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Imagens da exclusão

 
Beatriz Resende
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 
À memória de Gilda Salem Szklo

É próprio da literatura, especialmente em seus melhores momentos, estar sintonizada, interessada, crítica ou obcecada pelas grandes questões do tempo em que é produzida. Para ser rápida e sintética, falando do Brasil moderno, lembraria que a literatura brasileira dos anos 20 preocupa-se simultaneamente com o cosmopolitismo e com uma redescoberta do Brasil. Nos anos 30, deslocando a atenção para o Brasil fora do eixo Rio-São Paulo, politiza o regionalismo, valorizando o Brasil do interior. Pulando para os anos 60, percebemos facilmente que é neste momento de desenvolvimentismo e vivência democrática que nossa literatura atinge o internacionalismo da obra de Clarice Lispector e a força e vitalidade das narrativas de Guimarães Rosa. Já os anos 70 farão da literatura espaço para o depoimento que não encontrava abrigo em outras expressões e torna, na chamada Poesia Marginal, o "estar à margem" valor positivo como forma de não partilhar de um sistema desprezível. Os anos 80 trazem de volta a necessidade de afirmar a identidade nacional, espécie de resgate de um verde amarelo que fora usurpado.

Afirmativas generalizantes, apontando apenas para o que mais fortemente poderia mobilizar os autores de nossa modernidade mais próxima. Pretexto para olharmos os 90, a última década do milênio, e o debate crítico do Modernismo, a pós-modernidade do mundo globalizado e o Brasil das grande cidades, de mega cidades globais, como São Paulo, do campo que se organiza de formas inovadoras. Tempo de cultura e economia globalizadas e de trocas virtuais. O país periférico, ex-colônia ( ainda que não goste de reconhecer esse fato) vê as distâncias se encurtarem e o tempo sucessivo ser substituído pela temporalidade simultânea. Vive o momento do "por outro lado", quando cada argumentação surgere outra contraditória que, no entanto, com a anterior coexiste, numa relativização às vezes responsável por deixar alguns conceitos ou posições pouco nítidas. Partícipe do concerto da nações globalizadas vê-se capaz de produzir novidades num universo cultural que parece tão exausto como terras que se esgotaram por séculos de plantio. Mas vive as limitações cotidianas de um país de imensas, incomensuráveis, desigualdades, onde a renda se concentra em poucas mãos, de forma ainda absolutamente perversa. Busca fazer-se ver e ouvir neste universo onde a informação circula atravessando o que até há pouco eram fronteiras. Nesta pós-modernidade brasileira, a literatura não espera mais que influências venham de além mar em cargueiros. A mídia, a informática estão aí mesmo para encurtar distâncias e quando, justamente as distâncias, são dificuldades que um país desta dimensão enfrenta a cada passo, a questão pode ser decisiva. Enfim, produz sua cultura num espaço não hegemônico, periférico, ao sul de um hemisfério onde é ao norte que se lançam os dados do jogo mundial.

É nesta condição que teria que se impor entre nós o tema tão contemporâneo da "exclusão".

Olhando a literatura dos anos 90, vemos que as grandes questões ( subjetividades plurais, múltiplas identidades, tempo e espaço indefinidos, não lugares) estão presentes. O chamado narrador pós-moderno se manifesta. Mas fica claro que ao falarmos de exclusão, diferentemente de produções literárias feitas em países como EUA do politicamente correto, não é apenas da exclusão pelo sexo ou opção sexual e étnica que falamos, como acontece freqüentemente ao se tratar, por exemplo, da produção literária americana. O que surge como expressão dominante e duradoura é a do socialmente excluído, ou mais precisamente o pobre. É evidente que a esta forma de exclusão se somam freqüentemente outras: a do negro, da mulher, dos índios, dos deserdados do campo, dos desabrigados da cidade, e que estas exclusões freqüentemente se acumulam, compondo subjetividades múltiplas.

