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Pepetela, a Geração da Utopia ,do colonialismo à consciência de nação e poder

 
Suzana Rodrigues Pavão
Universidade de São Paulo

1. Introdução: África, Angola...O Antigo Mundo Novo

Descobrir um continente borbulhante de anseios, repleto de ideais e com os olhos em busca do novo, sem deixar a tradição secular esquecida, levou - me a meditar sobre o título dado. Dessa forma como leitora de um novo texto comecei a caminhar por estudos teóricos e cheguei às palavras de Lisa Block DE BEAR (6) de que a história da literatura não pode diferenciar-se da história da leitura que é a representação dos anseios culturais e históricos de um povo. Os juízos de valor são parciais e com uma profunda influência da realidade do povo. A objetividade de julgamento é apenas uma aspiração, sem dúvida, uma grande aspiração do crítico. Segundo a afirmação de Northop FRYE (11), "a crítica é uma forma de autobiografia" e é dessa forma que me vejo entrando na obra de PEPETELA (13 e 14) como se estivesse penetrando nos anseios Angolanos e procurando compreender o que existe na Angola de Luanda e Benguela e quem é a Angola profunda desconhecida e misteriosa.

Como primeira preocupação me veio o receio de uma análise eurocêntrica e de buscar uma tentativa de adaptação da obra analisada com as literaturas mais conhecidas. Ao lado de tudo isso, o risco de sectarismo e identificação com a realidade sócio-política vivida por minha geração no Brasil.

Ao pertencer a um país de terceiro mundo, cujo povo não tem direito a uma educação livre e de qualidade, que morre nas portas de hospitais por falta de atendimento ou a cada dia que passa percebe que paga cada vez mais caro pelo ato de simplesmente sobreviver. A ditadura militar vivida pelo povo brasileiro possuiu características próprias que a distinguiram da exploração colonial angolana, mas a violência, as torturas, prisões e desrespeito ao cidadão não se diferenciaram tanto assim. Os países poderosos de primeiro mundo ditavam as ordens e financiavam os extermínios. É difícil não encontrar identificação, e mais ainda fugir do envolvimento que a narrativa de PEPETELA (13 e 14) faz com os leitores.

Relacionando as realidades cheguei à possibilidade de encarar os julgamentos de formas parciais, concluindo que a objetividade de julgamento é apenas uma aspiração e não um grilhão indestrutível.

Consideramos que a arte é o meio de colocar o homem em estado de equilíbrio com o mundo que o rodeia, torná-lo seu; anseia por prolongar o seu "EU", por unir na arte sua limitação a uma existência comunitária e por tornar social a sua individualidade. A arte é o meio indispensável para essa união. O trabalho para um artista, é um processo altamente consciente e racional no fim do qual a obra de arte surge como uma realidade dominada e nunca como um estado de inspiração.

Segundo Marx, citado por FISCHER (10), toda arte é condicionada pela sua época e representa a humanidade na medida em que corresponde às idéias e às aspirações, às necessidades e às esperanças, de uma determinada situação histórica. Mas, ao mesmo tempo, a arte supera essa limitação e, no seu momento histórico, cria também um momento de humanidade, uma promessa de constante desenvolvimento.

Classes e sistemas sociais diferentes, ao elaborarem sua própria ética, contribuíram para a formação de uma ética universal. O conceito de liberdade, se bem que corresponda sempre às condições e aos anseios de uma classe ou de um sistema social, tende, todavia, a transformar-se em idéia universal.

Desliguei-me, desta forma, da preocupação primeira de não entendimento de Angola e talvez da própria África.

Os controles econômicos, dos meios de comunicação e da própria soberania nacional existem em um país supostamente independente. O elo fundamental nesse momento é a força tecnológica. E cada vez mais é constatado que tal progresso acentua a riqueza dos poderosos e desenvolvidos e a pobreza dos países atrasados, em virtude da rapidez com que se verifica o progresso tecnológico. E como nos afirma Albert MEMMI (12),

"Se desenvolvimento é industrialização, o país que não dispuser de uma tecnologia própria ficará na completa dependência dos países tecnicamente adiantados."

