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Modos de falar e de sentir a língua das origens em situação de diáspora

 
Alcinda Cabral
Universidade Fernando Pessoa
Porto - Portugal

1. Metodologia

Esta reflexão baseia-se em dados obtidos durante um trabalho de campo por nós conduzido desde 1990 na cidade de Saint-Denis, situada na região parisiense.

A população da nossa amostra compõe-se de sujeitos de origem portuguesa, distribuídos da forma seguinte:

* 49 adolescentes de "Collège" que estudam Português (língua materna) no centro socio-cultural Marville e que responderam a um questionário de história socio-linguística com perguntas abertas e fechadas;

* 78 alunos do liceu Paul Éluard que estudam Português (língua estrangeira) e que responderam ao mesmo questionário;

* 74 alunos das escolas primárias Jules Guesde, Jules Vallès, Jean Vilar, Daniel Sorano, Pasteur e Saint-Just, que estudam Português (língua materna) e que foram interrogados por meio de entrevistas directivas, feitas com grupos de dez alunos;

* 13 mães de família, que foram objecto de entrevistas semi-directivas.

* observação directa e observação participante.

Para esta pequena análise partirei do seguinte princípio:1

O falar bilingue caracteriza-se […] por interferências, quer dizer formas que saltaram de um sistema linguístico para outro, por vezes sem sofrerem alterações marcadas (falar-se-á então de alternâncias de código, eventualmente de empréstimos), por vezes modificadas de maneira mais ou menos profunda (falar-se-á então de decalques, de interferências ou de variantes de contacto).(Py, 1992, 13)

2. Comportamentos linguísticos

O grande surto migratório dos anos sessenta e setenta que se fez sentir na Europa na sequência da segunda guerra mundial, efectuado no sentido Sul/Norte, em que os países devastados pela guerra faziam apelo a trabalhadores estrangeiros para suprirem o défice nacional de mão de obra na reconstrução dos seus países, ofereceu a muitos Portugueses a possibilidade de uma melhoria económica e a alguns deles a oportunidade de escaparem à guerra colonial. Os maiores fluxos destes emigrantes chegarão a França, não propriamente por uma opção deliberada por este país, mas porque as circunstâncias facilitavam na altura o seu acesso, devido à relativa proximidade das duas nações e às redes clandestinas organizadas que aí conduziam, assim como aos círculos de entre-ajuda de cariz familiar e de vizinhança que entretanto se formaram nessa terra de acolhimento, favorecendo a instalação.

A mudança de espaço físico e social obrigou esta população a importantes adaptações no seu modus vivendi, sendo de realçar as de carácter laboral e linguístico. O novo quadro de trocas sociais vai colocá-la diante da necessidade de verbalisar novos elementos e realidades com os quais passou a conviver. O seu iletrismo e as condições de aquisição da língua veicular, em meio natural, por simples impregnação, serão o ponto de partida para a emergência de um dialecto que não cessa de aumentar, não obstante a sua permanência desde há várias décadas em solo francês. E se é verdade que a génese de dialectos a partir de uma língua materna pertencendo a um grupo minoritário fixado num local onde a língua veicular é outra constitui um fenómeno universal e antigo (Mayone Dias, 1989, 75), no caso presente, as interferências no idioma minoritário, pela quantidade e pela forma, revelam uma influência acentuada, apesar de se tratar de uma comunidade à qual se atribui comummente um lugar de invisibilidade no espaço autóctone, devido a uma ténue aculturação. De facto, as marcas transcódicas são sem dúvida o elemento dominante que apresenta esta população relativamente à sua adaptação à alteridade. A sua falta de consciência linguística faz com que ela utilise um falar vernacular que não difere muito, quer se dirija a locutores francófonos, quer a lusófonos, visto que essas formas se encontram já cristalizadas no seu reportório linguístico. Quando se trata de um interlocutor lusófono, o emprego deste falar acusa uma dominância portuguesa e quando se trata de um falante francês, ele é adaptado a esse receptor. Esta interlíngua (Selinker, 1972; Carreira, 1990; Deprez, 1994) é formada pela justaposição e pela sobreposição de variantes não standard dos dois idiomas em contacto (Dabène, 1987, 71).

