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Rodrigues Lapa e a estilística da língua portuguesa

 
Amadeu Torres
(Prof. Catedrático da Universidade Católica
Portuguesa e da Universidade do Minho)

1. Era o positivismo, orlado de franjas do organismo evolucionista e, em menor escala, do monismo de raízes materialistas, a corrente filosófica que alimentava certos estratos influentes da cultura portuguesa aquando do nascimento, há um século, em Anadia, do Prof. Manuel Rodrigues Lapa, precisamente a 22 de Abril de 1897. Em simultâneo, no campo das Letras, pontificavam o historicismo e a crítica literária, enquanto o interesse pela psicologia e sociologia começava igualmente a entrar em jogo. Taine, Comte, Littre, Stuart Mill, Herbert Spencer, Darwin, Buchner, Haeckel haviam não só transposto o átrio do Curso Superior de Letras e a Porta Férrea da Universidade, mas outrossim comparticipavam em tertúlias de capas negras e aliciavam intelectuais como Teófilo Braga, Augusto Soromenho, Teixeira Bastos, Júlio de Matos, Consiglieri Pedroso, M. Emídio Garcia, aparecendo consequentemente em periódicos como O Século, O Comércio de Portugal e em revistas como O Positivismo, a Era Nova e a Revista de Estudos Livres.1

Adentro destas coordenadas ideológicas, que se prolongaram cá por algumas décadas, talvez, quem sabe, a modos de compensação pelo atraso da chegada, compreende-se sem dificuldade o teor das primeiras obras, já causadoras de grande impacto, de Rodrigues Lapa – Das origens da poesia lírica em Portugal na Idade-Média (Lisboa, Seara Nova, 1929) e Lições de Literatura portuguesa -Época medieval (Univ. de Lisboa, Centro de Estudos Filológicos, 1934), ambas relacionadas com a sua História da língua e literatura portuguesa, de que aquela constituiu o volume primeiro, como aliás se declara no "Prefácio" desta.

Pelo conteúdo e fontes citadas, desde Alfred Jeanroy, Gaston Paris, Edmond Faral, Hans Spanke, Menéndez y Pelayo, Carolina Michaelis, Adolfo Coelho, Friedrich Diez, até Teófilo Braga, Oscar Nobiling, Joseph Bédier, Julian Ribera e Henry Lang, entre outros, vê-se que predomina a pesquisa factual, a indagação determinística das causalidades frias, o racionalismo analítico aglomerador de explicações e hipóteses congraçantes de um corpo dissecado em mesa operatória, mas cujo psiquismo e "élan vital" não atraíram as atenções do cirurgião.

Sintomático é Karl Vossler figurar uma única vez na bibliografia, através da obra editada em 1918 pela Academia das Ciências da Baviera e intitulada Der Minnesang des Bernard von Ventadorn. Note-se, contudo, que este pormenor nada quer traduzir em desabono daqueles dois trabalhos do nosso ilustre filólogo, um dos quais deu logo brado como tese de doutoramento.

Entretanto as posições saint-beuvianas da história literária2 e as gelidamente comparativas da linguística histórica, rumavam já, nos princípios do século, para um antipositivismo e anti-racionalismo de virtualidades múltiplas. A linguagem, afinal, não podia ser apenas um objecto lançado como pedra nos caminhos do homem, decomponível em elementos simples e inertes, sujeita, ao gosto de Augusto Schleicher, a leis rígidas semelhantes às das ciências naturais e abordável tão-somente na generalidade abstracto-calculada. Na realidade, ela é também "e n e r g e i a , actividade espiritual e criadora, intuição e expressão do espírito",3 porque mantenedora e fomentadora, em moto contínuo, de um interface privilegiado com o pensamento e com o indivíduo como idiossincrasia e microcosmo físio-psiquicamente plurifacetado.

