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Reflexos do Oriente:
Aristocracia e Industrialização n'a Relíquia de Eça de Queirós

 
Carlos Alberto Pasero
Universidad de Buenos Aires

 
"... a História não é mais do que a explicação
sucessiva dos enigmas por milagres simbólicos ..."
Oliveira Martins, Portugal contemporâneo.

Já no começar de sua vida literária, A Relíquia1 ficou marcada por dois preconceitos, um que poderíamos chamar de "estético" e outro de "ético", quando, no fundo, o texto comocionava o lado mais conservador da sociedade portuguesa. O veredicto de Pinheiro Chagas combina ambos preconceitos, torpe e maliciosamente. Inclusive o próprio Eça de Queirós refere-se a seu romance convicto de ter feito alguma coisa errada: "não admiro pessoalmente A Relíquia. A estrutura e composição do livreco são muito defeituosas. (...) e falta-lhe ser atravessado por um sopro naturalista de ironia forte, que daria unidade a todo o livro."2 O preconceito "estético" (não sem um fundo "ético") aparece plenamente desenvolvido em João Gaspar Simões que acusa Eça de "cobrir com a palavra 'fantasia' descaradas violações do mais rudimentar bom senso literário".3 Álvaro Lins põe em relevo a questão moral quando aponta que "não parece muito clara a moralidade d'A Relíquia".4

O problema gira em torno da epígrafe, "Sobre a nudez forte da verdade - o manto diáfano da fantasia". Lido em clave "estética" resume uma nova postura de abandono do naturalismo de escola para abordar outro registro expressivo afastado da verossimilhança quando não francamente incongruente. Há, porém, algo nessa frase que escandaliza e que gera aquilo que chamamos de preconceito "ético". A reflexão final de Teodorico parece defraudar o anunciado na introdução, "uma lição lúcida e forte". Sua postura estética contém, em princípio, um diagnóstico desencantado do horizonte de expectativas do leitor que entranha, por sua vez, uma revisão das possibilidades do naturalismo em Portugal. Tudo isso certamente tenha gerado certa reação ofendida perante o disfarce enganador da verdade. Além do mais, a epígrafe leva, obviamente, às palavras finais de Teodorico, as quais parecem propor uma anti-ética do relativismo e da falsidade.5 Sem menoscabo de que o tratamento oferecido às questões religiosas n'A Relíquia é, como salienta Beatriz Berrini,6 decididamente revolucionário, resultando escandaloso para as mentalidades mais extremosas. A Relíquia, junto a outros textos de Eça, foi livro proibido na Espanha, durante o franquismo.7 Precisamente, Aparecida de Fátima Bueno, num estudo recente, analisa de forma acurada o tratamento heterodoxo e crítico do tema religioso n'A Relíquia, como causa importante da recepção adversa do romance.8

Por isso, a epígrafe da discórdia bem poderia ter sentido polêmico num plano social, o que permitiria analisar o fundo histórico e político d'A Relíquia até agora sistematicamente obliterado tanto pelas leituras estéticas quanto pelas éticas.9 O problema já foi colocado com exatidão por Óscar Lopes quando se pergunta: "Contém este romance uma lição ética, ou o simples constat de um cepticismo moral, ligado a uma pura fruição esteticista? E como é que, na sua intenção mais viva ou profunda, se estabelece a relação entre uma herança cristã (sob que exegese?) e uma filosofia progressista da história?"10

O subtítulo parece envolver um projeto que não é só estético ou moral senão também aplicável na ordem dos fatos da vida nacional. Por isso interessa-nos pôr em destaque:

a)Que os diversos sentidos da epígrafe, especialmente o estético-formal, têm como eixo estruturador uma leitura histórica do romance que relativiza uma interpretação ética.

b)Que o romance traça um esquema histórico português contrastante entre passado e presente, no qual ficam representadas as idéias de Antero de Quental e Oliveira Martins. Um contraste espacializado nas oposições de Oriente-Ocidente e Palestina-Portugal.

