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Simbolismo e emprego do nome na literatura

 
Amós Coelho da Silva (UERJ – UGF)

O herói no mito grego é dotado de timé, sua honra pessoal, e areté, excelência. Recebe uma educação que consiste na aprendizagem do manuseio de arco e flecha e outras armas, andar a cavalo, música etc. Quirão, que pertence à família divina de Zeus e não tem parentesco com os violentos Centauros, apesar de sua forma meio homem, meio cavalo, é apontado como um dos mentores mais importante dos heróis. Héracles, quando conseguiu atingir o centauro Élato, varou-o com uma flecha, que, por acidente, feriu Quirão. Ele é, pois, o médico ferido, que doou a Prometeu a sua imortalidade para livrar-se da dor, provocada pela flecha, em latim sagitta, donde ao subir ao céu compôs a forma de centauro na constelação de sagitário. Quirão provém de kheír, ceivr, abreviação de kheirourgós, o que trabalha com a mão, radical presente não apenas em cirurgião, mas também em quiromancia, adivinhação pelas linhas da palma da mão. O epíteto, ejpivqeton, imposto, ajuntado, scilicet ojvnoma, nome, pelo latim epithetu (Nascentes), é o elemento que simboliza a excelência da divindade ou do herói.

Platão (427 a 348 a.C.), conf. Diógenes Laércio(ap. 200 a 250 d.C ), é o introdutor dos estudos gramaticais. No Crátilo, o discípulo de Sócrates (470 a 399 a.C.) se concentra nas questões etimológicas: indaga aí se a imposição dos nomes aos homens se dá por necessidade da natureza (fuvsei - phýsei), como afirma a personagem Crátilo, ou se origina por força do costume (nojmoi ou thései), conforme Hermógenes. O árbitro Sócrates encaminha o debate para a especulação filosófica, buscando uma verdade de ordem essencial, i.e., a ojusiva, ousía -a essência, a substância, e não a ordem racional, lovgo", lógos (razão organizadora, discurso, palavra).

Sócrates nullam litteram reliquit, não deixou coisa alguma escrita, mas é personagem dos diálogos platônicos. No Crátilo, o mestre de Platão define os nomes como sendo imitações de objetos, ou seja, como pinturas de cópias inexatas, já que os originais estão no Mundo das Idéias. Aqui estão as reminiscências que as minhas vagas lembranças se esforçam em reproduzir. Como se vê, Platão não se limita a uma pesquisa etimológica, como a compreendemos hodiernamente; antes, o seu objetivo é étymon légein, dizer a verdade, que é o que significa etimologia no grego clássico antigo, cunhado durante as pesquisas gramaticais dos filósofos gregos: étymos - verdadeiro, real; lógos - razão organizadora, discurso, palavra e o sufixo ia, formador de substantivo. Em síntese, a obra platônica visa à teoria do conhecimento.

Os antigos gramáticos tiveram dificuldade em observar os estudos lingüísticos em separado, o que persistirá em Cícero, que, na tentativa de traduzir para o latim a expressão etimologia, criou veriloquium, de verum - verdadeiro e loqui - falar, discursar. Portanto, o estudo da gramática continua vinculado à especulação filosófica. Sendo a palavra um simulacro de cópias inexatas, Sócrates admite que a origem de aér, ar, está em aírei, verbo grego que significa levanta , suspende, porque o ar suspende as coisas do chão ou, como na expressão socrática, porque o ar está em fluxo perpétuo, aeì reî. Héros, herói, chama-se assim porque é filho de éros, amor. Como se nota, trata-se de trocadilhos, que, aliás, são muito constantes entre os gramáticos antigos, como é o caso de cadáver: eles diziam que provém de caro data vermibus, carne dada aos vermes.