Concluí, seguindo tal raciocínio, que a arte é necessária a fim de que o homem possa conhecer, acusar e transformar o mundo, mas é igualmente necessária em virtude da magia que lhe é inerente.

1.1. Angola, Nacionalismo e Revolução

Angola, região colonizada, invadida, e como toda a África, teve sufocados seus valores culturais seculares. O tribalismo, distinto de região para região, cria países heterogêneos e de quase impossível união. Dessa forma, as lutas de libertação tornam-se mais acirradas, com uma forte presença de auto-afirmação. Os pressupostos nacionalistas nos povos africanos e diretamente nas literaturas africanas sujeitas a situações coloniais de grande opressão, baseiam-se em valores mais fortes do que os reivindicados, em muitos países, por intelectuais e ativistas arrebatados de patriotismo. Essas lutas patrióticas clamam contra ditaduras, buscam implantação de sistemas de governo baseados em ideologias políticas definidas, mas diferem-se das lutas africanas, pois não necessitam afirmar-se como povo de valores culturais distintos do poder dominador.

Antes de analisarmos a questão das diferenças tribais africanas, consideramos importante verificarmos que desde Segunda Guerra Mundial, todas as revoluções vitoriosas definiram-se em termos nacionais e ao fazê-lo basearam-se claramente em um espaço territorial e social herdado do passado pré-revolucionário. Estudiosos verificam que os Estados marxistas tenderam a tornar-se nacionais não apenas pela forma, mas também na substância. O que se verifica é que o fim do tempo do nacionalismo tão profetizado está longe de realizar-se e de tornar-se concreto. O nacionalismo constitui o mais verdadeiro e legítimo valor universal da vida política de nossos tempos.

Dentro dessa linha de raciocínio, e dentro do espírito antropológico, incorporaremos a definição de Benedict ANDERSON (2) que assim define Nação:

"Ela é uma comunidade de política imaginada, e imaginada como implicitamente limitada e soberana"

O estudioso continua explicando que a comunidade é imaginada porque nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas, nem os encontrarão, embora na mente de cada um esteja clara a comunhão que existe entre eles. A nação para ele é imaginada como limitada porque até mesmo a maior delas, possui fronteiras finitas. Nenhuma nação se identifica com a humanidade.

É, portanto, a nação imaginada como comunidade porque, sem considerar a desigualdade e exploração que atualmente prevalecem em todas elas, a nação é sempre concebida como um companheirismo profundo, ou uma identidade que vem certamente da ancestralidade e da qual não se consegue desfazer ou mesmo romper.

O nacionalismo nos países africanos transcende à dimensão cultural, possui reivindicações mais abrangentes, como uma situação de autonomia, de originalidade e de oposição às influências estrangeiras. Torna-se verdadeira doutrina política que atribui à Nação um sentido absoluto, valorizando tudo que lhe é original.

Quanto à oposição às influências estrangeiras, não consideramos tal posição como exclusiva mas comum aos países de terceiro mundo, que buscam maior auto-respeito em posições semelhantes.

Desde o século passado, com o advento da etnologia como ciência, afirma-se que o domínio dos colonizadores sobre os povos colonizados se deu antes de tudo pela força, pelo uso arbitrário da violência, pela imposição de uma ideologia e nunca pela supremacia cultural do povo dominador. O colonizador desejava a dominação e não tinha nenhum desejo de conhecer e compreender o povo desconhecido que tinha diante de si. Falamos em ausência de desejo de conhecimento, pois o colonizador fazia- se valer de seu poder para distanciar-se e dessa forma tornar esse domínio mais mitificado pelo desconhecimento mútuo que impedia qualquer identificação com o colonizado. A forma inversa também seria válida, pois entender o distante é sempre mais difícil.

Para o colonizador, o povo conquistado deveria ser uma cópia do conquistador. Qualquer pluralismo deveria ser impossibilitado, quer seja o lingüístico ou o religioso, pois esses elementos afirmariam uma realidade própria. Impor a unidade lingüística e religiosa é e foi a única maneira de se realizar o poder do colonizador.

