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Machado de Assis e Fernão Mendes Pinto: Era uma vez um oceano de melancolia

 
Ana Lúcia Liberato Tettamanzy
Doutoranda em Letras pela UFRGS e professora da UNISINOS

 
Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...
("Inscrição"- Camilo Pessanha)

Do país que se disse situado nos limites entre terra e mar, partiram naus a disseminar uma língua, uma cultura e uma visão de mundo que, em cada canto, assumiram novas formas e dicções. Considerando a constituição de um imaginário luso-brasileiro, entende-se que a melancolia ocupa um lugar fundamental, em que pesem as distintas conotações com que este conceito vem sendo empregado. Para tal, são aproximados dois autores que, apesar das dessemelhanças, estabelecem um curioso diálogo, como apontara Vilma Arêas no instigante ensaio "Mendes Pinto, Camões & Machado: anotações de bordo". Entre a história e a ficção, a autora destaca a possibilidade de filiar a Peregrinação (1614) a variados gêneros, da crônica de viagens à sátira moral e religiosa. A afinidade com Camões é expressa no tom anti-épico com que, através de um narrador deslizante, ambos oscilam entre a celebração e a crítica do português em sua aventura marítima1. Enfatizando a postura nada ingênua de Mendes Pinto, que não só parodia estilos como demonstra domínio técnico da narrativa, a autora destaca a mímese formal dos impasses e da duplicidade da ideologia dos Descobrimentos, algo que o brasileiro percebeu "de uma maneira surpreendentemente justa"2. Com "O Segredo do Bonzo" ( publicado em Papéis Avulsos, de 1882), subentitulado "capítulo inédito da Peregrinação", Machado retoma uma disputa teológica narrada por Mendes Pinto: no exótico Japão, um padre português é invejado por sacerdotes budistas devido aos favores que o rei lhe dispensava. Percebendo as discretas indicações de Mendes Pinto, que, propositadamente, omite a resposta do padre aos Bonzos, o escritor brasileiro escapa ao óbvio, "pois percebe que toda a disputa, aparentemente religiosa, na verdade consistia numa luta pelo prestígio social e favores reais"3, transformando, assim, os Bonzos em charlatões que enriquecem às custas da crendice do povo e desmascarando a predominância da opinião sobre a realidade das coisas. Nesse ponto, Vilma conclui com a sugestão genial de que Machado, "fora da esfera delicada da literatura, aponta as raízes peninsulares de um dos traços de nosso rosto, que pode bem ser o ‘nariz metafísico’ de ‘O Segredo do Bonzo’"4. A autora reforça tal argumento através da citação do ensaísta português António Sérgio, que indicara como elementos dessas raízes o gosto pelos artifícios, pelo espetáculo e pelo charlatanesco, em detrimento do que pareça sólido, inteligente e construtivo. O "nariz metafísico" do conto só existe sob o olhar do outro, metáfora do eixo cultural luso-brasileiro que tanto Mendes Pinto quanto Machado intuíram, expresso na necessidade de pompa e no fascínio pelo mirabolante, ambos incompatíveis com os esquemas rígidos ou excessivamente racionais. O resultado dessa herança peninsular é um riso amargo, que conduz, com freqüência, a um estado melancólico. Sumariamente, este é o eixo que se intenciona demonstrar a seguir com a análise dos capítulos em que Mendes Pinto relata sua estada no reino de Sião, em contraponto ao conto machadiano "Academias de Sião", publicado em Histórias sem data (1894).

Antes disso, convém acrescentar alguns tópicos à discussão sobre as afinidades culturais entre Portugal e Brasil. Victor Jabouille, em seu estudo sobre a constituição de uma mitologia portuguesa, identifica situações imaginárias recorrentes neste povo. A fim de recuperar a missão de tomar conta do Mundo, possivelmente com o Quinto Império, o português tende a ressentir-se do peso do passado, tido como grandioso, em face de um presente percebido sob o complexo da pequenez e da decadência, esta uma espécie de contramito. Esse olhar para o passado dá-se através de um sentimento típico como a saudade, misto de desejo e dor. Quanto ao caráter do povo, este já foi visto como sonhador, homem de ação, amoroso e com enorme capacidade de adaptação. Tal diversidade pode acarretar dificuldades para o país constituir sua fisionomia de uma forma menos idealizada5.