Evidentemente, deles dispomos atualmente de uma lista substancial de etimologias que são aceitas hoje como cientificamente perfeitas, tanto que a sedução pelas observações etimológicas dos nomes e pela predestinação da palavra é um considerável legado e esse poder peculiar dos vocábulos será explorado pelos autores em relação à fruição da obra literária. É assim que os antigos e modernos, estes por imitação, tomam a etimologia para estruturar um argumento, marchetando-lhe com o sinete da autoridade: a partir de um étimo, pois, chega-se à transcendência de um princípio universal e com isso fica instituída a verdade. Em termos filosóficos, a demonstração etimológica se torna um axioma, pela sua dignitas, dignidade, quer dizer, transforma-se numa proposição per se nota, evidente por si. Desde os antigos gregos e romanos, ut loco dignitas fieret, para que se dê valor à passagem, citam-se etimologicamente nomes de personagens, o que impressiona a imaginação popular e dá motivo para a tradição ser explicada. Assim, encontramos em Homero Odysseús relacionado ao verbo odýssomai (aparentado com o latim odisse, odiar), eu me irrito, conforme canto X,60-2 e XIX, 407-9, como se Odisseu derivasse do fato de Autólico, seu avô, ter-se irritado com os homens e as mulheres de Ítaca, daí o epíteto do neto. Uma outra lenda relata que Odisseu nasceu no monte Nérito da ilha de Ítaca e a palavra Odysseús estaria contida no vocativo da frase kata; th;n oJdo;n u{sen o{ Zeuv", katà tèn hodòn hýsen ho Dzeús, Zeus chovia sobre o caminho, o que impedia Anticléia, mãe de Odisseu, de descer e ali mesmo daria à luz. No entanto, em Vergílio (71 a 19 a.C.) a etimologia perde esse tom jocoso, peculiar em Homero, e passa a exaltar, elevando às alturas, ou como diria o próprio: Sic itur ad astra, assim se vai aos astros,cf. En., IX, 641. A dignificação, ou melhor, a divinização é do nome de Júlio César, Caius Iulius Caesar:

Nascetur pulchra Troianus origine Caesar,
Imperium Oceano, famam qui terminet astris,
Iulius, a magno demissum nomen Iulo.(I, 286-8)
Nascerá César, troiano de bela origem,
Que estenderá o seu império até o oceano e sua fama até os astros,
O seu nome Júlio provém do grande Iulo.

A raiz *Iou-il, contida em Iulius, repousa na do indo-europeu *dyew, céu luminoso, e se associa a pater na sua forma apofônica pitar para formar Iuppiter, Júpiter, mais reconhecida quando está em sânscrito Dyáuh pitá. Iulius subsistiu nas línguas neolatinas derivado de Iulius mensis, em português o mês de julho.

Não é importante indagar se o poeta tem consciência do alcance profético do nome, mas é importante constatarmos essa força inevitável despendida dos grandes vates. Assim, Camões morreu e Portugal caiu sob domínio espanhol. Será que a admiração por D. Sebastião (1554-1578), a quem dedicou Camões (1525-1580) Os Lusíadas colaborou para o sebastianismo - crença viva, ainda hoje, na volta de D. Sebastião da guerra na África. O jovem príncipe seria o temor dos guerreiros mouros, portanto a garantia do Cristianismo:

Vós, o novo temor da maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deos, que todo o mande
Pera do mundo a Deos dar parte grande.
(Os Lusíadas, Canto I, 6)

Sebastião provém do grego e a forma adjetiva sebastov", sebastós, significa venerável, augusto. Augustus, em latim, era um adjetivo também. O Senado romano o adotou para designar os grandes imperadores a partir de Augusto César, sobrinho, filho adotivo e herdeiro de Júlio César. O nome César adquiriu a reputação de imperador. Era desse modo que o sérvios e búlgaros se intitulavam: czar, proveniente de César. Entre os alemães, o nome César assume a forma de Kai’ser.

Ainda na Eneida, canto IV, Dido é um nome que exprime o procedimento da personagem épica. Embora alguns recusem a etimologia de Dido significando a fugitiva, a errante, é exatamente esse procedimento que há de representar ou para fundar Cartago ou para se afastar, no canto VI, 440 sqq., de Enéias, que se aproximou de sua umbra, sombra, nos Campos das Lágrimas, no Hades. Dido ou Elissa, En c. IV,335, como a chamou Vergílio, causou profundo impacto ao evitar indignada o piedoso Enéias:

Nec minus Aeneas casu concussus iniquo
Prosequitur lacrimis longe et miseratur euntem.
(Canto VI,475-6)
E, no entanto, Enéias, abalado por tão iníquo destino
Prossegue chorando por espaço e se compadece dela.