Com o decorrer da repressão colonialista, uma nova realidade vai se impondo. Uma nova sociedade é engendrada: a sociedade mestiça, cuja principal característica é o fato de que a noção de unidade sofre uma reviravolta. Esta unidade, ou pseudo unidade, é, então, contaminada. Esta realidade é contaminada em favor de uma mistura sutil e complexa entre o europeu e o elemento autóctone, uma espécie de infiltração progressiva efetuada pelo pensamento "selvagem". Desta forma, surge uma abertura para o único caminho possível de se chegar à descolonização.

A nova realidade imposta é de reação e de falsa obediência. Passa a ser necessária a marcação clara das diferenças. Tais diferenças, muitas vezes, assinaladas por posições vanguardistas e salientadas de formas bastante individualizadas. O silêncio seria a resposta desejada pelo imperialismo cultural, ou ainda, metaforicamente, o eco sonoro que apenas serve para apertar mais os laços do conquistador.

Falar, escrever, tem uma significação clara: será falar contra, escrever contra, buscando cada qual sua linguagem, e estilo, mas sempre salientando a oposição fundamental.

1.2. Literatura - Arma de uma Revolução

Afirmamos que em Angola a literatura assumiu uma força revolucionária de grande importância. Os temas utilizados serão a denúncia da miséria do povo através de lamentos e incentivos a tomadas de posição.

A tortura como arma habitual nas prisões dos dominadores é demonstrada levando assim às camadas mais populares, uma informação clara da situação vivida, procurando fazer crescer no povo o desejo de emancipação. A literatura revolucionária não se limitou à conquista de libertação e autonomia política, mas debate-se por buscar valores próprios. A revolução deve existir para satisfazer os anseios do povo.

A literatura de luta, utiliza-se de estética de formas variadas. Algumas, como a obra de Agostinho Neto, denunciam através de formulações do pensamento, através do uso de imagens e idéias universais e universalizantes, próprias do texto filosófico. Há os que optam por romper com a gramaticidade da língua dos dominadores, pois através da liberdade lingüística tentam atingir uma forma de libertação e até de reação à dominação. A língua é uma classificação e como toda classificação e normatização é opressiva, e essa opressão adquire um caráter bem mais violento quando o idioma é imposto, é alheio. Um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, do que por aquilo que obriga a dizer. A língua implica uma relação fatal de alienação. Obriga a uma sujeição, entra a serviço de um poder. Na língua, portanto, servidão e poder se confundem inelutavelmente. Através da literatura, das obras que formarão a produção literária de um povo teremos uma fuga à tirania da linguagem.

Outros autores, já mantém os padrões da norma culta portuguesa, como no caso do autor que estudamos, que é PEPETELA (13 e 14). Sua obra não cria qualquer transgressão lingüística. A luta está contida em sua produção, em sua temática, na ação da narrativa e na construção de cada um de seus personagens.

As forças da liberdade que residem na literatura, não dependem da pessoa civil, do engajamento político do escritor, que, afinal, segundo Roland Barthes, é apenas um "senhor" entre outros, nem mesmo do conteúdo doutrinal de sua obra, mas o trabalho de deslocamento que ele exerce sobre a língua. A língua na obra literária é o próprio fulgor do real. Esquece-se que essa língua tem origem no dominador e a considera como instrumento de comunicação. A escritura faz do saber lingüístico uma arma em potencial.

A obra de PEPETELA (13 e 14) apresenta aspectos teóricos bem definidos. A Geração da Utopia remete-nos a uma linguagem não ficcional através da própria ficção.

Em sua instância autoral, PEPETELA (13 e 14) elabora uma tese sócio-política em que examina o fluir de uma geração e de um povo através de seus ideais e lutas.

Há uma personagem trabalhada de forma especial. Aníbal, o sábio, possui uma trajetória de vida que é definida em seu discurso social, político e filosófico. Suas palavras sistematizam a tese transmitida pelo romancista que aqui assume papel de analista científico da realidade assumida. A experiência política vivenciada pela personagem será aproveitada de forma a transmitir palavras de ordem e teorias ideológicas ao fazer da obra um instrumento para a guerra que pretende vencer.