Para esta reviravolta contribuíram sobretudo Humboldt, Schuchardt e a sua teoria da dependência entre vivências e leis psicológicas ou sociológicas; Wundt, Freud, o anticartesianismo de Vico, Croce e as suas identificações em arte e linguagem, linguística e estética; o intuicionismo de Bergson e, mais para trás, o existencialismo de Kierkegaard nas suas investidas contra o limitativo generalismo racionalista de Kant e seus epígonos, tudo concorrendo para abalar a cidadela desumanizante dos comteanos.4

A nova ciência, humanizadora da linguística e da filologia, toma então o nome de Estilística e três obras marcantes a assinalam. Uma delas é o Traité de stylistique française (Heidelberg, Winter, 1902), de Charles Bally (1865-1947), iniciadora da escola da estilística descritiva, também conhecida por estilística da expressão, confinada ao plano da língua e às linguagens não literárias, portanto correntes ou esteticamente desintencionadas. Outra tem o título de Positivismus und Idealismus in der Sprachwissenschaft (Heidelberg, 1904) de Karl Vossler (1872-1949), na qual se propõe "como objecto de estudo a linguagem como criação artística e, mais particularmente, a linguagem literária enquanto criação individual",5 a ser examinada portanto no plano da fala: é a escola da crítica estética ou estilística literária, com incidência sobre autores e obras determinadas, sem no entanto menosprezar, ao invés de Spitzer, aspectos estruturais como os géneros literários ou as circunstâncias sociais e culturais daqueles.

Finalmente, Die Wortbildung als stilistiches Mittel exemplifiziert in Rabelais (Munchen, 1911) e Stilstudien em 2 vols. (ibid., 1928), demarcando as tendências idealistas de Leo Spitzer (1887-1960) que, tendo sido afeiçoado às teorias freudianas, posteriormente aderiu em parte à doutrina de Vossler e Croce. A sua crítica estilística centra-se no que chamou de "círculo filológico" indutivo/dedutivo: de um traço ou desvio de estilo intuído, parte para um factor genérico e nuclear iluminador do todo da obra, e daqui, por dedução, tenta explicar e compreender a multiplicidade de elementos da mesma e a psique dos intervenientes. É uma estilística da fala, como a de Vossler, mas com excessos psicologistas ou biografistas, propendendo bastante para a aceitação da "Erlebnis" como chave da obra. Três escolas estilísticas, ou melhor, duas, por a segunda e a terceira não diferirem muito, escolas estas que vão felizmente acabar com o fosso positivista aberto, durante gerações, entre linguistas sem gosto estético e filólogos sem saber linguístico, preenchendo-se assim a brecha que separava a ciência da literatura e as ciências da linguagem.6 Ora, num contexto destes, o percurso de Rodrigues Lapa desde a fase dos anos 30 para a dos anos 40, quer dizer, da história literária e linguística metodológica e epistemologicamente engrenadas nos velhos moldes para as análises das novas filologias fez-se, propriamente falando, por contiguidade, sem qualquer salto comparável ao de Saussure quando, levantando-se do historicismo das escolas de Berlim, Leipsig e Paris, pousou no estruturalismo com que enobreceu a escola de Genebra.

2. Não custa, pois, admitir que a Estilística da língua portuguesa,7 saída em Lisboa, à conta da Seara Nova, em 1945, num 8º. médio de cerca de 300 pp., ocupa uma espécie de epicentro de tudo o que Rodrigues Lapa escreveu. Merece, por isso, atenções especiais, até porque se tratou de um trabalho verdadeiramente inovador para o seu tempo, daqueles "rari nantes in gurgite vasto" cuja singularidade ainda nenhum plural ultrapassou entre nós. Vamos folheá-lo rapidamente.

No "Prefácio", quanto a subsídios de consulta o Prof. Rodrigues Lapa cita, de modo explícito, apenas o Tratado de estilística francesa de Bally como fonte principal, mesmo no concernente à terminologia adoptada, embora discordando do mestre suíço por causa da "separação demasiado rígida que faz entre linguagem corrente e linguagem literária, e aderindo, consequentemente, neste particular, à opinião de Vossler e Spitzer. Como fontes secundárias, indica ele haver adoptado Leo Spitzer para os três capítulos sobre palavras invariáveis e Amado Alonso para os dois sobre artigos e nomes.