Entende-se melhor a natureza dessas obsessões a partir de alguns de seus criadores. Uma fonte inesgotável encontra-se na dilemática obra camoniana, que tanto eleva a nação lusitana ao ápice como aponta, inelutavelmente, sua crise. São famosos os trechos corrosivos de Os Lusíadas, como a fala do Velho do Restelo contra a "vã cobiça" e a "glória de mandar", ou o lamento dos versos finais, que mostram um Camões de "lira destemperada e a voz enrouquecida", cansado de "cantar a gente surda e endurecida" e a uma pátria metida em "austera, apagada e vil tristeza". Igualmente presentes são os versos da lírica marcada pelo desconcerto da voz para a qual "vai-se gastando a idade e cresce o dano". Eduardo Lourenço alerta para a quase idolatria sobre o poeta, cujo destino errante veio a confundir-se com o da pátria, sugerindo que, sob um certo aspecto, o português liberte-se da obra subtraindo a grandeza irreal que ele mesmo colocou sobre ela "para poder habitar o nosso presente de harmonia com a realidade mais modesta em que nos tornámos"6. Como que realizando esse desassombramento, José Saramago aborda no drama "Que farei com este livro?" a dificuldade do bardo em publicar seu épico, inserindo na boca do desventurado amigo de Camões, Diogo do Couto, as palavras que incidem sobre esta necessidade de libertar-se do passado. Aproximando a peste que assolava Lisboa nessa época do referido mal português, a personagem afirma que "A Índia será, ou cuido que já é, uma doença de Portugal. Queira Deus que não mortal doença"7. A mesma metáfora da doença perseguira antes alguns membros da Geração de 70, que, junto à proposta realista, investiram, em pleno século XIX, na visão da pátria sob o viés da decadência, do qual a historiografia de Oliveira Martins é dos mais eloqüentes sinais, como atesta o fragmento seguinte, em que o autor aborda a anexação de Portugal à Espanha:

Tudo convergia para arrastar a Nação a essa data infeliz de 1580. Os sintomas mórbidos, anteriormente expostos, diagnosticam a doença, e explicam a necessidade da catástrofe. Eram um despedaçar de todos os tecidos vitais, uma febre que destruía o sangue, um veneno que irritava todos os vasos do organismo nacional. Era uma doença lenta, mortal, mas cujo termo foi precipitado por uma crise. Então se exacerbavam todos os males; e o moribundo, erguendo-se no catre, bracejando em delírio, caiu como uma pedra, morto instantaneamente8.

Com um embasamento psicanalítico, nos ensaios de Labirinto da saudade, Eduardo Lourenço defronta-se com a permanência do problema dos portugueses em relação a seu passado e seu destino coletivos, pautados por uma relação irrealista, raiz da conjunção de um complexo de inferioridade com um complexo de superioridade9. Identifica como traumáticos determinados momentos da história portuguesa. Um diz respeito ao nascimento do Estado, tido como uma "mistura fascinante de fanfarronice e humildade, de imprevidência moura e confiança sebastianista, de ‘inconsciência alegre’ e negro presságio, que constitui o carácter português", ligada a um "acto sem história", porque garantido menos pelo ser nacional que por um poder outro, "qualquer coisa como a mão de Deus". Além dessa fragilidade histórica, a grandeza portuguesa estava longe, num espaço de sonho e, portanto, numa ficção10. O sentido de decadência da geração de Setenta, seguido da tentativa de "descobrir" a África em pleno auge dos imperialismos do século XIX , é rompido com o Ultimatum inglês, que Lourenço define como "o traumatismo-resumo de um século de existência nacional traumatizada"11. O derradeiro trauma veio após a longa ditadura salazarista neste século, que acarretou, entre outros fatores, uma guerra colonial cujo término, para a maioria de "felizes" passivos, deu-se "sem drama. Por um pouco não terminou em apoteose", tal é a capacidade "de integrar sem problemas de consciência o que em geral provoca noutros povos dramas e tragédias implacáveis"12. O trauma de 1974-5 não afetara esse Portugal "educado na crendice, no milagrismo, no messianismo de pacotilha, em suma, no hábito de uma vida pícara que durou séculos e que uma aristocracia indolente e ignara pôde entreter à custa de longínquos Brasis e Áfricas"13. O presente leva, segundo Lourenço, à necessidade de construir uma imagem positiva para a pátria lusitana, pós- Revolução de Abril, com o drama dos emigrados, dos retornados da África, enfim, com um reajustamento da realidade autêntica de portugueses a si mesma, como reflexo e resposta ao absurdo irrealismo da imagem salazarista de Portugal14.

