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Viagens Exemplares
Percurso e conhecimento do espaço na Época Moderna a partir das novelas de Cervantes Ana Bauberger Pimentel
Universidade Federal Fluminense Na Época Moderna as pessoas não se sentiam mais satisfeitas mantendo-se em um único espaço por toda a vida; elas sentiam a necessidade de sair, ampliar seu mundo, conhecer outros lugares e, principalmente, outras pessoas - a curiosidade torna-se o motor da vida social e cultural. Se o espírito de curiosidade não é propriamente uma inovação moderna nem o é a existências das viagens, o que estas representavam transformou-se significativamente. Secularizadas e democratizadas, estas tornaram-se um verdadeiro instrumento de pesquisa, pelo qual era possível enriquecer e medir o mundo. Assumiam, assim, a forma de experiência pessoal e social e de importante via de conhecimento. Apresentaremos ,então, a hipótese de que a viagem é um eficaz instrumento de conhecimento do espaço e, sendo este caracterizado a partir dos homens e das ações humanas, da natureza humana. Para demostrarmos nossa hipótese de trabalho, estruturamos esse artigo em três partes. A primeira tem o propósito de familiarizar o leitor com a fonte, as Novelas Exemplares 1 de Miguel de Cervantes, e com seu autor. A segunda pretende apresentar como se davam essa viagens e quem eram os viajantes, além de mostrar como estas aparecem nas fontes. A terceira deseja mostrar como se configura a percepção de espaço na Época Moderna e como esta é determinada pelas viagens. Miguel de Cervantes e as Novelas Exemplares Nesta pesquisa, o trabalho de fontes desenvolveu-se a partir das Novelas Exemplares, publicadas em 1613. Migurel de Cervantes nasceu em 1547 e morreu em 1616 e sua produção literária coincide com a passagem do século XVI para o XVII não apenas na cronologia mas, principalmente, no espírito da época. Cervantes foi um escritor, um criador, um artista. Mas além de tudo, sobretudo, ele foi um viajante. Se ele nos parece único pelo seu gênio, especial em sua sensibilidade e poder criativo, também podemos enxergá-lo como homem comum. Não há aí nenhuma intenção de diminuí-lo, ao contrário. Aproximando-o dos outros homens, nós o humanizamos e podemos vê-lo mais facilmente como pertencente a sua época. Não devemos, portanto, encarar a freqüência de viagens feitas por ele como uma característica exclusiva, um fator diferencial. Ao contrário, Cervantes, em sua vida e em seus escritos, está em perfeita sintonia com os outros homens de seu tempo. Se sua vida influencia sua obra, não é suficiente para explicar a presença recorrente das viagens nesta. Afinal, as viagens eram recorrentes na vida da maioria das pessoas desta época - elas eram uma experiência, mais do que individual, social. Cervantes: homem comum viajando, viajante extraordinário escrevendo. As narrações cervantinas são todas, simultaneamente, realistas e idealistas, críticas e conformistas, oniscientes e autocriadoras, sérias e burlescas, perspectivistas e fechadas, tuteladas e livres. A representação do mundo que elas nos propõem escapa às classificações que a crítica positivista tentou estabelecer. O primeiro problema que aparece para o estudiosos das Novelas Exemplares consiste em saber quando e por que seu autor decidiu não somente escrevê-las mas, principalmente, publicá-las em um volume autônomo. A questão do marco implícito nas Novelas Exemplares se explica na existência simultânea de um complexo e multiforme entramado de relações mútuas, que liga uma novela a outra desde muitos diferentes pontos de enfoque, tanto temáticos e argumentais, como estilísticos e técnicos, ou ainda a partir das semelhanças ou antíteses construtivas e de organização estrutural. Portanto, o mais significativo é que isso não implica nenhum sistema obrigatório de leitura; antes o contrário, mantém sempre a liberdade de associação de cada leitor. Pretendemos, assim, nesta