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Lusofonia: mentiras e realidade
Affonso Romano de Sant’anna
Brasil É melhor ir diretamente aos fatos. Isto é mais útil do que ficar teorizando ou simplesmente cogitando, fora da prática, do que poderia, ou não, ser feito em termos de lusofonia. Durante seis anos fui presidente da Fundação Biblioteca Nacional(1991-1996).Conheci por dentro as impotências do poder. Passei por três presidentes da república e por seis ministros da cultura. Vi pessoas incompetentes assumirem postos.Vi carreiristas se afirmarem. Vi idealistas se batendo para levar à frente seus projetos. Por isto, posso dizer: o exercício do poder é uma prova dos nove, sobretudo para intelectuais. É a hora em que se conferem a teoria com a prática, as intenções com a realidade, e quando o caráter é testado pela corrupção e pela vaidade. Por isto, vou logo dizendo: diante da questão da lusofonia percebe-se como a política oficial brasileira é provinciana.Tirante os esforços solitários que José Aparecido de Oliveira, enquanto político e diplomata desenvolveu, quase nada se fez oficialmente nos últimos anos. A universidade, sim, desempenhou seu papel pesquisando, publicando, mantendo vivos os laços entre os sete países da CPLP. Alguns fatos. Em 1996 fiz uma visita a Moçambique para participar de uma feira de livros, que me parece era a primeira que ali se realizava. Havia previamente feito com que a Biblioteca Nacional do Brasil enviasse centenas de livros para as bibliotecas daquele país. Esses livros haviam sido recolhidos mediante uma campanha junto à população no Brasil. Durante minha estadia em Maputo, vendo aquele país cada vez mais envolvido cultural e economicamente por países de fala inglesa, tive uma reunião com o ministro da cultura Jose Matheus Kathupha. Explicou-me ele que o português era a quinta língua que tinha aprendido. Falava várias das 17 línguas tribais do país. Ele havia estudado linguística em Londres e no MIT. E a conversa com ele foi instrutiva sob vários pontos de vista. Falando-me das carências das bibliotecas em Moçambique narrou-me que certa vez foi a uma pequena localidade e ali o responsável pela biblioteca levou-o a ver as instalações da mesma. Ao abrir a porta constatou surpreso que todas as estantes estavam vazias. Indagou, então, pelo livros. E ouviu como resposta que haviam sido vendidos . Sim, vendidos. Como o governo central não mandava verbas nem para os pagamentos dos funcionários, foram vendendo os exemplares para se manterem. Mais ou menos na mesma época recebi na sede da BN do Brasil a visita da ministra da cultura de Angola- a antropóloga Ana Maria de Oliveira. Falei-lhe do desejo de enviar livros nossos para seu país. Ela se interessou imediatamente e pediu que fizesse os encaixotamentos rapidamente porque seria muito importante que ela desembarcasse em seu país com aquela prova concreta das relações culturais entre Brasil e Angola. Ela, feliz, levou consigo várias caixas de livros. A exemplo de Moçambique, Angola havia tido quase todas suas bibliotecas destruidas pela guerra civil nos últimos anos. A idéia é que esse fornecimento se tornasse uma rotina. Não foi o o que ocorreu desde que saí da direção da BN em 1996. Nessa mesma época pareceu-me simples e útil fazer uma modificação na Lei de Depósito Legal. Ao invés de as editoras doarem apenas um livro para a BN, comecei a batalhar para que doassem sete. São sete os país da Comunidade de Língua Portuguesa(CPLP).Então, tirando o Brasil que por lei já recebia os exemplares de livros novos editados, somente seis livros seriam necessários. Com essa nova lei, abasteceriamos de livros as bibliotecas Angola, Cabo Verde, Moçambique,Guiné- Bissau,São Tomé e Príncipe, além de propiciar à Biblioteca Nacional de Portugal um entrosamento maior com as fontes bibliográficas de nosso país. Pois essa idéia foi rechaçada pelos editores brasileiros. Eles que distribuem gratuitamente cerca de 200 exemplares das edições de 2 ou 3 mil exemplares, como promoção, acharam demais dispor de mais seis exemplares. Por outro lado, o Ministério da Cultura, alheio ao que isto poderia significar no entrosamento entre nossos países, não demonstrou nenhum empenho no assunto. Fazia parte do Projeto Biblioteca Ano 2000, que estávamos desenvolvendo, a realização sistemática de encontros internacionais dos diretores das bibliotecas e arquivos dos sete países da CPLP. O nosso Ministério da Cultura nunca tomou conhecimento ou se interessou por esse assunto. Por sua vez, Portugal tem realizado há vários anos um encontro internacional de lusofonia em Buenos Aires. Lá estive algumas vezes. Aquela é uma área de influência política e econômica do Brasil. Mas foi Portugal quem tomou a iniciativa. Ainda bem. Igualmente, Portugal está aumentando sua área de influëncia cultural no México, e faz muito bem. Hoje o português lá ensinado segue o padrão lusitano. Portugal tem um canal de televisão voltado para o diálogo com os portugueses