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José Peixoto do Amaral: meia hora de enfado

 
Hélder Garmes

No decorrer do século XIX, o império português desdobrou-se em duas marcadas áreas intelectuais, constituindo um eixo oriental e um eixo ocidental. Do lado ocidental estava Angola, Cabo Verde, Guiné e São Tomé e Príncipe. Do lado oriental, Goa, Macau, Timor e Moçambique.

Se o eixo ocidental manteve como centro a própria metrópole portuguesa, o eixo oriental, devido ao seu isolamento, ganhou maior autonomia e sediou-se em Goa. Foi na foz do rio Mandovi que grande parte dos literatos daquelas colônias orientais tiveram sua formação. Apenas a título de exemplo, podemos lembrar o fato de os três periódicos ilustrados e literários mais importantes daquelas localidades terem sido fundados por homens que nunca chegaram a estudar na metrópole, como foi o caso de Júlio Gonçalves, que criou A Illustração Goana (1864-1866) em Goa, ou o de José Gabriel Fernandes, que pôs em circulação o Ta-ssi-yang-kuo (1863-1866) em Macau, ou ainda o de José Pedro da Silva Campos Oliveira, que fundou a Revista Africana (1881,1885,1887) em Moçambique. Todos tiveram sua formação intelectual em Goa.

Mas nossa intenção nesta comunicação é tratar especificamente de Moçambique e, mais especificamente, de um dos expoentes da imprensa literária daquela colônia que, ao que tudo indica, tivera sua formação na metrópole e, por conta disso, ganhou uma posição peculiar e, como veremos, uma função diferenciada naquele cenário intelectual.

Falemos um pouco da imprensa periódica oitocentista de Moçambique. Esta teve sua origem no Boletim do Governo da Província de Moçambique, publicado primeiramente em 13 de maio de 1854 por ordem da metrópole portuguesa, medida válida para todas as outras colônias lusitanas, que receberam máquinas impressoras pouco antes ou depois desta data.

Não demorou muita para que iniciativas particulares ganhassem espaço no periodismo moçambicano e assim surgissem ali outras publicações. Formou-se, a partir daí, um pequeno grupo de literatos que acabou por ser o responsável pela maior parte da produção jornalística naquela colônia durante o século XIX, toda sediada na ilha de Moçambique, então capital da província.

Tal grupo teve sua espinha dorsal nas figuras de Francisco de Paula Carvalho, João Sinfrônio de Carvalho e Joaquim José Lapa. Esses três empreendedores estiveram na direção do Noticiário de Moçambique (1872-1873), depois na do Jornal de Moçambique (1873-1875) e, finalmente, na do Africa Oriental (1876-1887). Poderíamos tomar essas três publicações, que recobrem um período de dezesseis anos, como um único e mesmo periódico, já que houve uma continuidade em termos ideológicos e de programa, isto é, eram publicações paragovernamentais, que não faziam frente aos desmandos da administração portuguesa, procurando apenas comentar genericamente alguns problemas portugueses ou locais, noticiar os parcos eventos sociais moçambicanos e ilustrar o leitor com curiosidades e com um pouco de literatura. Como colaboradores assíduos nessa última tarefa encontramos o referido Campos Oliveira e também José Peixoto do Amaral, dois grandes nomes da imprensa literária moçambicana daquele momento.

É deste último que pretendemos falar nesta comunicação. José Peixoto do Amaral teve presença marcante na imprensa literária oitocentista de Moçambique. Todavia, praticamente nada pudemos saber sobre sua biografia. A única informação que conseguimos sobre suas atividades profissionais foi a de ter sido tenente do Batalhão de Caçadores n.3 e depois ter chegado a major1. E é só. Nem mesmo Inocêncio da Silva, em seu Dicionário bibliográfico português, fez qualquer referência ao autor.

São suas publicações na imprensa de Moçambique que podem nos dar alguma pista sobre sua formação e origem. Ali atuou como tradutor, contista, romancista e poeta. Colaborou no Africa Oriental, da Ilha de Moçambique, e no Mez (1893) de Quelimane. Além disso, fundou em Quelimane um periódico inteiramente elaborado por ele, o Echo da Zambezia (1893-1895)2.

