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Real Gabinete Português de Leitura: preservação e integração cultural
Ana Raquel M. da C. M. Portugal1
No dia 14 de maio de 1837, reuniram-se 43 acionistas na casa de António José Coelho Louzada, localizada na rua Direita, nº. 20,2 para em Assembléia Geral criarem o Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. Segundo Barros Martins, foi após a exposição de José Marcelino da Rocha Cabral, que o encarregado de Negócios da Nação Portuguesa, João Baptista Moreira, passou a presidir a reunião, chamando para 1º secretário Francisco Eduardo Alves Vianna e para 2º secretário José Antonio de Seixa.3 Nesse momento, o número de sócios já era de 189, tendo subscrito 404 ações. Esse grupo era composto por imigrantes portugueses liberais, comerciantes e em sua maioria, bacharéis em Direito, que se uniram para fundar a primeira associação portuguesa do Brasil independente, o Gabinete Português de Leitura, com o intuito de ilustrar o espírito e reavivar o culto às tradições lusitanas. Ilustração e arquitetura A fundação dessa instituição era uma maneira de enaltecer a Pátria e no início não eram aceitos senão portugueses, no quadro de acionistas do Gabinete. A administração do Gabinete se preocupou desde o começo em adquirir livros estrangeiros e assinar vários jornais, objetivando expandir a oferta literária àqueles que freqüentavam a biblioteca. Resolveram inclusive, transformar livros inúteis em dinheiro para obterem obras importantes. Para controle desse avultado acervo, em 1840 imprimiu-se "o primeiro Catalogo de livros do Gabinete, seguindo-se os Supplementos de 1844 e 1846; o Catalogo organizado pelo Dr. José Pedro da Silva Camacho e impresso em 1858, e finalmente, dez annos depois, o Catalogo Supplementar" (Galvão, 1906, p.6). Posteriormente, ficou a encargo do bibliotecário Benjamin Franklin Ramiz Galvão a organização de um novo Catálogo geral, segundo o sistema decimal do americano Melvil Dewey. Este catálogo foi publicado em 1906 e depois desta data mais nenhum foi editado. Com o crescimento rápido da instituição, houve a necessidade de um local maior para abrigar o grande número de volumes que o Gabinete possuía. Da primeira sede localizada na rua São Pedro, n.º83, passaram à rua da Quitanda, n.º55, e então, à rua dos Beneditinos , n.º12, sempre ocupando imóveis alugados. Na ata de 5 de fevereiro de 1847, aparece a primeira proposta de se comprar um terreno para edificação de um prédio para sede do Gabinete, que em 1880 começaria a ser construído. A história do Gabinete Português de Leitura foi marcada pelas mudanças da sociedade carioca do início do século XIX, pois a demanda cultural cresceu, influenciada pelo movimento modernizador, iniciado pela vinda da família real para o Brasil. Se antes disso, atravessava-se um período de precariedade cultural, depois, ao contrário, houve um desenvolvimento "da literatura nacional, romântica, nutrida pelo mito indianista e por um pensamento filosófico céptico e escolástico"(Nizza da Silva, 1991, p.125). Os primeiros tempos de funcionamento do Gabinete foram conturbados, pois havia poucos recursos e a importância dada pela colônia a esse tipo de instituição era inexistente. Segundo o relatório de 1861, o Gabinete atravessou uma grave crise nesse período.4 Pelos acontecimentos que se seguiram, podemos imaginar que a administração do Gabinete conseguiu transpor os obstáculos, aumentando consideravelmente o número de obras para a biblioteca, e também, de acionistas, que contribuíram para que viesse a se tornar possível a aquisição dos terrenos necessários para a construção de um edifício próprio. Foi também nesse período, que se fez necessária a reforma de alguns artigos dos Estatutos e para tal tarefa foram designados Egídio Carlos Pereira, António José Mendes Campos e António Xavier Rodrigues Pinto.5 Segundo Taborda, em 1872, o Gabinete adquiriu os terrenos (1933, p.14) localizados na rua da Lampadosa, atual Luiz de Camões. Para dar início às obras, foi necessário pedir um empréstimo, mas devido ao surto de febre-amarela que açoitou a população do Rio de Janeiro, tornou-se complicado consegui-lo. Como o empréstimo conseguido não era suficiente para fazer face a tantas despesas, foi necessário então, recorrer à benevolência de certos acionistas, contando com doações expressivas e com o aumento de ações disponíveis.6 Em 1873, haviam 1.875 sócios efetivos e 225 subscritores e a biblioteca já contava com 20.371 obras em 44.917 volumes.7 Para abrigar esse acervo, foi encomendado o projeto do novo edifício ao arquiteto português Raphael José de Castro, ficando este, responsável