Em princípio, fica claro que o romance segue de perto o projeto literário de Eça de Queirós de pintar a sociedade lisboeta criticamente, projeto que se continua até o final da vida tal como já o demonstrara Beatriz Berrini.11 Eça escreve a Teófilo Braga em 1878: "... pintar a sociedade portuguesa tal qual a fez o constitucionalismo desde 1830 - e mostra-lhe, como num espelho, que triste país eles formam - eles e elas".12 Assim, a questão do realismo bem poderia ser pensada mais comodamente se leva-se em conta as diferenças culturais e históricas da sociedade portuguesa, diferenças perante as quais a escritura de Eça procura uma adesão em termos incontestavelmente realistas, embora não naturalistas.13 Nesse sentido, intencionalmente, em termos sociais e culturais, A Relíquia parece desenvolver-se um tanto anacronicamente. Referimo-nos a certo ambiente geral que semelha mais o próprio da década de 40 ou de 50 que os anos 70, no transcurso dos quais atua Teodorico; pelo menos na primeira parte, antes da viagem.14 Esta leve anacronia poderia ser explicada biograficamente na medida em que, como freqüentemente afirma-se, Eça tinha um conhecimento pobre da realidade portuguesa devido ao seu afastamento profissional. Não obstante, o romance talvez se construa com base nas estratégias de comportamento social da burguesia portuguesa de meados de século, muito características, uma atitude de imobilidade manifesta e de mimetização com as práticas da aristocracia.

Num plano diacrônico, a análise da burguesia portuguesa leva em conta três gerações: a primeira estaria encarnada no comendador Godinho, figura na qual pode-se ver refletido o projeto de Mouzinho (falido em vários aspectos) de aproveitar a ordenação antiga com os novos elementos da burguesia.15 Na emblemática "quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso)" (p. 5), pode-se ler o encastramento da nova classe nas estruturas da anterior. Essa quinta do Mosteiro leva, aliás, ao período liberal da supressão das irmandades religiosas em favor da receita do Estado. O pai de Teodorico e o Dr. Margaride representam a geração que assiste ao início da Regeneração. Teodorico, desde o ponto de vista etário, deve-se considerar um membro da geração de 70. E no nível sincrônico, o romance propõe dois modelos de burguesia, a rentística, na qual Teodorico cresce, e a industrial, pela qual faz opção. A primeira é aquela que se beneficiou com o livre câmbio, o âmbito do comendador Godinho, ao qual o pai de Teodorico adere, via influência eclesiástica, como responsável da alfândega de Viana do Castelo.16 O universo da burguesia "clerical", rentística e conservadora, tem por centro a Dona Patrocínio das Neves, quem "...examinava solicitamente um grande caderno de contas" (p. 24). O revestimento nobre desse grupo é evidente. Trata-se de uma burguesia feita às formas da aristocracia que procura mimetizar. O comendador Godinho e Titi são imagens dessa burguesia da primeira metade do século XIX, morando num solar de antigos condes, livre-cambista, enobrecida. Noutro extremo (pelo menos em termos diegéticos) aparece o modelo da burguesia liberal industrial, a personagem Crispim & C.ª.17

Na introdução d'A Relíquia há um trecho significativo das relações históricas de classe que o romance estabelece. É aquele no qual Teodorico rejeita a afirmação -por outra parte, falsa- de Topsius no tocante aos ossos dos antepassados. "... a afirmação de Topsius, desacredita-me perante a Burguesia Liberal." (p. 11)18 O argumento de Teodorico é que a Burguesia Liberal apenas aceita certo tradicionalismo, de nenhuma maneira uma opção pelo Antigo Regime. A atitude que Topsius atribui a Teodorico é, em termos simbólicos, uma conduta do passado longínquo. O olhar do alemão científico é também o olhar do outro, civilizado e moderno, sobre a cultura portuguesa. Uma mirada que a Teodorico parece-lhe injusta e prejudicial. Retomando a pergunta de Óscar Lopes, a localização relativa de Teodorico no campo burguês envolve duas etapas, uma rentístico-conservadora e outra industrial-liberal. Por isso A Relíquia impõe uma leitura ambivalente na medida em que o romance joga com duas vias para Portugal, no marco da grande interrogação sobre a decadência.19 O problema é de que maneira formalizar literariamente não só a tensão senão a passagem de um a outro setor, sem rupturas, sem violências, mas não sem contradições.