Luís de Camões, que leu o vate romano tão atento, imprimiu no episódio de Inês de Castro (c. III, 118-35) profunda emoção. Não seria exagero se o comparássemos com o episódio da Ilha dos Amores (c.X, 1-143) e lhe atribuísse mais expressividade lírica. E pensamos não apenas no fato tão bem enfatizado pelo poeta: frágil donzela Que depois de ser morta foi Rainha.(118), mas também no fato de Camões mencionar o nome Inês, que José Pedro Machado aponta a sua origem assim: Do gr. Hagnes(do adj.hane, "pura, santa, casta", pelo lat. Agnes (houve perda da aspiração).1 Num cotejo com a tragédia de António Ferreira, Castro, notamos logo o quanto foi talentoso Camões, pois recebendo de herança uma tragédia tão bem dramatizada, isto é, com ações tão bem dispostas em cena, soube tirar elemento expressivo deste episódio histórico.

Entre os antigos gregos e romanos, os rios eram merecedores de veneração e temor; eram cultuados e quase divinizados, como filhos de Oceano e pais das Ninfas. Constituíam-se no grande rio cósmico, de onde tudo emana e para lá volta. Assim, se Severn (Grã-Bretanha), Jordão (Palestina), Tibre (Itália) e outros são rios cósmicos, os 230 km do rio Tejo em Portugal, em Os Lusíadas, transformaram-se também em rio cósmico pela sua possibilidade universal como criador das Tágides, conforme fora cunhado nos versos camonianos:

E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi hum novo engenho ardente.
Se sempre em verso humilde celebrado,
Foi de mi vosso rio alegremente,
Daí-me agora hum so alto e sublimado,
Hum estilo grandiloco e corrente,
Porque de vossas agoas Phebo ordene
Que não tenhão enveja às de Hippocrene.
( Canto I, 4)

Plauto (s.III a.C.), na sua peça Anfitrião, criou atmosfera burlesca através de trocadilho de situação. Sintetizando o argumento: é o disfarce de Júpiter, que, desejando coabitar com Alcmena, engendrou uma guerra para Anfitrião, convicto do prazer dos generais nas guerras. Mercúrio, para auxiliar o pai divino nessa empreitada, tomou a aparência do Sósia, escravo do General Anfitrião. Sósia significa em grego o que salva. Ora, Mercúrio assumiu-lhe as feições e não bastando a sua própria significação etimológica merx, mercadoria, negócio, que é como ele se apresenta à platéia no Prólogo da peça, ou seja, prometendo satisfação nos eventos comerciais dos espectadores, o deus dos comerciantes usurpou a personalidade de Sósia dentro da casa do General Anfitrião, criando uma situação complicadíssima e fazendo os espectadores rirem bastante. John Dryden (1631-1700), poeta inglês, e Molière (1622-1673) na França se inspiraram em Plauto e levaram ao palco suas peças com título homônimo: Anfitrião. Foi assim que se consagrou a significação dos substantivos anfitrião e sósia.

Gil Vicente (1465- 1540), criador do teatro em Portugal, nos legou o diálogo entre as personagens alegóricas Todo Mundo e Ninguém, que estavam sendo observadas por Berzebu e Dinato, às escondidas, enquanto registravam a conversa para comunicá-la a Lúcifer. Tal é a unidade e autonomia do trecho, pertencente ao Auto da Lusitânia, que não implicaria em demanda de concentração da parte da platéia. Não bastasse isso, Gil Vicente soube enfatizar a sua mensagem, arrebatando a compreensão do mais inadvertido camponês.

A peça é sobre a origem mítica de Portugal: a ninfa Lisibea despertou grande paixão no Sol pela sua beleza incrível e dele dará à luz uma filha, Lusitânia, que herda a beleza materna, despertando em Portugal profundo interesse. Mas Lisibea sentiu tanto ciúme que faleceu. Enterrada na montanha Feliz Deserta, onde se edificou uma cidade que se denominou Lisboa (etimologia apresentada pelo próprio poeta ao lado de outras hipóteses, como a do topônimo Olisipo que chegou até nós via textos gregos e latinos), por causa dela. Daqui Gil Vicente construiu o episódio do encontro entre Lusitânia e Portugal, participando também Mercúrio e algumas deusas, com os "capelães" Dinato e Berzebu devem relatar a Lúcifer tudo que ocorrer ali. Há na primeira parte a descrição duma família judaica da época de Gil Vicente.

