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«Todos os Nomes ou uma viagem pelos labirintos da cidade
na busca do nome que cada um tem»
1

 
Adriana Alves de Paula Martins
Faculdade de Letras
Universidade Católica Portuguesa (Viseu)

 
«O que dá o verdadeiro sentido ao encontro é
a busca e (que) é preciso
andar muito para alcançar o que está perto.»
(José Saramago. Todos os Nomes)

I) Introdução

A temática da viagem não é, de forma alguma, estranha à produção romanesca de José Saramago, estando, na diversidade do tratamento que lhe é concedido pelo escritor, sempre ligada a um movimento de indagação e de busca de identidade, onde as esferas do individual e do colectivo se confundem num processo de desvelamento de uma realidade que, por vezes, identifica-se com a História nacional, assumindo as viagens, na obra de Saramago, evidentes sentidos ideológicos. Curioso é observar a possibilidade de elaboração de um mapa das viagens nos romances do escritor, o que vem reforçar a afirmação de Carlos Reis (1998: 21 e 22) de que a viagem se torna um tópico saramaguiano após Manual de Pintura e Caligrafia (1977).2

Tendo por base o mapa das viagens que os romances do escritor maduro sugerem e ao seguirmos alguns dos seus possíveis percursos, observámos que a viagem pela cidade tem merecido especial atenção da parte do escritor. Exemplos emblemáticos e inequívocos são os romances O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) e História do Cerco de Lisboa (1989), onde Ricardo Reis-personagem e Raimundo Silva deambulam pelas ruas de Lisboa, possibilitando a visita a determinados espaços, a abertura para outras viagens, como a viagem pelo tempo, passado e presente, e a viagem pelas estradas de papel que são os discursos da História, da poesia e da ficção. O interesse pelo espaço urbano assume, no entanto, características particulares com a publicação de Ensaio Sobre a Cegueira (1995) em que as personagens embarcam numa viagem pelo horror da indiferença do ser humano para com o seu próximo, no micro-espaço do manicómio e no macro-espaço da cidade, após uma inexplicável cegueira colectiva.

Em O Ano da Morte de Ricardo Reis, a volta de Reis a Lisboa, vindo do Brasil, só é possível porque Pessoa já estava morto. Os passeios de Reis (enquanto personagem ficcional) pela cidade representam um momento de reencontro da personagem com o fantasma de Fernando Pessoa e com o próprio Reis-heterónimo, produzindo um interessante cruzamento intertextual Pessoa-Reis-Saramago que se alarga a Camões com a visita de Reis às estátuas do poeta e do Adamastor.3 A Lisboa do romance, porém, não evoca só a literatura. Ela está claramente identificada com a Lisboa de meados da década de trinta em que o mundo estava a preparar-se para uma nova guerra mundial e em que Portugal vivia uma atmosfera de agitação política, contexto que interessa principalmente ao considerarmos a tendência de Reis-heterónimo e também a de Reis-personagem de se alienarem da própria História, de contemplarem o espectáculo do mundo sem nele terem participação activa.

Em História do Cerco de Lisboa, os passeios de Raimundo Silva por Lisboa e, em especial, pelos arredores do Castelo de São Jorge, onde ficava situada a sua casa, no século XX, evocam a Lisboa do século XII, promovendo a narrativa saramaguiana a elaboração de uma outra história do cerco, a partir de uma premissa falsa, ou seja, a de que os cruzados não auxiliaram D. Afonso Henriques na luta contra os mouros. Através da exploração de espaços como, por exemplo, a casa do revisor e a leitaria, bem como da sobreposição dos planos narrativos do presente e do passado, é aberta a via para o cotejo de duas culturas diversas e para o questionamento sobre a vulnerabilidade da verdade, quer a da História, quer a da ficção.4