Para isso n'A Relíquia conforma-se uma sorte de sub-grupo, diria cautelosamente secreto, em favor da conversão liberal. Como está constituido esse sub-grupo? Participam dele várias personagens. O pai de Teodorico, o Dr. Margaride, Teodorico e Justino. É um campo que abriga um desejo e uma estratégia. O desejo aparece claramente desenvolvido em voltas do tema sexual, não só em Teodorico mas também em Justino e no pai de Teodorico, que morre de apoplexia às portas de uma festa. A estratégia a desenha o Dr. Margaride, conselheiro paternal de Teodorico: "Você vem a herdar tudo, se D. Patrocínio, sua tia e minha senhora, se convencer que deixar-lhe a fortuna a você é como deixá-la à Santa Madre Igreja..." (p. 53). A partir de então Teodorico se comprometerá em "... não deixar ir para Jesus, filho de Maria, a aprazível fortuna do comendador G. Godinho. " (p. 54). Teodorico deverá levar à prática essa missão.

A crítica da religião encobre outras aspirações geracionais, todas contidas na conferência de Antero de 1871, a liquidação dos restos feudais do Antigo Regime e a industrialização de Portugal: "... à inércia industrial, oponhamos a iniciativa do trabalho livre, a indústria do povo, pelo povo, e para o povo ..." O diálogo com Antero é evidente: "... o Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo: a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno."20 O passado remoto é a viagem a Palestina, que se poderia compreender como a viagem às origens religiosas e pobres de Portugal, onde se gestará a mudança de Teodorico. E esse futuro, que se bosqueja como saída da decadência, é o desenvolvimento da indústria, de uma burguesia liberal. Porque, valha a reivindicação, Teodorico semelha, em grande parte, um jovem não participante do movimento iniciado pela Geração de 70, do qual tira algum proveito em benefício de sua própria transformação. Poderiamos imaginar a influência do meio estudiantil de Coimbra, e recolher, inclusive, a crítica à instituição, "onde dormita Minerva" (p. 27): "... às vezes, ao sair, sorrateiro, do portão da igreja, topava com algum condiscípulo republicano, dos que me acompanhavam em Coimbra..." (p. 40). Atingido pela prédica da Geração de 70, é um representante não intelectual, talvez, um exemplo prático da atuação das idéias revolucionárias num contexto possível e adverso.21 Em Teodorico se expressa desde o início a adesão a tendências do século como se pode advertir na sua livre relação perante os apetites carnais, todos eles simbolizando, no romance, a pedra de toque do universo criativo e mais vital. A confraternização nos tempos da escola, equívoca mas eficaz, leva o menino do âmbito clerical a fixar a sua atenção e seu desejo, em térmos de classe, no belo rapaz da burguesia liberal, "...filho da firma Teles, Crispim & C.ª, donos da fábrica de fiação à Pampulha." (p. 22). E poderá alcançar a transição quando levar a cabo a viagem de Oriente a Occidente, em contraposição a seu desejo inicial, da periférica Lisboa à central Paris.22 A idéia brinda-a, mais uma vez, "o esclarecido Dr. Margaride". A resolução simbólica da estratégia do Dr. Margaride constituir-se-á na falida coroa de espinhos.

A viagem inicia-se em 1875. É, significativamente, o ano em que a Inglaterra adquere as ações sobre o Canal de Suez. Eça traslada a data autobiográfica de 1869 para 1875 com o objetivo de que seu relato esteja ainda mais profundamente enraizado na história.23 Porque num sentido muito português, A Relíquia é um romance atravessado pelo Oriente. A situação de Alpedrinha sintetiza o problema, "...entre os povos do Oriente, te gastas nas ocupações únicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos modernos Lusíadas -descansar encostado às esquinas, ou tristemente carregar fardos alheios ..." (p. 289-90). Parte da fortuna da Titi são "... pratas e louças da Índia ..." (p. 26).