Por seu turno, as terciárias ou de terceira ordem, em cujas obras não sei se acertei cabalmente, foram: Bréal, em Essai de sémantique (Paris, Hachette, 1897), o seu livro mais conhecido e apreciado; A. Darmesteter, em La vie des mots étudiée dans leurs significations (Paris, Delagrave, 1887); Van Ginneken, em Les principes de linguistique psychologique, citado na já apontada obra de Guiraud; Ferdinand Brunot, em La pensée et la langue (3ª. ed., Paris, 1936); Vossler, em Introducción a la estilística romance (Buenos Aires, 1932), com nova edição em 1942, de parceria com Spitzer e Helmut Hatzfeld (Buenos Aires, Facultad de Filosofía y Letras); Spitzer, em Romanische Stil- und Literaturstudien, 2 vols. (Marburgo, 1931) além de Stilstudien (1928), atrás mencionado; Amado Alonso, em Poesia y estilo em Pablo Neruda (Buenos Aires, 1940); Said Ali, em Gramática histórica na secção dedicada à lexiologia, assim como nas 10 pp. finais sobre o gerúndio, e em Dificuldades da língua portuguesa, a propósito dos meios de expressão e alterações semânticas. A simpatia de Rodrigues Lapa pelo autor brasileiro, radica possivelmente nesta frase do mesmo Said Ali: "Não dissocio do homem pensante e da sua psicologia as alterações por que passa a linguagem em tantos séculos. É a psicologia elemento essencial e indispensável à investigação de pontos obscuros".8

Porque Rodrigues Lapa alude a outras fontes sem concretizar quais, avento estas, de aceitável probabilidade: B. Croce, Estetica come scienza dell’espressione e linguistica generale, já na 5ª. ed., Bari, Laterza, em 1946; Giulio Bertoni, Lingua e pensiero (Florença, 1932); J. Marouseau, Précis de Stylistique françaire (Paris, 1941); Albert Dauzat, Le génie de la langue francaise (Paris, 1943); Charles Bally, Élise Richter, Amado Alonso y Raymon Lida, El impressionismo en el lenguaje, Buenos Aires, 1936; Richard Moritz Meyer, Deutsche Stilistik (2ª. ed., Munique, 1913); Maurice Gramont, Le vers français (Paris, Delagrave, 1913).9

Ainda no "Prefácio" o autor avisa-nos que o volume em causa esteve para intitular-se Estética da língua portuguesa, do que desistiu por já haver no Brasil um outro assim designado. Eis um pormenor que nos alerta para a proximidade de dois conceitos-chave nas Letras: a estilística ou estudo das formas substanciais da matéria que é a linguagem, segundo termos de J. Herculano de Carvalho; a estética ou indagação dos gradientes do belo daí resultantes, de acordo com uma paráfrase à definição de pulchrum por S. Tomás de Aquino: aquilo que visto, ouvido, sentido ou percebido, agrada.

3. Consta a Estilística da língua portuguesa de um recheio temático seriável em sete conjuntos: vocabulário e sua formação (99 pp.); artigo e nomes (39 pp.); fraseologia (18 pp.); pronomes (23 pp.); verbo (43 pp.); concordância (24 pp.); palavras invariáveis (51 pp.).

A propósito do vocabulário de fundo lexical, há observações finas: as palavras despertando halos de imagens (auditivas, visuais, térmicas, motrizes, tácteis), colorações, sabores, sinestesias portanto; recordações, impulsos de atracção ou repulsão, encantamento ou desencanto, enfim, conotações de origem psicológica, social, cultural, consoante os contextos. Sem olvidar as sugestões fono-estilísticas de não poucos grafemas e a carga emotiva de certas repetições; a expressividade gradativa dos sinónimos; o valor sentimental e intelectual dos registos da linguagem; as concatenações sintagmáticas equivalentes conceptualmente, mas emocional ou afectivamente diversas; os efeitos evocativos de alguns termos ou a sua capacidade de delineação de personagens ou ambientes, o que desculpa a predilecção eventual de escritores pelo estrangeirismo, pelos neologismos e até por formas retintamente arcaicas.

E aqui permito-me recordar que já em 1935, Viktor Vinogradov, em Yasuk Puschkina (Moscovo, 1935) apontava intuitos estilísticos do poeta Eugénio Oneguine do servir-se de múltiplos registos da língua russa: o antigo eslavo, a fala popular, os galicismos e os germanismos. Outro tanto se deduz do gosto pelas cacofonias, pelas articulações dialectais e saxónicas de Gerald Hopkins; do pendor para arcaísmos, neologismos e provincianismos de Spenser (Edmund);10 e das super-construções neológicas de Joyce em Finnegans Wake.