Analisemos nos trágicos a força etimológica dos nomes. Em Ésquilo, As Suplicantes, o argumento se concentra nas Danaides. Dânao, irmão gêmeo de Egito - rei epônimo do país de Cleópatra, após o clássico conflito entre os gêmeos, refugia-se com suas 50 filhas e obtém o reinado de Argos. Os 50 filhos de Egito, nome sobre o qual há a hipótese que o relaciona ao nome egípcio Ageb ou Akeb, inundação (do rio Nilo), insistiram em seu encalço e pediram a mão das 50 primas, filhas de Dânao. Este fingindo hospitalidade, cedeu, mas instruíra e armara as 50 filhas com punhal para eliminar os incautos na noite de núpcias. Apenas Hipermnestra poupou seu esposo Linceu, tendo possivelmente fugido com ele. Do ponto de vista puramente mítico, as hidróforas, literalmente portadoras de água, derramando água, note-se a insistência neste signo, em tonéis sem fundo, são, nesta contínua repetição do mesmo ato, a interiorização do infindável desejo do homem. Elas hão de ficar dolorosamente à procura de novos maridos, que as temerão por não desejarem pertencer à lista dos maridos assassinados anteriormente. Estudiosos há que destacam a raiz *danu, água, pois os Dânaos são os povos da água, do mar, tanto que este elemento *danu é indicado no nome do famoso rio Danúbio. As Danaides cumprem o seu castigo no Hades: enchem eternamente de água um tonel sem fundos. Da tragédia Os Sete contra Tebas, Etéocles compõe-se de jeteo- (eteo), de ejtevo", verdadeiro, autêntico e de kleov", reputação, renome, glória. O mais religioso dos trágicos introjetou em suas peças elevada moral, não presente nas personagens homéricas, confiando absolutamente na justiça divina. Assim, Etéocles, conforme Jules Humbert e Henri Berguin, nos revela a sua audácia e a de seu irmão Polonice: "Sim, certamente, com justo título haveria de se dizer que Dike leva um nome falacioso, se ela assistisse um ser pronto para todas as audácias."(670,671) Polinice é formado de poluv" (polýs), muitos, e de neiko" (neikôs), litígio, discórdia, combate. Os dois filhos de Édipo ridicularizaram o pai com insinuações sobre as suas origens incestuosas, por isso foram amaldiçoados: Édipo predisse que os dois jamais viveriam em paz e que se matariam reciprocamente. Expulso de Tebas, Édipo os execrou, pois não esboçaram nenhuma reação contra a prepotência de Creonte, que provém de krevon(kréon, o mais forte,o soberano), irmão de Jocasta, "a que tem um brilho sombrio", mãe e esposa de Édipo. Embora seja homônimo, o Creonte da peça de Eurípides(Medéia) é outro, rei de Corinto, e não de Tebas.

