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O mundo ficcional de Mia Couto

 
Maria João Coutinho-Portugal

 
Mar me Quer ou "O coração é uma praia" *
(*provérbio macua, citado pelo autor)

Num mundo onde os limites e fronteiras do nosso ser se esbatem cada vez mais, onde o virtual conquista o real, o homem vai progressivamente perdendo a sua alma e a essência do sentir, despoja-se de tudo e até da sua individualidade enquanto ser, buscando, desesperadamente, identificar-se.

Mia Couto revela-nos uma resposta, abre-nos uma saída; com efeito, o Poeta moçambicano "reinventa" um colectivo cósmico, ao ficcionalizar diferentes formas de ver e viver o Cosmos, dando a conhecer as suas hierofanias ¾ «…A literariedade dos seus textos é construída a partir de um processo de metaforização dos elementos sacralizados pelas diferentes comunidades moçambicanas. Estamos em presença de espaços étnicos diferenciados, cujos sujeitos têm em comum a consciência de estarem «na natureza» e não de a «visitarem…».1

Em Mar me Quer, obra editada aquando da última Exposição Mundial, em Lisboa 1998, e recentemente também em Moçambique, configura-se como tema central a relação do homem com o seu destino, mais precisamente, do pouco que sobre este podemos saber, da distância irremediável entre o que reclamamos e reconhecemos como nosso e aquilo que nos é dado viver.

Zeca Perpétuo e Luarmina, personagens à volta das quais se tece o conto, surgem-nos como peregrinos a caminho de um outro mundo. São-nos apresentados «a meio» da vida, a «meio» de um trajecto, de um percurso investido de um significado simbólico ¾ ambos já ultrapassaram o seu tempo útil de trabalho e buscam re-encontrar-se agora, que deram pela presença um do outro. Luarmina, ancorada ao passado, ao amor perdido, à vida que não viveu, aos filhos que não teve, presa à realidade fantasiada e por isso nunca vivida porque nunca investida, é uma mulher triste, uma personagem dormente, presa a uma relação inacabada, suspensa. Contrariamente, Zeca Perpétuo vive para o presente, reinventando a realidade através do sonho, «…ensinando o céu a sonhar…»2, recriando a vida através do amor. As relações que as duas personagens estabelecem com as restantes estão, à partida, fragilizadas ¾ a mãe de Luarmina morre de infelicidade pela beleza física da filha, «… A mãe morreu pouco depois, não devido da viuvez, mas por causa da beleza da filha…»3; o pai de Zeca Perpétuo ilustrando todo um percurso de perdição.

As personagens revelam-nos a desagregação dos valores colectivos sob a pressão do tempo, a maternidade como valor principal na sobrevivência da sociedade, «…Ela [ Luarmina] queria ser outra coisa, queria crescer de si mais gente, ter filhos, nascer-se em outras vidas…»4, o acto de sonhar como desejo de evasão e busca de uma outra realidade que não aquela de um país, Moçambique, ainda há bem pouco tempo palco de guerra, «… Quando não somos nós a inventar o sonho, é ele que nos inventa a nós…»5. Esta realidade só pode ser reabilitada através do sonho, onde o narrador oferece um corpo de personagens que não se conformam com a mesma «… Me faz falta o sonho, tudo quanto queria era sonhar…»6; os sonhos surgem como a maneira mais profunda de conhecer o passado, «…Neles, tais novos Argos, nós penetramos e ultrapassamos camadas e camadas duma outra água, inominável. Neles, unicamente podemos ver e captar os tesouros escondidos no seu fundo, como no fundo dum abismo, intangíveis, invioláveis. Recuperáveis somente nestes momentos do sono. Aí, unicamente temos uma outra força de visão, um outro poder, que é ignorado, recusado na vida acordada e quotidiana…»7. É o ter de novo o que estava unicamente perdido; é igualmente viver o futuro inimaginável, mas que recolhe todos os sonhos e esperanças. O erotismo e a sedução feminina latente nas obras do autor, «… Me entornei na toalha da água e fechei os olhos igual como ela. Minhas mãos fingiram ser caracóis, lesmas babadoiras lavrando nas coxas de Luarmina…»8, ou «… Me deixa sossegada, Zeca. Não vê que eu já não desengomo lençol? …»9. Na repetição do pedido de contar estórias, estórias de vida, há como que «… um indício, válido para o conjunto da obra, de que a emoção do sujeito, nostalgia como resultado de um luto, é condicionante da visão das coisas que a sua história oferece…»10. E é essa nostalgia, unida a um imponderável sentimento de frustação, que nos leva a acreditar que pelos sonhos, pelas estórias sonhadas, conhecemos mais da nossa vida do que julgávamos conhecer na vida acordada.

A esperança e a crença nos espíritos, no Além, a convocação mágica do real, o relato de gestos rituais de aproximação ao sagrado, estão singularmente retratadas nas personagens Henriquinha, mulher de Zeca, e de seu pai, Agualberto. Ela, caracteriza-se por uma apetência consubstanciada na capacidade de sonhar, de olhar para o Além e o abismo surge como uma designação concreta para a morte, a outra Vida. A sua dança estonteante no cimo da Duna Vermelha, tanto pode exprimir a certeza da existência do Além, libertação das forças mágicas que dormitam no interior do ser, como também traduzir apenas a confiança e a esperança do ser humano, num mundo desajustado. A sua reencarnação em pássaro, uma gaivota, ave marinha, transforma-a numa continuação de algo, numa sobrevivência perante algo, que a libertará, «… Empurrei-a. Não escutei nem grito nem baque de tombo, vindos das rochas em baixo. Apenas estridência de gaivota roçando o barranco…»11. Nele, vivendo a espantosa revelação da "existência das coisas em si", reconhece-se a sacralidade das mesmas, do Universo. As oferendas deitadas ao mar, símbolo de vida, morte e regeneração, resumem todo um tempo e um espaço que se querem sagrados. A aceitação pacífica da morte é-o porque vista pelo lado da tradição. A demorada despedida trai todo o esforço de racionalização para quem se coloca do lado do corpo, esse mesmo corpo que, chegada a sua hora, calmamente se vai despedindo em cada símbolo africano. A morte surge-nos como a mais directa e importante mensageira da transcendência; o encontro da personagem com o seu ser passa pela descoberta da relação justa com a Natureza e pela fidelidade a determinados valores da tradição. Agualberto Salvo-Erro aceita a morte como uma "navegação", entrando no mar, retorno ao elemento original, fonte e símbolo da vida, «…Agora vou para o outro lado do mar…»12.