O economista Celso Furtado afirma em seu livro, O capitalismo global, que «Os desajustamentos causados pela exclusão social de parcelas crescentes de população emergem como o mais grave problema em sociedades pobres e ricas.» E mais adiante: « A globalização em escala planetária das atividades produtivas leva necessariamente a grande concentração de renda, contrapartida do processo de exclusão social».1

O excluído da sociedade, na verdade, é tema freqüente na nossa literatura. Não consistiria, por si só em novidade. Os românticos abolicionistas se ocuparam dele, os naturalistas republicanos denunciaram as condições subumanas de moradores da capital do país, os modernistas regionalistas apresentaram a pobreza do nordeste em clássicos com Vidas secas, de Graciliano Ramos e outras obras. A exótica pobreza dos malandros e prostitutas da Bahia tornaram Jorge Amado internacionalmente famoso. Os vários sertões do país, atrasados, esquecidos, distantes - o baiano do massacre de Canudos e o das gerais, em Minas - foram cenários de obras-primas da literatura brasileira como Os sertões, de Euclides da Cunha, e Grande Sertão: veredas de Guimarães Rosa. Clarice Lispector construiu a inesquecível imagem da mulher empobrecida, migrante, sozinha, excluída na grande cidade de A hora da estrela.

Hoje, os "excluídos" são tema central da crítica ao modelo neo-liberal que domina o processo de globalização. Os pobres, os desempregados, marginalizados da sociedade globalizada são objeto de investigação sociológica (Celso Furtado e Pierre Bourdieu), de estudos de cultura de massa (Nestor Garcia Canclini), de críticos da cultura (George Yúdice). Freqüentam as galerias de arte nas fotos de Sebastião Salgado. Invadem as diversas cinematografias. As manifestações culturais da pobreza recebem, na cultura contemporânea, um novo formato que, se não exclue as manifestações da chamada "cultura popular", também não se limita a ela..

O que me parece novo é que, na literatura, o pobre aparece agora não apenas como uma condição sócio-econômica, mas como uma subjetividade, uma alteridade a ser reivindicada. É aí , me parece, que pode ser tomada como a última das subjetividades a ser reconsiderada, no debate contemporâneo. A condição de excluído apareceria, inevitávelmente, em sua relação com o espaço, seja o espaço da cidade real, seja o espaço imaginário da literatura.

Para Bourdieu, em A miséria do mundo, a estrutura do espaço social se manifesta, assim, nos contextos mais diversos, sob a forma de oposições espaciais, o espaço habitado funcionando como uma espécie de simbolização espontânea do espaço social referendando a idéia de que não há espaço, em uma sociedade hierarquizada, que não exprima as distâncias sociais.

Como o espaço social encontra-se inscrito ao mesmo tempo nas estruturas espaciais e nas estruturas mentais que são, por um lado, o produto da incorporação dessas estruturas, o espaço é um dos lugares onde o poder se afirma e se exerce, e, sem dúvida, sob a forma mais sutil, a da violência simbólica como violência desapercebida.2

Mas algo de muito importante mudou. Nesses espaços periféricos, excluídos muitas vezes do universo cultural da cidade, surgem, cada vez com mais força esses "sujeitos" da produção artística, agora também na literatura. As fronteiras territoriais que separavam alta cultura, cultura popular e cultura de massa vêm se diluindo. A periferia miserável de um centro urbano como São Paulo produz, hoje, a música que é consumida nos lugares caros que os jovens freqüentam. A poesia contemporânea circula por espaços não-formais de novos hábitos sociais e comportamentais, distantes da famosa "torre de marfim". Essa poesia é produzida, freqüentemente, em áreas distantes ou empobrecidas. Grupos de dança e teatro criados em favelas como a maior de todas, a da Rocinha, no Rio de Janeiro, vêm se firmando no universo artístico, conquistando prêmios como o destacado grupo teatral "Nós do morro". Evidentemente, grupos como este são resultado de formas de organização social que passaram a ser assumidas por moradores que reivindicam a condição de sujeito de sua realidade cultural.