pela fiscalização da obra.8 Sendo o traçado no estilo manuelino,9 foi necessário encomendar-se as estátuas que compunham a fachada do edifício ao escultor José Simões de Almeida Júnior.10 No dia 18 de junho de 1879, o Presidente Eduardo Lemos apresentou o programa das comemorações do Centenário de Camões a realizar-se no dia 19 de junho de 1880, quando seria colocada a pedra fundamental do Gabinete.11 A família imperial foi convidada a participar da solenidade, conforme a ata de 12 de maio de 1880.12 No Jornal do Commercio dessa época apareceu transcrito o auto de assentamento da pedra e alguns dados sobre os festejos, que fizeram imenso sucesso.13 Houve grande preocupação com o andamento das obras do novo edifício, por parte da diretoria, pois o conteúdo das atas após 1880 trata de todas as questões relativas ao avanço da construção, bem como utilização de material de qualidade na mesma. No ano em que se comemorava o qüinquagésimo aniversário de fundação do Gabinete, foi inaugurado simbolicamente o edifício manuelino situado na rua Luiz de Camões, n.º30, cujas obras ainda não estavam concluídas. Tal acontecimento sucedeu-se a 19 de setembro de 1887, com a participação de diversas personalidades, entre elas, a Princesa Regente D. Isabel e o seu esposo Conde d’Eu. Concluída a construção do novo edifício, em 22 de dezembro de 1888, realizou-se a inauguração oficial do Gabinete Português de Leitura, contando desta vez com a presença de D. Pedro II, que pela ocasião do primeiro ato inaugural encontrava-se enfermado. Foi a partir dessa data, que imigrantes portugueses puderam franquear a todos aqueles que amavam a leitura, um local apropriado para exercer essa atividade. Se outrora, ofereciam aos freqüentadores do Gabinete singelos espaços, agora estes tinham ao seu dispor, além de rico acervo, um edifício esteticamente perfeito, de arquitetura refinada e perfeitamente planejado para servir àqueles que viessem em busca de um lugar aprazível para ler e pensar. Quando o Gabinete começou a funcionar no novo edifício, este já contava com 32.000 obras (64.000 volumes), além de grande número de livros raros e manuscritos de valor. A biblioteca abria das 9 horas da manhã às 21 horas nos dias úteis e até às 14 horas nos dias santificados. Não abria nos dias de Ano Novo, Corpus Christi, Espírito Santo, Natal e Domingo de Páscoa.14 Por volta de 1893, houve sérios conflitos na cidade e a diretoria do Gabinete achou por bem encerrar as atividades, enquanto a normalidade não fosse restabelecida. Algumas obras raras, medalhas e o álbum de Eduardo Lemos, foram guardadas em cofre na casa do presidente do Gabinete, Visconde de Carvalhaes. Depois de findado o conflito, examinou-se que a clarabóia e o telhado haviam sido danificados. Nessa ocasião, a parte superior do edifício do Gabinete foi atingida por um projétil de guerra, cujo fragmento ficou alojado no volume II da História Universal de Calmet, fato esse, também descrito por Barros Martins.15 Integração cultural Em 1895, Machado de Assis fez chegar às mãos do presidente Ernesto Cybrão, o manuscrito de sua comédia Tu, só tu, puro amor..., sendo esta oferta preciosa, que engrandeceu o acervo da biblioteca. Pela proximidade da data do 4º centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, numa reunião de diretoria ocorrida a 7 de maio de 1897, surgiu a idéia de levantar-se donativos para construção de um navio de guerra (Canhoneira Pátria) para ser oferecido ao governo de Portugal pelos portugueses residentes no Brasil em comemoração a esse feito histórico.16 A festa comemorativa dessa data tão importante se realizou em 20 de maio de 1898 no grande salão da biblioteca do Gabinete.17 Em 12 de novembro de 1897, o Gabinete foi visitado pelo Presidente da República Prudente de Moraes e pelo Ministro do Interior, mostrando como esta instituição havia se transformado num marco de integração cultural . Quando o cruzador português Adamastor passou pelo porto do Rio de Janeiro, foram realizadas grandes festas em homenagem a esse acontecimento, unindo portugueses e brasileiros, em honra do Comandante e da oficialidade daquele navio de guerra.18 Em 15 de maio de 1899, a diretoria do Gabinete foi convidada pela Associação de 4º Centenário do Descobrimento do Brasil para participarem dos festejos e da cerimônia de assentamento da pedra fundamental do Monumento Comemorativo do Descobrimento do Brasil.19 A comemoração do 4º centenário ocorreu em 3 de maio de 1900, ocasião em que imigrantes portugueses ovacionaram seu mais profundo orgulho patriótico. Considerações finais A história do Real Gabinete Português de Leitura nos fornece dados suficientes