Em Ensaio Sobre a Cegueira, não é possível identificar a cidade descrita com Lisboa, pois a cidade, na verdade, poderia ser qualquer uma, de qualquer tempo ou de qualquer lugar, uma vez que o romance não é definido em termos de coordenadas espácio-temporais, embora a miséria humana pareça ser a mesma através da História em qualquer parte do mundo. A viagem das personagens pela cidade, guiada e descrita pelos olhos da mulher do médico, a única que não cegara, tinha como objectivo alcançar um outro micro-espaço, o da casa, espaço de identidade e de intimidade, também ele invadido e violado, com excepção da casa do médico, onde as personagens vão refugiar-se. O retorno à casa representa uma tentativa de reencontro com uma identidade temporariamente perdida. Neste romance, a categoria de espaço deixa de se articular com a categoria de tempo, como acontecia nos dois romances citados anteriormente, sobretudo, em função da temática abordada que se prende com o pessimismo em relação à fragilidade da condição humana, posto que esta acaba por ser trans-histórica. Por outro lado, dado o carácter alegórico do romance, é inegável que a categoria de espaço seja privilegiada no mesmo, uma vez que os espaços da cidade, do manicómio e da casa são investidos de particular carga semântica a partir do caos gerado pela cegueira colectiva.

O espaço urbano volta a ser privilegiado pelo escritor em Todos os Nomes (1997). Mais uma vez, não é possível identificarmos claramente a cidade descrita, nem o contexto temporal em que a narrativa se insere, embora a caracterização das personagens e dos espaços permitam-nos levantar a hipótese de que a acção se desenrola durante o Estado Novo em Portugal. A descrição minuciosa das linhas arquitectónicas da Conservatória; a rígida hierarquia a que estavam sujeitos os funcionários da mesma, reflectida na distribuição espacial dos empregados; o rigor do vestuário; e os reduzidos meios técnicos disponíveis são alguns dos dados que nos permitem confirmar essa suspeita. No entanto, apesar da possível identificação com este período da História portuguesa, o interesse pela cidade, em Todos os Nomes, releva, sobretudo, da importância que será concedida pelo romancista a dois espaços em particular: a Conservatória Geral do Registo Civil e o Cemitério Geral.

Estando ambos os espaços indissoluvelmente ligados à reflexão sobre a vida e sobre a morte, pretendemos investigar neste trabalho em que medida as deambulações da personagem principal, o Sr. José, preferencialmente por esses dois espaços físicos, configuram, a partir da morte, a indagação sobre os sentidos da existência da personagem, no labirinto que é a vida.

II) Sobre as descrições dos espaços privilegiados em Todos os Nomes

Todos os Nomes é um romance que se encontra assente sobre a descrição de espaços, o que nos leva a crer que estes são transformados em signos ideológicos devido ao investimento semântico que é feito sobre os mesmos, pelo que é fundamental averiguarmos a sua caracterização e a sua operacionalidade na narrativa.

Dos espaços privilegiados no romance, há que fazer referência a três: a Conservatória Geral do Registo Civil, a Escola e o Cemitério Geral, sendo que o primeiro e o último se articulam de forma especial, dado o facto de o Cemitério poder ser encarado como uma espécie de homólogo da Conservatória, aspecto que será desenvolvido mais adiante. Para além disso, tanto a Conservatória quanto o Cemitério associam-se aos limites que demarcam o ciclo de vida de uma pessoa: (i) o nascimento e o seu registo na Conservatória e (ii) a morte e o repouso no Cemitério, com o inevitável averbamento do óbito na mesma Conservatória. A Escola já interessa menos, pois surge como um espaço transitório, mesmo que representativo de uma experiência de aprendizado e/ou de aprendizagem, como no caso da mulher desconhecida que, de aluna, passou à professora. Seja como for, mais do que o Cemitério, a Conservatória, enquanto local onde, de uma certa forma, é ultrapassada a barreira do tempo, regista e inscreve aquilo que a nossa sociedade convencionou considerar como significativo: o nascimento, os eventuais casamentos e divórcios e a morte. Sim, a morte, porque esta faz parte da vida, o que também explica o porquê de a Conservatória e o Cemitério terem fachadas gémeas (Saramago, 1997, 213), podendo ainda ambas ter como divisa "Todos os Nomes", embora «à Conservatória é que estas três palavras assentam como uma luva, porquanto é nela que todos os nomes efectivamente se encontram, tanto os dos mortos como os dos vivos, ao passo que o Cemitério, pela sua própria natureza de último destino e de último depósito, terá de contentar-se sempre com os nomes dos finados.» (Saramago, 1997, 217 e 218).

Estando reconhecidos os espaços dominantes do romance, justifica-se o levantamento e o comentário sobre as dimensões que as descrições dos mesmos assumem.

