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A matriz folclórica e as manifestações artísticas
do romance em verso na literatura brasileira Alice Campos Moreira1
O romance em versos, expressão do imaginário popular na literatura medieval, apresenta notável persistência no Brasil. Pretende-se examinar tal fato sob o aspecto das circunstâncias de produção/recepção do texto literário. Cantar ou narrar, ou mesmo narrar cantando ou recitando são manifestações culturais do ser humano, ao criar a arte da palavra potencializando esteticamente a relação som/sentido, traduzida e codificada em gêneros e espécies literárias, tanto na forma oral como na forma escrita. Encerrado o ciclo da épica clássica, a ficção narrativa ressurgiu durante a Idade Média, sob a forma de "romance em versos" que, evoluindo da matriz folclórica, persiste até nossos dias. As primeiras manifestações escritas da gesta medieval foram modeladas pela tradição oral que já definira as características do gênero romanesco, a extensão e estrutura dos segmentos melódicos geradores de harmonia e ritmo e os processos sonoros e semânticos que asseguraram, além da fruição estética, a preservação do texto pela memória, durante os séculos em que poucos sabiam ler. Daí a preferência pelos metros breves, a redondilha, às vezes mais longos, a endecha, para dar ênfase aos temas elevados, e ainda o apelo às figuras sonoras, todo um conjunto de elementos estruturais sintomáticos de processos estilísticos de extração popular. Contudo, para adaptar-se às exigências da forma escrita, desdobraram-se os agentes narrativos: a pessoa que relata cedeu a palavra ao narrador, sujeito-de-enunciação preso ao circuito interno da comunicação, e o ouvinte transformou-se em leitor. A matriz folclórica também modelou o processo de leitura: substituindo o rapsodo, o leitor recompunha a situação de comunicação, emprestando voz ao narrador e procurando dar a entoação adequada à elocução. Até quando lia para si mesmo, articulava as palavras. Tais atitudes assinalam a inclinação natural pela palavra viva e constituem fator primordial da resistência da forma versificada. Durante a Idade Média, longas narrativas com base bretã ou francesa, de cunho guerreiro, religioso ou mágico, penetraram na Península Ibérica: os ciclos de Carlos Magno, do Rei Artur, os romances de influência italiana, como o Palmeirim, ou os castelhanos, como El Cid. Destaca-se o interessante romance peninsular Amadis de Gaula, com temática próxima a dos pequenos romances da tradição popular portuguesa. Estes últimos, utilizando uma linguagem rude e crua, são repositórios de uma cultura imemorial, romances históricos e cavalheirescos antiqüíssimos que apresentam caráter sentimental, assemelhando-se às baladas ou à lírica peninsular. Foram eles a primeira manifestação da poesia, anterior aos trovadores que, mais cultos, vieram a influenciar a arte original. A literatura passou a ter, então, duas feições: popular e cortesã, divisão que se estendeu à literatura brasileira, herdeira e continuadora das formas medievais portuguesas. D. Dinis e Gil Vicente já tinham reconhecido a importância dessas narrativas primitivas, recolhendo e preservando algumas delas. Almeida Garrett, dando curso à pregação romântica de retorno às raízes medievais, dedicou-se a resgatar esses cantos anônimos de Portugal, ouvidos, desde a infância, meio cantados, meio rezados: xácaras e romances populares de maravilhas e encantamento, como "O Caçador". O poeta também adapta dois desses romances, "Bernal Francês" e "Silvaninha", a que chamou "Adozinda", dando-lhes forma literária em poemas de inegável valor, pela simplicidade, pureza formal e reconstrução adequada da escritura, o que é uma exceção, pois a pura forma narrativa, segundo estudiosos do gênero, não se manifesta nos poetas da nossa língua com a mesma espontaneidade da poesia, porque o gênio poético português tende a satirizar os heróis de suas histórias. As várias espécies de romances em versos se definem pelo modo de narrar: o rimance em que predomina a forma épica, com descrições; na xácara prevalece a forma dramática e o solau, mais plangente e mais lírico, lamenta mais do que conta o fato. Em conseqüência da transmissão oral – os menestréis encurtavam e truncavam os poemas mais longos e mais completos, reduzindo-os a dois ou três lais. Com o tempo, os textos de maior extensão fragmentaram-se em segmentos autônomos e formaram romanceiros. É sob a forma de cantigas, portanto, que se transladaram às terras recém-descobertas de América, África e Ásia. Em Portugal, esses pequenos poemas relatavam aventuras com conotações de natureza política e