No capítulo da fraseologia, Rodrigues Lapa destrinça excelentemente grupos, locuções estereotipadas e unidades fraseológicas. Estas últimas são as mesmas que Eugénio Coseriu seleccionou para a boa organização de estudos em lexemática e similares, pela capacidade, de que tais locuções gozam, de se adaptarem sucessivamente consoante os elementos comparticipantes da coesão do grupo: ter fortuna, ter cuidado, ir ter com; nada ter com isso.11

Muito pertinentes, de igual modo, as achegas sobre aspectos afectivos, representações mentais genéricas ou particularizadas, quer qualitativas quer quantitativas. E num destes pontos, afigura-se-me que Rodrigues Lapa não terá razão, ou será pouco claro. Nos exemplos – o homem é acanhado, o homem é mortal12 parece atribuir ao artigo individuação conceptual na primeira proposição, e a totalização na segunda. Ora, tal individuação não decorre do facto de o artigo "ter sido antigamente pronome demonstrativo", mas do respectivo contexto, tanto que também pode equivaler a uma particularização, ou seja, algum homem é acanhado. Estas duas quantificações não provêm, pois, do artigo, mas do adjectivo predicativo, esclarecido pela concomitante visão do mundo.

No concernente aos artigos indefinidos, o autor frisando a "vis" sugestiva que despoleta o seu emprego correcto e oportuno, desaprova a fobia que deles sentiam Ferreira de Castro e Soeiro Pereira Gomes, o que os forçou por vezes a construções frásicas arrevesadas ou, pelo menos, de gosto duvidoso.

Ao deter-se nos nomes e não obstante a pertinência de variadas intervenções, exterioriza uma leitura dos substantivos abstractos, susceptível de discussão, em meu entender. Após exemplificar com levantamento, silêncio, rapidez, acrescenta classificarem-se desta forma porque "escapam à experiência dos nossos sentidos". Efectivamente a razão está em que a gramática, sob influência lógico-filosófica de séculos, os considera qual se, separados da substância, existissem em si mesmos como ela. Quanto a pinheiral ser abstracto por representar uma quantidade global e os pinheiros que lá se encontram serem concretos, deve ter havido confusão com determinados e indeterminados, o que não é sinónimo de concretos e abstractos.13

A colocação ou distribuição do adjectivo também lhe motivou parágrafos acertados e justos. Bernard Pottier procederá identicamente num dos capítulos de Vers une sémantique moderne, ao inserir casos destes na análise macrossemântica.

Ainda que a psicologia ou a psico-linguística avant la lettre, seja quase omnipresente em toda a obra, nem por isso a sociologia ou, vá lá, a sócio-linguística nascitura se encontra ausente nalguns textos, nomeadamente ao abordar os pronomes e demais formas de tratamento.

Nos dois capítulos dedicados aos verbos, num dos quais cita Brunot, o emprego dos tempos e modos, as valências aspectuais, a escolha dos particípios e o abuso do gerúndio14 preenchem páginas que continuam actuais, além das que se revestem de acentuado pioneirismo, como as que tratam do aspecto verbal.

As regras da concordância, sempre firmadas nos clássicos da nossa literatura, na minha opinião, e apesar do espírito liberal que transluz em toda esta obra, roça às vezes a demasia, como se à autoridade de tais escritores quadrasse uma espécie de chancela bíblica.15

Finalmente, quanto aos três últimos capítulos acerca das palavras invariáveis, bastará dizer que aí se depara com uma lucidíssima e antecipada incursão no que hoje se chama pragmática da língua, ao distinguir-se, com mestria, no conjunto dos advérbios e conjunções, certos conectores modais ou partículas de agulhagem do discurso e respectivos valores.

4. Sem qualquer intento de secundarização do mérito destes textos e doutros a cuja análise se não procedeu, atente-se agora no ataque cerrado de Rodrigues Lapa às gramática tradicionais, vale dizer, a quantos pedagógica e didacticamente transverteram o seu normativismo, aliás imprescindível até certo ponto, num suplício escolar.