No que respeita à dita segunda geração, na sua grande maioria nascida em França, o seu percurso linguístico fez-se no interior de um bilinguismo com carácter diglóssico. O Francês é a sua língua de instrução escolar e é também a utilizada em todas as trocas extra-muros. O Português é-lhe familiar, se bem que com graus diferentes, segundo o respectivo quadro intra-muros. Esta língua chega-lhe, regra geral, através de duas modalidades: a família e a escola. As aulas que frequentam apresentam, no seu conjunto, características dissemelhantes do ponto de vista da sua concepção. Num primeiro tempo, ou seja, na escola primária, tiveram acesso a aulas de língua de origem, organizadas pelas autoridades portuguesas e obedecendo às regras em vigor no país de partida: professores recrutados no local, manuais concebidos para os alunos nativos, o que significa a imposição da norma linguística e cultural de Portugal. Trata-se assim de aulas de língua materna, apenas frequentadas por alunos de origem portuguesa. No ensino secundário, as opções dividem-se entre aulas deste tipo e aulas de língua viva estrangeira. No caso das aulas de língua viva estrangeira, a clientela é formada por alunos de origem portuguesa e por alunos de outras nacionalidades ou etnias, portanto principiantes. Aqui os programas contemplam a lusofonia, com uma incidência particular no Brasil. Quanto ao Português falado no seio da família, trata-se de facto de um vai-e-vem entre os dois idiomas co-presentes, submetidos a adaptações recíprocas.

O posicionamento dos Lusodescendentes em relação à língua da família é fortemente influenciado pelo seu estatuto confidencial, confinada a um uso íntimo, percebida como língua de imigrantes, portanto, minorizada, sem lugar no espaço público francês em relação à língua do poder, maioritária e maiorizada. Por isso, não é raro que certos adolescentes e jovens a rejeitem, fingindo não a compreender. Todavia, o facto de estarem sujeitos a este duplo universo linguístico, coloca todos estes falantes numa situação de endolinguismo, mesmo se é certo que os graus de uso de cada uma das duas línguas em presença variam em função do lugar que lhes é atribuído por cada indivíduo. O exolinguismo não existe no interior desta amostra: na prática, tanto as pessoas que se marginalizaram em relação ao espaço cultural francês como as que a ele se deixaram assimilar possuem pelo menos um conhecimento passivo do idioma negado e são capazes de seguir conversações bilingues, ou mesmo unilingues, se criarem as condições mínimas de motivação para a recepção.

No interior do endolinguismo, encontrámos várias situações (Cabral, 1997, 419-421):


Entre estes sete níveis aqui sumariamente esquematizados podem aparecer ainda sub-níveis. A transição entre certos níveis, particularmente no que respeita ao code-mixing ou mistura de códigos e ao code-switching ou alternância de códigos, é por vezes tão imprecisa que é difícil estabelecer uma fronteira de separação absoluta.

Nenhum dos níveis apresentados se encontra em estado puro no seio desta comunidade linguística.

No caso dos monolingues, para além da compreensão do idioma que não é utilizado, há sempre, pelo menos, interferências não verbais.

O discurso bilingue equilibrado pode funcionar de diferentes maneiras: fazendo alternar os dois sistemas linguísticos no interior do mesmo enunciado, ou fazendo alternar os dois códigos segundo os locutores que partilham com o emissor o acto comunicativo.

A mistura códica é a forma de expressão mista que pressupõe do locutor um conhecimento mais imperfeito das duas línguas, as quais se mostram de uma grande permeabilidade à integração do elemento estranho como se ele fosse normal. Este elemento estrangeiro pode ser oriundo da língua de expressão habitual do falante e deformado por influência da outra língua que contacta com ela. Pode também pertencer à segunda língua e ser alterado por influência da primeira. Nos dois casos, todos os utilizadores da mistura códica adoptam este comportamento maquinalmente, e nem se apercebem que fazem incursões na outra língua senão quando são alertados nesse sentido. As formas extremas de misturas códicas, que existem também na nossa população de estudo, embora em pequena escala, podem constituir fenómenos de pidginização ou de crioulização (Carreira, 1989, 5) ou serem quase reveladoras da formação de idiolectos.