Destacam-se duas componentes na descrição dos espaços que, apesar de apresentadas em separado, articulam-se na narrativa: as componentes temático-ideológica e lúdica.

A componente temático-ideológica, como a própria designação indica, prende-se com os temas abordados no romance e com os sentidos ideológicos que os mesmos vão assumindo ao longo da narrativa: a vida e a morte de uma pessoa e a indiferença da sociedade em relação às mesmas. Nesse sentido, espaços físicos como o da Conservatória têm a sua dimensão simbólica alargada, pois a referência ao espaço implica em algo mais do que a remissão para um documento qualquer lá arquivado. Dados como a caracterização detalhada da Conservatória, a separação dos arquivos dos vivos e dos mortos, o esquecimento a que os documentos dos mortos mais antigos eram votados no meio do pó e da escuridão, o empurrão descuidado dado pelos funcionários nas pilhas de documentos, a descrição detalhada das relações hierárquicas entre os funcionários que lá trabalham representam a indiferença do ser humano para com o seu próximo, como se a existência de uma pessoa pudesse ser reduzida a algumas datas e palavras num formulário a ser arquivado e esquecido no tempo. Dito de outra maneira, como se a vida e a morte preenchessem um mero intervalo de ordem temporal, deixando as opiniões dessa mesma pessoa, as suas crenças, as suas angústias, a sua solidão, as suas vitórias e as suas derrotas de despertar o interesse de quem quer que fosse.

No espaço da Conservatória, há que considerar a personagem do Sr. José, a única que tem nome no romance, embora um nome comum. O Sr. José também é um homem comum e a sua vida confunde-se, de certa forma, com a existência da própria Conservatória. Se a descrição desta última é, por um lado, dinâmica na sua riqueza de detalhes, por outro lado, evoca a ideia de uma atmosfera de imobilismo, onde não se aguardava que nada de surpreendente pudesse acontecer em função das rígidas regras que governavam o seu funcionamento e a relação estritamente profissional entre os que lá trabalhavam.5

Além de ser um funcionário subalterno, o Sr. José, homem solteiro e de meia-idade, habitava paredes meias com a Conservatória, numa casa que ainda mantinha uma porta de comunicação com o edifício principal. De uma certa forma, a existência do Sr. José estava na estreita dependência da Conservatória, pois as esferas da sua vida privada e profissional se confundiam naquele espaço. Em suma, a vida do Sr. José era uma vida totalmente previsível como era o funcionamento da instituição em que trabalhava.

A componente lúdica evidencia-se em duas instâncias diversas: ao nível da história e ao nível do discurso. No que diz respeito à história, a componente lúdica se revela (i) quando o Sr. José está a elaborar a sua colecção de recortes sobre pessoas famosas, no sentido de que esta era a sua única forma de lazer e (ii) quando o Sr. José decide enriquecer a sua colecção com os dados documentais facilmente encontrados na Conservatória. No que diz respeito ao discurso, a componente lúdica se descortina (i) quando a enunciação da história do Sr. José é transformada numa espécie de investigação policial, onde reina o suspense, o que desperta, de forma progressiva, a curiosidade do potencial leitor do romance; (ii) quando se observa a existência de um jogo intertextual, através de remissões, mais ou menos explícitas, a outros romances de José Saramago, o que fica patente, por exemplo, pela relação de proximidade entre a construção da personagem do Sr. José e a do revisor Raimundo Silva de História do Cerco de Lisboa ou ainda pela preocupação renovada de mostrar que nem tudo é o que parece ser, reactualizando a reflexão sobre a relatividade do que se julga ser a verdade e a mentira.

As componentes temático-ideológica e lúdica articulam-se quando o Sr. José se interessa por um verbete que casualmente recolhe quando procurava dados para enriquecer a sua colecção. É o verbete de uma mulher comum que transforma a vida do Sr. José e activa um processo de transgressão quer da ordem da vida da personagem, quer do funcionamento da própria Conservatória. A Conservatória deixa de ser o centro do mundo, o centro regulador do universo do Sr. José, o que, curiosamente, vai ser possível com a conivência, embora discreta, do Conservador. Este, por sua vez, propõe o reordenação dos documentos da Conservatória, solicitando que o arquivo dos mortos seja integrado no arquivo dos vivos, decisão que se relaciona com a resolução do Sr. José, ainda que de forma inexplicável para si próprio, de compreender o percurso de vida da mulher desconhecida até a sua morte. Assim sendo, o interesse do homem comum por uma mulher desconhecida e a sua decisão de registar num caderno os passos da sua busca mais não fazem do que cumprir o desafio contido na epígrafe do romance, retirada do embuste bibliográfico que é o Livro das Evidências: «Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens.».