Tendo como base tais considerações, torna-se mais patente a afinidade entre Portugal e Brasil, no sentido de que ambos são marcados pela histórica necessidade de chegar a termos mais satisfatórios com a imagem que fazem de si. No caso brasileiro, desde a descoberta, o exótico configura a degeneração do olhar europeu, principalmente do lusitano, que encarna nas terras tropicais seus desejos utópicos e também seus vícios. Basta lembrar a veemência com que cronistas e navegadores descrevem tanto a prodigiosa paisagem quanto a corrupta sexualidade dos silvícolas.À luxúria desenfreada, manifesta nas licenciosas relações entre as raças, soma-se a cobiça também ilimitada do branco sobre uma cultura que só conhecia a propriedade coletiva. Com o mesmo preconceito etnocêntrico com que fundaram a premissa de que os índios não tinham "nem fé, nem lei, nem rei", os brancos acabam por imputar ao índio, em sua resistência à aculturação por vezes muda, a pecha de fleumáticos e melancólicos. Neste aspecto, manifesta-se com nitidez o que Maria Leonor Carvalhão Buescu explica em "O exotismo ou a "estética do diverso" na Literatura Portuguesa". Para a autora, na descoberta do Mundo, pode-se descobrir o Outro junto à descoberta da imagem de Si mesmo no espelho; pode-se, no entanto, chegar a uma visão diferencial ou mesmo à imposição da própria imagem. É dessa forma que a autora explica a diferença entre o contato ocorrido entre europeus e asiáticos e entre europeus e africanos ou europeus e americanos.

Assim, se nestes últimos casos a situação aponta para um frente a frente entre os "selvagens" e os "civilizados"(...) em que o pressuposto é a incerteza de um desconhecido total, a política da força e a fascinação de uma cultura arcaica, pelo contrário, na relação incipiente – e incoativa – com os Asiáticos, esse frente a frente, de certo modo, inverte-se nos seus pressupostos: os Europeus serão, em muitos casos, os menos civilizados; os mais pobres (penso, por exemplo, em Fernão Mendes Pinto)15.