É notável que, contra a costumeira viagem a Paris (Paris capital literária; Paris, cidade luz; Paris, centro da moda e do espetáculo; Paris, civilização), a viagem ao Oriente serve a Teodorico para transformar sua visão do mundo : "... depois voltei - e uma grande mudança se fez nos meus bens e na minha moral." (p. 5). Essa mudança, em termos intertextuais, constitui o sonho do capítulo 3º que não é mais que a resolução estético-literária da leitura da Vie de Jesus de Renan.24 Uma leitura secreta para Teodorico? Seria por isso uma leitura-sonho, muito conveniente ao carácter anti-intelectual da personagem e ao ambiente repressivo português, como pôde-se constatar historicamente ao momento da interdição da conferência de Salomão Sáragga25 : "O empregado, cuja carteira eu ocupava, tornara-se-lhe sobretudo intolerável por escrever no Futuro, gazeta republicana, folhetins louvando Renan e ultrajando a Eucaristia." (p. 342-3). Explica, aliás, o carácter liberador e transformador da viagem a Oriente. "Este sonho, diz João Medina, que ocupa um terço da obra, apresenta assim um sentido de revelação e de resgate."26 Uma viagem que a princípio se apresenta como uma peregrinação tradicional e, portanto, como um reforço das idéias conservadoras, só inverte seu valor na medida em que resulta uma experiência equiparável à leitura de Renan. É mais, trata-se de uma experiência contida no texto de Renan.27 A leitura-sonho de Renan, por parte de Teodorico Raposo, inserida na viagem a Oriente, então, serve-lhe de passagem transfomadora. O resultado é a contrapartida dos reflexos preconceituosos do "orientalismo" e da diferença que seu discurso instaura, no sentido de fazer visível o liberalismo e facilitar a escolha pelos negócios e pela indústria. Desde "um casarão, num largo cheio de lama... que era Lisboa..." (Pág. 18) a uma "cidade bárbara da Ásia" (Pág. 55). No seu conhecido estudo sobre o orientalismo Edward Said28 mostra de que maneira o Oriente existe para o Ocidente e se constrói por e em relação a este último. É a imagem do espelho do que é inferior e estrangeiro. No óptica de Said, de que maneira n'A Relíquia Oriente existe para Ocidente, isto é, para Portugal? E de que maneira é construído por e em relação com Ocidente? No cenário ficcional, a composição ocidental abarca Alemanha, Inglaterra e, de maneira mais problemática, Portugal. Palestina bem poderia ler-se como um espelho do inferior e do outro. A propósito, a decadente ironia de Fradique na carta a Mr Betrand, engenheiro na Palestina.29 Afirma Said em Cultura e imperialismo: "Todas las culturas tienden a construir representaciones de las culturas extranjeras para aprehenderlas de la mejor manera posible o de algún modo controlarlas."30

A Relíquia marca, todavia, uma diferença fundamental com respeito aos romances dos países centrais de Ocidente, os que se nutrem de um sistema de representações enquadrado pelas forças políticas que permitem pensar o Oriente desde a compreensão ocidental. O romance de Eça tem do Oriente, obrigatoriamente, uma mirada periférica, mediada, e temporalmente invertida. A Relíquia é uma viagem ao passado português, permitida (a viagem e o romance) pela supremacia ocidental, queremos dizer, a cultura francesa ou alemã via Renan ou Topsius e o imperialismo inglês no que respeita a meios de transportes, discursos e relações. Justamente, a relação com Mary pode ser lida como o efeito da arrogância pueril (conquistador - conquistado?) mas é, de todas as maneiras, o efeito de uma associação "carnal" cujo resultado e cuja prova é a camisa que substitui a coroa de espinhos: "... o terrível documento da minha junção com a sórdida Mary ..." (Pág. 305). É notável, mas no romance de Eça o Oriente leva às raízes culturais portuguesas. Essa viagem facilita a Teodorico contrapor uma imagem de Ocidente na qual inserir Portugal. Portugal seria como a Palestina. Portugal não deveria ser a Palestina: "-Tu já estiveste em Jerusalém, Alpedrinha? (...) -Não senhor, mas sei .. Pior que Braga!" (Pág. 95). O papel de Portugal nesse jogo de espelhos o faz participar, ao mesmo tempo, de Ocidente e de Oriente, do passado e do futuro.

