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Trincheiras de sonho: Ficção e cultura em Lima Barreto

 
Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo ( UFF)

 
A Gilda Salem Sklo

Em 500 anos de ilusão, José Murilo de Carvalho 1analisa os motivos expostos pelo conde Afonso Celso para o nacionalismo ufanista, no livro Por que me ufano de meu país. Entre os motivos, predominam aqueles atribuídos à natureza - exuberante, pródiga - e ao caráter do povo brasileiro - bonachão , alegre. O historiador chama a atenção, além disso, para o renascimento dessas imagens, hoje, no "oba oba ufan--turístico", cem anos depois do livro do conde e às vésperas do Quinto Centenário da chegada portuguesa.

Considerando as imagens ufanistas como herança cultural, podemos perceber nelas resíduos utópicos 2através de uma leitura em via de mão dupla: são conceitos de interesses de grupos ou classes que, absorvidos na corrente social, movimentam-se no imaginário e passam a fazer parte do sentido da vida dos homens comuns. Na mesma proporção em que geram a ilusão da harmonia reconciliadora, também fomentam a esperança.

Por isso, não se pode negligenciar a delicada intersecção entre os valores da memória coletiva - um conjunto de lembranças ativadas pelos olhares do presente, cuja seqüência não é artificial, conservando-se o que ainda vive do passado na consciência dos grupos - e os da memória histórica que obedece uma necessidade didática de esquematização, representando-se nos recortes de símbolos, insígnias, hinos, paisagens de águas caudalosas, verdes folhagens, céu de anil.

A memória coletiva, cujos valores e imagens são compartilhados por gerações, registra imagens que se vinculam ao nacionalismo difundido pela memória histórica, movimentando-se pelas interpretações dos homens, no cotidiano. Esse movimento de contaminação recíproca permite a revelação do que chamamos trincheiras de sonho.

Para exemplificar esse processo, basta observar o sonho de ascensão social projetado no dia a dia pelas referências da memória histórica : mesmo reconhecendo a impossibilidade de realização dos sonhos anunciados, o homem brasileiro comum alimenta-se de resíduos desses sonhos. E a literatura apreende a sutileza desse movimento : - "Serás ministro" repete o personagem do conto de mesmo nome, de Carlos Drummond de Andrade, ao filho quando este nasce. Convicto, porém, das inúmeras dificuldades que inviabilizariam a concretização do sonho, o pai encontra uma saída criativa:

- Não tem aí uma família chamada Ministério, aliás com pessoas distintas, médicos, dentistas, etc?
- Tem.
- Pois então. Meu filho é Ministro só isso. Ministro Alves da Silva, futuro cidadão útil à Pátria. Tem alguma demais?3

Tais arranjos e saídas criativas para sobreviver são revelados em textos literários e, de forma mais evidente, naqueles que recorrem à expressão do riso, vazado de melancolia, pois deixam transparecer a mescla bizarra de igualdade e hierarquia. A tais saídas criativas corresponde o primeiro sentido para o que denomino trincheiras de sonho.

Se, por um lado, a literatura configura personagens articulando tais saídas criativas, por conseqüência revela também o sentido enviesado , convenientemente deslocado que deve ser inferido da leitura de convenções sociais. Ou, dito de outra forma, a consciência do "arremedo conveniente" como caracterizou Manuel Antonio de Almeida em Memórias de um Sargento de Milícias (1852), utilizando-se da metáfora da "mantilha" para referir-se ao processo de contaminação recíproca, entre memória histórica e coletiva. A " mantilha", segundo o autor, era um arremedo do uso espanhol - prosaico, grosseiro, porém "conveniente aos costumes da época".4

O uso deslocado das convenções é extremamente conveniente, regra e não exceção, em uma sociedade cujos valores, normas e instituições pautam-se pelo dúbio, ambíguo. Viver nesse contexto exige a sabedoria de transitar entre perigosos opostos - razão/desrazão , lei /marginalidade, ordem/caos - sem se deixar tragar nem pelo ridículo, nem pelo trágico. Este cipoal de poderes que se entrelaçam é uma característica da sociedade brasileira e, como analisou Nestor García Canclini, também típica das sociedades latino-americanas, de culturas híbridas, poderes oblíquos.5

Nesse contexto, como fica o intelectual, criador das convenções verbais a serem absorvidas na corrente social e, simultaneamente, intérprete da heterogeneidade das práticas culturais ? Para se compreender a complexidade desse dilema, é preciso pôr em movimento os elos palavra, país, paisagem.