pesquisa, uni-las a partir do viés das viagens, analisando historicamente seu caráter peregrino e, por extensão, o de sua época. A novela, forma literária em sua essência moderna, é uma estrutura narrativa aberta, com regras internas bastante flexíveis e, por isso, suscetíveis a experimentações. Nas Novelas Exemplares, em um metanível, as viagens são o pano de fundo sem o qual não se sustentariam os enredos nem as novelas existiriam. É durante o percurso que as ações transcorrem e os personagens se encontram: o caminho tem, assim, uma importância central. De caráter bastante diverso e com objetivos variados, todos os personagens passam o livro inteiro viajando. Diferentes personagens e as mais diferentes motivações, mas todos fazem parte de uma sociedade irrequieta em que o impossível parece ser permanecer parado. As viagens e os viajantes Os descobrimentos não precedem o espírito de curiosidade. A peregrinação medieval, por exemplo, resta em vigor até a segunda metade do século XVII. Há, no entanto, uma mudança gradual de sua função, transformando-a em um vasto périplo de terras percorridas. Mais abertos, os viajantes renascentistas são piedosos mas não negligenciam os vestígios da antigüidade nem o conhecimento dos costumes.2 Sem renunciar ao objetivo religioso, a peregrinação moderna concilia as duas postulações conflituosas de edificação e de instrução, a experiência religiosa constituindo-se também como experiência espiritual e afirmação do ser interior. A fé passa a ser um centro unificador mas não único, sem diminuir as dimensões das riquezas do mundo exterior.3 Os "lugares sagrados" tradicionais tendem a ser marginalizados em função da figura do "outro". A merabilia ou venerabilia da ordem religiosa vão sendo substituídas pelas maravilhas ou curiosidades, no sentido moderno."4(...) y en una hostería o posada donde me apeé hallé al conde Arnesto, mi mortal enemigo, que con cuatro criados disfrazados y encubierto, más por ser curioso que por ser católico, entiendo que iba a Roma." (EI, p. 295) Apesar das estradas em péssimas condições e do medo de bandidos, a mobilidade tornou-se cada vez mais importante para a Europa. Por motivos econômicos, políticos e científicos, a estrada transformou-se em um ponto central da cultura moderna. A Idade Moderna viu a concentração de dois aspectos aparentemente opostos da civilização ocidental: a afirmação das individualidades nacionais e a intensificação de trocas entre os países. A cultura européia nesse período foi marcada por uma exposição do estilo nacional ou local ao desafio das influências externas, ou melhor, por uma veloz e sem precedentes internacionalização de estilos. Um grupo bem fornido de viajantes percorre a Europa por prazer, para instrução ou por simples curiosidade. Segundo J. R. Hale,5 havia sete grupos principais de viajantes: mercadores; pessoas procurando emprego; grupos mambembes de atores e acrobatas; estudantes e acadêmicos; músicos; pessoas com funções administrativas e peregrinos. Além desses, também encontramos pessoas que íam ao encontro de parentes em outras cidades, os que iam casar-se ou buscar pretendentes em outros povoados, nobres que iam à caça, grupos de "vagabundos" - entre esses os pícaros, ciganos, criados e damas de companhia de outros viajantes, pregadores itinerantes, etc. Apesar de tantas classes e tipos de viajantes, não podemos esquecer que estes não são, de maneira alguma, excludentes. Afinal, nada impedia que um comerciante fizesse uma peregrinação e nos mesmos lugares vendesse seus produtos, um acadêmico visitasse um parente e daí em diante. Na verdade, nada é mais estranho ao homem moderno que a noção de especialização, e a maioria dos viajantes tem uma curiosidade universal e um grande ecletismo. As viagens como forma de conhecer o espaço Antes preocupado com sua relação com o espaço celeste e divino, o homem moderno passa a se interessar pelo que está a sua volta, desejando tudo conhecer e