A fórmula da epígrafe ecoa em diversos elementos da narração. A religião como teatro, como representação; o recurso dramático da confusão das caixas; o altar da Titi; o fingimento; os sonhos; as falsas relíquias; a fanfarrice; o exagero. Ficção, engano, representação. É notável a importância do episódio farsesco da troca de pacotes. O processo narrativo enquadra-se naquilo que observara Bakhtine na cultura do carnaval, a ambivalência, a visão dialética da cultura popular.31 Os pacotes semelham as máscaras carnavalescas que não ocultam; antes revelam e esclarecem a lógica ambivalente do romance. Em termos de Bakhtine, os pacotes n'A Relíquia, equivalentes a máscaras, estão relacionados à transição e à metamorfose, exprimem o plano lúdico da vida, o desejo sexual e as ânsias de transformação social. São elementos da mudança e a relatividade.32

A ambivalência veiculiza o principal problema do romance, a coêrencia da burguesia portuguesa. Poderia finalmente ela descobrir seus objetivos sem refugiar-se sob as vestes do Antigo Regime? De maneira que, ao promediar o terceiro quarto de século, a questão era saber se o Antigo Regime havia sido realmente superado, na medida em que a burguesia ainda parecia continuar se revestindo com as formas anteriores. O que implicava um olhar crítico da história de parte de Eça: a constatação da sobrevivência da fórmula social e política mais efetiva que a "nudez forte da verdade". Há nesse sentido mais uma preocupação econômica em relação ao destino dos capitais nas mãos dos setores clericais e conservadores, o engajamento com o setor menos reacionário da burguesia portuguesa, aquele representado por Crispim & C.ª e um olhar, franco, perante a emergência do imperialismo britânico. Nesse caso, o ponto chave é elucidar se Teodorico propõe uma mudança com respeito a seus antepassados. É Teodorico, feito o comendador Godinho, morando na quinta que fora dos condes de Lindoso? Teodorico realiza, efetivamente, a pasagem de um espaço a outro do campo burguês? Esta é uma das diferenças de Teodorico no que respeita aos maiores, isto é, o pai e o Dr. Margaride. Não obstante, é preciso levar em conta, por exemplo, que há um erótico paralelismo aliancístico entre pai e filho. O pai faz-se amigo do Bispo na década de cinqüenta enquanto Teodorico descobre os apaixonados sinais do colega de internado, Crispim. Teodorico poderia estar repetindo esse comportamento da geração passada. Vale dizer, verificar-se-ia apenas um projecto trans-geracional que consistiria na inserção do novo elemento burguês nas tradicionais estruturas do Antigo Regime.33 As palavras finais de Teodorico, no sentido de ter voltado a sua estratégia hipócrita, da qual se poderia pensar, em princípio, ser o resultado de um desengano com o campo industrial, em que a personagem observa os mesmos comportamentos interesseiros da burguesia rentística, essas palavras finais, na verdade, são a conseqüência de reconhecer a impossibilidade da revolução anteriana. No plano estético, a resultante é um realismo à maneira da burguesia portuguesa. A fantasia e seu véu diáfano apenas pretendem representar esse movimento evidenciador da realidade mas também disfarçado da vida social, porque aquilo que se pretende atingir é alvo mais importante que a verdade (perigosa também), a fortuna da Titi. Isto último falando também no tocante ao público numa prédica intelectual geracional. Queremos dizer, isso parece quase um programa possível quando Teodorico percebe como impossível a substituição anteriana de revolução por cristianismo no mundo moderno, toda vez que, como assinala Louis A. Montrose, "... the possibilities and patterns for action are always socially and historically situated, always limited and limiting; and that there is not necessary relationship between the intentions of actors and the outcomes of their actions."34

