óscar Lopes. No romance de Gattina parece que o Rabi não tem conhecimento do plano de Judas, mas depois de executado resigna-se a ele ou não tem forças suficientes para fazer algo que mude o destino que Judas lhe traçou. Vemos no fim da obra, depois de passados três anos da crucificação, um Jesus doente, melancólico, que em nada lembra o profeta que pretendia mudar a lei judaica, que dizia que vinha para começar uma outra história do povo de Deus: Depuis trois ans, mon ami dépérissait. Il était toujours triste, souvent même sombre. Il ne souriait plus jamais. Il parlait aussi rarement, évitant toute souvenance du passé. De ses connaissances de jadis il ne voulut voir personne. Marie de Magdala seulement lui écrivit trois ou quatre fois, implorant de venir nous rejoindre à Rome. Mon ami lui répondit, fort ému, fort touché, mais lui enjoignant de rester en Syrie. Un seul homme cependant fut reçu: un certain Saul de Tarse, un homme d'esprit élevé, mais nébuleux et enthousiaste. Il vit deux fois mon ami et causa longtemps avec lui en tête à tête. Puis, plus personne, plus rien. Mon ami vivait dans une tombe au milieu du monde.20 No romance de Eça, como vimos, ficamos sabendo o que aconteceu com Jesus após a crucificação por um dos companheiros do essênio Gad. Sabemos que os amigos de Jesus tentam reanimá-lo, mas são mal sucedidos; portanto, quanto a esse aspecto, não é possível comparar as duas obras, já que o Jesus de Eça não sobrevive e mal balbucia umas palavras antes de falecer. Parece que, quanto a morte do Messias, não é possível estabelecer maiores contatos entre os dois romances, além dos já comentados, de que nos dois casos Jesus não morre crucificado, que o subterfúgio para que aparentasse estar morto é o mesmo: o ter ingerido um vinho narcotizado que possibilitou a simulação da morte, e que a ressurreição é, portanto, nas duas versões, uma farsa. Os dois livros têm, entretanto, em relação a outros trechos, muito mais em comum. N'A relíquia há um longo episódio em que Topsius e Teodorico assistem a uma discussão entre Gamaliel, Manasés e Osanias a respeito de Jesus. Nesse momento, os três colocam-se favoráveis à condenação do Rabi, e apresentam vários argumentos em que expõem suas críticas à atuação desse profeta da Galiléia, enquanto Gad, que se encontra ali presente, tenta defendê-lo dos ataques dos outros. O essênio diz que Jesus prega "a Caridade, a Fraternidade, a Justiça, a Misericórdia, e as formas novas, belas, divinamente belas, do Amor!"21. Seus opositores colocam que nada há de original ou de individual nessa pregação e Gamaliel argumenta: Que há de original e de individual em todas essas ideias, homem? Pensas que o Rabbi as tirou da abundância do seu coração? Está cheia delas a nossa doutrina!... Queres ouvir falar de Amor, de Caridade, de Igualdade? Lê o livro de Jesus, filho de Sidrah... Tudo isso o pregou Hillel, tudo isso o disse Schemaia! Coisas tão justas se encontram nos livros pagãos que são, ao pé dos nossos, como o lodo ao pé da água pura de Siloeh!... Vós mesmos, os Essênios, tendes preceitos melhores!... Os Rabbis de Babilónia, de Alexandria, ensinaram sempre leis puras de Justiça e Igualdade! E ensinou-as o teu amigo Iokanan, a quem chamais o Baptista, que lá acabou tão miseravelmente num ergástulo de Makeros...22 Em Les mémoires de Judas, também é um personagem chamado Gamaliel que faz observações bastante próximas as de Eça, só que interrogando diretamente Jesus: Mais tu n'as pas enseigné un seul précepte qui n'eût pas été ordonné avant toi par nos pères de la sagesse. Moïse, Antigone de Soco, Jésus fils de Sidrah, les prophètes, Hillel, Schemaya, Abtalion, l'Ietzira, le Zohar, le Baptiste, les esséniens, Judah bar Béthyra, Jonathan bar Uziel...nos rabbis de Jérusalem et d'Alexandrie, et ailleurs Cakya-Mouni, Joé, Confucius...tous ont proclamé, avant toi, les lois de l'amour et de l'égalité. Quel est le pacte nouveau que tu portes? Que nous enseignes-tu de nouveau?23 Como vemos, os dois autores acabam citando quase que os mesmos nomes: Jesus, filho de Sidrah, Hillel, Schemaia, os essênios, os profetas de Alexandria, o Batista, etc. Mais que isso, a estrutura do discurso de ambos é muito próxima, só divergindo pelo fato de no romance do escritor florentino Gamaliel interpelar diretamente o Rabi, enquanto na obra de Eça ser Gad o interlocutor dos