em todo o mundo. Além disto tem aí noticiário político cobrindo o que ocorre nas ex-colônias. Alguns desses noticiários são apresentados nas línguas de seus primitivos habitantes. Portugal além de ter menos de um décimo da população brasileira, tem um Ministério da Cultura com um orçamento duas vezes maior que o seu similar brasileiro. E além disto tem uma meia dúzia de fundações e institutos que atuam investindo internacionalmente em pesquisa e arte. Isto é política cultural. Isto é batalhar pela lusofonia. O Brasil, provincianamente, continua a olhar para o próprio umbigo. Não sabe que está no mundo. Ao referir-se ao mundo o brasileiro diz sempre " lá fora" . Já narrei em artigos e relatórios o que foi o sofrimento para conseguir que o governo brasileiro aceitasse a honra e o pequeno encargo de ser o país tema na Feira de Frankfurt em 1994 e o país tema no Salão do Livro em Paris, em 1996. Já narrei em artigos, entrevistas e relatórios o desconsolo de ver o Brasil tratar com descaso o Prêmio Camões . A que se deve isto? A muitas coisas. Vejamos um exemplo, de cima para baixo: em 28.6.1997, o jornal " Expresso" , de Portugal, publicou o seguinte: "Questionado se alguma vez havia se preocupado com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa", o presidente ( Fernando Henrique Cardoso) foi sincero: " Para ser franco, não. Esse tema nunca constou de minha agenda de trabalho". Não fossem os professores, críticos, estudantes e escritores como os que estão aqui reunidos neste encontro de lusofonia, a situação seria bem pior. Quero ressaltar o trabalho notório e solitário que muitos de nós temos realizado. No mais, é necessário sempre denunciar o que chamo de "discurso duplo" dos que estão no poder, que falam uma coisa e fazem outra. É preciso denunciar a mentira .E às vezes, a poesia pode fazer isto melhor do que a prosa, como neste poema que lhes passo a ler, intitulado: "A implosão da mentira": A Implosão da Mentira ou o Episódio do Riocentro Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje m entem novamente. Mentem de corpo e alma, completamente. E mentem de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente. Mentem, sobretudo, impune/mente. Não mentem tristes. Alegremente mentem. Mentem tão nacional/mente que acham que mentindo história afora vão enganar a morte eterna/mente. Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases falam. E desfilam de tal modo nuas que mesmo um cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas. Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura. Mas não se chega à verdade pela mentira, nem à democracia pela ditadura. Fragmento 2 Evidente/mente a crer nos que me mentem uma flor nasceu em Hiroshima e em Auschwitz havia um circo permanente. Mentem. Mentem caricatural- mente. Mentem como a careca mente ao pente, mentem como a dentadura mente ao dente, mentem como a carroça à besta em frente, mentem como a doença ao doente, mentem clara/mente como o espelho transparente. Mentem deslavadamente, como nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem com a cara limpa e nas mãos o sangue quente. Mentem ardente/mente como um doente em seus instantes de febre. Mentem fabulosa/mente como o caçador que quer passar gato por lebre. E nessa trilha de mentiras a caça é que caça o caçador com a armadilha. E assim cada qual mente industrial? mente, mente partidária? mente, mente incivil? mente, mente tropical?mente, mente incontinente?mente, mente hereditária?mente, mente, mente, mente. E de tanto mentir tão brava/mente constroem um país de mentira -diária/mente. Fragmento 3 Mentem no passado. E no presente passam a mentira a limpo. E no futuro mentem novamente. Mentem fazendo o sol girar em torno à terra medieval/mente. Por isto, desta vez, não é Galileu quem mente. mas o tribunal que o julga herege/mente. Mentem como se Colombo partin- do do Ocidente para o Oriente pudesse descobrir de mentira um continente. Mentem desde Cabral, em calmaria, viajando pelo avesso, iludindo a corrente em curso, transformando a história do país num acidente de percuso. Fragmento 4 Tanta mentira assim industriada me faz partir para o deserto penitente/mente, ou me exilar com Mozart musical/mente em harpas e oboés, como um solista vegetal que absorve a vida indiferente. Penso nos animais que nunca mentem. mesmo se têm um caçador à sua frente. Penso nos pássaros cuja verdade do canto nos toca matinalmente. Penso nas flores cuja verdade das cores escorre no mel silvestremente. Penso no sol que morre diariamente jorrando luz, embora tenha a noite pela frente. Fragmento 5 Página branca onde escrevo. Único espaço de verdade que me resta. Onde transcrevo o arroubo, a esperança, e onde tarde ou cedo deposito meu espanto e medo. Para tanta mentira só mesmo um poema explosivo-conotativo onde o advérbio e o adjetivo não mentem ao substantivo e a rima rebenta a frase numa explosão da verdade. E a mentira repulsiva se não explode pra fora pra dentro explode implosiva. |