Poderemos constatar em seguida esta dupla presença linguística, através da observação da transcrição de uma conversa parcial por nós ouvida, por mero acaso, em Abril de 1997, no aeroporto Francisco de Sá Carneiro no Porto:

Este breve exemplo pode com efeito ser considerado paradigmático da situação do Português neste contexto migratório, assim como da circulação das línguas no seio destas famílias. Os efeitos de uma coabitação prolongada da língua de partida com a língua de chegada são a tal ponto evidentes que a compreensão desta interlíngua, ou seja a sua lisibilidade semântica (Carreira, 1989, 14) exige um conhecimento, não somente dos dois idiomas presentes, mas também deste contexto socio-cultural.

Como se pôde verificar, a geração dos pais utiliza de preferência o dialecto portu-francês. Este sistema aproximado ou aproximativo (Nemser, 1971; Noyau, 1976; Carreira, 1990) tem como base geral o Português. Algumas das suas estruturas são deformadas do ponto de vista normativo por influência do Francês, mas a situação mais corrente neste falar híbrido é a inversa, quer dizer, parte-se de estruturas francesas transformadas de maneira a serem adaptadas ao Português, sobretudo quando as situações de comunicação implicam falantes lusófonos. Nesta mistura de códigos, a sobreposição de elementos pertencentes aos dois idiomas pode integrar-se particularmente no decalque e na interferência. No caso do decalque temos, por exemplo, interesses, em vez de juros. Relativamente à interferência, ela é o mais das vezes de tipo lexical, tal como a palavra retardo, em substituição de atraso.

A geração dos mais jovens emprega quase em permanência o Francês, habitualmente dominado ao nível do locutor nativo alfabetizado, no concernente à competência de pronúncia, à proxémica, à prosódia, enfim a tudo o que diz respeito ao paralinguístico, o que quer dizer que eles possuem efectivamente,se não uma consciência metalinguística, pelo menos uma consciência linguística normalizada, de grau médio, que lhes permite fazer a distinção entre o correcto e o incorrecto do ponto de vista normativo. Entretanto, colocados em situações de comunicação com interlocutores de origem lusófona, eles integram no seus discursos elementos do Português, por vezes na sua forma nativa, sem quebrar as regras de nenhum dos dois códigos, o que, por consequência, se pode integrar na alternância códica. Outras vezes, esses empréstimos acusam a influência dos modelos criados pelos pais. É o caso do acento rural manifestado na pronúncia de pai e de mulher, assim como da utilização desapropriada de mulher, em lugar de hospedeira, revelador do desconhecimento do léxico em questão, devido à falta de familiarização com a realidade urbana ligada às viagens aéreas que os migrantes só conheceram recentemente.

Acontece também que as estruturas emprestadas do Português empregues pela população jovem revelam a influência da escolarização em Francês, cuja gramática é utilizada como gramática de referência, o que dá origem, sobretudo, a decalques sintácticos (ex. sigo cursos de Português), a transposições semânticas (ex. eu risco de haver problemas), a adaptações gráficas (ex. gosto da língua dos meus pais, mais prefiro a francesa), a decalques de construções com preposições (ex. tento de falar bem), e ainda a acomodações fonológicas (ex. na escola eu falou sempre francês). Em todos estes casos, são utilizadas "variantes de contacto" em vez das "variantes standard" aceites pela norma (Py, 1992, 19-20).

3. Conclusão

As razões geográficas e sociais que ocasionaram o nascimento desta interlíngua de origem materna, apelidada por Mayone Dias (1989) de dialecto "horizontal", porque geográfico, e "vertical", porque social, estão a ser no presente substituídas, mesmo suplantadas, por outras variáveis, tais como a idade e a escolarização das novas gerações. Isto explica o hábito, de cada vez mais impregnado nestes sujeitos, que consiste em empregar uma alternância códica de tipo "situacional" (Gumperz, 1982; Deprez, 1994), quase obrigatória entre diferentes locutores bilingues desequilibrados, em que os pais se exprimem através deste falar vernacular e os filhos e sobretudo os netos lhes respondem na língua do país de residência, na medida em que muitos destes apenas possuem passivamente o idioma da família.