conquistar. A difusão das novas descobertas geográficas é relativamente rápida, graças à rede de difusão oral e à popularização dos relatos de viagem. Aos poucos, os olhos vão-se acostumando com a abstração do espaço e preparando-se para a compreensão dos mapas. Na Idade Moderna, o homem olha a sua volta. Não olha mais para cima (céu), para baixo (inferno) ou para dentro de si - ele olha para frente, abrangendo a Terra e reconhecendo que ela é sua propriedade. Há uma tentativa do homem de colocar-se no centro do mundo e, daí, observar o que foi criado e o que pode ser criado nele. A motivação para isso vem da curiosidade de descobrir, do espírito inventivo e do desejo de conquista: a humanidade descobre a magnificência, as "maravilhas" do seu próprio mundo. "Enfadóme la vida estrecha del aldea y el desamorado trato de mi madrasta. Dejé mi pueblo, vine a Toledo a ejercitar mi oficio, (...)." (RC, p. 213) "(...) siendo estudiantes en Salamanca determinaron de dejar sus estudios por irse a Flandes, llevados del hervor de la sangre moza y del deseo, como decirse suele, de ver mundo, (...)." (SC, p. 243) A mudança das idéias de "grande" e "pequeno" transforma-se em um tema da experiência cotidiana: tornou-se um lugar-comum o mundo até então conhecido ser apenas uma pequena parte da Terra. Os limites do desconhecido foram sendo ampliados passo a passo. A natureza inteira, inclusive o mar, antes tão temeroso, torna-se objeto de apropriação. "(...) y tomando él mismo el cargo del timón, se dejó correr por el ancho mar, seguro que ningún impedimento le estorbaría su camino." (AL, p. 172) Os fundamentos ontológicos se modificaram e os mundos natural e social deixaram de ser considerados como realidades independentes do homem, com leis próprias. O número daqueles que viam o mundo como uma obra do homem, e como sua própria criação, crescia constantemente.6 Para sustentar esta concepção, partia-se do princípio de que é possível transformar ativamente o mundo. O mundo natural não podia mais ser pensado independentemente do ser humano. Na verdade, o conceito de natural perde quase que completamente seu sentido, pois, se o mundo é uma criação do homem, mesmo o natural é antes de tudo humano. Os paralelos entre as maravilhas da natureza humana e as da natureza que rodeia o ser humano indicavam que o homem e a humanidade tinham igualmente começado a ser observados objetivamente. Os viajantes humanistas, por essência e por vocação, eram mais etnólogos do que geógrafos. A natureza não era nunca um lugar de prazer e felicidade: era apenas um corredor vasto e frio conectando os espaços cheios de homens.7 O espaço não se afirma, portanto, como paisagem neutralizada separada do homem; ao contrário, define-se pela sua identificação com indivíduos. O olhar do homem moderno está sempre à procura dos sinais humanos, podemos mesmo dizer que estes são os únicos elementos realmente percebidos por ele. "Contentóle Florencia en extremo, así por su agreable asiento como por su limpieza, sumptuosos edificios, fresco río y apaciable calles." (LV, p. 18) "Hecho esto, se fueron a ver la ciudad, y admiróles la grandeza y sumptuosidade de su mayor iglesia, el gran concurso de gente del río, porque era en tiempo de cargazón de flota y había en él seis galeras, cuya vista les hizo suspira. Echaron de ver los muchos muchachos de la esportilla que por allí andaban; (...)." (RC, pp. 215-216) Uma nova mentalidade surge no século XVI, compreendendo viagem como meio de pesquisa e signo de mobilidade. Segundo Edmond Bonnaffé8 , este é o verdadeiro signo distintivo de uma época que herda da Idade Média a peregrinação e a errance e as democratiza e seculariza, fazendo-as caminho de aproximação dos conhecimentos desejados. A viagem torna-se uma arte individual da vida, efetuada por um "eu" consciente de seus próprios meios. Essa viagem é mais do que uma propedêutica do saber; é um modo privilegiado de apropriação do Outro."Poco fue menester para que Tomás tuviesse el envite, haciendo consigo en un instante um breve discurso de que seria bueno ver a Italia y Flandres y otras diversas tierras y países, pues las luengas peregrinaciones hacen a los hombres discretos, (...)