Como pano de fundo espalham-se, dialogicamente, os juízos de Oliveira Martins em Portugal contemporâneo : "...um sistema de fórmulas, mais do que nunca vazias da realidade, liberalismo, catolicismo, que são? Hipocrisias inconscientes de quem não tem na alma a força, nem na mente a capacidade de conceber e defender ideias."35 Por isso, as palavras de Teodorico contêm uma fórmula econômica, o lamento por no ter podido conseguir o trasvasamento do capital do setor rentístico-clerical ao liberal-industrial. E, num âmbito aliancista e de negociação, levar a cabo a mudança sem rompimentos, de forma que a nova burguesia aproveite o fluxo de capital do setor conservador como numa troca de pacotes na qual a novidade pareça relíquia. Nesse sentido, o romance capta de maneira notável o seu tempo e o problema, insolúvel, permanentemente adiado: o da industrialização de Portugal. No diagnóstico de Oliveira Martins: "...as populações rurais e as urbanas, a propriedade e o capital, sem o anexo da indústria, isoladas, não se penetram."36

A reflexão final, ("E tudo isto perdera! Por quê? Porque houve um momento em que me faltou esse descarado heroísmo de afirmar..."), tida, as vezes, como falência moral, cremos que não constitui renunciamento à opção burguesa. Ela encobre a pergunta sobre as possibilidades da aristocracia fazer a passagem do sistema rentístico ao sistema industrial, do passado de Oriente ao progresso de Ocidente, de uma moral religiosa a uma moral laica, da nostalgia colonial à concorrência imperialista, das glórias longínquas à dependência da Inglaterra. Dos três pacotes em questão, um, fabuloso e preconceituoso (aquele contendo os ossos de antepassados), é rejeitado e desmentido. O outro, o da coroa de espinhos, representa a solução posta em prática até então pela geração do pai de Teodorico e o Dr. Margaride. O pacote contendo a camisa da Mary simboliza a nova realidade, iniludível, inegável, a da presença de Inglaterra no contexto de competência internacional.37 O programa educador da Geração de 70 e das Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense, especialmente a conferência de Antero, se insere no seu contexto internacional. Vista contra o pano de fundo do início do Imperialismo, A Relíquia revela-se um campo de polêmica em redor do tema do destino de Portugal, no âmbito do novo cenário político mundial. A camisa da Mary é a prova simbólica da presença inglesa no Oriente, da força de sua indústria textil, da concorrência dos produtos que ingressam no mercado português, da nova moral. Mas também da contra-imagem modernizadora para Portugal, em suma, da ambivalência do prejudicial e progressista. É por isso uma prenda íntima apreciada e humilhante, a "camisa suja da Mary" (p. 335), o instrumento melhor, segundo Teodorico pensa, não sem ironia, se tivesse podido disfarçar-se, no momento oportuno, com "o manto diáfano da fantasia".


Notas

1. Publicou-se em folhetins na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, entre os dias 24 de abril e 10 de junho de 1887 e em livro nesse mesmo ano.

2. "Correspondência", Obras de Eça de Queirós, Porto, Lello & Irmão, 1966, vol. III, p. 575.

3. João Gaspar Simões, Eça de Queiroz. O homem e o artista, Lisboa/Rio de Janeiro, Dois Mundos, 1945, p. 455. O mesmo juízo mantém-se em Vida e obra de Eça de Queirós, Lisboa, Bertrand, 1980, 3ª ed.

4. Álvaro Lins, História Literária de Eça de Queiroz, Lisboa, Bertrand, 1959, 2ª ed.