opositores de Jesus. Voltando aos pontos em comum entre A relíquia e Les mémorias de Judas, há na fala dos personagens dos dois romances uma acusação ao fato de Jesus proclamar-se filho de Deus, e, com isso, desafiar a lei judaica. O personagem de Eça diz: Nós temos uma Lei, a nossa Lei é clara. Ela é a palavra do Senhor; e o Senhor disse: "Eu sou Jeová, o eterno, o primeiro e o último, o que não transmite a outros nem o seu nome, nem a sua glória: antes de mim não houve Deus algum, não existe Deus algum ao meu lado, não haverá Deus algum depois de mim..." Esta é a voz do Senhor. E o Senhor disse ainda: "Se pois entre vós aparecer um profeta, um visionário que faça milagres e queira introduzir outro Deus e chame os simples ao culto desse Deus, esse profeta e visionário morrerá!" Esta é a Lei, esta é a voz do Senhor. Ora o Rabbi de Nazaré proclamou-se Deus em Galiléia, nas sinagogas, nas ruas de Jerusalém, nos pátios santos do Templo... O Rabbi deve morrer.24 Já na obra de Petruccelli della Gattina, temos: Tu l'as déchirée; tu as blasphémé. (...) Or notre lois est précise. Le Seigneur a dit: "Je suis Jehovah, l'élu, l'éternel, le premier et le dernier; je ne transmets à d'autres ni mon nom, ni ma gloire... Il n'y en aura pas après moi... Il n'en existe pas avec moi... Je suis l'élu qui crée la lumière et les ténèbres, qui donne tour à tour la paix et répand l'adversité... C'est à moi seul que la vie éternelle appartient; seul je suis le Dieu fort, le Dieu juste, le Dieu libérateur, rédempteur, sauver..." N'est-ce pas celle-ci la loi?25 Or, la loi ajoute: "Si donc il s'élève au milieu de vous un prophète, ou songeur, qui fasse quelque signe ou miracle, et que le signe ou miracle dont il aura parlé s'accomplisse; s'il vous propose en même temps d'introduire quelque autre Dieu que vous n'avez point connu, et de le servir; vous n'écouterez point les paroles de ce prophète, ou songeur. (...) Mais ce prophète, ou songuer, mourra, et la main de tout le peuple sera sur lui." Est-ce la loi? C'est la loi. [responde Jesus] Eh bien, tu ne t'es pas proclamé Dieu seulement en Galilée, seulement dans les synagogues, seulement sous les portiques et dans les cours du Temple, tu es venu nous le prêcher jusque dans les salles du trésor public. (...)26 As citações são longas, mas mostram que nos dois romances encontramos os mesmos argumentos, mesmo se levarmos em conta que ambos podem ter se inspirado nos textos do Velho Testamento, como admite em nota Petruccelli della Gattina27, falando da fonte que usou. Há um outro momento, também, em que os dois autores parecem estar usando as mesmas fontes. Trata-se de uma passagem em que se fala dos milagres atribuídos ao Rabi. Em Les mémoires de Judas, Gamaliel, que, como já foi dito, interroga Jesus, tece as seguintes considerações a respeito dos poderes de taumaturgo do profeta da Galiléia: (...) Tu as fait des miracles: Athalide, fils de Mercure, Esculape, Hercules, Gabienus, Polycrates, Amphion, Hérès, Orphée, les filles du grand-prêtre Anius, les prêtresses de Diane, de Féronie, d'Hirpicus, Simon de Samarie, Apollonius de Thiane, Auguste, tous les médecins, tous les charlatans, tous les prêtres des religions étrangères, le cheval Pégase, le poison Oannès qui prêchait sur les rivages de L'Euphrate, en ont fait, en font autant et d'aussi miraculeux que les tiens.28 No romance de Eça, por sua vez, Manassés e Osanias ridicularizam Gad por afirmar que Jesus faz milagres: Sossega, Gad, [fala Manassés] outros têm feito milagres! Simão de Samaria fez milagres. Fê-los Apolónios, e fê-los Gabíneos... E que são os prodígios do teu galileu comparados com os das filhas de Grão-Sacerdote Ânios, e aos do sábio Rabbi Chekiná? E Osanias escarnecia a simpleza de Gad: Em verdade, que aprendeis vós outros, Essênios, no vosso oásis de Engaddi? Milagres! Milagres até os pagãos os fazem! Vai a Alexandria, ao porto do Eunotos, para a direita, onde estão as fábricas de papiros, e vês lá Magos fazendo milagres por um dracma, que é o preço dum dia de trabalho. Se o milagre prova a divindade, então é divino o peixe Oannes, que tem barbatanas de nácar e prega nas margens do Eufrates, em noites de lua cheia!29 Como vemos, a semelhança entre os dois trechos é tal que quase dispensa comentários. O personagem do romance de Gattina cita apenas um número maior de nomes daqueles que, como