Actualmente regista-se um movimento significativo de chegada de jovens luso-franceses às universidades portuguesas, após terem feito os seus estudos primários e secundários em França. Este fenómeno, no início, contrariou todos os indicadores de tendência, mas o certo é que ele se tem vindo a intensificar. E se estes jovens iniciam esta nova etapa da sua escolarização na situação sumariamente descrita de assimetria bilinguística, a evolução ascendente que manifestam no manejo correcto das duas línguas é rápida. Ao fim de poucos anos, são capazes de as utilizar numa alternância de tipo "metafórico" (Gumperz, 1982; Deprez, 1994), como uma hipótese suplementar que possui um bilingue activo para conseguir um discurso mais expressivo e mais preciso face a falantes equipados com competências linguísticas de igual teor (Cabral, 1997). Quer dizer que adquiriram uma competência de comunicação tal como é definida por (Galisson e Coste, 1976, 1062): "A competência de comunicação supõe o domínio de códigos e de variantes sociolinguísticas e dos critérios de passagem de um código ou de uma variante a outros; ela implica também um saber pragmático quanto às convenções enunciativas que são de uso na comunidade considerada.":

Assim, a atitude destes jovens distingue-se da da família. Enquanto os pais fazem prova de uma identidade mista através de marcas discursivas transcódicas que pertencem ao domínio do impuro segundo a norma, os filhos instalados em Portugal procuram produzir discursos unilingues que os identifiquem como cidadãos dos dois países, aos quais, por direito, eles pertencem.


Bibliografia

Alcinda Cabral, A comunicação intercultural nos imigrantes portugueses em França e seus descendentes, Santiago de Compostela, Edição da Universidade, Tese de doutoramento, CD-ROM: ISBN 84 8121 573 2, 1997, p. 623.

Helena Carreira, "Langue maternelle et langue du pays d’accueil: une étude conduite auprès d’adolescents portugais scolarisés en France", Communication "Fourth International Conference on Minority Languages", Ljouwert, Pays Bas, 1989.

Helena Carreira, "Alternance et mélange de codes (Portugais-Français) chez des adolescents portugais scolarisés en France", Communication "9ème Congrès Mondial de Linguistique Appliquée", Thessaloniqui, Grèce, 1990.

Louise Dabène e Jacqueline Billiez, "Le parler des jeunes issus de l’immigration", France, pays multilingue, (Dir. Vermes et Boutet), Paris, L’Harmattan, 1987, p. 62-77.

Christine Deprez, Les enfants bilingues: langues et familles, Paris, Didier, 1994, p. 207.

Robert Galisson e Daniel Coste, Dictionnaire de didactique des langues, Paris, Hachette, 1976, p. 612.

J. Gumperz, "Conversational code-switching", Discourse strategies, Cambridge University Press, 1982, p. 59-99.

Eduardo Mayone Dias, Falares emigreses - uma abordagem ao seu estudo, Amadora, Biblioteca Breve - I.C.A.L.P., 1989, p. 172.

W. Nemser, "Approximative systems of foreign language learners", International Review of Applied Linguistics, 1971.

Colette Noyau, "Les français "approchés" des travailleurs migrants: un nouveau champ de recherche", Langue Française, 1976.

Bernard Py, "Regards croisés sur les discours du bilingue et de l’apprenant" Autour du multilinguisme, LIDIL, Nº6, Presses Universitaires de Grenoble, 1992, p. 9-25.

L. Selinker, "Interlanguage", International Review of Applied Linguistics, 1972.


Notas

1. Le parler bilingue se caractérise […] par des interférences, c'est-à-dire des formes qui ont sauté d'un système linguistique à l'autre, parfois sans subir d'altération marquée (on parlera alors d'alternances de code, éventuellement d'emprunts), parfois modifiée de manière plus ou moins profonde (on parle alors de calques, d'interférences ou de variantes de contact).

2. La compétence de communication suppose la maîtrise de codes et de variantes sociolinguistiques et des critères de passage d'un code ou d'une variante à d'autres: elle implique aussi un savoir pragmatique quant aux conventions énonciatives qui sont d'usage dans la communauté considérée.