A idéia de exclusão toma seus contornos mais nítidos quando a pobreza define o papel do homem na comunidade em que vive, em suas limitações como sujeito de direitos e responsabilidades, mas, sobretudo, como sujeito de seu próprio discurso. Inclusive o discurso artístico.

Entre nós, ao terminar o século XX, a novidade que aparece é a importância de uma categoria que dê conta da exclusão social de parte da população de um país como o Brasil, onde 80% da população vive nas cidades. Se, no início do século o excluído do campo aparecia como o habitante das regiões empobrecidas do país, mas antes de mais nada, uma vítima da natureza, do clima e da vastidão mesma do país, o excluído da grande cidade é pura e simplesmente o pobre, aquele a quem a situação econômico social afasta da organização da sociedade e que, no mais das vezes, se vê privado de condições mínimas de cidadania. Por outro lado, homem do campo surge, hoje, como ator de uma forma nova de organização social, o Movimento dos Sem Terra, talvez a mais importante manifestação política no Brasil neste momento de acomodações. Para nós interessa, em muito, este nomear a si mesmo a partir da situação de exclusão: "sem terra".

Os excluídos não são unicamente rejeitados fisicamente ( como acontece no racismo ou no sexismo), espacialmente ( através de segregação geográfica, na formação de guetos, campos de permanência) ou materialmente ( no caso da pobreza). Os excluídos não o são apenas do mercado, do consumo, da troca. Os excluídos são também excluídos do simbólico, das artes, das produções culturais, das coisas do espírito. Seus valores não são reconhecidos ou são banidos do universo simbólico.

Fica clara na reflexão de Bourdieu a importância desta exclusão simbólica e sua relação com a exclusão espacial:

Os espaços arquitetônicos, cujas injunções mudas dirigem-se diretamente ao corpo, obtendo dele, com a mesma segurança que as etiquetas das sociedades de corte, a reverência, o respeito que nasce do distanciamento ou melhor, do estar longe, à distância respeitosa, são , sem dúvida, os componentes mais importantes, em razão de sua invisibilidade, da simbólica do poder e dos efeitos completamente reais do poder simbólico.3

É neste universo do simbólico que se dá o extremo da exclusão, o que acontece quando excluídos estão simplesmente ausentes, são invisíveis. É nesse sentido que o reconhecimento da exclusão, o "dizer", o "nomear" o excluído é um primeiro passo do contrapor-se a qualquer exclusão.

Podemos lembrar aqui a importância da produção artística de um fotógrafo como o brasileiro Sebastião Salgado que, na verdade, foi quem me provocou a idéia de falar em "imagens da exclusão" ao tratar de obras literárias. Salgado escolheu fotografar os excluídos de diversas espécies pelo mundo afora. Fotografa grupamentos humanos como por exemplo os curdos, o povo maior e mais antigo que não tem uma nação e é provavelmente o mais desmembrado do mundo. Em suas imagens os curdos , vestidos de forma peculiar, carregam no corpo uma identidade que não tem referência espacial. Ou, numa simbologia oposta, os trabalhadores de minas de ouro, no Brasil, que em meio à lama onde mergulham vão perdendo a identidade e a visibilidade, tornando-se figuras indistintas e pouco humanas. E ainda a pobreza que torna semelhante, indistintos, todos os excluídos de parte diversas da América Latina no livro Outras Américas não fora pela diferente origem étnica que acompanha sua exclusão: negros no Brasil e índios no resto da América Latina.

Voltando à literatura, a primeira imagem do excluído que gostaria de trazer aqui aparece num magnífico conto do bissexto e refinado Raduan Nassar, "Menina a caminho", que dá nome ao seu último livro. Este conto foi escrito em 1961 e guardado pelo autor, sempre avaro com seu talento, até a edição do livro, em 1997. Já é uma pergunta curiosa a de porque só agora, nos 90 e não nos anos 60, haveria sentido em publicar "Menina a caminho"?