A trilogia Oréstia começa com a tragédia Agamêmnon, que significa "o que pensa e dirige acertadamente"; Junito Brandão comenta que isso "não está muito de acordo, aliás, com as atitudes do herói tanto na epopéia quanto na tragédia"(p.36, DMEMG) O sentinela, na torre do palácio, aguarda o sinal que deve anunciar a tomada de Tróia. Enfim recebe o tão almejado sinal do fogo, significando a vitória helênica sobre os baluartes de Tróia. O triunfante Agamêmnon, rei dos homens - como o chama Homero, chega e é recebido pela afetuosa esposa Clitemnestra, "a que se celebrizou por não se esquecer", na verdade, a mensagem mentirosa enviada por Agamêmnon, ordenando que Ifigênia, filha querida de Clitemnestra com o próprio Agamêmnon, viesse para Áulis desposar Aquiles.No entanto, ela ia, a rigor, era ser sacrificada no altar em honra de Ártemis. Clitemnestra estendeu um tapete púrpura, honra concedida apenas aos deuses para o pé que derrubou Ílíon não pousasse no chão. Se antes tivemos u{bri", hýbris (a violêrncia) -na insidiosa armadilha para sacrificar Ifigênia, agora Ésquilo substantiva nevmesi", némesis (o ciúme dos deuses). Embora Agamêmnon se encontre hesitante e até mesmo receoso: "Honrai-me como homem e não como deus.", ele termina por nem mesmo escutar Cassandra, cujos delírios proféticos seriam lamentados por ele e por todos que não a ouviram. Eis o momento de a[th, áte (cegueira da razão) e, finalmente, recebe o seu abraço fatal, no interior do palácio, Moira. Na segunda peça, As Coéforas,ou seja, portadoras das libações, formam o coro, que, sob forma de cortejo, irá levar oferendas ao túmulo de Agamêmnon. Junto ao túmulo do pai, Electra reconhecerá Orestes, seu irmão e vingador do assassinato do rei de Micenas. Consumida a vingança, as Erínias, de imediato, surgem em perseguição a Orestes... Este, sob a proteção e purificação de Apolo, aproveita o cochilo das Erínias e foge para se apresentar a Atená, como Apolo lhe intruíra. Sob o eufemismo de Eumênides, quer dizer, as benfazejas, as Erínias, que vieram de sua morada nas trevas do Érebo e representam a defesa da ius poli, a justiça divina, a antiga thémis, a superada lei de talião, cedem espaço à luz, a Apolo, defensor do direito novo, o ius fori, i.e., díke, Divkh;;, ele, outrora, fora exemplar: após matar o dragão Píton, a guardiã do Oráculo pré-apolíneo, purificou-se e se submeteu a julgamento. Etimologicamente, Erínias provêm talvez de ovrijnein (orínein, em dialeto arcádico com alternância de o> e), perseguir furiosamente, correspondentes em latim Furiae. São três: Aleto, a que não pára, a implacável; Tisífone, a que avalia o crime,a vingadora do homicídio; Megera, a que inveja, a que tem aversão por. São forças primitivas, punidoras dos crimes cometidos; mas a antiga lei é a que as pessoas, que se ligam por laços consangüíneos(guénos), defendem antigos e bárbaros costumes de vingar o sangue derramado de um membro do seu guénos. Depois da reforma jurídica de Drácon ou Sólon, tal costume foi abandonado. Na peça, Oreste - proveniente o[ros, óros, montanha, elevação, é julgado inocente com o beneplácito do voto favorável de Atená, ou seja , o desempate através da expressão latina voto de Minerva e Apolo outorga competência de justiça aos homens e inaugura miticamente o Areópago, que originariamente se prende ao episódio lendário do julgamento de Ares,i.e., VjArh" , deus da guerra, e pavgo", que significa colina: jvAreio" pavgo" (Áreios págos, a colina de Ares).

Bem mais recentemente, Gonçalves Dias, no seu poema I-Juca-Pirama, se valeu do recurso etimológico para criar tensão dramática e expressividade lírica. É o próprio Gonçalves Dias que em uma nota de rodapé nos explica que este título significa: o que há de ser morto, o que é digno de ser morto. O poema nos relata que, estando um índio tupi prisioneiro dos timbiras, o valente guerreiro implora ao chefe dos timbiras a sua liberdade, não por covardia, afirma o bravo tupi, mas por ser arrimo e esteio do pai, outrora orgulhoso tupi , mas agora cego e alquebrado. Para espanto de todos timbiras, o chefe manda soltar as amarras e ordena ao tupi que vá. Nós dissemos espanto, pois se trata de um ritual de passagem. Anteriormente o chefe aproximou-se do tupi e pediu-lhe que dissesse a sua história ou, então, aceitasse um combate singular com o próprio cacique, mas ele chorou na frente da turba e um tupi não chora. Se o ritual de passagem, que consiste na preparação de um bravo guerreiro, que servirá de repasto a todos na tribo que o tornou cativo, a fim de que cada membro da tribo pudesse assimilar a energia de tão brioso guerreiro, continuasse, refletiu o chefe, o tupi tornaria fraca e covarde a sua gente, pois chorou diante da morte. No entanto, ao voltar a guiar e dar os alimentos colhidos no caminho ao velho pai cego, este sentiu o cheiro da tinta usada pelos timbiras como parte do ritual, por isso passou-lhe a mão na cabeça e percebeu seus cabelos cortados. Apurados os fatos, o reconduziu a tribo inimiga dos timbiras e exigiu a continuação do ritual. O cacique se recusou, porque achava que se tratava de um covarde. O tupi diante disso pegou nas armas e gritou: Alarma! Alarma!, expressão que provém do italiano, alle arme, e significa para as armas. Enfrentou sozinho a tribo inteira dos timbiras, até que o cacique mandou parar. Provou ser um bravo, agora era digno de ser morto, ou seja, I-Juca-Pirama.