Segundo tal leitura, Fernão não reserva para o outro a diversidade, projeta para si mesmo o estranhamento: como português, via-se mais bárbaro que o asiático e em conflito com sua própria imagem. O mesmo raramente ocorrera no Brasil, onde o branco imputava ao nativo aquilo que, via de regra, constituía sua pior parte. Um agravante desse fato encontra-se, por exemplo, na observação de estrangeiros que passavam pela Baía da Guanabara no período colonial. Para tais observadores, os viciosos comportamentos tropicais não se restringiam, como outrora, aos silvícolas ou aos escravos, tendo conquistado igualmente os lusitanos: "A maioria desses homens é totalmente avessa ao trabalho, preguiçosa e muito inclinada à volúpia. Nem mesmo padres e monges estão isentos desses vícios. A luxúria, especialmente, tornou-se tão familiar entre eles que sequer se dão ao trabalho de ocultá-la"16. O preço a pagar pela licenciosidade resultou tremendamente alto: um país que começara sob os auspícios da licenciosidade generalizada pareceu a muitos de seus pensadores como fadado a uma trágica inconsistência, a um atraso atávico. A virada do século XIX foi um período particularmente profícuo no desenvolvimento de interpretações sobre o caráter nacional coladas a idéias degenerativas de fundo cientificista, expressas em uma anatomia do cadáver insepulto. Neste caso, porém, não se trata, como ocorrera em Portugal, de uma glória perdida na distância, mas de uma desagradável sobrevivência dos resíduos da chegada da civilização aos trópicos: progresso na forma de doenças, escravidão, permissividade, atrofia moral. Manoel Bomfim denomina de "parasitismo" o processo pelo qual uma minoria vive às custas da exploração da miséria, da ignorância e da crendice da vasta maioria17. O crítico literário Araripe Júnior, não obstante suas intuições geniais, estava preocupado com o que chamou de "obnubilação mental", fenômeno que acometia os membros da raça branca atrofiando suas qualidades originais pela incidência do que seriam os desvios e males causados pelo contato com mestiços ou membros de outras raças nas terras tropicais18. Paulo Prado, em seu curioso Retrato do Brasil, afirma que criou-se

pelo decurso dos séculos uma raça triste. A melancolia dos abusos venéreos e a melancolia dos que vivem na idéia fixa do enriquecimento – no absorto sem finalidade dessas paixões insaciáveis – são vincos fundos na nossa psique racial, paixões que não conhecem exceções no limitado viver instintivo do homem (...)19

No ensaísmo brasileiro da época modernista, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre mostram a necessidade de redescobrir o país examinando seu passado. O trabalho do primeiro enfatiza o caráter aventureiro, individualista e provisório que marcou a colonização lusitana, semelhante à espanhola. Tanto a inclinação para o espetáculo da sua religião quanto a permeabilidade nos costumes propiciaram um sentimento enganoso – a cordialidade - , responsável pelo favorecimento entre iguais, o que talvez bem explique certos aspectos cruéis do personalismo e da falta de senso de coesão na sociedade20. Num sentido diverso, a pesquisa de Freyre revela, além da admiração pela cultura africana, uma visão até certo ponto saudosista do passado colonial. É com este intuito que, dando seguimento a Casa-Grande & Senzala, o pernambucano, em Sobrados e Mucambos, opõe o século XIX, excessivamente "cinzento" porque associado à reeuropeização do incipiente Brasil urbano e do litoral, aos três séculos anteriores, nos quais formou-se uma civilização com traços orientais, trazidos pelo português, visto como "semi-ocidental" por seu alto grau de miscigenação e pela facilidade com que adaptou coisas orientais nas terras brasileiras, como perfumes e temperos, as cores fortes, a ostentação nos trajes e enfeites e o misticismo intenso, dando origem a uma espécie de civilização dos trópicos21. Menos benevolente com o passado, o francês Lévi-Strauss contribui para o tema em questão com algumas idéias que expõe em Tristes trópicos. Em suas viagens pelo Brasil em meados da década de 30, o antropólogo revela as contradições da terra múltipla, que ora lhe aparece com a mesma pujança paradisíaca da época dos primeiros viajantes e cronistas, no que é influenciado pelo contato com tribos – poucas, é bem verdade - quase imunes ao contato com o homem branco, ora se lhe configura como espaço da corrosão, da estagnação e da ruína, quando menciona que "o solo foi violentado e destruído"22 ou que as cidades do Novo Mundo "vão do viço à decrepitude sem parar na idade avançada"23.