social. Embrulhados em papel pardo e amarrados com barbante, receberam a denominação de cordel, ou folhas volantes e eram vendidos, nas feiras, tendo ficado conhecidos, ao tempo de Garret, como as edições dos cegos. Eram, também fonte de informações, para um público a mais das vezes iletrado, como ocorre ainda hoje com o cordel dos trovadores brasileiros nordestinos, ou as décimas dos rio-grandenses que, a seu modo, cumprem as funções de cronistas itinerantes. Transplantadas ao Brasil pelos colonizadores, essas narrativas conservaram-se ou originaram variantes, pois os argumentos enriqueceram-se na presença de outras culturas. A nova sociedade, a partir de sua história, começa, então, a formar seus próprios ciclos heróicos e a influência dos mitos acentua, nos processos estilísticos, as marcas originais do lirismo e da oralidade. As narrativas folclóricas brasileiras constituem, conseqüentemente, uma forte vertente de matriz portuguesa, fecundada e reforçada pelos mitos poéticos do imaginário ameríndio e africano, mas sem sofrer alterações estruturais ou funcionais significativas, porque possuem o mesmo fundo natural e primitivo: um contador de histórias e um auditório sequioso por ouvi-las. Eis outra razão da permanência do romance em verso na literatura brasileira. Por último, como no Brasil, até o século XIX, era vedada pela Coroa, a impressão de qualquer texto, as populações interioranas, sem escolas e com imensas dificuldades de acesso ao livro, tinham na comunicação oral o único veículo de cultura, não surpreende o gosto popular pelo romance em versos. A extensão do país e a escassa população distribuída em núcleos distanciados favoreceram a fragmentação e mesmo a pulverização dos romances herdados, mantidos vivos pelo costume de reunirem-se pequenos grupos de gente simples, para ouvirem e contarem histórias maravilhosas que alimentavam a imaginação e o sonho, acalentados pela música das redondilhas. A modalidade popular do romance continuou, portanto, sua trajetória obscura e independente da cultura institucionalizada, sustentada por um público fiel através dos tempos coloniais e imperiais, fato comprovado pelos estudos folclóricos do último quartel do século passado. Vários desses romances subsistem hoje sob a forma de quadrinhas, e alguns foram recuperados e fixados por pesquisadores dedicados a resgatar tais fontes. A transformação espontânea determinada pela adaptação das narrativas a circusntâncias de produção discursiva diferenciadas, assegurou a vitalidade do gênero, uma vez que os poemas que se perderam, foram sendo substituídos por outros romances, anônimos ou autorais, originários da cultura nascente. Ademais, a forma bifurcou-se e uma vertente recebeu suporte musical, ao gosto da população miscigenada, inclinada ao canto e à dança. A poesia fundiu-se com a música e o trovador tornou-se violeiro. As narrativas cantadas, de que é exemplo "O Milagre das Rosas", multiplicaram-se, principalmente no sertão. Na sociedade atual, quando as circunstâncias de produção/recepção da obra literária pouco evoluíram, tais variantes ganharam impulso amparadas pelas modernas técnicas de publicação, em livro, em fitas magnéticas e em CDs, e pelos meios de comunicação de massa – o rádio e até mesmo a televisão – preocupados com os níveis de audiência obtidos junto aos respectivos públicos. Tem-se aí, agora energizadas pelo poder da imagem, as circunstâncias que outrora geraram essa tradição cultural baseada na oralidade. Entre os romances peninsulares remanescentes está a "Nau Catarineta", um dos raros documentos da saga marítima e que apresenta variantes desde o Nordeste até o Rio Grande do Sul. Neste estado brasileiro, tais romances se manifestam preferentemente sob a forma de quadras e, dentro da tradição da sátira, destacam-se os rudes ciclos do "Tatu", da "Chimarrita" e o épico-lírico, em sextilhas, sobre Sepé Tiaraju, herói missioneiro da Guerra Guaranítica, transformado em São Sepé. A persistência da narrativa versificada se manifestou também na literatura culta, os poemas heróicos que, nos primeiros séculos, não passaram de imitações dos épicos portugueses, distiguindo-se deles o romanceiro de Gregório de Matos. São 90 romances, épicos, religiosos, líricos e sobretudo costumbristas, uma crítica mordaz à sociedade do seu tempo. Joaquim Manuel de Macedo, continuando a tradição, publicou "A Nebulosa", extensa e monótona história de amor infeliz. O esquecimento a que ficaram relegados tais versos, aponta um descompasso entre o leitor e o autor que desconheceu a lição dos trovadores medievais: extensão limitada, para não cansar os ouvintes; metros breves e melodiosos para