Ouça-se, no "Prefácio": "Enfim, a Estilística é, de ponta a ponta, uma longa diatribe contra Gramática e os gramaticões…". Mais adiante: "a estilística, preconizando a liberdade criadora, está muitas vezes em conflito com as regras da Gramática, que se apoia nos ditames duma tradição empedernida". Escostando-se a Brunot, escreveu: "Não venham pois os gramáticos impor-nos arbitrariedades nas suas listas verbais [] O povo ou os escritores mostram gosto por uma forma; cai no uso e o uso é que faz a lei".16

Três parágrafos à frente: "Aqui só nos compete tratar, de maneira prática, as questões fundamentais que dependem, não propriamente da Gramática, mas da Estilística". Em desacordo com o brasileiro Carlos Góis, que critica os sincretismos de concordância, responde serem tais variantes não equivalências, nem meios supérfluos de expressão, porquanto a uniformidade mataria a Arte. "Ora, morrer por morrer, que morra antes a Gramática".17

Pondo em destaque a força de sugestão no esboço duma atmosfera ou convívio por parte do que Spitzer considerou "notações adverbiais de cenário", remata lamentando que tais morfemas adverbiais sejam "considerados pela Gramática como simples instrumentos de relações lógicas".18 Nas linhas finais do volume, lega-nos a razão suprema da sua confecção : "provar que, para além da rigidez convencional da Gramática, há a liberdade de criação da Estilística".19

Claro que a Rodrigues Lapa assistem bastantes razões; não, porém, em absoluto, apesar dos desentendimentos eventuais entre estas duas "artes" policiadoras da linguagem. No entanto, se não me engano, os principais visados nesta diatribes eram os puristas esturrados, no género de Cándido de Figueiredo (1846-1925) e dos seus "consultórios linguísticos", mantidos, não obstante com enorme acatamento, em jornais de Portugal e do Brasil, embora de si excessivamente zelosos no repúdio de neologismos e estrangeirismos. Unamuno teve atitude semelhante quando, no seu livro En torno al casticismo, advogou, sem mais, a extinção da madrilena Real Academia de la Lengua.

De resto, se a Gramática morresse, à Estilística não ficava outro remédio senão expirar de inanição em simultâneo com a própria linguagem, cujo corpo e estruturas assentam sempre numa gramática, autêntica alma que lhes dá vida. Por outro lado, convém recordar que nem tudo o que a Estilística tomou como objecto formal era alheio à Gramática, inclusive o tratamento dos conectores modais. É que, apesar de radicada na ratio e no rigor lógico, ela não sujeita as dádivas do usus, de si inventivo e alforriado. E só a partir do conhecimento prévio e perfeito das leis verdadeiramente assumidas, é que se alcançou a liberdade de ser e de agir dentro da legalidade, que, neste caso, são os ditames fundamentais da Gramática, seja da língua como tal, seja da comunicação. É neste contexto de liberdade negativa ou de coacção, e positiva ou de autonomia, na acepção de Isaiah Berlin,20 há pouco falecido, que se atinge em pleno o alcance pessoano do conselho de Bernardo Soares, prudente e sóbrio: "Agarre-se à Gramática quem não tiver tempo para a esquecer".

Por falar em Isaiah Berlin, escalonou este filósofo, num ensaio sobre Tolstoi de há mais de 40 anos, os intelectuais ou pensadores em dois conjuntos: o dos ouriços cacheiros, de visão relacionante e global com apoio num centro; e o das raposas, sempre à cata do sucessivo e da novidade, ainda quando contraditórios. O Prof. Manuel Rodrigues Lapa pertence indubitavelmente ao primeiro tipo intelectual: operosidade perquisitória, argúcia crítica, sensibilidade simpatética e meticulosa num arcaboiço de distinto "scholar" cujos trabalhos numerosos, desde os de literatura e linguística histórica à Crestomatia arcaica e outras antologias poéticas, se podem colocar em redor da Estilística da língua portuguesa, a que Serafim da Silva Neto, no Manual de Filologia, augurou "os louros que merece",21 sem no entanto adivinhar que ela havia de ser a obra mais editada e conhecida deste Mestre brilhante de gerações escolares e universitárias, digníssimo das nossas homenagens.


Notas

1 Cfr. Theophilo Braga, As modernas ideias na literatura portugueza. Com um estudo sobre Theophilo Braga e a sua obra, por Teixeira Bastos, vol. II, Porto, Livraria Chardron, 1892, passim; A. Ferrão, Teófilo Braga e o positivismo em Portugal, Lisboa, 1935; M. Busquets de Aguilar, O Curso Superior de Letras (1858-1911), Lisboa, 1939; Álvaro Ribeiro, Os Positivistas. Subsídios para a história da filosofia em Portugal, Lisboa, Livraria Popular de Francisco Franco, 1951; Moreira das Neves, "O positivismo de Teófilo Braga exposto numa carta (inédita)", em Atlântida, vol. 19, Coimbra, 1975, pp. 223-238.