." (LV, pp. 15-16) Era a presença humana, sem dúvida, que possibilitava a compreensão do espaço. Observando hábitos e costumes, o homem moderno pensava sobre a sociedade. Conversando com outros viajantes durante o caminho, ouvindo suas histórias, ele descobria novos aspectos sócio-culturais. Observando a arquitetura das casas, a forma das pontes, o movimento das ruas, ele conhecia as cidades; admirando as ruínas e estátuas greco-romanas, ele construia sua história; descobrindo as profissões e atividades, ele conhecia sua sociedade... Além disso, viajando, o homem conhecia outros viajantes que contavam suas histórias de viagem e as histórias que ouviram de outros viajantes em suas viagens etc. Dessa maneira, o homem podia viajar a viagem de outros, aprendendo ainda mais coisas, em uma progressão geométrica. A viagem é um instrumento de conhecimento do espaço e, portanto, do homem. O viajante aparece como aquele que completa um saber incompleto. A viagem é manifestamente destinada a compensar a insuficiência de uma cultura puramente literária e abstrata - é preciso compreendê-la como uma abertura ao mundo concreto. Vista por um ângulo doméstico e político, a viagem renascentista não é um fim em si mesma, mas está estritamente ligada a um registro moral que confere à aventura sua dignidade epistemológica. A viagem torna-se um símbolo da vida em si - o essencial é a preservação individual, a capacidade de adaptação a todas situações, de se passar por cima das dificuldades e de triunfar sobre todos os perigos. A viagem moderna, portanto, não pode ser definida como "ida a um lugar determinado", mas como "caminho percorrido". Seu objetivo, em última instância, mais do que o alcance de um lugar determinado, é o percurso em si, a trajetória. O homem moderno muitas vezes saía de casa sem saber exatamente quanto tempo duraria sua viagem ou os lugares pelos quais passaria - sua única certeza era a estrada." - Mi tierra, señor caballero - respondió el preguntado -, no la sé, ni para dónde camino, tampoco. (...); el camino que llevo es a la ventura, (...)." (RC, p. 210) "Un viaje ha de hacer agora muy lejos de aquí, y uno piensa el bayo y otro el que le ensilla; el hombre pone y Dios dispone; quizá pensará que va a Oñez, y dará en Gamboa." (LG, p. 114) Bibliografia Obras literárias CALDERÓN DE LA BARCA, Pedro. La vida es sueño; Madri: Olympia Ediciones, 995. (Clásicos Españoles). CERVANTES, Miguel de. El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha; Madri: Espasa Calpe, 1956. (Colección Austral). CERVANTES, Miguel de. Novelas ejemplares; Madri: Espasa Calpe, 1996. v. 1 (Colección Austral). CERVANTES, Miguel de. Novelas ejemplares; Madri: PML Ediciones, 1996. v. 2 (Clásicos Españoles). QUEVEDO, Francisco de. El Buscón; Madri: PML Ediciones, 1994. (Clásicos Españoles). ROJAS, Fernando de. La Celestina; Madri: PML Ediciones, 1994. (Clásicos Españoles). Obras de referência ARNOLD, David. A época dos descobrimentos; Lisboa: Editora Gradiva, 1983. BROC, Numa. La géografie de la Renaissance; Paris: Les éditions du C.T.H.S., 1986. 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Volume 2: El Licenciado Vidrieira (LV); La Fuerza de la Sangre (FS); El Celoso Extremeño (CEx); La Ilustre Fregona (IF); Las Dos Doncellas (DD); La Señora Cornelia (SC); El Casamiento Engañoso (CEn) e El Coloquio de los Perros (CP). 2. Numa Broc. La géographie de la Renaissance; Paris, C.T.H.S., 1986, p. 140. 3. F. Wolfzetel. Le discours du voyageur; Paris, PUF, 1996, p. 50. 4. ibidem p. 48 5. J. R. Hale. J. R. Hale. Renaissance Europe 1480 - 1529; USA, University of California Press, 1971. pp. 35- 41 6. ibidem p. 88 7. ibidem. p. 47 8. apud F. Wolfzetel. op. cit. p. 38 |