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Os sonhos e a ampliação do real – uma perspectiva africana

 
Robson Lacerda Dutra
UFRJ

Nesta comunicação pretendemos considerar alguns aspectos que observamos na obra de Mia Couto no que se refere à manutenção do sonho como solução à situação de rescaldo deixada pela e durante guerra em Moçambique e suas conseqüências. Por razões óbvias de tempo e espaço, limitaremos nossa observação a três obras: Vozes Anoitecidas1, Estórias abensonhadas2 e Contos do nascer da terra,3 onde, não obstante, temos rico arsenal de informações.

O primeiro aspecto que gostaríamos de considerar é exatamente a situação de guerra, onde os limites da opressão não se estabelece apenas entre soldados de frentes inimigas. O conto "O dia em que explodiu Mabata-bata", integrante d’as Vozes Anoitecidas nos narra a história de Azarias, menino órfão e sobrinho de um tio que o prende à pastagem, como guardador dos seus bois. Em dada tarde, o boi Mabata-bata, o maior de todos e prenda de lobolo do tio, explodiu, rebentou sem um múúú. No capim em volta choveram pedaços e fatias, grãos e folhas de boi. A carne eram borboletas vermelhas. Os ossos eram moedas espalhadas. Os chifres ficaram num qualquer ramo, balouçando a imitar a vida.4

Azarias, em seu não saber de menino, pensou que havia sido um relâmpago mas abandonou a idéia ao ver que ela se contrastava com o céu azul sem mancha de uma tarde calma. Talvez pudesse ter sido o ndlati, pensou, o pássaro de fogo que habita as montanhas onde todos os rios nascem e que, ao rugir das nuvens, se veste de fogo, e alça seu vôo incendiário. Diante do esplendor do fogo o rebanho se espalhou pelo mato e o menino apavorou-se ao lembrar-se da ameaça do tio para que nunca lhe aparecesse sem um boi, um só que fosse e optou por evadir-se, já que fugir, diz-nos o narrador, é morrer de um lugar. Para Azarias, que já tinha sua infância morta dentro de si, a saudade não lhe pesaria na bagagem, tampouco ele a deixaria, supunha. O menino caminhou, atravessou as fronteiras da água e, na outra margem, pôs-se à espera do que não sabia.

São os próprios soldados quem vão à casa do tio Raul e da avó Carolina dar conta do ocorrido com o boi. As preocupações deste são apenas com o rebanho e é movido por esta idéia que ele vai, mesmo contrariando as recomendações dos soldados e da avó, em busca do menino e dos seus bens.

Ao achá-lo inicia um diálogo pontuado pela promessa falsa de não castigá-lo. O menino não responde e é somente depois da intervenção da avó, que também fora em sua busca que o menino responde e diz que os bois estão ali todos ao seu lado. Diante do tal feito, a avó lhe dá a oportunidade de pedir o que quer e o menino opta por pedir que o tio lhe permita sua ida à escola. O tio, mais uma vez "jura mentiras" promete permitir-lhe os estudos. Diz-nos o texto:

"O pequeno pastor saiu da sombra e correu o areal onde o rio dava passagem. De súbito, deflagrou um clarão, parecia o meio-dia da noite. O pequeno pastor engoliu aquele todo vermelho, era o grito do fogo estourando. Nas migalhas da noite viu descer o ndlati, a ave do relâmpago /.../ em volta tudo fechava, mesmo o rio suicidava sua água, o mundo embrulhava o chão nos fumos brancos /.../ e antes que a ave do fogo se decidisse Azarias correu e abraçou-a na viagem da sua chama."

Se consideramos as entrelinhas do texto, cremos vislumbrar um aspecto cruel da realidade moçambicana. As bombas e minas largadas pelos soldados são aquelas que ceifam a vida dos animais, dos homens, mulheres e crianças. O caos da guerra "mata as estradas" e faz com que " a paisagem se mestice de tristezas nunca vistas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul e os viventes se resignem à aprendizagem da morte". Esta é a cena inicial de Terra sonâmbula5 e é a que reflete toda a agonia de um presente e de um futuro incertos.

Maior, porém, que a tirania da guerra é aquela que rege as relações de família e trabalho. A par as dificuldades bélicas, aquela que oprime e marginaliza Azarias é a que mais subjuga, já que dela não podem dar conta os tratados e acordos de paz. O trabalho semi-escravo, a desigualdade nas relações, a injustiça e a falta de oportunidades são elementos mais massacrantes e hediondos que a guerra em si. Além de denunciar a guerra em si e suas conseqüências, vislumbramos em Mia Couto a captação de todos os sons que seu ouvido poético tem do real, buscando uma identificação plena entre realidade e ficção, entre narrador e narrado.