5. Com o preconceito "ético" relaciona-se a análise que filia o romance com a picaresca; em verdade, sobre uma base fracamente analógica. V. Alberto Machado da Rosa, Eça, discípulo de Machado? , Lisboa, Presença, s/d. Cal, Ernesto Guerra da, "A Relíquia: romance picaresco e cervantino", Problemas do romance cervantino e sua projecção no romance ibérico, Rio de Janeiro, Universidade Federal de Rio de Janeiro, 1973. Trullemans, Ulla, "A Relíquia d'Eça de Queiroz: notes sur la structure d'un anti-roman picaresque", Revue Romane 6 (1971) p. 85-113.

6. Portugal de Eça de Queirós, Lisboa, Casa da Moeda, 1984.

7. Vid. Elena Losada Soler. Eça de Quieroz en la crítica española. Tese de doutoramento, Barcelona, Universidad de Barcelona, 1986, mimeo. "La fortuna literaria de Eça de Queiroz en España", Revista da Faculdade de Letras 19-20 (1996) p. 89-96.

8. Cfr. Aparecida de Fátima Bueno, "O Evangelho segundo S. Teodorico: a releitura da Paixão em Eça de Queiroz", Colóquio Romance Histórico Recorrências e Transformações, Universidade Federal de Minas Gerais, novembro de 1998, mimeo.

9. Em palavras de Nicolò Pasero: "...definire i modi in cui si esprime all'interno del testo l'appartenenza alla totalità culturale..." Romano Luperini, "La storia nei testi. Intervista a Nicolò Pasero", Allegoria 15 (1993) p. 97.

10. Óscar Lopes, Álbum de família. Ensaios sobre autores portugueses do século XIX, Lisboa, Caminho, 1984, p. 92.

11. Vid. Beatriz Berrini, "A aristocracia portuguesa sob a perversa mira de Eça de Quieroz", Temas portugueses e brasileiros (Luis Forjaz Trigueiros e Lélia Parreira Duarte), Lisboa, ICALP, 1992, p. 499-509. Veja-se também: Cleonice Berardinelli, "Para uma análise estructural da obra de Eça de Queiroz", Estudos de literatura portuguesa, Lisboa, Casa da Moeda, 1985.

12. "Correspondência", Obras de Eça de Queirós, Porto, Lello & Irmão, 1966, vol. III, p. 517.

13. Vid. Carlos Reis, Literatura portuguesa moderna e contemporânea, Lisboa, Universidade Aberta, 1990, p. 148-9 e 156-7.

14. A ambigüidade temporal também verifica-semuito sugestivamente em A ilustre casa de Ramires. Vid. Carlos Alberto Pasero, "Historia y discurso regenerador en A ilustre casa de Ramires de Eça de Queirós", Boletim do Centro de Estudos Portugueses 18, 22 (Belo Horizonte, 1998) p. 53-68.

15. Cfr. Miriam Halpern Pereira, Política e economía. Portugal en los siglos XIX e XX, trad. Basílio Losada, Barcelona, Ariel, 1984.

16. Viana do Castelo é o povoado no qual fora eleito deputado Oliveira Martins em 1885.

17. Oliveira Marques salienta a importância da indústria textil no período. Cfr. A. H. de Oliveira Marques, História de Portugal, Lisboa, Palas, 1986, vol. III.

18. Citamos de: A Relíquia, Porto, Lello & Irmão, 1950. Consignamos entre parênteses o número de página.

19. Vid. António Machado Pires, A ideia de decadência na Geração de 70, Lisboa, Vega, 1992, 2ª ed.

20. Cfr. Antero de Quental, Causas da decadência dos povos peninsulares, Lisboa, Ulmeiro, Cadernos Peninsulares, 1970.

21. "De facto, primeiramente, Raposo conclui pela inutilidade da hipocrisia, de acordo com uma consciência moral imanentista, expressa em termos kantianos, proudhonianos ou anterianos ..." A. J. Saraiva e Óscar Lopes, História da literatura portuguesa, Lisboa, Porto, 1996, 17ª ed., p. 873.

22. "Toda essa semana, então a ideia de ver Paris brilhou incessantemente no meu espírito... a ansiedade de deixar Lisboa..." (p. 69).