Como romancista nos deixou sem desfecho Os mistérios do Porto, publicado entre 1880 e 1881 no Africa Oriental. Apesar de sofrer do mal da incompletude, foi, até onde sabemos, a primeira tentativa de publicar um romance original nas páginas de um periódico moçambicano. Não foi possível saber se o texto chegou a ser concluído e publicado posteriormente em livro. Todavia, a empreitada dos editores do Africa Oriental merece respeito, visto já sabermos que era bem mais fácil e garantido publicar traduções de autores consagrados europeus ou de portugueses renomados3.

Um outro romance inacabado, do qual só pudemos ler alguns trechos, foi As aventuras de Ritinha.4 A história passava-se em Moçambique: a filha de um português deportado foge com o amante, um caixeiro-viajante. Apenas para exemplificar o tom da narrativa, segue-se a cena em que Ritinha dorme com seu amante:

Já os leitores, com certeza, d’olhos embogalhados, bocca entreaberta e sentidos apurados estão esperando que eu lhes diga sem rebuço o que fez a Ritinha.

Ora essa, pois não? Esperem por isso, não tinha mais que fazer senão estar agora aqui de pernas abertas para os attender.

Isso foi bom para ella que, n’essa posição, julgou-se venturosa em empregar os meios ao seu alcance para tornar seu páe… avô.5

O estilo de Peixoto do Amaral é muito coloquial, chegando mesmo a ser irreverente, quando sugere na passagem acima o ato sexual de Ritinha. Toda essa narrativa é bastante divertida, valendo destacar o emprego que faz do recurso de explicitar sua posição de narrador e a nossa de leitores para dar maior agilidade e maior cumplicidade e complexidade às cenas. É inevitável a lembrança aqui do irônico narrador de Machado de Assis, ainda que Peixoto do Amaral esteja muito longe de trabalhar a psicologia dos personagens como fazia o mestre brasileiro.

Como obras narrativas acabadas temos somente os contos "A probidade e o crime"6, que narrava uma situação moralizante e rocambolesca, situada mais uma vez no Porto, "Meia hora de enfado"7, que narra as peripécias de um jovem e seu criado para ficarem ricos, e "Uma decepção"8, que é um tanto chocante aos nossos olhos contemporâneos, já que a decepção em questão diz respeito ao fato da amada do protagonista ser coxa.

Além destes, José Peixoto do Amaral publicou também dois textos sob o pseudônimo de Larama (inversão de Amaral): "A queda do ministerio – original", também inconcluso, tratando das pretensões de uma senhora em reger a casa e os negócios do marido9, e "Que pezar!"10, um poema satírico datado de "Quelimane, 18 de Novembro de 1892", no qual uma velha lamentava jamais ter sido "desonrada". Revela-se aqui, pois, também poeta.

Não é difícil constatar que a obra de Peixoto do Amaral é marcada pela sátira. A maior parte de seus textos são divertidos e buscam o riso do leitor. É evidente o menor compromisso que tem com uma proposta mais moralizante ou formadora que caracterizou os escritores românticos em toda parte e que caracterizava a atividade de homens como os acima citados. O próprio Campos Oliveira, que jamais fôra de grandes arroubos partidários ou ideológicos, revelou-se sempre preocupado com o nível da vida literária moçambicana e com o empenho letrado de sua terra natal, sendo a Revista Africana uma tentativa de trazer dignidade ao meio literário moçambicano. Já Peixoto do Amaral parece jamais levado tais propósitos tão à sério. Literatura e distração eram-lhe, ao que tudo indica, sinônimos. Seus textos primam pela graça, pela diversão, pelo entretenimento, sem pretender tomar posição política ou social, ainda que, se quiséssemos, poderíamos certamente dali extraí-las.

Mas se nosso prosador não se preocupou em se integrar a um programa letrado mais orgânico para o bem na vida letrada em Moçambique, cumpriu ainda assim um papel muito importante no meio literário oitocentista moçambicano. Não sendo muito provavelmente um integrante da comunidade intelectual local (é mais provável que tenha nascido na região do Porto, tendo em vista que ambienta duas de suas narrativas naquela localidade, e que tenha tido uma formação letrada mais consistente, a considerar seu domínio do francês), foi, a seu modo, também um formador, trazendo para a cena literária daquela colônia algo de novo. E isso ele o fez como tradutor. Nessa condição, José Peixoto do Amaral foi um grande divulgador da literatura francesa em Moçambique. Como "versão livre" publicou A familia Jouffroy, de Eugène Sue, e A mulher de cera, de René de Pont-Jest. Como tradução deu à publicação Os prisioneiros do Caucaso, de Xavier de Maistre, e A casa vermelha, de Xavier de Montépin11.