A partir desses apontamentos, tem-se uma pequena amostra de como certos aspectos tornam possível falar de uma cultura luso-tropical no sentido de como o passado apresenta-se em cada caso. Cabe, então, apontar nos trechos indicados a manifestação dessa contaminação de culturas. Do capítulo 181 até o 189 da Peregrinação, o narrador detalha os eventos ocorridos no Reino de Sião, tido com um dos mais prósperos da antiguidade. O olhar do narrador está centrado no estupendo senso de justiça do monarca, tão grandioso quanto suas riquezas, apesar de sua fé, que incomoda o português: "quão grandioso & bem inclinado por natureza era este príncipe, inda que era Gentio"24. Contudo, nem este lugar era perfeito: a mulher de tal monarca o trai e, pior, envenena-o para poder desfrutar do poder junto ao amante e ao filho de ambos que carregava no ventre. Faz o mesmo com o filho do primeiro casamento. Tanta maldade e tanta cobiça serão punidas com abundância de guerra e sangue na luta pelo poder entre facções rivais. Importa destacar que o "exagero" do viajante é observado em sua ênfase tanto da violência da guerra como da grandiosidade dos funerais do excelso rei. A mesma intensidade com que distribuía caridade e justiça manifestava o rei na punição a aliados corruptos, o que leva o cronista à constatação de que "em todas as partes o dinheyro he tão poderoso que tudo arromba, & nada se lhe defende"25. Por exemplo, quando o rei de Sião lança-se contra o inimigo, Mendes Pinto fala de exércitos com 400 e 500 mil pessoas, o que soa falso dada a rapidez com que os desenlaces ocorrem.

Interessa destacar a cena do funeral, pois ela encontra ressonâncias diretas em Machado. Também nesse momento o olho do observador amplia ou distorce o que vê: menciona que havia 20 mil sacerdotes e inúmeras embarcações acompanhando o cortejo das cinzas do imperador, entre elas exatas cem barcaças grandes com ídolos (entre eles, cobras, lagartos, sapos, serpentes, morcegos) que pareciam-lhe vivos, cobertos por quantidade monumental de seda, o que o desagrada: "se afirmou que se gastarão mais de cinco mil peças de seda no dó com que esta multidão de diabos ia cuberta"26. A perspctiva cristã faz com que veja o princípe herdeiro como uma espécie de "Anjo" coberto de pérolas, pedrarias e ouro e que lhe chame a atenção a enormidade do fogo que consome todas estas embarcações com os ídolos num "espantoso fogo que quasi parecia hum retrato do inferno"27. Ressalta disso tudo a ambivalência da perspectiva de Fernão. De um lado, sugere credibilidade quando menciona que ouviu de alguém os dados assombrosos, desejando que pareçam naturais tanto os tamanhos quanto as quantidades; de outro, por essa mesma razão, pode estar colocando a informação como fora de sua responsabilidade: se alguém mentiu, não foi ele. Sobre a fé, observa-se que é constante a superposição de culturas, dando uma interpretação cristã à crença budista, mesclando repulsa e fascínio.

Em "Academias de Sião", o narrador debocha da veracidade da história que vai contar, recurso semelhante ao manifesto nos comentários de Fernão sobre o que narra. Os eventos lembram bastante o episódio acima comentado. O enredo centra-se na troca de almas entre um rei de alma feminina e uma concubina de alma viril. O reino transforma-se de pacato e alegre em violento e poderoso, sendo que a teoria da "migração" de almas fora objeto da disputa entre academias de sábios. A pena para os perdedores era a morte, legitimando a violência disseminada e o sangue derramado. Como no Sião português, as lutas são cruéis e violentas. Outra semelhança está na eleição do rio como espaço místico. Não só o funeral do rei como a troca de almas ocorrem em rios repletos de embarcações enfeitadas cheirando a perfumes exóticos, acentuando a grandiosidade e o gosto pelo enfeite. Mendes Pinto cria um discurso ambíguo, no que é seguido pelo brasileiro. A ambigüidade está expressa na metáfora da controvérsia (falsa) entre as academias, que apenas em grupo e sob o olhar da opinião existem, posto que individualmente chamam um ao outro de camelo. Como se não entendesse o porquê de tal atitude, o narrador pede ao leitor que escreva para a China dando sua opinião. Falsa polêmica, não menos falsa qualquer resposta porque todas são precárias. Seja China ou Brasil, sejam sábios budistas ou cientistas positivistas, por trás de todos o reconhecimento de um só mal, o de tornar a si mesmo exótico, como parece estar indicando Machado, ao criar frases artificiais e pomposas como esta: "Quando as vacas cintilantes da madrugada começaram de pisar vagarosamente o céu (...)"28.

