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O Regresso ao Ser Total e a Intervenção Artística em Mulher de mim

 
Tereza Paula Alves Calzolari
(UFRJ – Brasil)

A narrativa Mulher de mim, do poeta e contador de estórias moçambicano Mia Couto, nos apresenta um personagem-narrador em sua travessia rumo à própria descoberta.

Aqui, encontramos o amor erótico, a boda esponsal, não entre homem e mulher em corpos distintos, desassociados, mas entre as porções masculina e feminina que habitam o mesmo ser, um mesmo corpo.

Benedito Nunes, ao trabalhar o amor em Guimarães Rosa, define a união dos sexos como "momento de celebração, descoberta, iniciação", uma união "entre tensões opostas, dos contrários aparentemente inconciliáveis que se repudiam, mas que geram, pela sua oposição recíproca, uma forma superior e mais completa".1

No conto apreciado, o amor também assim se configura, na medida em que busca uma realização plena, que inevitavelmente pressupõe uma passagem, uma travessia. Contudo, o erotismo presente em Mulher de mim, independe de dois corpos distintos, realizando-se dentro de um único personagem, não nomeado, o que nos faz crer na compreensão genérica do termo homem, moçambicano ou não, que para alcançar a plenitude, precisa conciliar ou (re)descobrir as porções dissemelhantes mas complementares que nele coexistem.

Antes, porém, de darmos prosseguimento a nossa apreciação, acreditamos necessárias uma breve intervenção e uma paráfrase da narrativa.

A intervenção a que nos referimos diz respeito, na verdade, a três interações sucessivas pelas quais "a estória" em si sofreu até chegar a este trabalho.

A primeira, a intervenção do próprio coletivo moçambicano em relação à matéria imagético-imaginária de Moçambique, enquanto seu criador, mantenedor e modificador. A segunda, por sua vez, refere-se à compreensão e transformação dessa mesma matéria por Mia Couto, moçambicano que recria e perpetua a intervenção anterior, propiciando, a todo e qualquer leitor de seus livros, o conhecimento de um ou mais aspectos do multifacetado imaginário de seu país. Por fim, temos a interação de uma estudiosa não-moçambicana, brasileira, acerca da literatura originária de Moçambique, mais especificamente, no conto em questão.

Cremos na importância e na positividade de tais intervenções. Se assim não fosse, não estaríamos aqui, agora, oriundos de tão diferentes países, debruçados sobre literaturas produzidas ou não por nossos conterrâneos.

Passemos, então, à síntese da narrativa apreciada e, com ela, vejamos como se processa a (re)descoberta de uma das porções constituintes do nosso protagonista, a sua porção feminina, como veremos.

Em Mulher de mim encontramos um narrador intradiegético, portanto, personagem da estória narrada, numa noite de "insones ponteiros"2(p.123). O texto se inicia, como podemos ver, já marcado pela idéia de transição, de transformação, o que pode ser constatado em diversas passagens, dentre as quais selecionamos, por ora, duas: a) a carência única, contudo forte, sentida pelo personagem-narrador de "uma morte-estação, inverno subvertido por guerrilheiras florações"(p.123), portanto, uma transição positiva, benéfica, e; b) a comparação realizada pelo personagem-narrador dele mesmo com uma pedra de gelo. Segundo suas palavras: "ambos nós transitórios, convertendo-nos na prévia matéria de que nos havíamos formado"(p.123), onde temos a primeira indicação do rumo dessa travessia, o retorno à origem.

É importante ressaltarmos que o personagem, antes de findar, pelo menos, sua primeira e essencial travessia, se encontra predisposto a tal percurso, visto que se encontrava, até então, insatisfeito com o presente, a ponto mesmo de invejar os falecidos e os que estariam ainda por nascer:

"Pois eu, no instante, invejava as ambas categorias: os mortos, por se apresentarem à perfeição dos desertos; os nascituros, por disporem do inteiro futuro."(p.126)

Dando continuidade à narrativa, vemos o encontro do personagem, em seu quarto, com uma mulher, como ele, também não nomeada. Esta mulher, surgida de modo sobrenatural, nele busca espaço para a sua existência. Assim, o nosso protagonista se encontra diante do que ele mesmo denomina "a prova de mim"(p.124). O personagem reluta em ceder aos apelos da mulher, pois lendas antigas haviam-no alertado sobre uma que lhe "acenderia a lua", e a qual ele deveria resistir para merecer "o nome da gente guerreira" que o antecedera.

À lua, à lua nova deve ser apresentado todo o recém-nascido, no imaginário ronga, a fim de ter garantido inteligência e esperteza. Esta apresentação é denominada de cu iandla e, conforme podemos perceber, se trata de um rito de passagem, passagem expressa no conto rumo à totalidade do ser, por isso o alerta sobre uma que lhe "acenderia a lua".