acentuar o ritmo; e matéria ligada à visão do mundo do leitor. Diferente é a sorte de "O Solitário dos Tapes", de Lobo da Costa, cuja extensa obra, ligada às raízes populares, fez dele o mais conhecido e amado dos românticos rio-grandenses. Atento ao leitor/ouvinte, soube contornar, as dificuldades formais da narrativa longa versificada. Em meados deste século, alguns poetas seguiram na tradição brasileira de quase quinhentos anos, agora já manifestando os efeitos do amálgama cultural que constitui nosso povo. São romances formados por pequenos poemas, em versos livres, de ritmo variado e rima inesperada que cativam o leitor pela suave musicalidade e simplicidade formal. O recurso à fragmentação e a obediência à centenária lição dos cancioneiros e romanceiros ibéricos voltada ao ouvinte/leitor, popularizaram tais formas cultas que se difundiram pelas escolas de todo o país. Entre eles, uma variante da lenda amazonense da Cobra Grande, "Cobra Norato", de Raul Bopp, texto emblemático da primeira fase do Modernismo brasileiro. Esse poema e "Martim Cererê", de Cassiano Ricardo, são textos míticos e líricos que, ao lado da narrativa em prosa "Macunaíma", de Mário de Andrade, formam a tríade mítica do Modernismo. Já o poema "Juca Mulato", de Menoti del Picchia, e o "Romanceiro da Inconfidência", de Cecília Meireles, são poemas mais líricos que narrativos, armando-se o conflito no tecido dos títulos de cada romance. Hoje, as casas de cultura organizam arquivos da modalidade popular – oral e escrita – e a própria imprensa, nas páginas literárias, divulga tais edições. Este é o caso do romance satírico "Antônio Chimango", onde Amaro Juvenal critica Borges de Medeiros, governador gaúcho por duas décadas ou da "História de Roberto Diabo", do poeta Leandro de Barros, 238 sextilhas ligadas ao antiqüíssimo ciclo do Duque Alberto, ou ainda do romance "A Cantiga do Vilela", do cego cearense Sinfrônio Pedro Martins, um dos cantadores mais espontâneos do nordeste brasileiro. Citam-se também, "As Craíbas", de João de Lima e o romanceiro anônimo em torno de cangaceiro Lampião e Maria Bonita, na região nordestina.. Nos últimos anos surgiu uma forma intermediária que pretende salvar o romance peninsular ameaçado pela cultura de massa com o retorno às raízes trovadorescas: romanceiros de poetas cultos, mas de dicção popular, como o "Romanceiro da Cabanagem"(1985), com 31 cantos, onde José Ildone Soeiro explora um tema político, a revolução da Província do Pará contra D. Pedro I, e produzindo obra intensamente expressiva mas pouco épica. Com a mesma base folclórica e histórica, já havia surgido o "Romanceiro de Anita Garibaldi" (1977), exaltando a heroína da Guerra dos Farrapos e o "Romanceiro de Bequimão" (1979), que trata da revolta de Manuel Beckman, em São Luís do Maranhão, contra a coroa portuguesa. Ambos com a dimensão rapsódica dos romances peninsulares, fazem parte da obra singular da consagrada maranhense Stela Leonardos, uma voz feminina que já atingira elevada expressão poética em "Romançário" (1974) e que acompanha de perto as matrizes das epopéias originais. Deve-se citar, entre tantos outros, "A Rainha das Onças" (1980), do escritor consumado José Carlos Lisboa, cujo herói é o Macaco Simão ao lado de personagens do fabulário brasileiro. Também de 1980 é o "Romanceiro de Bárbara", obra de Caetano Ximenes Aragão, um longo poema-rio onde o poeta, que assimilou as peculiaridades estilísticas emergentes dos trovadores nordestinos no plano da oralidade, exercita as mais variadas experiências formais. Poetas de expressão nacional têm, portanto, freqüentado o gênero e produzido obras voltadas para um público que espera da arte da palavra a sonoridade, o ritmo, o gênio, enfim, da língua materna, na revelação de um universo imaginário compatível com sua visão do mundo e sua cultura. A história do romance em versos na literatura em língua portuguesa, nasceu com a língua que lhe serviu de suporte e, enquanto houver poetas identificados com seu povo, esta será uma história sem fim. Bibliografia Cassiano Ricardo, Martim Cererê, Rio de Janeiro, José Olympio, 1974, 13a ed. Raul Bopp, Cobra Norato,. Rio de Janeiro, José Olympio, 1994, 17. Ed. Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência, São Paulo, Círculo do Livro, s/d. L. Gomes de Barros, Histórias de Roberto do Diabo, Fortaleza, Universidade de Fortaleza, s/d. Stella M. C. Mendonça, A linguagem dos cantadores, s/n, s/d. João de Lima, As craíbas, Maceió, SEC, 1975. Almeida Garret, Romanceiro, Porto, Simões Lopes, 1949.
Nota 1. Doutora em Letras, professora do curso de Pós-Graduação da Faculdade de Letras/PUCRS, pesquisadora do CNPq. |