Na busca da solução para estes problemas vemos claramente algumas possibilidades. Uma delas é exatamente a ancestralidade, a aprendizagem total e integralizante que faz com que o mundo funcione como uma só vertente.

É a voz da avó que o menino escuta e atende. São suas palavras que o tiram da escuridão para a continuação do diálogo, já que a voz do tio não dispõem de elementos que o convençam. Esta passagem nos traz à mente o texto de Ecléa Bosi6 quando afirma que:

É na memória das pessoas idosas que se pode verificar uma história social bem desenvolvida, posto que elas já atravessaram um determinado tipo de sociedade, com características bem marcadas e conhecidas; elas já viveram quadros de referência familiar e cultural igualmente reconhecíveis: enfim, sua memória atual pode ser desenhada sobre um pano de fundo mais definido do que a memória de uma pessoa jovem, ou mesmo adulta, que, de algum modo, ainda está absorvida nas lutas e contradições de um presente que a solicita mais intensamente do que uma pessoa de idade."

O homem adulto, segundo esta idéia, está absorvido pelas tarefas do presente e não busca imagens da infância para relacionar sua vida cotidiana. Parar, para ele, implica descanso e não a evocação em si de fatos passados. O ônus da vida moderna tem sido abrir mão de uma universalidade do auto-conhecimento em função do que lhe é imputado como necessário. O adulto ativo leva uma vida absolutamente pragmática e a memória, neste contexto, torna-se fuga, lazer e contemplação. Neste sentido, cabe ao homem velho, aquele que já viveu sua vida intensamente, lembrar-se do passado e, através de estímulos, contar às crianças e relembrar aos adultos as estórias que compõem sua história, sua essência. Segundo Nsang O’Kan Kabswasa7, o idoso africano é o que melhor conhece a visão animista africana de universo, segundo a qual a vida é uma corrente eterna que flui através dos homens em gerações sucessivas. Mesmo antes do nascimento, o africano já faz parte deste processo: pertence a um grupo do qual é indissociável, não pode ser separado dos que o precederam, nem dos que o irão suceder e os valores tradicionais o protegerão contra o abandono e a solidão. Este é, acreditamos, o ponto de união entre Azarias e a avó Carolina. É esta aprendizagem que os distingue e protege dos males da indiferença. Neste sentido, torna-se fundamental citarmos o contos Nas águas do tempo. Nele percebe-se a circularidade do ciclo de vida, segundo Kabwasa: infância (kimwana), a maturidade (kimbuta) e a velhice (kinkulutu), que juntam no mundo invisível antepassados e crianças por nascer. No conto em epígrafe, lemos que o avô, a despeito dos protestos da mãe, leva o neto sempre ao meio de um lago e de lá agita seu lenço em direção a outra margem. As viagens prosseguem até o dia em que o menino tenta descer do barco. Nas águas profundas e misteriosas que os circundam mora nanwetxo moha, o monstro das metades, com um olho, um braço e uma perna, alegoria da ameaça da perda da visão esplêndida do mundo e da falta de integralidade do viver. É necessária a presença dos órgãos em sua totalidade para que o mundo possa ser visto e revisto. Às vezes este mundo pode estar contido numa verdade, ou seja, a alegria cósmica, onde a vida é apenas uma das expressões. Outras vezes este mesmo mundo se fecha em seus enganos e deve ser considerado como um leque de perspectivas e possibilidades, todas elas ligadas, no entanto, à capacidade de vislumbrar os panos coloridos que os ancestrais acenam da outra margem.

São estes mesmos ancestrais que farão com que as águas se acalmem e permitam que o avô passe a outra margem e integre também o rol dos que acenam. Caberá ao neto saber olhar e também "iniciar" seu próprio filho nesta mesma arte. Se comparamos estes dois contos, observamos a margem de lá como o espaço da espera e da libertação. Do mesmo modo que é lá que estão os ancestrais, foi também neste espaço, sem saber ainda pelo que esperava, que Ananias vislumbrou o pássaro de fogo que o levou definitivamente para o outro lado. Não nos é possível nesta comunicação abordarmos os múltiplos significados da água, mas observamos sua presença na obra de Mia Couto, desde seu primeiro livro Raiz de Orvalho. Acreditamos que, para ele, esta água é aquela que jorra do coração humano, vem da lua, do efêmero e por isto refresca, vivifica e une dia e noite, passado e presente. Foram estas mesmas águas que jorraram em forma de chuva em 1992, quando o acordo de paz em Moçambique foi assinado. A princípio o povo não acreditou que a guerra tivesse acabado e, apenas depois que a chuva lavou-lhes a cinza do rosto e começou a irrigar a terra sonâmbula é que foi-lhes possível acreditar que a paz, por fim, lhes chegara.