Em José de Alencar, Iracema, obra também de cunho Indianista como a de Gonçalves Dias e que admite uma longa leitura etimológica, tem o seu freqüente aposto a virgem dos lábios de mel contido em ira (mel) e cema (lábios); o seu filho Moacir é moacy (dor) e sufixo ir (saído de); Martim provém de Marte, deus romano da guerra e o sufixo im (filho de), como se atesta no romance de Alencar. Além da expressividade lírica, integraram a nossa antroponímia, como é o caso de protagonistas como Ubirajara, Peri... Analisemos a passagem de Batuireté (de batuira e etê - na linguagem figurada vale por valente nadador) transmitirá o tacape a Jatobá (de jetaí - árvore de resina dura-, oba -folha - e a - aumentativo: árvore de grande porte). E porque Batuireté "dizia com tristeza ‘Ah! meus tempos passados!’", José de Alencar vai indicar a origem de Quixeramobim no capítulo XXII, de Iracema: "A gente que o ouvia chorava a ruína do grande chefe, e desde então, passando por aqueles lugares, repetia suas palavras, donde veio chamar-se o rio e os campos, Quixeramobim."(Na edição da Ed. Três, veio está no singular.) Numa outra passagem, o nome Irapuã, denotativamente provém de Ira (mel) e puã (redondo, cf. o formato da colmeia), o que, filologicamente, é um princípio estóico, trazido para os estudos etimológicos latinos por Élio Estilão (fim do século II a.C.) e denominado em grego de katà antìphrasin, i.e., a designação de algo por um nome oposto, como fez Élio nos seus fragmentos...bellum quod res bella non sit...(guerra <em latim, bellum> porque não é uma coisa bela <em latim, bella>). Mas Irapuã não é um pote de mel! Ao contrário, é um amargo rival de Martim. Do ciclo de perfil de mulher, Lucíola consagrou-se como nome feminino em português, embora, cientificamente, designe o vaga-lume que voa nos grotões escuros e o ilumina com sua luz. Seu nome provém do latim lux,lucis, luz. Por metáfora, Lucíola, mesmo na perdição, mantém acesa a pureza de sua alma.

Eça de Queirós (1845- 1900) publica O Crime do Padre Amaro em 1875, romance que contrapõe Amaro, que é de proveniência germânica de Audomarus, de aud-,od-,"riqueza", e mar-, "célebre" à2 Amélia, também de origem germânica e significa "laboriosa abelha". O argumento é um exame crítico do celibato clerical, opondo as pressões do desejo incontinente do Padre à concordância feminina de Amélia, concentrando na consumação do fato de o Padre Amaro não assumir perante a sociedade o seu papel procriador e, conseqüentemente, Amélia, vítima dos horizontes limitados daquela sociedade pequeno-burguesa de Leiria, vem a morrer.

O Cortiço de Aluísio Azevedo exprime uma visão biológica do homem, pois o contexto social se encontra influenciado pelos avanços científicos de Charles Darwin(1809-1882), Da Origem das Espécies por Via de Seleção, que explicita um novo sentido sobre o reino animal: struggle for life, a luta pela vida. Foi contrao fisiologista inglês que o clero formou um processo, porque ele havia dito que o homem proveio do macaco, em plena era vitoriana da Inglaterra. Ora, se o homem é a imagem e semelhança de Deus, Darwin estaria chamando a Deus de macaco? Retirando leis científicas das teorias peculiares às ciências exatas, Augusto Comte (1798-1857), filósofo positivista francês, empenhou-se em transferir princípios dos avanços científicos mais rígidos para a Sociologia, ou seja, retomando os comportamentos sociais em tubos de ensaio. A Psicanálise ergue-se com fundamentos, introjetados por Sigmund Freud (1856-1939) e Luís Pasteur (1822-1895) cria a vacinação. O ilustre acadêmico francês Hipólito Taine (1828-1893) tenta interpretar a literatura como resultado do meio, momento e raça. O Autor de O Mulato manifesta essa tendência realçando os nomes de suas personagens. Desse modo, Jerônimo, do grego - hierós ônimos, nome sagrado. Ele é casado com Piedade, do latim pietas: sentimento natural de obrigações que une o homem , nas suas relações de pais e filhos; prática de veneração do divino. Note-se que Aluísio Azevedo acentua isso com o sobrenome dela: Piedade de Jesus.