Neste conto a menina que perambula descalça pelas ruas de algum lugar periférico e indefinido é pura e essencialmente pobre. Pobre e excluída, na rua e na casa. Aparece a menina:

Vindo de casa, a menina caminha sem pressa, andando descalça no meio da rua, às vezes se desviando ágil pra espantar as galinhas que bicam a grama crescida entre as pedras da sarjeta. O vestido caseiro, costurado provavelmente com dois retalhos, cobre seu corpo magro feito um tubo; a saia é de um pano grosso e desbotado, a blusa do vestido é de algodão acetinado, um fundo preto e brilhante, berrando em cima uma estampa enorme em cores vivas, tão grande que sobre o peito da menina não parece mais que o pedaço de uma folha tropical. Deve dormir e acordar, dia após dia, com as mesmas tranças, uns restos amarrotados.4

E mais adiante, sempre pela esta cidade indefinida: "Enquanto se afasta, suas pernas vão se cruzando como as de uma bailarina magricela e suja debaixo de um solão quente e vermelho"

O espaço por onde caminha é o único espaço possível, a casa aparecendo como espaço igualmente de violência, mas uma violência mais próxima. Diante da violência da rua, vai para casa, experimentando a violência da casa, volta para a rua.

Mas o mais genial do conto é a apresentação que faz em determinado momento da imagem do pobre como ilustração, do pobre como cromo. Não é difícil lembrar de antologias escolares ou relatos moralizantes e edificantes, ilustrados por essa imagem da pobreza, em gravura, primeiro a bico de pena, depois em outras formas de reproduções que "poetizavam" a pobreza.

Olhando pelo lado de fora da janela, excluída do espaço de acesso ao saber, a menina vê a escola, com a velha professora paralítica, onde cada aluno tem um livro aberto diante a carteira. Assim Raduam Nassar apresenta a cena:

A menina se encanta é com a gravura colorida no suporte: um sapateiro examina uma sola estragada na sua mesa de trabalho, enquanto uma menina pobre e descalça espera o lado. Que pena, pela cara do sapateiro, o sapato não tem mesmo conserto… Que história será que cada um vai contar?5

Que leitura poderiam aqueles meninos dar àquela representação de uma pobreza que não precisava estar na gravura, estava do outro lado da janela, próxima demais para ser vista?

Como pode a menina sem nome encontrar sua identidade, sua imagem, se não se reconhece no cromo que as outras crianças descrevem com seus lápis apontados, se os que ocupam o espaço da cidade sem nome a enxotam com um "vai embora, menina", se o pai, em sua violência não a reconhece?

O conto termina doído, no espaço da miséria da "bailarina magrinha":

No banheiro, a menina se levanta da privada, os olhos pregados no espelho de barbear do pai, guarnecido com moldura barata, como as de quadro de santo. Puxa o caixote, sobe em cima, desengancha o espelho da parede, deitando-o em seguida no chão de cimento. Acocora-se sobre o espelho como se sentasse num penico, a calcinha numa das mãos, e vê, sem compreender, o seu sexo emoldurado. Acaricia-o demoradamente com a ponta do dedo, os olhos sempre cheios de espanto.6

Como já afirmamos, a idéia de exclusão toma seus contornos mais nítidos quando a pobreza define o papel do homem na comunidade em que vive, em suas limitações como sujeito de direitos e responsabilidades, mas, sobretudo, como sujeito de seu próprio discurso, inclusive o discurso artístico.

É na contracorrente do processo de exclusão social que, em 1998, surge o longo e denso romance Cidade de Deus, de Paulo Lins a mais forte expressão do que é formular um discurso próprio, sem mediadores externos em nossa produção cultural recente.