Dessa forma, quando o intelectual romântico intenta criar um país, pela palavra, anunciada em polêmicas, manifestos, cartas, fundamenta-se - especialmente - na paisagem de característica edênica, estática, grandiosa e exuberante a ponto de silenciar o homem. No entanto, se o intelectual romântico organiza uma sólida construção de convenções verbais a marcar, por longo tempo, o homem, a terra, a cultura, a ficção romântica expressa um conjunto poderoso, mas trincado, porque contraditório. Nesse aspecto, o romance As minas de prata, de José de Alencar é um bom exemplo da sofisticada e complexa narrativa romântica, apresentando como protagonista "Vaz Caminha" - intelectual, advogado e historiador, portador do segredo das minas de prata, mentor do herói Estácio e elo entre as ações no tempo e no espaço.

A dificuldade de se construir o país-paisagem, pela palavra, diante dos sentido díspares com os quais o intelectual romântico quer elaborar a História, manifesta-se no texto ficcional em diferentes situações. Uma delas, rica em diversidade de temas que abrange, é a cena de uma festa ( uma encenação de torneio entre cavalheiros, porém de tom circense) em que a nobreza da terra, o povo e os heróis reúnem-se no cenário anunciado como grandioso. No entanto, veludos, sedas, pedrarias e brasões, sob a claridade do sol, produzem efeito contraditório, como alerta o narrador : "Ao primeiro lanço d’olhar , o painel se mostrava confuso, enredado, como os mosaicos chineses e os arabescos mouros."6

Tão enredados quanto os objetos no cenário estão os acontecimentos narrados: num terreno de colégio jesuíta, apresenta-se a encenação de jogos medievais entre cavalheiros de nobreza duvidosa porque o seu brasão e lastros nobres têm, como única referência concreta, outros textos de ficção depositados como lembranças de coisas lidas/ ouvidas na memória do leitor, a exemplo, as muitas referências para caracterizar a imagem de família ou o caráter nobre do português - citadas no romance As minas de prata - através dos personagens extraídos de O guarani.

Assim, a escolha do protagonista intelectual que escreve um livro, no decorrer da narrativa, o fracasso de suas ações e as do herói ( a obra de "Vaz Caminha" não se conclui e as minas eram uma ilusão ) , além das soluções míticas como arranjos finais são marcas da consciência dos limites da ficção no estabelecimento da harmonia e homogeneidade, cuja síntese anuncia-se pelo narrador com o título : "Itinerário da decepção ao desengano".

Essas marcas - representativas dos dilemas do intelectual na interpretação do país, pela palavra - constituem o segundo sentido para trincheiras de sonho . Nessa perspectiva, o escritor luta em trincheiras, para cumprir sua missão literária anunciada nos ensaios. E essa luta deixa fissuras na narrativa de ficção que, embora iluminadas apenas indiretamente para o leitor, cavarão sulcos onde se desenhará a volubilidade do narrador machadiano.

São as contradições e impasses - as trincheiras de sonho - do intelectual como intérprete da cultura que conferem complexidade à narrativa de ficção romântica e considero, nesse caso, a reflexão de Antonio Cândido, de o externo que se torna interno, porque estético.

É ainda Antonio Cândido que em "Literatura e subdesenvolvimento" afirma ser um estágio fundamental na superação da dependência a capacidade de a literatura produzir obras de primeira ordem "influenciada, não por modelos estrangeiros imediatos, mas por exemplos nacionais anteriores".7

Ora, essa capacidade foi exercida pela Literatura Brasileira, nas primeiras décadas do século XX, quando escritores do porte de um Euclides da Cunha, Lima Barreto, Monteiro Lobato - de produções diversas, porém com afinidade de recursos - questionaram : qual o papel do intelectual frente a uma herança cultural e literária e aos impasses da modernidade ? Que literatura produzir ?