Ainda sobre a lua, encontramos um outro dado fornecido pelo próprio Mia Couto, no prefácio de Contos do nascer da terra:

"Não é da luz do sol que carecemos. Milenarmente a grande estrela iluminou a terra e, afinal, nós pouco aprendemos a ver. O mundo necessita ser visto sob outra luz: a luz da lua, essa claridade que cai com respeito e delicadeza. Só o luar revela o lado feminino dos seres. Só a lua revela intimidade de nossa morada terrestre.

Necessitamos não do nascer do Sol. Carecemos do nascer da Terra."3

Pensemos, agora, no porquê do alerta dos antepassados em relação àquela que no personagem acenderia a lua. O provérbio moçambicano, epígrafe do conto em questão, pode em muito nos auxiliar:

" O homem é o machado; a mulher é a enxada."

O machado nos remete à idéia de guerrilha, da arma que fere empunhada pelo combatente; e a enxada, como aquela que abre e semeia a terra, a porção feminina criadora, fecundante.

Sabemos também que para o combate, os guerrilheiros deveriam despir-se de quaisquer sentimentos que não o de fidelidade à pátria. Ao despir-se de seu lado passional, o guerrilheiro, desse modo, se despia de uma de suas metades, vivendo incompletamente. O combatente transformava em trilha, sangue e independência política a matéria, mas nesta não intervinha artisticamente. Houve exceções, é claro, aqueles que mantiveram sua porção criadora em meio aos horrores da guerra e produziram obras de magnífica poesia e testemunho. Pepetela, um desses homens, gestou e deu luz à uma floresta inteira, o Mayombe, nas noites de guerrilha.

Assim, concernente as lendas antigas, para merecer o nome da gente guerreira que o antecedera, o personagem-narrador de Mulher de mim não deveria acordar sua metade feminina adormecida. Mia Couto, dessa forma, através de sua estória, também questiona um dos valores de seus antepassados, o de tolher sentimentos que não estejam intimamente relacionados à pátria, para honrar o nome dos guerrilheiros moçambicanos, mortos ou não em combate.

Conforme dissemos, prevalece o povo moçambicano, numa primeira instância, enquanto criador, mantenedor e modificador do próprio imaginário, como não poderia deixar de ser.

Na conclusão da narrativa, o personagem cede aos apelos da mulher, deixando de ser metade e passando, por conseguinte, a ser pleno, total, deixando que nele, ela, sua porção feminina (re)nasça. Porção feminina esta, interventora, capaz de gerar, de criar, como podemos apreender de alguns fragmentos do texto, que passamos a transcrever:

"Ela se deitou imitando a terra em estado de gestação."(p.124)

"(...) só ela guardava a eterna gestação das fontes. Sem eu ser ela, eu me incompletava, feito só na arrogância das metades. Nela eu encontrava não mulher que fosse minha mas a mulher de mim, essa que, em diante, me acenderia em cada lua."(p.128)

O tema dessa narrativa, vale dizer, configura-se como fundamental não só para o universo moçambicano, como para todo e qualquer homem contemporâneo, sobretudo aquele que tem por trás de si o rastro da colonização e da imposição cultural.

Findamos, assim, a nossa apreciação com um pequeno trecho de uma letra do cantor e compositor brasileiro Gilberto Gil intitulada Superhomem (A Canção).

"Um dia
vivi a ilusão de que ser homem bastaria
que o mundo masculino tudo me daria
do que eu quisesse ter
Que nada
minha porção mulher que até então se resguardara
é a melhor porção que trago em mim agora
é a que me faz viver"


Bibliografia

BACHELARD, Gaston. O Direito de sonhar. 3. ed. Rio de Janeiro: Edit. Bertrand Brasil S.A., 1991.

COUTO, Mia. Contos do Nascer da Terra. Lisboa: Editorial Caminho S.A ., 1997.

___________. Mulher de mim. In: Cada homem é uma raça. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

GIL, Gilberto. Super Homem (A Canção). In: Realce. São Paulo: WEA (Warner Music Brasil Ltda), 1990.

JUNOD, Henrique A. Usos e costumes dos bantos. 2.ed. Lourenço Marques: Imprensa Nacional de Moçambique, 1974. Tomos I e II.

NUNES, Benedito. O Amor na obra de Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo. Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. Coleção Fortuna Crítica.

PEPETELA. Mayombe. São Paulo: Ática, 1982.


Notas

1. NUNES, Benedito. O Amor na obra de Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo. Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. Coleção Fortuna Crítica.

2. COUTO, Mia. Mulher de mim. In: Cada homem é uma raça. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

3. COUTO, Mia. Contos do Nascer da Terra. Lisboa: Editorial Caminho S.A ., 1997.