«…Quem procura a sua verdade, não ignorando a ambivalência de sentimentos e impulsos por que se pauta a nossa complexa humanidade, maculada, mas distinguida pelo anelo de uma pureza e integridade que a excedem, erigisse em símbolo privilegiado, o elemento que, identificando-se com a origem da vida, a água, é meio de purificação e regeneração, detendo um poder soteriológico…»13. Agualberto entrega o seu corpo ao mar e tem como referência o seu horizonte. A sua rota está definida por essa linha que nunca se fecha e que, se é separação, é-o também abertura, acesso (o Além).

Tem-se, pois, a percepção de um real "imaterial", fluído como as águas, perdido no seu curso incessante. Por essa razão, os dois mundos comunicam entre si por meio de sinais e projectam os seres nesse Além que só o horizonte pode prometer. A água convida à contemplação e a imagem formada é sempre aquela do sonho: a figura de uma mulher, Luarmina, ideal comum a Zeca Perpétuo e seu pai, que perfigura a visão do todo inalcançável. Há como que a ressonância de um sonho, a imagem de uma beleza feminina que tentou dar solidez ao mundo vazio do exterior. Luarmina é a mediadora entre o homem e o universo, «…l’ image même du secret, des grands secrets de la nature…»14. A anima, o arquétipo do feminino ou a feminilidade inconsciente do homem está no mar «…E, conduzido pelo amor, o homem percorrerá esse longo caminho cujo fim é a própria unidade, o chegar a ser de verdade ele próprio…»15. Zeca Perpétuo verte-se de si mesmo, encontrando-se, «…Meu pai afinal, me estava dizer o quê? Que trazemos oceanos circulando dentro de nós? Que há viagens que temos que fazer só no íntimo de nós?…»16 ou, como sonha o narrador «…como se o mar ensinasse, por fim, minhas lembranças a adormecer, como se a minha vida aceitasse o supremo convite e fosse saindo de mim em eterna dança com o mar…»17.

Poeta da água, Mia Couto apoia-se nela sempre que tematiza experiências de vida de grande intensidade emocional. É-o, à maneira de Cinatti, «…Orvalhado pelo mistério, por exemplo, numa recuperação do valor simbólico de regeneração e purificação da água, manifestação da graça divina ou anúncio de uma realidade em geral evanescente, mas pura, por que se anseia…»18. É Teixeira de Pascoaes que nos revela «…Somos uma onda, que é um atlântico banhando todas as praias…»19. O Poeta moçambicano evoca o Índico dando vida e sentido ao provérbio macua "O coração é uma praia".

O movimento da água é a metáfora de um mundo que nunca é, de um mundo que adquire o aspecto virtual. Quem lhe dá "forma" é o Poeta, através da capacidade de sonhar. Por detrás das palavras, há sempre uma indagação, uma procura, uma força renovadora da água, portanto da vida.

Para Mia, a substância das coisas deve ser consagrada pela palavra poética. «…Escrever é tocar no corpo do mundo, é um acontecimento cujas consequências se revelam na trama da obra e na história dos homens…»20.


Notas

1. Maria Manuela Araújo, Maria João Coutinho, Mia Couto: a Ficção enquanto Diagnose Social e Cultural, 2ª parte, p. 3, in: V Congresso Luso- Afro- Brasileiro de Ciências Sociais, Maputo, 1998

2. Mia Couto, Mar me quer, Lisboa, Expo 98, p. 30

3. Ibidem, p. 12

4. Ibidem, p. 46,

5. Ibidem, p.20

6. Ibidem, p. 81

7. Dalila Pereira da Costa, Os Sonhos, Porta do Conhecimento, Porto, Lello & Irmão, 1991, p. 7

8. Mia Couto, p. 44

9. Ibidem, p. 13

10. Maria João Borges, Em torno do Conceito de "Poesia Pura": Cinatti, Sophia e Eugénio de Andrade, Tese de Doutoramento apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1996, p. 243

11. Mia Couto, Mar me Quer, p. 47

12. Ibidem, p.77

13. Maria João Borges, Em Torno do Conceito de"Poesia Pura": Cinatti, Sophia e Eugénio de Andrade, p. 237, citando Alain Gheerbrant, Jean Chevalier, Dictionnaire des symboles, pp. 374 – 382.

14. André Breton, Arcane, 17, Paris, s.d., p.93

15. Maria Zambrano, O Homem e o Divino, Lisboa, Relógio d' Água, 1995, p.236

16. Mia Couto, p. 74

17. Ibidem, p. 87

18. Maria João Borges, pp. 236-237

19. Teixeira de Pascoaes, O Homem Universal, Lisboa, Ed. Europa, 1937, p.87

20. Cássia Lopes, A Vertigem De Narciso: uma leitura biográfica em "Um Sopro de vida", de Clarice Lispector, in Quinto Império, Revista de Cultura e Literatura de Língua Portuguesa, Salvador, Empresa Gráfica da Bahia, 1997, nº9, p. 106