Mais conhecido por seus artigos polêmicos, Afonso Henriques de Lima Barreto ( 1881-1922) enfrentou esses temas através da ficção, não somente projetando-os como conteúdo de seus textos . Constrói narrativas ficcionais em que os personagens tornam-se processos para as diferentes leituras do real, a fim de que o leitor vivencie a experiência acerca da natureza da ficção ou da criação.

Triste Fim de Policarpo Quaresma ( 1911), seu romance mais conhecido é comumente relacionado ao tema do nacionalismo, como se representasse, apenas, um antídoto engraçado ( apesar do "triste fim" anunciado no título) ao ufanismo dominante nos anos vinte. Há diferentes caminhos que se entrecruzam no percurso de "Policarpo" : a) o diálogo com as tradições romântica e naturalista ; b) o anseio de autoconhecimento, enquanto ser humano, para decifrar o "enigma" de nosso destino ; c) a própria narrativa de ficção enquanto conhecimento e crítica de cultura.

Esses diversos percursos da narrativa e do personagem "Policarpo Quaresma" são iluminados por duas personagens femininas : "Olga" - a afilhada, que conhece a ambivalência do sentido das convenções sociais, na prática cotidiana - e "Ismênia" que perde o eixo da existência, enlouquece e morre quando não consegue responder à pergunta "Então, quando te casas?" , vítima de sua compreensão retílinea do conteúdo das convenções, herdadas do Romantismo para a educação da mulher. Ao contrário de "Ismênia," apesar de seu trágico fim, "Policarpo" vive quando aprende a ler o sentido enviesado das convenções, especialmente daquelas que se enfeixam na tríade palavra, país, paisagem.

A dinamizar a ação, no romance, estão personagens que atuam como equilibristas entre o ridículo e o trágico, riscos de quem lê com rigidez as convenções. São comandantes de opereta, almirantes sem navio, generais sem guerra, sábios ignorantes, líderes apáticos que põem em prática as saídas criativas - ou trincheiras de sonho - para sobreviver no cipoal de poderes oblíquos. Esses personagens demonstram, segundo a reflexão de Moacir Scliar, que "no Brasil, o importante não é saber falar javanês, fazer de conta já é suficiente"8

Em Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá ( escrito em 1906, mas publicado somente em 1919) , Lima Barreto antecipa, artisticamente, as reflexões de Mário de Andrade em Prefácio Interessantíssimo9 na perspectiva de que "escrever arte moderna" implica a apresentação de problemas "crucialmente estéticos", através da linguagem a indicar, como finalidade primordial, a elaboração de estruturas. Lima Barreto substitui nesse romance a ação verdadeira - enquanto objeto e matéria prima do vivido - pelo instante e este assume importância decisiva no movimento da obra. Explora o vaivém espacial e temporal, para apresentar os temas, a partir do olhar do narrador que negligencia a ordenação cronológica. Além disso, propicia ao leitor o prazeroso encontro com o "historiador artista Gonzaga de Sá", cujos passeios e estórias retiram da paisagem as camadas de estereótipos ufanistas . Por utilizar "o arquivo dos pés" , "Gonzaga" revela os bastidores da modernidade e apresenta seu material de ilusão - a moda, as ruas e suas encenações sociais.

Coerente às características do romance moderno, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá projeta-se no lugar oscilante entre os recursos da construção estética e os artifícios - historicistas e cientificistas - que também criam ficções para explicar e normatizar a existência humana. Discute, em sua própria forma, a natureza da ficção, estética e cultural, sugerindo uma re-elaboração crítica através dos caminhos do "historiador artista".