A narrativa situa-se no Rio de Janeiro, em um dos espaços de exclusão criados pela política de remoção que dominou a cidade durante os anos de governo autoritário, a Cidade de Deus, favela horizontal na área suburbana da cidade. O romance tem sua origem nas anotações de Paulo Lins para a pesquisa coordenada pela antropóloga Alba Zaluar que resultou no livro Condomínio do Diabo. Durante a pesquisa, Paulo Lins, estudante de letras e bolsista de Iniciação Científica, surgiu como um pesquisador de informações de campo privilegiado por morar na Cidade de Deus, falar a mesma linguagem dos habitantes, transitar pacificamente mesmo em meio às movimentações do narcotráfico, usufruindo do "respeito" de ter se tornado um universitário usando camisetas com suas próprias poesias impressas.

Curiosamente, a obra de Paulo Lins já nasceu legitimada por um schollar, o crítico Roberto Schwarz que assim saudou o livro em resenha publicada em um de nossos principais jornais:

O romance de estréia de Paulo Lins, um catatau de 550 páginas sobre a criminalidade na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, merece ser saudado como um acontecimento. O interesse explosivo do assunto, o tamanho da empresa, a sua dificuldade, o ponto de vista interno e diferente, tudo contribuiu para a aventura artística fora do comum. A literatura no caso foi levada a explorar possibilidades robustas, que pelo visto existem.7

O romance de Paulo Lins não tem nenhum apelo comercial, não dá da Cidade de Deus uma visão exótica ou vitimizada. A Cidade de Deus de Paulo Lins não é melhor nem é pior do que aquela que a imprensa noticia, mas é uma cidade vista de dentro. O narrador é o ator, um agente que se situa naquele mesmo espaço físico, arquitetônico e simbólico de exclusão. A força do romance está no difícil recurso da repetição, de ações, de cenas quase padronizadas, que se reiniciam inúmeras vezes, como se múltiplas cadernetas de trabalho de campo fossem sendo preenchidas. O que não torna a leitura fácil. A crueza, a violência, o desrespeito às condições mínimas de direito à vida passam como um filme, sem piedade, sem justificativas, sem desculpas, sem explicações morais ou políticas. A lógica é a lógica mesma da vida na Cidade de Deus. Como num momento, escolhido aleatoriamente, da longa narrativa da vida dos moradores do bairro:

Era tempo de compras, dar um jeitinho na casa, no corpo, prometer para si mesmo só fumar até o raiar do Ano-Novo. As festas de fim-de-ano trazem sempre a esperança de tudo se ajeitar dali em diante. A molecada juntou dinheiro da venda de areia tirada do rio, dos picolés e pães. Alguns moleques se ofereciam para capinar quintais, pintar casas, apartamentos. Outros catavam garrafas, fios, ferros, para vender no ferro-velho. Os trabalhadores contavam com o décimo terceiro salário, os bandidos com os assaltos e roubos, e Cabeção, Touro e os outros policiais se preocupavam em assaltar os maconheiros caso dessem flagrante, roubar o roubo dos ladrões, exigir uma propina das mulheres que traficavam. As ladras vendiam de mão em mão os produtos roubados nos mercados da Zona Sul.8

A narrativa criada "dentro" da excluída Cidade de Deus não aponta caminhos. Mas é a sua escritura, ela mesma, a sua existência, que é um caminho.

Se as fronteira entre as nações estão se enfraquecendo, se para o capital virtual não existem distâncias entre as grandes cidades globalizadas, as fronteiras que cercam o gueto, a cidade dos excluídos, parece ter se fortalecido.