para percebermos o objetivo desse grupo de imigrantes, que unidos em torno de um ideal, fundaram e concretizaram o sonho de poder homenagear o nome de sua pátria em terra brasileira. A princípio tinham por intuito compartilhar apenas entre si, um espaço propício à ilustração, mas logo estenderam esse serviço a toda a população, passando a promover a integração cultural luso-brasileira. O Gabinete sintetiza a principal característica da colônia portuguesa no Brasil, que teve sempre o objetivo de preservar suas tradições culturais e dividi-las com o povo brasileiro. O sentido de cooperação e solidariedade do povo português espelha-se na grande quantidade de instituições fundadas por imigrantes aqui no Brasil e a preocupação com a preservação e integração cultural é exemplificada pelo Gabinete, que prossegue oferecendo serviços e informações a todos aqueles que o procuram. Documentos Actas das Sessões da Directoria – 1837 a 1918. Actas do Conselho Deliberativo – 1844 a 1879. Relatorios da directoria do Gabinete Portuguez de Leitura no Rio de Janeiro – 1882 a 1908. Jornal do Commercio – 1837 a 1887. Bibliografia AZEVEDO, Moreira de. A Rio de Janeiro; sua história, monumentos, homens notáveis, usos e curiosidades. 3.ed. Rio de Janeiro: Brasiliana, 1969, v.II. GALVÃO, Benjamin Franklin Ramiz. Catalogo do Gabinete Portuguez de Leitura. Rio de Janeiro: Typ. Do Jornal do Commercio, 1906. LABOREIRO, Simão de. A obra associativa dos portugueses do Brasil. Rio de Janeiro: s.ed., 1939. LAEMMERT, Eduardo von. Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Imperio do Brasil. Rio de Janeiro: Laemmert, 1887. LOBO, Eulália Maria Lahmeyer. Portugueses en Brasil en el siglo XX. Madrid: mapfre, 1994. MARTINS, A. A. de Barros. Esboço historico. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal Commercio, 1913. SILVA, Maria Beatriz Nizza da, WESTPHALEN, Cecília M., GRAF, Márcia. História do Brasil; Colônia, Império, República. Porto: Universidade Portucalense, 1991. TABORDA, Humberto. Sessão comemorativa do 96º aniversário da fundação do Gabinete. Rio de Janeiro: R.G.P.L., 1933. ___________________. História do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (Primeiro contenário) 1837-1937. Rio de Janeiro: s/ed., 1940. TAVARES, António Rodrigues et al. Fundamentos e actualidade do Real Gabinete Português de Leitura. Rio de Janeiro: Real Gabinete Português de Leitura, 1977. Notas 1. Doutoranda em História da UFF/RJ. 2. Atual 1º. De Março: "...a rua Primeiro de Março, chamada a princípio Direita, apesar de ser tortuosa; recebendo em 14 de maio de 1870 o nome de Primeiro de Março, que comemora a data da terminação da Guerra do Paraguai" (Azevedo, 1969, p.469). 3. Martins, 1913, p.8. 4. Relatorio do Gabinete Portuguez de Leitura. Por José Peixoto de Faria Azevedo. Typographia de Pinheiro & Comp.: Rio de Janeiro, 1861, p.3. 5. Idem, 1861, p.6. 6. Em "1874 foram modificados os estatutos, permitindo elevar o capital da Sociedade para 25.000 ações ou 500 contos de réis, permitindo conseguir o empréstimo para a obra de 250 contos e fazendo-se a hipoteca do mobiliário e livraria existentes computada em mais de 100 contos" (Laboreiro, 1939, p.56). 7. Relatorio da directoria do Gabinete Portuguez de Leitura no Rio de Janeiro. Por José Joaquim Ferreira Margarido. Typ. Perseverança: Rio de Janeiro, 1874, p.10-11. 8. Relatorio da directoria do Gabinete Portuguez de Leitura no Rio de Janeiro em 1882. Rio de Janeiro: 1883, p.13. 9. "...o estilo Manuelino inicia seu esplendoroso roteiro ao crepúsculo do século XIV e alvorecer do século XV, para atingir o seu apogeu no século XVI" (Tavares, 1977, p.70). 10. Op. Cit., 1882, p.13. 11. "Submette igualmente á apreciação do conselho o projecto de commemorar-se com manifestação condigna o 3º Centenario de Camões, e nesse intuito, alem de fundar-se no dia 10 de junho de 1880,, a primeira pedra do edificio, mandar imprimir uma edição dos Lusiadas..." (Actas do Conselho Deliberativo de 2 de fevereiro de 1844 a 24 de julho de 1879). 12. "Consigna-se nesta acta que os quatro directores presentes se dirigiram no dia 11 a S. Christovão e convidaram S.S.M.M. Imperiaes para assistirem aos festejos do Centenario de Camões. Sua Magestade o Imperador declarou que aceitara o convite com muita satisfação"(Acta, 1880). 13. Jornal do Commercio, 12 de junho de 1880, p.2. 14. Laemmert, 1888, p.1614-1615. 15. Martins, 1913, p.215. 16. Actas das Sessões da Directoria, 1880 – 1896. 17. Relatorio da Directoria do Gabinete Portuguez de Leitura no Rio de Janeiro, 1895-1898. Rio de Janeiro, 1899. 18. Martins, 1913, p.59. 19. Actas das Sessões da Directoria, 1897 – 1906. |