Personagem incorruptível, Jerônimo "acordava todos os dias às quatro horas da manhã, fazia antes dos outros a sua lavagem à bica do pátio, socava-se depois com uma boa palangana de caldo de unto, acompanhada de um pão de quatro; e, em mangas de camisa de riscado, a cabeça ao vento, os grosso pés sem meias metidos em um formidável par de chinelos de couro cru, seguia para a pedreira.

A sua picareta era para os companheiros o toque de reunir. Aquela ferramenta movida por um pulso de Hércules valia bem os clarins de um regimento tocando alvorada. Ao seu retinir vibrante surgiam do caos opalino das neblinas vultos cor de cinza, que lá iam, como sombras, galgando a montanha, para cavar na pedra o pão nosso de cada dia, E, quando o sol desfechava sobre o píncaro da rocha os seus; primeiros raios, já encontrava de pé, a bater-se contra o gigante de granito, aquele mísero grupo de obscuros batalhadores.

Jerônimo só voltava a casa ao decair da tarde, morto de fome e de fadiga. (...)

Depois até às nove horas de dormir, que nunca passavam das nove, ele tomava a sua guitarra e ia para defronte da porta , junto com a mulher, dedilhar os fados da sua terra."(p.55, Ed.Ática)

O primeiro contato mais alquímico de Jerônimo com Rita Baiana foi quando deixou o trabalho por volta da hora do almoço, fez uma breve refeição e foi repousar no quarto, porque estava gripado. Era fato tão incomum, que tornou-se notícia de primeira mão por todo o cortiço. Muitos foram visitá-lo e ele já estava irritado, quando, "pelo cheiro, sentiu que Rita se aproximava também."(75), por isso mesmo se sentiu bem. Nada como um café bem forte, servido por Rita Baiana e acompanhado com um gole de parati para se ficar fino e pronto para outra!(75) Cada vez mais Jerônimo se interessava por Rita Baiana, até que num dia festivo, não resistindo aos encantos de Rita Baiana, ele inevitavelmente despertou o ciúme do amante de Rita, o Firmo. Daí adveio uma briga, em que Firmo mandou o português para o hospital, com a barriga rasgada por sua navalha. Mais adiante, na expressão de Aluísio Azevedo, Jerônimo tinha reformado todos os seus hábitos, abrasileirou-se.(86) Destaquemos aqui um pequeno trecho, que, embora seja repetição em parte de alguma coisa, demonstra claramente o pensamento do grande escritor: "O português abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fora-se-lhe de vez o espírito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro, à felicidade de possuir a mulata e ser possuído só por ela, só ela, e mais ninguém."(p.175)

Se acompanhássemos a trajetória de Pombinha, Miranda, sua esposa Estela e a própria filha do Jerônimo, confirmaríamos a nossa análise. A pomba, entre os antigos romanos e gregos, era associada ao amor carnal, a ave de Afrodite, mas no Cristianismo ela simboliza pureza e simplicidade e era nessa constelação semântica que os moradores do cortiço a inseriam, inclusive destacando no sufixo -inha grande valor afetivo. Pois bem, a filha do Jerônimo substituirá Pombinha com o nome de Senhorinha:

"Os antigos moradores da estalagem principiavam a distinguir a menina com a mesma predileção com amavam Pombinha, porque em toda aquela gente havia uma necessidade moral de eleger para mimoso da sua ternura um entezinho delicado e superior, a que eles privilegiavam respeitosamente, como súditos a um príncipe. Crismaram-na logo com o cognome de "Senhorinha".(179)

Em resumo, a palavra grega onomatopoiía, que se significa ação de criar palavras novas, (evidentemente é a mesma da nossa gramática atual), exprime muito bem a nossa ansiedade em depreender a realidade exterior. Mas onomatopéias são convencionais: a representação gráfica ou articulada do latido do cão em português torna-se imotivado em inglês, como no Novo Michaelis, que é bawl! Os graus de convenção, na relação entre significado e significante, ocultam as significações das palavras. Por isso, um falante nativo aprende que o arco-íris tem n cores, mas poderá achar difícil o discernimento delas, como é o caso de se enumerar em português sete cores, inglês seis ou o bassa da África com duas. Dada a imotivação impregnada na relação entre significante e significado, a única maneira de nos livrarmos da cilada das palavras é a recorrência ao dicionário.