Tais textos marcam um gosto pelo romantismo francês mais banalizado, com exceção de Xavier de Maistre. Sabemos que Eugène Sue, René de Pont-Jest e Xavier de Montépin eram autores de folhetins de grande popularidade, uma literatura que Sainte-Beuve designara de "literatura industrial"12. É justamente essa literatura francesa de fácil compreensão e baixa complexidade que será escolhida por Peixoto do Amaral para ser reproduzida em Moçambique, escolha bastante coerente com a literatura que ele mesmo praticava.

É curioso observar que tais investidas de Peixoto do Amaral vem complementar um quadro de maior presença da literatura francesa em Moçambique do que em Goa e em Macau, onde a literatura inglesa fazia-lhe concorrência cerrada. É provável que tal fato possa ser atribuído, em parte, à proximidade da ilha de Moçambique com a de Port-Louis, que, nessa altura, já se encontrava sob o domínio dos ingleses e voltara a chamar-se ilha Maurício, mas mantinha o francês como língua oficial. Num plano mais geral, isso se deveu sobretudo à forte influência que a literatura francesa exercia sobre a literatura portuguesa. Para hierarquizar esse panorama literário, poderíamos, por exemplo, tomar como referência remota Os mistérios de Paris, de Eugène Sue, passar por Os mistérios de Lisboa, de Camilo Castelo Branco, e chegar a Os mistérios de Porto, de José Peixoto do Amaral..

Esse obscuro escritor fez em Moçambique o que muitos brasileiros se empenharam em fazer durante praticamente todo o século XIX: estabelecer uma ponte direta com a literatura francesa, sem endossar o movimento antigalicista que vigorava em Portugal. Além disso, trabalhou no sentido de vitalizar a vida literária moçambicana naquilo que acreditava que mais lhe faltava: diversão.

Podemos ler no Africa Oriental de 1879 os seguintes comentários de Silvio Nemo:

[…] em toda a vastissima provincia de Moçambique, não há uma só livraria!

Parece que o estudo e a leitura são plantas exóticas nestas paragens, e cada um que as queira cultivar carece de recorrer ao favor do amigo, que por ventura possue algum livro, ou fazer uma encommenda, que, ate vir cumprida, bem nos permitte deixar enferrujar a intelligencia no contacto illustrativo e edificante da linguagem cafrial13.

Tendo em vista a referida ferrugem que tomava as inteligências da terra, José Peixoto do Amaral dedicou-se a trazer alguma alegria aos lares coloniais e certamente conseguiu suprimir horas e horas do enfado em que viviam aqueles cidadãos. Seu conto "Meia hora de enfado" é paradigmático do tipo de motivação que o levava a escrever. O conto termina demonstrando na prática o dito popular de que as mulheres gostam de ter por marido um homem de vista curta, para que possam agir como bem entenderem. Esse tipo de conclusão, que resulta de um desenvolvimento narrativo rocambolesco e repleto de pequenas brincadeiras e piadas, é aquilo que José Peixoto do Amaral entendia por literatura de entretenimento, que reforçava os valores vigentes, que satirizava sem incomodar.

Dentro do contexto que surgiu e produziu, sua proposta não poderia ser muito diferente. Nada em Moçambique do século XIX propiciaria o surgimento de uma literatura que pugnasse por causas estéticas ou sociais. A literatura de José Peixoto do Amaral foi significativa porque informou e formou muitos leitores locais naquilo que a Europa tinha de mais convencional e de mais leve. Propagou com isso certamente o gosto dos moradores daquela colônia pela leitura, o que já era enorme tarefa para o estado das letras moçambicanas naquela altura.

Lembremos, pois, de José Peixoto do Amaral naquilo que ele fez de melhor: a sátira leve e a difusão de certa literatura francesa em Moçambique. Se quiséssemos ser críticos rigorosos, poderíamos qualificar a produção do autor de As aventuras de Ritinha como ingênua, preconceituosa ou mesmo pouco elaborada, mas certamente jamais seríamos capaz de negar o quão divertida ela é, não sendo certamente capaz de produzir sequer meia hora de enfado.


