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Uma abelha na chuva, de Carlos de Oliveira,
e os contos tradicionais portugueses
Beatriz de Mendonça Lima - UFRJ
Diz a fábula de Anteu, como sabem, que é
preciso tocar de vez em quando a terra para não sucumbir. Pois para criar também. Carlos de Oliveira * Este trabalho pretende observar a relação entre o romance Uma abelha na chuva1 e a antologia de Contos tradicionais portugueses, organizada por Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira,2 em especial o grupo de contos intitulado "Manhas, Patranhas e Artimanhas". Tentamos, desta forma, iluminar nossa leitura de Uma abelha na chuva com o brilho daquele "tesoiro literário", novamente desenterrado, que Carlos de Oliveira ofereceu com tanto entusiasmo aos leitores: "Ei-lo de novo ao sol. Imareado, sem ferrugem, como o oiro de lei" (OAF 126).3 Segundo Carlos de Oliveira, é a voz do povo que se ouve nessas histórias, e, dependendo de quem ouve, ela pode transformar-se em valiosa fonte de conhecimento: As "Manhas" constituem, numa perspectiva sociológica, o mais rico filão dos nossos contos tradicionais. Como o esquema das histórias populares é por assim dizer universal, a riqueza aqui mede-se pela variedade e carácter nacional ou local dos pormenores. Ora as "Manhas" são na generalidade de índole predominantemente realista. Nelas se descobre por isso a maior soma de elementos arrancados à observação directa da vida, dos homens, das paixões, dos costumes. Mais ricas portanto e se o raciocínio está certo mais portuguesas também e mais densas de intenções sociais. (OAF 100) Certas personagens de Uma abelha na chuva parecem ter sido inspiradas por aquelas que o autor destacou do painel social representado nas "Manhas, patranhas e artimanhas" - pequenos fidalgos, padres, sacristães, beatas, lavradores, barbeiros, camponeses, criados, cegos - em que não é difícil reconhecer traços de Maria dos Prazeres, Padre Abel, do sacristão Antunes, do lavrador Álvaro Silvestre, do cocheiro Jacinto e de mestre António, o santeiro cego, entre outros. Na tensa atmosfera do romance, predominam as relações de opressão que, assim como nas "Manhas", muitas vezes se manifestam através dos "expedientes, espertezas, graças, truculências" de que o ser humano lança mão a fim de garantir seu domínio sobre os demais: "A alma humana posta a nu e meio mundo a enganar o outro meio", como observou Carlos de Oliveira (OAF 104). Manhas, patranhas e artimanhas são praticadas por quase todas as personagens de Uma abelha na chuva. Já no primeiro capítulo, elas são objeto de uma tentativa de confissão de Álvaro Silvestre. Logo se percebe, porém, que parte do seu intuito era vingar-se de Maria dos Prazeres, ao denunciá-la como cúmplice. Além de lesar praticamente "meio mundo", Álvaro tenta arrastar a mulher em seu processo de degradação - "Ligá-la mais a si, ficarem os dois mais juntos na desonra" (p. 115). Engana também a si mesmo, pois a necessidade de confessar-se serve apenas para aplacar a consciência, além de representar um investimento seguro e bem calculado, já que, se estivesse em paz com Deus, não correria o risco de ser castigado com a perda do seu bem-estar. Contudo, Maria dos Prazeres o impede de consumar a confissão planejada e tornaria a protegê-lo em outras ocasiões, agindo como cúmplice do marido. De fato, em Uma abelha na chuva, os conflitos muitas vezes se desenvolvem no âmbito de uma contraditória cumplicidade que se estabelece entre pares de opositores, como reflexo de um jogo de interesses econômicos e sociais. Há também uma alternância de poder entre Álvaro e Maria dos Prazeres semelhante àquela que Carlos de Oliveira apontou nas "Manhas" entre as personagens masculinas e femininas, em que as vítimas nem sempre eram as mulheres: Dependência, servidão, pancada: "era uma mulher casada com um homem muito ruim que lhe batia todos os dias por qualquer coisa". Mas não só isso, por certo. Poderemos acaso esquecer o relento do leito conjugal, os fantasmas obscuros que penam entre os lençóis? Seja como for, sempre acrescento que nas "Manhas" aparece também o contrário, homens dominados por mulheres, como aquela "víbora de nariz arrebitado e cabelinho na venta" que diz ao marido ainda com ilusões de a domesticar: "experimenta, experimenta e verás a sova que de mim apanhas!" (OAF 113-114). Casada com Álvaro Silvestre por conveniência de família, Maria dos Prazeres foi um mero objeto de troca entre os representantes de uma aristocracia falida e