23. Cfr. Eric Hobsbawm, La era del imperio, 1875-1914, trad. Juan Faci Lacasta, Buenos Aires, Crítica, 1998.

24. Cfr. Aparecida de Fátima Bueno. op. cit. A Professora Bueno aponta como exemplo de intertexto o ante-penúltimo capítulo do livro de Renan.

25. Vid. João Medina, As conferências do Cassino e o socialismo em Portugal, Lisboa, Dom Quixote, 1984, p. 81 e ss.

26. João Medina, "A Relíquia, romance de peregrinação e descoberta", Dicionário de Eça de Queiróz (A. de Campos Matos), Lisboa, Caminho, 1993, 2ª ed. , p. 834.

27. Um trecho chave: "Toute cette histoire qui, à distance, semble flotter dans les nuages d'un monde sans réalité prit ainsi un corps, une solidité qui m'étonnèrent. L'accord frappant des textes et des lieux, la merveilleuse harmonie de l'idéal évangélique avec le paysage qui lui servit de cadre furent pour moi une révélation. J'eus devant les yeux un cinquième Évangelique, lacéré, mais lisible encore, et désormais, à travers les récits de Matthieu et de Marc, au lieu d'un être abstrait, qu'on dirait n'avoir jamais existé, je vis une admirable figure humaine vivre, se mouvoir. Pendant l'été, ayant dû monter à Gahazir, dans le Liban, pour prendre un peu de repos, je fixai en traits rapides l'image qui m'était apparue, et il en résulta cette histoire." Ernest Renan, Vie de Jésus, Paris, Calmann-Lévy, 1965, p. 81-2.

28. Cfr. Orientalism, Londres, Routledge & Kegan Paul, 1978.

29. Cfr. A Correspondência de Fradique Mendes, Porto: Lello & Irmão, 1945.

30. Edward. Said, Cultura e imperialismo, trad. Nora Catelli, Barcelona, Anagrama, 1996, p. 170.

31. Vid. Nicolò Pasero, "Dialettica figurata. Implicazioni marxiste del Rabelais di Michail Bachtin", L'immagine riflessa VII (1984) p. 395-414.

32. Cfr. Majaíl Bajtín, La cultura en la Edad Media y el Renacimiento (El contexto de François Rabelais), Barcelona, Alianza, 1994.

33. Miriam Halpern Pereira, op. cit., refere-se à classe emergente depóis de 1820 como: "El envoltorio antiguo sirve para recubrir un contenido nuevo: la burguesía, que se territorializa, procura utilizar el prestigio del estatuto de nobleza.", p. 50.

34. Louis Montrose, "Professing the Renaissance: the poetics and politics of culture", The New Historicism (H. Aram Veeser Ed.), New York, Routledge, 1989, p. 21.

35. Oliveira Martins, Portugal contemporâneo II, Lisboa, Guimarães, 1979, 3ª ed., p. 320. Joga também importante papel no desenvolvimento da acção a teoria historiográfica do acaso defendida por Oliveira Martins. Pode-se perceber o influxo no motivo do intercâmbio dos pacotes e no encontro de Teodorico con Crispim & C.ª.

36. Ibíd., p. 331. Oliveira Martins "contava interessar os industriais do Porto num programa de fomento da indústria nacional que incluia o estabelecimento de pautas proteccionistas."(A. J. Saraiva e Óscar Lopes, op. cit. , p. 843).

37. O conflito português de finais do século passado guarda certa analogia com o presente desenvolvimento das nossas economias emergentes na América Latina. Num estudo de recente publicação, Entre a Nação e a barbárie. Os dilemas do capitalismo dependente (Petrópolis, Vozes, 1999), o economista brasileiro Plínio de Arruda Sampaio Jr. denuncia energicamente o estado atual da globalização, rejeitando "o conformismo de quem postula que as sociedades dependentes não têm outra escolha senão aceitar as tendências espontâneas do sistema capitalista mundial...", p. 12.