Do mesmo modo que dos lagos, rios e oceanos que banham as diversas áfricas fluem águas, a inspiração e o ato da criação poética de Mia Couto, segundo definição de Pires Laranjeira8, fazem que dos seus escritos fluam verdades sonhadas e lembranças inventadas.

Neste sentido, há que se ampliar o sentido do sonho. Este não mais será apenas aquele tido quando se dorme, mas a criação de um segundo mundo, saída para a pluralidade do mito.

A atitude arrazoada seria a linearidade e retidão dos acontecimentos, descritos por uma outra linguagem, comedida e comportada ao modelo tradicional. O tratamento dado às novas palavras que comporão este novo cenário age como provocação à organização mental, ampliando-lhe os códigos conhecidos, exigindo-lhe movimento: a inteligência terá que se adaptar a uma nova ordem para penetrar o novo significado, escondido nas profundezas do oculto, na alma, na mente, na morte, etc. – o seu contato com a verdade.

Percebemos na oralidade que se prolonga nos contos a raiz de onde brotam todos os temas e sonhos: é aí que está presente o poeta africano, o "griot" poeta e músico da áfrica negra, pertencente a uma linhagem especial de contadores de histórias9. Exprime e faz-nos agrupar as necessidades primordiais do homem: a aprendizagem da vida, a busca contínua, a grande aventura humana, o alimento primordial

O imaginário se instala com finalidade de esquecimento, exorcismo ou até mesmo diversão, atenuantes dos problemas do mundo de hoje e de amanhã. Em Mia Couto tal não se dá. Também não significa angústia. Talvez esteja numa espécie em que o aprendiz, o leitor, também encontra suas águas calmas e vislumbra, de igual modo, os panos a se agitarem na outra margem.

Sonhar aspira à recomposição e à integração, mesmo como metáfora da denúncia contida na explosão do Mabata-bata. Sonhar implica o rompimento com os limites sociais que são impostos e surge como veículo à passagem da morte para a vida possibilitada no interior de uma coerência agora permitida e que engloba um tipo de energia incontrolável, assim como no princípio da existência, quando vida e morte se misturavam.

Como bem definem Fernanda e Matteo Angius10, "Mia celebra a vida na escrita. O tempo e os dedos, se entrelaçam para produzir os dias" e, com eles, novas esperanças.

No conto Raízes podemos identificar toda a poeticidade do sonhar como solução para o mundo: um homem deitou-se na areia e dormiu toda a manhã. Ao levantar-se tinha a cabeça presa ao chão. Haviam-lhe nascido raízes que resistiam às tentativas da mulher, dos amigos, de todas as gentes da terra de lhe fazerem levantar-se. As raízes, profundas e multi-ramificadas se aprofundavam por todo o mundo. Segundo veredicto do mais velhos dos sábios convocados, a única solução para o homem seria ter a cabeça transportada para a lua. Tal foi feito e diz-nos o narrador que neste dia nasceu o primeiro sonhador, o primeiro poeta. Sonhar, na obra de Mia Couto, acreditamos, implica dar uma nova dimensão e uma nova compreensão ao sentido de vida. Significa jungir vida e morte em um mundo onde os panos agitados possam ser sempre enxergados e, sobretudo, um mundo onde homem também tenha sua cabeça na lua.

Para concluir, reproduzimos parte do seu discurso de posse como membro correspondente da Academia Brasileira de Letras e que resume seu projeto de vida:11

"De onde vem essa força da criação poética ? há na poesia uma outra sabedoria, outra maneira de pensar o mundo. A poesia é uma forma de conhecimento, uma ciência que ama o erro desde que ele seja bonito. A poesia ilumina o mundo a partir de dentro."


Notas

1. COUTO, Mia. Vozes Anoitecidas Lisboa: Caminho, 1992.

2. ___________. Estórias Abensonhadas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.

3. ___________. Contos do nasscer da terra. Lisboa: Editorial Caminho, 1997.

4. Op. Cit. Nota 1, página 47.

5. COUTO, Mia. Terra sonâmbula. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.

6. BOSI, Ecléa. Memória e sociedade, lembrança de velhos. São Paulo: Queluz, 1987.

7. APUD: SECCO, Carmen Lúcia Tindó. Síntese da história angolana: cronologia e alguns textos. RJ:

Faculdade de Letras. UFRJ. Apostila digitada e policopiada em xerox, 1996, p. 14.

8. LARANJEIRA, Pires. Literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 1995.

9. HELD, Jacqueline. O Imaginário no poder. São Paulo: Sumus, 1997.

10. ANGIUS Fernanda et ANGIUS, Matteo. O desanoitecer da palavra. Mindelo: Centro Cultural Português, 1998

11. COUTO, Mia. "Alocução na Academia Brasileira de Letras", Rio de Janeiro, 1998.