O que o romance apresenta, no correr da narrativa literária, em muito se apresenta do que afirma o cientista social Zygmunt Bauman em Globalização. As consequências humanas9

O território urbano torna-se campo de batalha de uma contínua guerra espacial, que às vezes irrompe no espetáculo público de motins internos, escaramuças rituais com a polícia, ocasionais tropelias de torcida de futebol. Mas travadas diariamente logo abaixo da superfície da versão oficial pública (publicada) da ordem urbana rotineira. Os habitantes desprezados e despojados de poder das áreas pressionadas e implacavelmente ursupadas respondem com ações agressivas próprias; tentam instalar nas fronteiras de seus guetos seus próprios avisos de "não ultrapasse". (...) Eficientes ou não, essas tentativas têm a vantagem da não autorização e tendem a ser convenientemente classificadas nos registros oficiais como questões que envolvem a preservação da lei e da ordem, em vez do que são de fato: tentativas de tornar audíveis e legíveis suas reivindicações territoriais e, portanto, de apenas seguir as novas regras do jogo territorial que todo mundo está jogando com prazer.

Mas quero trazer para essa sequência de imagens a menos realista mas mais radical imagem de exclusão por que acredito ter passado nessas minhas últimas incursões pelos textos de nossos autores brasileiros contemporâneos: o livro As palavras secretas, de Rubens Figueiredo e, em especial o último e magnífico conto "Ilha do caranguejo".

O tema da exclusão aparece sob formas diversas em toda a obra: a solidão do eremita, a personagem Joana que "troca de pele" deixando para trás sua identidade no excelente "sem os outros", o estranhamento dos coveiros de "Eu, o estranho" que amarravam sacos de areia na cintura a fim de impedir que suas sombras fossem puxadas para dentro das covas", mas é mais forte do que tudo em "Ilha do caranguejo", justamente pela construção do espacó insular partilhado pelos habitantes (poucos) e os caranguejos que aparecem e desaparecem.

Construindo uma representação da ilha, diz Ettore Finazzi-Agrò, no texto "A invenção da ilha: Tópica literária e topologia imaginária na descoberta do Brasil", que a ilha se apresenta como uma figura de sentido histórico –cultural, de impacto ideológico e mítico simbólico, "lugar ilocável em que se juntam e se sedimentam imagens muitas vezes contraditórias", para terminar apontando a ilha, em referência que, em relação ao texto literário de que estamos falando aparece como altamente esclarecedora, como:

Figura encontrando-se na encruzilhada entre duas realidades, espaço ubíquo localizando-se na sobreposição de vários espaços, história contando-se num presente eternamente suspenso entre passado e futuro: é isso no fundo, o Brasil sempre perdido e sempre reencontrado pelos viajantes europeus – por aqueles reais como pelos imaginários, a partir dos primeiros até os modernos.10

Quando Rubens Figueiredo chama a esta Ilha, Ilha do Caranguejo, fica fácil "ler" nesta imagem um Brasil. Como todas as ilhas da literatura, desde a habitada por Próspero e Calibã, a parte remete a um todo. Finazzi-Agrò fala da ilha como «aquele mundo desconhecido que ficava às margens do mundo conhecido». Diz Rubens Figueiredo no conto11 que «Para separar a terra da terra, isolar os bichos dos bichos, existe a ilha». Pela ilha praticamente desabitada, passam viajantes, de tempos em tempos, permanecem curto tempo, encantam-se mas não retornam. «Sempre achei estranho que desejem tanto visitar a ilha, estimulem outros a vir depois, mas quase nunca retornem eles mesmos».

Nela habitam o velho alemão Athos a jovem a quem chamam Bárbara. Neste espaço de radical exclusão, a personagem-narrador teria mesmo que ser mulher. Espécie de jovem Calibã feminina e, talvez, sedutora, Bárbara do mundo só conhece a ilha, de que em sua miséria é senhora. Calibã que não disputa a ilha com seu senhor, antes partilha, conformada, a muda solidão daquele pedaço de mundo excluído.