Se, para penetrar no arquivo dos mortos, verdadeiro labirinto dentro do espaço da Conservatória, os funcionários tinham de usar o "fio de Ariadne", corda que era atada a uma das pernas da secretária do Conservador, o Sr. José, para descobrir o nome que tinha, dependia da mulher desconhecida, mesmo que esta já estivesse morta. Tal como Ariadne, ela havia se suicidado, o que nos permite considerá-la como o "fio" de que o Sr. José precisava para descobrir o nome que tinha no labirinto que é a vida. Nessa busca desesperada, a visita ao Cemitério representa uma paragem fundamental. É no Cemitério que as componentes temático-ideológica e lúdica voltam a se articular.

O Cemitério aparece como uma espécie de filial da Conservatória, onde estão todos os nomes. Labirinto que também é, confunde-se com o espaço urbano, sendo possível a qualquer um ali perder o rumo, onde o fio de Ariadne são os carros em que se lê a frase "Siga-me". Por outro lado, o Cemitério surge com um espaço em que são projectadas as relações sociais e as suas diferenças, o que é ilustrado pela descrição detalhada dos diversos tipos de sepulturas e também pela disposição dos mortos, como atesta o chamado departamento dos suicidas. Este é uma forma de distinguir, na morte, aquilo que já fora motivo de (in)diferença em vida.6

A visita ao Cemitério, porém, promove mais do que a reflexão sobre as (in)diferenças marcadas na vida e na morte. Ela representa um momento crucial no processo de transformação por que passa o Sr. José. É no cemitério que se dá o encontro do protagonista com um pastor de ovelhas que, por julgar que os suicidas não queriam ser encontrados após a morte, trocava o número das sepulturas antes de elas receberem a pedra com os nomes das pessoas ali enterradas. Era esta a verdade do talhão dos suicidas. Por outras palavras, o que poderia ser considerado como uma profanação mais não era do que uma forma de respeito por alguém desconhecido. Por outro lado, a troca dos números surge como uma proposta de reordenação do mundo, onde a verdade pode ser transformada em mentira e vice-versa.

O processo de transgressão da ordem vigente do mundo atinge o seu clímax quando o próprio Sr. José troca o número da sepultura da mulher desconhecida, fazendo recordar uma reflexão do narrador de O Ano da Morte de Ricardo Reis quando Reis-personagem visita o Cemitério dos Prazeres à procura do jazigo de Fernando Pessoa.7 O grande cemitério de Lisboa, aliás, bem podia ser o Cemitério Geral de Todos os Nomes, com as suas ruas, avenidas, monumentos e vegetação que buscavam reproduzir no espaço da morte a organização espacial da vida de uma cidade. É a troca levada a cabo pelo Sr. José que abre o caminho para a transgressão final que teria lugar no interior da própria Conservatória quando o Conservador (duplo do pastor?) sugere que o Sr. José resgate a mulher desconhecida do mundo dos mortos ao propor a destruição do documento que certifica o seu óbito. A Conservatória voltará a ser o centro do mundo, o centro criador e regulador de uma nova ordem, onde, paradoxalmente, os mortos estarão próximos dos vivos, lembrando a todos nós a importância da busca incessante e interminável de conhecermos o nome que temos e que os outros também têm.

III) Conclusão

A proposta de reorganização do mundo, feita por Raimundo Silva em História do Cerco de Lisboa (a reformulação da História nacional), a partir de uma mentira, foi retomada pelo Sr. José, em Todos os Nomes, quando o auxiliar de escrita, ao percorrer os labirintos da Conservatória e do Cemitério, dá continuidade à indagação sobre quem nós somos, já iniciada, de forma contundente, em Ensaio sobre a Cegueira. Se do último romance citado releva a certeza da necessidade de «amparar a fragilidade da vida um dia após outro dia» (Saramago, 1995, 283), é em Todos os Nomes que o Sr. José descobre que a única forma de fazê-lo é procurar em nós mesmos o outro que nós não conhecemos ou que fomos ensinados a esquecer. É esta a chave para reconhecer em todos os nomes o nome que cada um tem, para sermos muito mais do que um verbete numa Conservatória ou um número numa campa. O importante é buscar o que cada ser humano traz em si, o bem e o mal, o que nos leva a crer, já numa dimensão de ordem pragmática, que o texto literário também é potencialmente um fio de Ariadne que devemos atar a nós cada vez que tentamos compreender o caos do real empírico, no qual nos inserimos e que constantemente procuramos decifrar e reorganizar.