os de uma rica burguesia rural. Mas ela vive o seu papel de oprimida apenas até certo ponto. Sua parte nesse jogo de interesses lhe é duramente lembrada por Álvaro que, dando vazão ao seu ressentimento, lhe diz: "– Muito conde, muita léria, mas há vinte anos que me comes as sopas" (p. 83). O desprezo de Álvaro se expressa em palavras muito semelhantes àquelas que Carlos de Oliveira destacou dos Contos, quando se referiu a um marido que diz à mulher: "«as sopas de teu pai nunca te engordaram tanto»" (OAF 103). No romance, a imagem da mulher como vítima da tirania conjugal se completa pela menção às atividades de Maria dos Prazeres, que ocupava o seu tempo entre mudar a decoração da casa, experimentar receitas espanholas de almôndegas, praticar a caridade, ler histórias de aventuras ou vigiar o marido, quando não se entretinha a sonhar com o belo cocheiro ou com o cunhado e suas façanhas por terras exóticas. O próprio autor justifica essa patética imagem da mulher casada que aparece em seus romances: 7) Alguém me observou há tempos que as mulheres pequeno-burguesas dos meus livros são mais ou menos pecadoras mentais. Exacto. E sabe-se porquê. A moral sexual da província portuguesa (onde se passam esses livros) é um caldo rançoso com alguns feijões de pedra no fundo, os mitos que todos conhecemos (....) A mulher casada ou aceita o código em vigor, transformando-se no útero indiferente, transferindo os prazeres da cama para os filhos, os doces, a má língua, o croché, a caridade, um pouco de luxo se possível (vestidos, anéis, pulseiras), a mansa escravatura do lar (é assim que se diz, suponho), ou cai no erotismo imaginado, sem parceiro, a pior solidão.4 No papel de dominadora, porém, Maria dos Prazeres era capaz de "gelar" o jornalista da Comarca, chicotear uma égua, aterrorizar o marido, desafiar o Regedor e, com uma palavra, expulsar o povo de sua casa. Na série de trapaças, espertezas e truculências, Álvaro também envolve mestre António, ao usar o santeiro como instrumento para destruir o cocheiro; mestre António engana Marcelo, que fica sem Clara, a noiva prometida em troca de sua participação no assassinato de Jacinto; Marcelo, por sua vez, trai a si mesmo ao "vender a alma"; padre Abel e D. Violante tentam enganar a todos apresentando-se como irmãos, e assim por diante. Outro logro seria aquele praticado pelas personagens pertencentes à camada dominante, quando, reunidas no último serão, concluem, por uma ardilosa distorção dos fatos, que Clara teria sido culpada pela desgraça de mestre António, e que, afinal, o povo havia provocado toda a desordem ocorrida em Montouro. Por fim, convém assinalar certas trapaças do narrador, que, com muita manha e ironia, dirige-se aos personagens, interfere em diálogos e em monólogos interiores, além de assumir o papel de adjuvante ao inserir um "eu" inesperado que intervém na narrativa, minimizando a dramaticidade em dois momentos de grande tensão. No primeiro, dirige-se a Maria dos Prazeres para justificar a fúria de Álvaro contra o orgulho da aristocracia que ela representava: "O seu marido tem de destruir os mortos. De tentar, pelo menos. Que outra coisa pode ele fazer? Deixe-o experimentar. Ou eu me engano muito ou vai sair-se mal. Ora repare" (p. 84). Em outro momento, assume a voz de um diabo que se dirige a mestre António no areal: "Cheira a iodo, o que é normal, mas também cheira a enxofre, já notou?; não pergunte porquê; estando eu aqui, precisa de perguntar?" (p. 139). Esse pseudo-adjuvante poderia, portanto, ser incluído numa linhagem de diabos herdados dos Contos Tradicionais Portugueses e descritos por Carlos de Oliveira nos seguintes termos: Por falar em Diabo, nestes contos pinta-o o povo mais ou menos assim: um diabo amigo da justiça, zelador da honra conjugal alheia, e em contradição consigo mesmo pois o almocreve que acredita valer mais quem muito madruga que quem Deus ajuda é desancado e morto por uma chusma de diabos menores; ou então um pobre diabo com medo da sogra, um satanás logrado e ingénuo a ponto de não saber por onde as mulheres pecam. Mas este dúbio personagem aparece também disfarçado de cão, amante da rainha, incubado na sua (dele) própria filha, a devorar soldados, e vencido por Deus Nosso Senhor, como deve ser. (OAF 104-105) A lista das espertezas poderia alongar-se ainda mais. O que importa, no entanto, é reconhecer que, em Uma abelha na chuva, a transposição dessas antigas práticas recolhidas dos contos tradicionais possibilita uma visão mais apurada