Além disso, isto é, o nome perder aquele tratamento jocoso, como se vira em Homero e Platão, e pouco a pouco se revestir de uma aura misteriosa que depreendemos em muitos poetas e personalidades históricas, desde Vergílio e Júlio César à contemporaneidade, há entre os hebreus aspectos religiosos, bem como em outras civilizações teístas. Assim sendo, três Nomes entre os hebreus possuem força de expressão do sagrado, dentre os quais o mais importante forma o Tetragrama, que é o Nome secreto pronunciado unicamente pelo Grande Sacerdote. No Cristianismo, a Trindade cristã é a concepção de Deus em três pessoas, com as designações nominais de Pai,que opera pelo poder, Verbo, pela inteligência, e Espírito Santo, pelo amor, constituindo-se num trângulo equilátero ou trevo de três folhas, cujo conjunto expressa, respectivamente, "uma cruz com o Pai no alto, o Filho no meio e a pomba do Espírito Santo na base.(CHEVALIER,J. & GHEERBRANDT, A., p.908) Nos Salmos, o Nome é uma invocação, cujo efeito é total identificação com a própria Divindade, o que explica os múltiplos eufemismos, ora atenuando o poder de Lúcifer (formado de lux,lucis, luz e de ferre, levar), por exemplo, por evitar a citação de seu Nome substituindo-o por um outro, ora cumprindo um mandamento divino de dizer o Nome de Deus em vão. Afinal de contas a grandeza da luz está no Verbo. O cumprimento da profecia ocorre pelo Nome: "Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco).(Mt 1,23)


Bibliografia

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Notas

1. MACHADO, J. Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Verbete Inês.

2. MACHADO, José Pedro. Verbete Amaro.


Síntese de simbolismo e emprego do nome na literatura

No Crátilo, o mestre de Platão define os nomes como sendo imitações de objetos, ou seja, como pinturas de cópias inexatas, já que os originais estão no Mundo das Idéias. Aqui estão as reminiscências que as minhas vagas lembranças se esforçam em reproduzir. Platão não se limita a uma pesquisa etimológica na acepção hodierna; antes, o seu objetivo é étymon légein, dizer a verdade, que é o que significa etimologia no grego clássico antigo: étymos - verdadeiro, real; lógos - discurso, palavra e o sufixo ia, formador de substantivo. Em síntese, a obra platônica visa à teoria do conhecimento.

Portanto, o estudo da gramática está vinculado à especulação filosófica.

Evidentemente, deles dispomos atualmente de uma lista substancial de etimologias, válidas ainda hoje; tanto que a sedução pelas observações etimológicas dos nomes e pela predestinação da palavra é um considerável legado e esse poder peculiar dos vocábulos será explorado pelos autores em relação à fruição da obra literária.

Em Vergílio (71 a 19 a.C.) a etimologia perde o tom jocoso, peculiar em Homero e Platão, e passa a exaltar, elevando às alturas, ou como diria o próprio: Sic itur ad astra, assim se vai aos astros,cf. En., IX, 641. A divinização é a do nome de Júlio César, Caius Iulius Caesar:

Nascetur pulchra Troianus origine Caesar,
Imperium Oceano, famam qui terminet astris,
Iulius, a magno demissum nomen Iulo.(I, 286-8)
Nascerá César, troiano de bela origem,
Que estenderá o seu império até o oceano e sua fama até os astros,
O seu nome Júlio provém do grande Iulo.

A raiz *Iou-il, contida em Iulius, repousa na do indo-europeu *dyew, céu luminoso, e se associa a pater para formar Iuppiter, Júpiter. Iulius subsistiu nas línguas neolatinas derivado de Iulius mensis, em português o mês de julho.

Assim, Camões morreu e Portugal caiu sob domínio espanhol. Talvez a admiração por D. Sebastião (1554-1578), a quem dedicou Camões Os Lusíadas colaborasse para o sebastianismo - crença viva, ainda hoje, na volta de D. Sebastião da guerra na África. Sebastião provém do grego e o adjetivo sebastov", sebastós, significa venerável, augusto. Augustus, em latim, era um adjetivo também. O Senado romano o adotou para designar os grandes imperadores a partir de Augusto César, sobrinho, filho adotivo e herdeiro de Júlio César. O nome César adquiriu a reputação de imperador e desse modo que o sérvios e búlgaros se intitularam: czar, proveniente de César. Entre os alemães, o nome César assume a forma de Kai’ser.