O discurso assume um aspecto ambíguo, ao ser e ao mesmo tempo não sendo ficção. Não ficção no sentido de que percebemos na narrativa a busca de um compromisso elaborado e comprovado no evoluir de uma geração que se confunde com o surgimento da Angola livre dos colonizadores, mas já marcada por uma tradição cuja memória não pode deixar morrer. Esta é e será a verdadeira Nação Angolana.

2. A Geração da Utopia:

Uma tese, uma experiência, uma ação, uma vida, um romance

Logo no início da narrativa uma primeira reflexão se apresenta ao leitor. Diante de um texto literário como o que temos, chega-se ao "prazer do texto", propagado por Roland BARTHES (5). Tal forma de texto, para o teórico é um êxito, um prazer sobre as duas vertentes em que se acham o escritor e o leitor. Situando-se o prazer do texto na esfera dos fenômenos difíceis de definir, ele se constitui, no entanto, como o indicador mais palpável de que o seu móbil, aquilo que lhe dá sensação, o torna perceptível, é precisamente o talento, o recurso da escrita, a imaginação criativa. Este "prazer", este fascínio, este encanto, esta paixão constituem a finalidade da produção literária ou nela residem ao mesmo tempo os traços característicos da obra, do trecho, da página literária.

A arte literária, aquela que se exprime através da palavra, e PEPETELA (13 e 14), possui um talento múltiplo ao utilizar o discurso.

Apodera-se da grande experiência de luta, ligada à sua formação de sociólogo marxista e concebe sua obra. Sua prosa possui uma intenção didática ao transmitir uma ação efetiva ao lado da ideologia firme e coerente. Suas palavras são simples, o raciocínio transparente chega à verossimilhança.

A ação fictícia confunde-se com a realidade histórica e as personagens vão se transformando de acordo com as dificuldades que a revolução traz até eles.

"A Geração da Utopia" é a epopéia de uma geração. A epopéia de uma nação que precisa nascer e se afirmar. Há nas entrelinhas a amargura do guerreiro ao analisar a sociedade revolucionária. Um sonho desfeito apresentado na linguagem que transmite a homologia histórica, verdadeira da sociedade angolana. O país em formação, uma consciência que se debate em busca do justo e do sonho talvez perdido.

A obra possui uma divisão temática e cronológica. A expressão do autor acontece a partir da realidade histórica de seu país. Personagens encontram-se e desencontram-se, onde se dá o relato dos sonhos, anseios, incertezas, fracassos e frustrações. As idéias muitas vezes se chocam, na convivência da ideologia contraditória, com muitas das personagens tocadas pelo tribalismo que não poderia de forma alguma ser deixado de lado, mesmo ao narrar uma luta que em muitos aspectos assume valores universais.

Cada personagem guarda um sonho e uma esperança que tornam-se também contraditórios com o decorrer da luta e o passar da vida.


Referências Bibliográficas

01. ALEGRE, Manuel. O homem do país azul. Lisboa: Dom Quixote, 1989.

02. ANDERSON, Benedict. Nação e consciência nacional. São Paulo: Ática, 1989.

03. APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

04. BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1980.

05. BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 1987.

06. DE BEHAR, Lisa Block. Una retorica del silencio. México: Siglo Veintiuno, 1987.

07. DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 1972.

08. DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 1973.

09. FERREIRA, Manuel. Literaturas africanas de expressão portuguesa. São Paulo: Ática, 1987.

10. FISCHER, Ernest. A necessidade da arte. Lisboa: Ulisséia, 1963.

11. FREYE, Northrop. A anatomia da crítica. São Paulo: Cultrix, 1972.

12. MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.

13. PEPETELA. A geração da utopia. Lisboa: Dom Quixote, 1995.

14. PEPETELA. O desejo de Kianda. Lisboa: Dom Quixote, 1995.

15. SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. São Paulo: Perspectiva, 1978.

16. SARTRE, Jean-Paul. Situations. vol.VII Paris: Seuil, 1958.