do jogo de forças em que participam quase todas as personagens do romance. Porém, através das alianças estabelecidas entre os oponentes, o romance problematiza o tema da opressão, afastando-se do maniqueísmo que Carlos de Oliveira observou em muitas histórias incluídas nas "Manhas", que poderiam ser lidas como "um grande panfleto satírico lançado por uma classe social contra as outras" (OAF 118). O modo como são retratadas as personagens secundárias de Uma abelha na chuva completa a visão crítica que não poupa os representantes da igreja, tal como ocorre nas "Manhas". Segundo Carlos de Oliveira, "Os sacristães, as beatas, os padres e os frades, que não sabiam resistir às tentações da mesa e da cama, envolve-os a crítica dos contos, faceta, irreverente, numa atmosfera de grande acidez" (OAF 105). É evidente que Padre Abel não resistia às tentações da cama e da mesa, e sua relação com a beata D. Violante por certo não seria abençoada pela igreja, caso se confirmassem as suspeitas lançadas pelo narrador. A irreverência do romance se estende ao sacristão, a quem cabe o papel de mexeriqueiro da aldeia, e atinge também o santeiro, pois o carrasco do ruivo foi justamente mestre António, aquele que fazia imagens sagradas com suas "mãos abençoadas". D. Violante é uma personagem sem discurso próprio. Através desse "adagiário vivo", o romance critica uma atitude equivocada em relação a herança cultural, que se resume em repetir de modo mecânico o discurso do passado. O mesmo processo se evidencia na pirogravura de D. Cláudia, que se contenta em reproduzir na carneira as imagens copiadas de velhos calendários ou revistas de bordados. Além disso, sua função de professora contém uma crítica a certo tipo de ensino que, através da repetição de idéias já cristalizadas, garante a continuidade do status quo. Ao contrário do que Carlos de Oliveira observou nos Contos, em que "os médicos nunca atinam com nada" (OAF 117), em Uma abelha na chuva a figura do médico assume um valor altamente positivo, pois o Dr. Neto atinava com tudo e, como bom conhecedor das abelhas, sabia reconhecer em Clara a doçura do mel e, em seus companheiros de serão, o fel que não cessavam de produzir. Apesar de seus momentos de tragédia, Uma abelha na chuva deixa transparecer um tom de galhofa, principalmente na crítica à sociedade provinciana retratada no romance: o burguês abastado, proprietário de uma casa em que não tem onde dormir porque a mulher trancou a porta do quarto; dois assassinos trapalhões que têm medo de trovoadas e carregam para longe o corpo da vítima no meio de uma tempestade, quando poderiam tê-lo escondido em qualquer lugar; o aprendiz que, no momento de maior tensão, abandona o mestre para correr atrás de um burro; uma beata encarregada de vestir os anjos e a outra que lhe fornece asas, túnicas, sandálias e resplendores. Enfim, Uma abelha na chuva mantém viva uma arte bem portuguesa, que Carlos de Oliveira ajudou a trazer ao sol. Sobre o que encontrou nesse tesouro, conclui: E pronto. Duas linhas ainda para frisar que o português das "Manhas" revela com exuberância traços de carácter pouco assinalados habitualmente pelos que vêem nele um temperamento de predominância lírica e macambúzia. Aqui é galhofeiro, engenhoso, sensual, irreverente, pícaro, observador, malicioso, capaz de criticar. E criticar sem reticências, doa a quem doer. Uma arte esquecida. (OAF 122) Essa arte faz parte do tesouro trazido ao sol também na ficção de Carlos de Oliveira. Seu trabalho de leitor e organizador dos Contos tradicionais portugueses se harmoniza perfeitamente com o do romancista que sabe ouvir a voz do povo para melhor recriar a sua história. Notas * OLIVEIRA, Carlos de. O aprendiz de feiticeiro. 4 ed (corrigida). Lisboa: Sá da Costa, 1995, p. 126. 1. OLIVEIRA, Carlos de. Uma abelha na chuva. 7 ed. Lisboa: Seara Nova, [1974]. Doravante, todas as referências a essa obra serão feitas no corpo do trabalho. 2. Contos tradicionais portugueses. Escolhidos e comentados por Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira. 4 vols. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1957, pp. 1005-1052. 3. OLIVEIRA, Carlos de. O aprendiz de feiticeiro, p. 97. Esta obra contém uma versão da parte que coube a Carlos de Oliveira nos referidos "Comentários", reescrita em 1959 sob o título de "O tesouro ao sol" (pp. 97-131), à qual nos referimos, com a sigla OAF seguida do número da página. 4. OLIVEIRA, C. "Almanaque literário". In: ___ O aprendiz de feiticeiro, p. 71-72. |