Como se pode observar, Sião assume nos dois casos o papel do espaço vazio, da indefinição que parece estar fundamentada nas raízes da alma luso-brasileira, ou seja, na imagem do desterro fascinante e infernal, do qual não se pode escapar. Seja nos impérios perdidos por Portugal e no presente ainda traumático, seja na violência viciosa herdada pelo Brasil, mostrando a permanência do passado, o resultado é um riso de esgar, melancólico, uma quase tristeza de quem ainda tem em si o fascínio pelo grandioso e a dificuldade em separar no espelho próprio a parte do outro, o excesso da falta, a onipotência da mesquinhez. O Oriente só continua uma obsessão porque o lugar do sujeito permanece em errância, para fora de si, num outro que não dá descanso à alma fragmentada, imersa, talvez, num mar não mais das lágrimas de Portugal, mas da melancolia luso-brasileira.


Notas

1. Vilma Arêas, "Mendes Pinto, Camões e Machado: anotações de bordo", Estudos Portugueses e Africanos 11 (Campinas, 1988) 1-14. p. 4-6

2. Idem. Ib. p.8

3. Idem. Ib. p.10

4. Idem. Ib. p.10

5. Victor Jabouille, "Uma mitologia portuguesa" , Do mythos ao mito, Lisboa, Cosmos, 1993, p.

6. Eduardo Lourenço, "Camões ou nossa alma", Poesia e metafísica: Camões, Antero, Pessoa, Lisboa, Sá da Costa, 1983, p. p.91.

7. José Saramago, "Que farei com este livro?", Que farei com este livro?, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. p. 28.

8. Oliveira Martins, História de Portugal, Mira-Sintra, Europa-América, s.d. , vol. II, p.40-41.

9. Eduardo Lourenço, "Psicanálise mítica do destino português", O Labirinto da Saudade, Lisboa: Dom Quixote, 1992, 5.ed., p. p.19

10. Idem. Ib. p.19

11. Idem. Ib. p.25

12. Idem. Ib. p.43-4

13. Idem. Ib. p.49

14. Idem. Ib. p.57

15. Maria Leonor Carvalhão Buescu, "O exotismo ou a 'estética do diverso' na Literatura Portuguesa", Narrativa de viagem: narrativa, história, mito, Lisboa, Cosmos, 1997. p.571.

16. ANÔNIMO. Journal d'un voyage. In: FRANÇA, Jean Marcelo Carvalho. Visões do Rio de Janeiro Colonial. Rio de Janeiro: Editora da UERJ: José Olympio, 1999. p. 64.

17. BOMFIM, Manoel. América Latina: males de origem. Rio de Janeiro: Topbooks, 1993.

18. ARARIPE JÚNIOR, Tristão de. Obra crítica. Rio de Janeiro: MEC: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1960. (vol.II – 1888-1894) p.478-9

19. PRADO, Paulo. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira. 6.ed. Rio de janeiro: José Olympio, 1962. p.101

20. Ver a esse respeito HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 25.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

21. Ver, principalmente, os capítulos VIII e IX de FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos.9.ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.

22. LËVI-STRAUSS, Claude. Tristes trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.88

23. Idem. Ib. p.91

24. PINTO, Fernão Mendes. Peregrinação. Lisboa: Imprensa Nacional: Casa da Moeda, 1984. p.566

25. Idem. Ib. p. 565

26. Idem. Ib. p.567

27. Idem. Ib. p.568

28. MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.473.