2 Cfr. Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da literatura, 2ª. ed., Coimbra, Almedina, 1968/1969, p. 498-500.

3 Cfr. Id., ibid., p. 568.

4 Cfr. Pierre Guiraud, La Stylistique, Paris, PUF, 1967, pp. 29-44.

5 Cfr. Vítor Manuel de Aguiar e Silva, o.c., p. 571.

6 Cfr. Id., ibid., pp. 563-595; Pierre Guiraud, o. c., pp. 45-86; René Wellek y Austin Warren, Teoria literaria, Madrid, Gredos, 1953, pp. 237-317.

7 Será sempre esta edição o ponto de referência das citações várias, não só por que é ela que marca a viragem que neste trabalho se procurou evidenciar, mas também porque as outras edições, acima da dezena, pouco divergem, salvo em pequenos acrescentos. Além disso, o "Prefácio" acaba por desaparecer, decerto por causa destas três linhas iniciais: "Obrigado pelas circunstâncias a publicar livros para viver, lembrei-me que poderia ser útil aos meus compatriotas, fornecendo-lhes uma série de lições por escrito sobre a arte da redacção e do estilo".

8 Cfr. M. Said Ali, "Prólogo", em Lexeologia do português histórico [ Rio de Janeiro, 1921] , reproduzido na Gramática histórica da Língua portuguesa, Rio de Janeiro, Livraria Académica, 1971, pp. 7-10; id., Dificuldades da língua portuguesa [ Rio de Janeiro, 1908] que em 1971 já andava na 6ª. edição, da dita Livraria Académica.

9 Cfr. Helmut Hatzfeld, Bibliografía crítica de la nueva estilística. Aplicada a las literaturas románicas, Madrid, 1955 [ tradução de A critical bibliography of the new stylistics applied to the romance literatures (1900-1952), Chapel Hill, The Univ. of North Carolina Press, 1953] . Atente-se em que, das obras que se indicam no texto como possivelmente consultadas por Rodrigues Lapa, algumas têm várias edições. O haver-me inclinado para uma, não significa ter sido essa, forçosamente, a manuseada, o que geralmente é de nula relevância.

10 Cfr. René Wellek y Austin Warren, o. c., na nota 6, pp. 298-309.

11 Cfr. M. Rodrigues Lapa, Estilística da Língua portuguesa, Lisboa, Seara Nova, 1945, p. 79.

12 Cfr. Id., ibid., pp. 119-120.

13 Cfr. Id., ibid., p. 131.

14 Cfr. Ferdinand Brunot, La pensée et la langue, 3ª. ed., Paris, 1936. Não confundir com Charles Bruneau que, de parceria com R. L. Wagner, criou na Sorbonne uma escola de estilística de raiz saussureana e de pretensão científica contra o impressionismo intuitivo de Spitzer (vd. Vítor Manuel de Aguiar e Silva, o. c., p. 585; e Pierre Guiraud, o. c., pp. 79-83). Quanto ao gerúndio, cfr. M. Said Ali, Gramática histórica da língua portuguesa, 7ª. ed., Rio de Janeiro, Livraria Académica, 1971, pp. 354-361.

15 Cfr. M. Rodrigues Lapa, o. c., pp. 225-227.

16 Cfr. Id., ibid., pp. 179 e 205.

17 Cfr. Id., ibid., p. 227.

18 Cfr. Id., ibid., pp. 261-263.

19 Cfr. Id., ibid., pp. 296-297.

20 Sir Isaiah Berlin (1909-1997) nasceu em Riga, Letónia, ainda no tempo dos czares. Estudou em Oxford, onde foi um brilhante professor de Teoria Social e Política, sempre adversário de todos os totalitarismos. A obra sobre Tolstoi intitula-se The hedgehog and the fox (1953). Mas deixou outras, importantes, como Four essays on liberty (1969), Vico and Herder (1976), Russian thinkers (1978). Ficou memorável esta sua reflexão: "A liberdade é a liberdade; não é a igualdade, nem a equidade, nem a justiça, nem a felicidade, nem mesmo a consciência tranquila".

21 Cfr. Manual de filologia portuguesa, 3ª. ed., Rio de Janeiro, Presença, 1977, p. 81: "Oxalá consiga este livro, de tão bom sentido linguístico e tão feliz intenção, colher os louros que merece, e os frutos tão necessários ao progresso da Filologia".