Eu expio minha fome e vingo minha curiosidade chupando as ostras de dentro das conchas. Sinto seu visgo tatear as paredes de minha garganta, enquanto vão descendo. Depois atiro as cascas vazias para dentro do mar. Afora isso, há as aves, as nuvens. O céu parado dorme e o vento ronca no vão dos rochedos12

Diante do viajante que passa pela ilha, revela-se ao mesmo tempo a radical imagem da exclusão e ao mesmo tempo o saber da jovem Calibã:

Eugênio se espantava por eu ser capaz de me exprimir dessa forma. Eu parecia falar limpo demais, para quem passou a vida num local tão isolado. Por viver numa ilha, quase sem ver outras pessoas a maior parte do tempo, talvez fosse mais natural que em lugar de frases completas eu me expressasse por meio de poucos monossílabos, algumas vírgulas e reticências sem rumo.13

Das muitas narrativas que falaram das privações que a loucura nazista provocam, das múltiplas exclusões que as perseguições racistas causaram, poucas ou nenhuma delas falou com a força da literatura metafórica de Franz Kafka . Às narrativas de Kafka se assemelham, por vezes, as de Rubens Figueiredo, mais próximas da secura do Absurdo do que da exuberância do Fantástico, mais freqüente na América Latina.

A ilha do caranguejo é a exclusão espacial, material, humana mais completa neste mundo que parece se conhecer completamente, que globalizado, pretende superar fronteiras. Afirma também Bauman, no livro já citado, que ser local num mundo globalizado é sinal de privação e degradação social e uma parte integrante dos processos de globalização é a progressiva segregação espacial, a progressiva separação e exclusão.

Por isso me parece tão importante a luta final dos caranguejos da literatura de Rubens de Figueiredo, final do conto e do livro:

Os caranguejos não têm escrúpulos. Comem tudo e até uns aos outros, eu já vi. É fácil imaginar quem levará a melhor, quem vai sobrar quando não houver mais lugar para todos os que hoje vivem na ilha.

Os caranguejos não são da água nem são da terra, porisso parecem mais livres, Não têm contas a prestar. Vivem na faixa do mundo onde a terra e a água se misturam e não existe fronteira. Os caranguejos reinam no meio e dali. Dessa tangente, podem dominar melhor o centro e todo o resto.14

Finalmente, o s caranguejos são espantosos porque sobrevivem mesmo mutilados, trocam a casca inteira e recriam sua principal arma de defesa e ataque, a tenaz, a haste desproporcional, "a ponta com a qual fere e despedaça", última frase do conto.

Do fim da ditadura até os anos 90 ainda havia todo um luto a cumprir para que a literatura brasileira retomasse o fôlego que marcou seus altos momentos dos anos 60. A literatura brasileira, no entanto, é uma literatura muito jovem e uma das características da compreensão contemporânea do mundo é que, errado ou certo, à idéia de juventude não se relaciona mais a imaturidade, mas a beleza, força, principalmente potência. Talvez venha destes espaços de exclusão, dos que foram por muito tempo e de diversas formas mantidos à margem, o novo desta literatura ainda muito jovem.


Notas

1. Celso Furtado, O capitalismo global, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1998, p. 33.

2. Pierre Bourdieu (Coord.), A miséria do mundo, Petrópolis, Vozes, 1997, p. 163.

3. Idem, ibidem.

4. Raduan Nassar, Menina a caminho e outros textos, São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 9.

5. Idem, pag. 25.

6. Idem, p. 49.

7. Roberto Schwarz, Sequências brasileiras.ensaios, São Paulo, Companhia das Letras, 1999, p. 163.

8. Paulo Lins, Cidade de Deus, São Paulo, Companhia das Letras, 1997, p. 94.

9. Zymunt Bauman, Globalização. As consequências humanas, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999.

10. Ettore Finazzi-Agro, A invenção da ilha. Tópica literária e topologia imaginária na descoberta do Brasil, PUC-Rio História, Rascunhos de História no. 5,1993, p. 20.

11. Rubens Figueiredo, Palavras secretas, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 130 a 169.

12. Idem, p. 140.

13. Idem, p. 147.

14. Idem, p. 168.