Notas

1. Em o Africa Oriental de 8 de abril de 1882, n.198, p.4, José Peixoto do Amaral publica um "Communicado" onde aparece como tenente. Depois, quando passou a editar o Echo da Zambezia aparece já como major.

2. O Echo da Zambezia publicava notícias militares e civis, charadas, enigmas e muita literatura. Dividia-se em Editorial, Folhetim, Parte Litteraria, Parte Noticiosa e Annuncios. Idílio Rocha, em Catálogo dos periódicos e principais seriados de Moçambique (Lisboa, Edições 70, 1985, p.68) afirmou que o periódico era integralmente redigido pelo próprio José Peixoto do Amaral.

3. José Peixoto do Amaral, "Os mysterios do Porto - romance original", Africa Oriental, 1880, 12 fev., n.145, p.1-2; op. cit., 1880, 19 fev., n.146, p.1-2; 26 fev., n.147, p.1-2; 1880, 4 mar., n.148, p.1-2; 8 abr., n.149, p.1-2; 16 mai., n.152, p.1-2; 23 mai., n.153, p.1-2; 30 mai., n.154, p.1-2; 6 jun., n.155, p.1-2; 14 jun., n.156, p.1-2; 21 jun., n.157, p.1-2; 28 jun., n.158, p.1-2; 20 set., n.166, p.1-2; 3 out., n.167, p.1-2; 11 nov., n.169, p.1-2; 23 dez., n.171, p.1-2; 30 dez., n.172, p.1-2; 1881, 9 jan., n.173, p.1-2 (prometia continuidade, o que não aconteceu).

4. J. P. A., "As aventuras de Ritinha - original", O Mez, 1893, 1 fev., n.1, p.1-3; mar., n.3, p.22-23; Echo da Zambezia, Anno 1, 1893, 1 ago., n.7.

5. J. P. A., "As aventuras de Ritinha - original", O Mez, 1893, 1 fev., n.1, p.3.

6. José Peixoto do Amaral, "A probidade e o crime (conto)", Africa Oriental, 1883, 14 mai., n.228, p.1; 1883, 23 mai., n.229, p.1; 1883, 6 jun., n.230, p.1-2; 1883, 14 jun., n.231, p.1-2; 1883, 27 jun., n.232, p.1-2; 1883, 10 jul., n.233, p.1-2; 1883, 23 jul., n.234, p.1-2; 1883, 14 ago., n.235, p.1-2; 1883, 22 ago., n.236, p.1-2.

7. J. P. do Amaral, "Meia hora de enfado (conto)", Africa Oriental, 1882, 2 jan., n.193, p.1.

8. José Peixoto do Amaral, "Uma decepção (conto)", Africa Oriental, 1882, 9 mai., n.200, p.1; 29 jun., n.204, p.3.

9. Larama, "A queda do ministerio - original", O Mez, 1893, 1 fev., n.1, p.4-6; mar., n.3, p.17-18.

10. Larama, "Que pezar!", O Mez, 1893, mar., n.3, p.18-19.

11. Eugenio Sue, "A familia Jouffroy - versão livre de José Peixoto do Amaral", Africa Oriental, 1882, 8 abr., n.198, p.1-2 (continua por vários números); Xavier de Maistre, "Os prisioneiros do Caucaso", op. cit., 1881, 21 set., n.188, p.1-2 e seguintes; René de Pont-Jest, "A mulher de cera", op. cit., 1885, 28 mar., n.281, p.1-2; 1885, 11 mar., n.282, p.1 (o texto segue por diversos números até o n.313 de 12 dez 1886); Xavier de Montepin (traducção), "A casa vermelha - Prologo - Um duplo assassinato", Echo da Zambezia, 1893, 1 ago., n.7, p.1-2.

12. Cf. Portraits contemporains, II, apud Jean Giraud, L'ecole romantique française, Librairie Armand Colin, 1931, p.178.

13. Sylvio Nemo, "O livro - divagações - quem não pensa, não vive", Africa Oriental, 1879, n.108, p.3.