Bibliografia:

CATROGA, Fernando. "A Militância Laica e a Descristianização da Morte em Portugal (1865-1911)", Coimbra, 1988, 2 Vols. (Dissertação de Doutoramento em História apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra).

CATROGA, Fernando. "A Revolução dos Cemitérios" e "A Secularização dos Cemitérios", História de Portugal (Dir. José Mattoso), Lisboa, Círculo de Leitores, Vol. V, p. 595-602.

MARTINS, Adriana Alves de Paula. História e Ficção: Um Diálogo, Lisboa, Fim de Século, 1994.

REIS, Carlos. "José Saramago e a Questão do Nome", Jornal de Letras, Artes e Ideias 709 (Lisboa, 17/12 a 30/12, 1997) 22-23.

REIS, Carlos. Diálogos com José Saramago, Lisboa, Caminho, 1998.

SARAMAGO, José. O Ano da Morte de Ricardo Reis, Lisboa, Caminho, (1984) 1986, 8ª ed.

SARAMAGO, José. História do Cerco de Lisboa, São Paulo, Cia. das Letras, 1989.

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira, Lisboa, Caminho, 1995.

SARAMAGO, José. Todos os Nomes, Lisboa, Caminho, 1997.

SEIXO, Maria Alzira. "O Caso da Mulher Desconhecida", Jornal de Letras, Artes e Ideias 705 (Lisboa, 22/10 a 4/11, 1997) 25-26.

SEIXO, Maria Alzira. Poéticas da Viagem na Literatura, Lisboa, Cosmos, 1998.

SILVA, Teresa Cristina Cerdeira da. José Saramago. Entre a História e a Ficção: Uma Saga de Portugueses, Lisboa, Dom Quixote, 1989.


Notas

1. Este trabalho foi apoiado pelo Instituto Camões e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, através do Programa Lusitânia, apoio que agradecemos.

2. A temática da viagem na obra saramaguiana não se circunscreve apenas aos romances do escritor português. Os volumes de crónicas; O Ano de 1993 (1973) e Viagem a Portugal (1981) exploram o tema das viagens. No primeiro caso, destacam-se as viagens por Lisboa, por outras localidades portuguesas e pelo estrangeiro. No segundo, a viagem tem lugar por uma cidade desconhecida num tempo igualmente não identificável. No último caso, a viagem é, como o próprio título indica, uma viagem por Portugal.

3. Sobre a relação Ricardo Reis-personagem e Ricardo Reis-heterónimo em O Ano da Morte de Ricardo Reis, cf. Silva (1989, 103-192).

4. Sobre a importância dos espaços em História do Cerco de Lisboa, cf. Martins (1994, 66-72).

5. Sobre a questão do nome na obra saramaguiana, em geral, e em Todos os Nomes, em particular, cf. Reis (1997).

6. Para uma visão da ordenação dos cemitérios enquanto espaços religiosamente neutros e sobre o suicídio, ver Fernando Catroga (1988) e (1993).

7. «Passou Ricardo Reis adiante do jazigo que procurava, nenhuma voz o chamou, Pst, é aqui, e ainda há quem insista em afirmar que os mortos falam, ai deles se não tiverem uma matrícula, um nome na pedra, um número como as portas dos vivos, só para que saibamos encontrá-los valeu o trabalho de nos ensinarem a ler, imagine-se um analfabeto dos muitos que temos, era preciso trazê-lo, dizer-lhe com a nossa voz, É aqui, porventura nos olharia desconfiado, se estaríamos a enganá-lo, se por erro nosso, ou malícia, vai orar a Montecchio sendo Capuletto, a Mendes sendo Gonçalves.» ( Saramago, 1984, 40)