O ponto polêmico da ficção de Lima Barreto está em Recordações do escrivão Isaías Caminha (1907) , acusado à época da publicação de ser um libelo de revolta contra o poder dos jornais. Através de recursos como "Explicação", "Advertência" e "Prefácio" , o romancista desaloja o leitor do cômodo acompanhamento da trajetória de um escrivão para, de fato, introduzi-lo numa trilha da palavra em seus diversos movimentos : a) no submundo, onde as palavras se articulam em vão; b) nos bastidores da imprensa, onde a palavra é magia e poder, promessa e frustração, realidade e sonho. Simultaneamente, o leitor acompanha o processo de elaboração do próprio romance, compreendendo o escrivão "Isaías Caminha" - cujo nome guarda o eco de outros produtores da palavra - como metáfora para os dilemas do escritor. Sem a utopia do primeiro escrivão, Pero Vaz Caminha, nem a inteireza do personagem intelectual "Vaz Caminha", "Isaías" é o escritor moderno, tenso, vacilante, fragmentado, a expor as trincheiras de sonho do intelectual : o sonho de, pela palavra, revelar o país, sua cultura e impasses.

Talvez mesmo seja angústia de escritor, porque vivo cheio de dúvidas e hesito de dia pra dia em continuar a escrevê-lo. Não é o seu valor literário que me preocupa; é a sua utilidade para o fim a que almejo. Quem sabe se ele me não vai saindo um puro falatório?10

Ciente de que a completude e harmonia no romance podem não ser mais do que refinada ficção, Recordações do escrivão Isaías Caminha traz inquietude ao leitor, quando, na última fala do romance o selo "Tolo" é calcado pelo diretor do jornal sobre o protagonista. E o ponto final do texto não significa conclusão dos movimentos do personagem. O círculo da ficção completa-se no prefácio, mas não alivia o mal estar do leitor. Afinal, o escrivão termina o livro como começou: em viagem, na direção do conhecimento de si, dos outros e da realidade a seu redor. O destino, o desfecho ou a chegada, diz o autor, "Quem sabe lá ?" Teria "Isaías" vestido a "túnica de Néssus da sociedade?" A resposta não compete mais ao âmbito da obra. Mas o leitor foi atingido pela consciência dos frágeis limites entre ficção e vida.

Por isso, as trincheiras de sonho, quando compreendidas como saídas criativas à opressão, encantam os leitores dos romances de Lima Barreto por indicar um dos traços culturais fortes de nosso país - a infiltração da imaginação na racionalidade. Característica que se intensifica na modernidade, do começo do século, onde a imagem seduz e dispensa a coerência racional.

No entanto, as trincheiras de sonho, enquanto reveladoras dos conflitos do artista na interpretação dos dilemas da cultura, perturbam e incomodam o leitor. O questionamento de como fazer, qual a melhor forma de abarcar a complexidade do real - já estruturado por tantas outras poderosas ficções - transforma-se em conteúdo dos romances de Lima Barreto, expondo a fragilidade da invenção literária para concretizar o sonho do intelectual de pela palavra, projetar o país, em busca do homem sobre a paisagem. Desse movimento paradoxal, o leitor torna-se, a contragosto, seu cúmplice.


Notas

1. CARVALHO, J.M. de. "500 anos de ilusão", Folha de São Paulo ( São Paulo, 08-08-1999)Caderno Mais.

2. BLOCH , E. The utopian function of art and literature. Massachusetts,Institute of Technology, 1988.

3. ANDRADE, C. D. "De notícias e não notícias faz-se a crônica.Poesia e prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1983. 1417-1418.

4. ALMEIDA, M.A.Memórias de um Sargento de Milícias. Rio de Janeiro,Tecnoprint,s.d. 41-42.

5. CANCLINI, N.G. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade .São Paulo,EDUSP, 1997.

6. ALENCAR, J. de . As minas de prata. Obra Completa .Rio de Janeiro, Aguilar, 1960,v.4. p.482.

7. CÂNDIDO, A. A educação pela noite e outros ensaios .São Paulo, Ática, 1987. p.153.

8. SCLIAR, M. "Os cem anos de Lima Barreto: o maroto." Leia Livros 35, 4 ( São Paulo, 1981) 15.

9. ANDRADE, M. de. "Prefácio Interessantíssimo". Poesias Completas .Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, EDUSP,1987.p.74.

10. LIMA BARRETO, A.H. de. Recordações do escrivão Isaías Caminha .São Paulo, Brasiliense,1956. p. 119.