Cristo, fazem milagres. Fora isso é evidente a proximidade entre as duas obras, mesmo que elas possam ter tido uma fonte em comum, se considerarmos que Eça de Queiroz possa ter lido o verbete "Milagres", do Dictionnaire philosophique, e o Extrait des sentiments de Jean Meslier, de Voltaire, que são as fontes citadas por Petruccelli della Gattina no seu romance.30 Como vimos, é inevitável não considerarmos, pela proximidade existente entre os dois romances, que Eça teve mais que um contato com a obra de Petruccelli della Gattina, que de fato a tomou por modelo, não se restringindo ao episódio da crucificação, como apontava Óscar Lopes no ensaio a que já nos referimos. Certamente há muito mais ainda a ser dito sobre as relações existentes entre esses dois romances, ou mesmo, sobre as outras possíveis fontes de Eça, interesse que está no cerne de uma pesquisa que estamos realizando. Porém, devido a falta de tempo, essas reflexões ficarão para uma outro momento. Referências Bibliográficas Bíblia Sagrada. 6. ed. São Paulo, Paulinas, 1954. GATTINA, F. Petruccelli della. Les Mémoires de Judas. Paris, Librairie Internationale, 1867. LOPES, Óscar. Três livros de Eça. Álbum de Família. Lisboa, Caminho, 1984. p.69-114. QUEIROZ, Eça de. A Relíquia. Porto, Lello & Irmão, 1950.
Notas 1. Lopes, 1984, p.94. 2. Gattina, 1867, p.7. 3. Cf. Gattina, 1867, p.145-146. 4. Cf. Gattina, 1867, p.224-233. 5. "- Eh bien, rabbi, tu as tort de les condamner [os saduceus, os fariseus e os essenianos]. Ton rôle à toi, c'est de concilier. La séparation tue la nation juive. Il faut trouver le point de contact, le terrain neutre où tous les partis puissent se donner la main, laissant à chacun son libre mouvement dans son propre cercle.//- Ce terrain existe-t-il?//- Il existe. C'est la haine de tous et de chacun contre le étranger.//- La haine, toujours la haine! s'écria Jésus avec un sentiment de douleur. Et moi que rêvais de faire de l'amour le code du monde!//- Rabbi, tu as bien dit: tu rêvais. L'amour tue, rabbi. C'est ce rocher de la haine, c'est cet amour en révolte qui donne au monde la variété et l'énergie. (...) Ne cherche pas à nous rendre tolérables nos oppresseurs. Toutes nos discordances se mettent à l'unisson dans ce cri d'exécration. Ce qu'il nous faut, rabbi, c'est que Dieu aussi entre dans la partie, et que l'homme que se dit son prophète, son messie, ou son fils, pousse le même cri au nom de Dieu." Gattina, 1867, p.231. 6. Gattina, 1867, p.314. 7. Gattina, 1867, p.314. 8. Gattina, 1867, p.267. 9. Cf. Gattina, 1867, p.325-326. 10. Gattina, 1867, p.326. 11. Cf. Gattina, 1867, p.330-332. 12. "Je connaissais mes hommes. Je savais que cela ne pouvait aboutir qu'à une rupture éclatante, dans laquelle le rabbi aurait été brisé sans merci et accablé de tous les torts. Jusque-là, j'avais agi pour la conspiration, me sociant vraiment peu qu'un rabbi ou deux dussent être écrasés. Maintenant que la sort de mon amour pour Ida s'appuyait sur la tête de son frère, le rabbi me devenait précieux sous tous les points." Gattina, 1867, p.356. 13. Gattina, 1867, p.455. 14. Gattina, 1867, p.457. 15. Gattina, 1867, p.457. 16. Gattina, 1867, p.458. 17. Gattina, 1867, p.401. 18. Queiroz, 1950, p.185. 19. Queiroz, 1950, p.263-264. 20. Gattina, 1867, p.459. O interessante dessa passagem é que o único contato de Jesus é um certo Saulo de Tarso. Como sabemos, Saulo, que depois batizar-se-á com o nome de Paulo, será um dos principais apóstolos do Cristianismo, responsável, para muitos, pelo fato de essa religião não ser mais uma entre as diversas seitas que proliferavam na Palestina naquela época, e ter-se transformado na religião que congregará grande parte das nações do Ocidente. 21. Queiroz, 1950, p.182. 22. Queiroz, 1950, p.182. 23. Gattina, 1867, p.396. 24. Queiroz, 1950, p.184. 25. Gattina, 1867, p.389. 26. Gattina, 1867, p.390. 27. Podemos observar que, no texto citado de Gattina, há trechos entre aspas, sendo que em nota esse autor indica as fontes usadas: Deuterônimo e Isaías, ambos livros do Velho Testamento. Pode ser que Eça tenha utilizado as mesmas fontes, mas é muita coincidência que tenha escolhido os mesmos trechos para usar como argumentos dos personagens de seu romance. 28. Gattina, 1867, p.388, os negritos são nossos. 29. Queiroz, 1950, p.181-182, os negritos são nossos. 30. Cf. Gattina, 1867, p.388. |